16/10/2008

O(s) Mito(s) do capitalismo


Conferência "O (s) Mito (s) do Capitalismo" na BMRR/Cid. Universitária

A Biblioteca República e Resistência/ Cid. Universitária tem o prazer de convidar a assistir ao Ciclo de Conferências “O(s) Mito(s) do Capitalismo”.

Dia 17 de Outubro às 18h30 – Paulo Fidalgo e Mário Tomé

Dia 24 de Outubro às 18h30 – Vítor Ramalho e Luís Fazenda


BM República e Resistência/Cidade Universitária
Espaço Cidade Universitária Rua Alberto Sousa, 10 A
Zona B. do Rego/ Lisboa

14/10/2008

O fim do capitalismo


Antes que o meu amigo Fernando Penim Redondo publique um post sobre o artigo de Immanuel Wallerstein (IW), Le capitalisme touche à sa fin, publicado no Le Monde, de 11/10/08 (ver aqui e aqui) e que foi oportunamente traduzido para o blog Antreus, de António Abreu, resolvi publicar este post que já tinha em mente, mas que devido à minha proverbial inacção ainda não tinha posto em prática. O Fernando já tinha ameaçado o António Abreu que iria fazer um post sobre o assunto, espero que o faça, para confrontarmos ideias.
Em post anterior, provavelmente com um título pouco feliz, já tinha chamado a atenção para que não bastava os locutores e alguns comentadores falarem da intervenção do Estado e da nacionalização da banca, para que o capitalismo caísse. Era necessário dar-lhe um piparote. No fundo, levantava a velha questão do poder e recorria a uma polémica, referente a outros assuntos, mas de grande actualidade, entre Charles Bettelheim e Paul Sweezy. Ou seja, introduzia a luta política e a Política, com maiúscula inicial, nos problemas da crise. Provavelmente ninguém me leu, nem o tema despertou qualquer interesse.
No entanto, nestes últimos dias alguns comentadores recorrem à política para falar da crise. Pacheco Pereira diz mesmo É à política e não ao Estado que devemos regressar e Rui Tavares afirma É preciso ter lata . No entanto, qualquer dos artigos, por razões diferentes, não aborda as minhas preocupações. O primeiro ataca Sócrates e a politiquice do primeiro-ministro e a sua pretensa defesa da intervenção estatal. Chegando a afirmar que “desde a história do diploma e das casinhas que o personagem me aparece bem mais perigoso do que antes”. Eu, que fui seu subordinado no Ministério do Ambiente e que tive a desgraça de tê-lo como chefe de delegação nas conversações para a aprovação do Protocolo de Cartagena sobre Segurança Biológica, em Montreal, confirmo para pior todas as crítica que lhe façam. Ainda um dia hei-de contar esta história.
Quanto ao segundo artigo chama a atenção para que foram os políticos, com a sua permissividade, que permitiram que a "ganância dos executivos" chegasse onde chegou. Sendo isto verdade, o certo é que os comentadores de direita, com algumas inverdades pelo meio, pretendem concluir, com afirmações semelhantes, que a culpa é do Estado, chegando a afirmar que a maioria dos bancos responsáveis por este desgoverno têm capitais públicos.

Mas regressemos ao que nos trouxe aqui. Entre os muitos artigos que na net começaram a circular sobre esta crise realço o de IW, inicialmente referido, que de um ponto de vista histórico e sistémico aborda o fim do capitalismo, considerando que actualmente este está na sua “fase terminal”.
O mais preocupante neste artigo de IW, é que ao contrário do que os marxistas sempre afirmaram, acreditando, como ele diz, “num progresso contínuo e inevitável”, é possível em trinta ou quarenta anos “vermos instalar-se um sistema de exploração ainda mais violento do que o capitalismo, do que, pelo contrário, aparecer um sistema mais igualitário e redistributivo”.
Mas como anteriormente IW afirmava “estamos num período, bastante raro é certo, onde a crise e a impotência dos poderosos deixa um espaço ao livre arbítrio de cada um: há agora um período de tempo durante o qual todos teremos a oportunidade de influenciar o futuro pela nossa acção individual. Mas como esse futuro será a soma do número incalculável dessas acções, é absolutamente impossível prever qual o modelo que finalmente irá prevalecer.”
Penso eu, provavelmente ingenuamente, que a acção política dos homens tenha possibilidades de canalizar as acções referidas para “um sistema mais igualitário e redistributivo”, a que chamaria socialismo. Mas é possível que isso não suceda, e aqui divirjo, tal como IW, da crença inelutável dos comunistas ortodoxos que pensam que ao sistema capitalista sucederá inevitavelmente o socialismo.
Só para dar um exemplo, a crise de 1929, não foi ainda o fim do capitalismo, mas a solução encontrada por alguns para a resolver foi o reforço do fascismo e o aparecimento do nazismo, que trouxe muito mais sofrimento e exploração do que formas anteriores de domínio sobre os trabalhadores.
Temos pois que admitir que a solução para a crise pode desembocar num sistema de exploração ainda mais violento do que o capitalismo, mas que a nossa acção pode de facto inverter essa tendência.
Dêmos pois força à política.

13/10/2008

A crise vista por dois humoristas ingleses


The Last Laugh - George Parr - Subprime - subtitulos
Enviado por erioluk

A crise vista por dois humoristas ingleses, com legendas em espanhol.

11/10/2008

Aquele Querido Mês de Agosto


Finalmente fui ver Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes, e a minha antiga veia de crítico de cinema regressou.
Comecemos primeiro pela região onde se desenrola o filme.
Por motivos familiares conheço bem aquela região, costumo ir para uma aldeia situada na parte leste do concelho de Arganil e o filme passa-se principalmente, em Coja e zonas limítrofes, situadas a nordeste daquele concelho. Fiz já algumas vezes o percurso que começa em Coja, passa pela Fraga da Pena, onde o tio que veio da França tira algumas fotografias com a família, e que é referida como sendo um lugar muito fresco na conversa entre os dois actores. É de facto um sítio encantador, onde se encontram fragas e cascatas de água. Depois pode-se seguir para a Mata da Margaraça, situada na Paisagem Protegida da Serra do Açor. A importância da Mata, que no filme é mostrada com o nome das árvores que a povoam, resulta do seu coberto vegetal ser o originário daquela zona das Beiras, que progressivamente tem sido substituído por plantações de pinheiros, eucaliptos e acácias. A sede da Paisagem Protegida situa-se na Mata, numa casa recentemente reconstituída onde se manteve a traça original. Pareceu-me que algumas cenas do filme foram lá filmadas ou então noutra, também reaproveitada, situada um pouco mais abaixo.
Depois segue-se a imensa Serra do Açor, onde se desenrola grande parte do filme, e por onde se pode chegar à aldeia de Piódão, uma pequena maravilha, ainda preservada, com as casa todas elas em xisto e com telhados negros de ardósia.
Ao contrário do que diz o meu amigo Fernando Penim Redondo as casas da região, que ainda conservam a construção original, são de xisto e não de granito.
A partir daí pode-se descer para Aldeia das Dez, já no concelho de Oliveira do Hospital, onde se encontra o santuário da Senhora das Preces, local onde se realiza todos os anos uma festa religiosa importante.
Passemos agora à paisagem humana. As interpretações dos críticos sobre o povo que habita o filme podem resumir-se a duas. Uns, consideram que as imagens daquelas aldeias são semelhantes às das reservas de índios, que de vez em quando devemos visitar, como sucede com a Aldeia dos Macacos que regularmente vemos no Jardim Zoológico. Outros, recorrendo à metáfora da Cidade e das Serras, de Eça de Queiroz, consideram que está ali o Portugal profundo, opondo-o aos blasés da cidade, limitados ao estreito mundo dos seus pequenos blogs.
A todos eles eu gostaria de perguntar: será que são as excursões dos habitantes das Beiras que enchem o Pavilhão Atlântico, no Parque das Nações, quando o Tony Carreira lá canta? Não serão os nossos vizinhos aqui dos arredores de Lisboa, ou mesmo da cidade, que o enchem?
No filme é mostrado um camponês aí na casa dos 60 anos que tinha visto o seu vizinho matar a mulher à machadada. Todos ficámos impressionados com a descrição e a falta de emoções do protagonista. No entanto, muito provavelmente a neta daquele homem já tem uma licenciatura, ocupa um lugar no banco ou numa companhia de seguros em Coimbra ou na sede do Concelho ou ensina numa escola da região e provavelmente consulta a Internet e os blogs. No Algarve, na Manta Rota, que conheço bem, o neto de um antigo pescador deu-me recentemente os parabéns pelo meu blog. É evidente que o Algarve foi civilizado à força. Mas, na pequena aldeia da Beira que refiro, já há algumas casas com piscina, coisa impensável há uns anos atrás, e meninas que se passeiam em roupão de banho pela aldeia naquele querido mês de Agosto. As mães já tinham emigrado para Lisboa ou para França onde, com alguma sorte e muito trabalho, tinham conseguido bons empregos ou amealhado algum dinheiro e as filhas já “doutoras” ou filhos “arquitectos”, como no filme, ou a estudar para isso, lá frequentam a festa da aldeia e dançam ao som de bandas semelhantes às que nos são mostradas no ecrã.
Mas mais ainda, quando uma velhota diz no filme que tem a voz entaramelada porque teve um AVC, pergunto-me: se este facto tivesse ocorrido há 20 ou 30 anos, a mulher saberia o que tinha tido e salvar-se-ia com a mesma facilidade? Hoje, de um modo geral, uma ambulância do INEM chega a uma aldeia do interior a tempo de salvar uma vida.
E que dizer da luz eléctrica que não terá mais de 40 anos ou das estradas alcatroadas que não têm mais de 20,vá lá 30 anos.
Tudo isto para mostrar que nós somos os filhos ou os netos deste nosso povo, deste Portugal que em 30 anos se modificou, penso que para muito melhor, e se hoje olhamos enfastiados para o nosso passado é porque já não nos lembramos das berças donde todos viemos. Exceptuando aqueles que, bem nascidos, sempre tiveram lugar à mesa da Nobreza ou da Igreja.
Por isso, parece extremamente bem feita a descrição deste “nosso” Portugal.
Entrando na apreciação propriamente do filme, aquilo que menos me agradou foi a existência de dois registos: o documental e a ficção. Bem podem alguns críticos citar Godard para justificar a sua interpenetração. Apesar da passagem de um ao outro estar bem dada. O melhor exemplo é o do tio da rapariga que começa em “off” a falar durante a procissão, parecendo ao espectador que era o relato verídico de mais um caso de aldeia, e acaba integrado na história ficcionada. Ou então, o oposto, a manutenção dentro do quadro documental da figura do Moleiro do Rio, que todos os anos pelo Carnaval se atira para o rio Alva.
O filme poderia ser um belo documentário sobre a região e a frustração de uma equipa de cinema que não consegue realizar o filme a que se propunha, no entanto, entendeu o autor passar à ficção e integrar numa história as personagens que já nos vinha apresentando. Contudo, a sua ficção, ao resumir-se à hora final, faz com que as personagens tenham pouca espessura e acima de tudo permite que aquela descambe para o drama de “faca e alguidar”, quando estabelece a relação amorosa entre o pai, a filha e o sobrinho. Por isso entendo que se perdeu um belo documentário sobre uma operação falhada de filmagens e se ganhou pouco com uma história de ficção.
Resta ainda, e não sei se foi essa a preocupação do autor, a desconstrução do próprio filme, muito em voga nos anos 60 do século passado. A passagem dos actores de personagens que povoam o documentário a intérpretes de ficção, a cena da procura de actores para o filme, com o gag do jogo da malha pelo meio, ou o final, com o genérico a correr, em que o realizador interpela o director de som porque este captara sons que lá não estavam, tem a finalidade, penso eu, de chamar a atenção para o facto de estarmos perante um filme, em que tudo é representação e reconstrução da realidade. No entanto como o registo inicial era documental nunca haveria o perigo de nos identificarmos com as personagens, nem nos deixarmos arrastar pelo drama amoroso. Quando Bergman, em Persona (A Máscara), recorreu a esse subterfúgio, ele tinha coisas importantes a dizer e chamava a atenção para que aquilo que mostrava era cinema e não a vida. Mas nem todos podem ser Bergmans.
No entanto, recomendo vivamente a visão de Aquele Querido Mês de Agosto, mas gostaria que o tom de comiseração para com aquela "pobre gente" fosse de vez abandonado, porque ela não o merece.

09/10/2008

A transição para quê? Do capitalismo para o socialismo?


Até ao momento ainda não tinha falado da “crise” financeira que atravessa o mundo e que cada vez mais se irá repercutir no desenvolvimento económico das nossas sociedades. Não sou economista, entendo que muitos destes temas obrigam a uma específica formação na área, e por isso meti a viola no saco. No entanto, em todo esta crise há uma forte componente ideológica, tanto na terminologia empregue como nos conceitos que todos os dias são utilizados nos media dominantes.
Vítor Dias no seu blog fala mesmo em vitória semântica , quando diariamente assistimos à substituição do termo anteriormente utilizado “economia de mercado” por capitalismo.
Por isso, é fácil encontrarmos locutores que, com a maior das canduras, são capazes de afirmar “regressa Marx, que estás perdoado” ou outras “barbaridades” semelhantes, que ainda há uns tempos seriam consideradas perigosas afirmações radicais. Já se sabe há sempre um comentarista económico que a seguir acha que aquilo a que estamos a assistir não é o fim do capitalismo, mas a sua reestruturação.
E chegados aqui estamos os dois de acordo, o comentarista e eu, a crise que atravessamos é de facto uma crise do capitalismo, que depois de muitos rearranjos dará lugar a uma nova realidade, que mesmo assim continuará a ser capitalista. Mesmo que os analistas (ver, entre muitas possíveis, esta) interpretem a situação económica que estamos a atravessar à luz do marxismo, e por mais correctas que essas análises sejam, o capitalismo não soçobrará, mesmo depois de afirmarmos que ele está em crise e que é responsável por uma enorme regressão no nosso desenvolvimento económico. É necessário dar-lhe o piparote e que haja classes e forças políticas capazes de empreender essa acção. Em última instância só a decisão política, apoiada numa força social hegemónica, permitirá a transformação da realidade económica, tomando sempre em conta o contexto e as circunstâncias da crise do sistema capitalista.
No fundo, o que queremos afirmar é que o capitalismo não cai só por si, nem depende da decisão de apressados locutores da televisão ou de alguns comentaristas mais alvoraçados, são necessárias forças políticas e classes sociais interessadas na sua substituição, neste caso por uma sociedade mais justa a que chamamos socialismo.
Dito isto e porque se insere neste tema, e já que estamos a relembrar os 40 anos da invasão da Checoslováquia por forças militares de alguns países do Pacto de Varsóvia sob a batuta da União Soviética, gostaria de chamar à colação um texto meu que neste momento se encontra arquivado aqui (Setembro de 2004), à falta de um arquivo próprio no meu blog.
O título do artigo é este A Checoslováquia, a transição para o socialismo e alguma arqueologia bibliófila, nele fazia referência a um livro publicado em meados dos anos 70, chamado Transição para o Socialismo (Edições 70, 1978) de Charles Bettelheim e Paul Sweezy, onde se reproduzia uma polémica travada entre aqueles dois autores marxistas, na sequência de um artigo que Sweezy tinha publicado na revista que então dirigia, a Monthly Review, e que ainda hoje é editada em Nova York. O artigo chamava-se Checoslováquia, Capitalismo e Socialismo, era de 1968, e vinha na sequência da invasão daquele país pelas tropas do Pacto de Varsóvia.
Qual era a tese central de Sweezy no seu artigo sobre a invasão da Checoslováquia? A invasão “não procurava travar o curso para o capitalismo. Este curso prossegue em ambos os países (Checoslováquia e União Soviética - JNF) e prosseguirá ainda enquanto não se produzir um fenómeno bem mais radical do que um programa de reforma liberal do tipo que tinha sido posto em prática na Checoslováquia durante os últimos oito meses. Os chefes da União Soviética temiam – com razão – duas ameaças: uma, em relação aos seus interesses pessoais; a outra, em relação aos interesses da camada dirigente nacional que eles representam.”
Bettelheim na sua crítica ao artigo de Sweezy tenta demonstrar que este autor não tem razão no modo como formula as suas observações às medidas de liberalização económica tomadas na Checoslováquia. Afirma que Sweezy faz uma análise superficial, realçando unicamente as contradições do conceito de “socialismo de mercado”, que nessa altura Ota Sik estava a desenvolver naquele país, ou pondo “a tónica, de modo unilateral, na existência de formas mercantis na sociedade socialista”. Pelo contrário, Bettelheim afirma que aquilo que “caracteriza o socialismo, por oposição ao capitalismo, não é a existência ou inexistência de relações mercantis, da moeda e dos preços, mas sim a existência de dominação do proletariado”. E continua “a ideia de uma "abolição directa" e "imediata" das relações mercantis é tão utópica e perigosa como a ideia de uma "abolição imediata" do Estado e é da mesma natureza: abstrai as características específicas (isto é, as contradições específicas) desse período de transição que é o período de edificação do socialismo.” Acrescentando, “estas formulações (as de Sweezy e de outros – JNF) iludem o problema essencial do socialismo – o problema do poder –, cuja defesa... pode mesmo exigir, em certas condições, recuos na frente económica (por exemplo, a N.E.P.). Se tomássemos as suas formas à letra, Lenine, ao pronunciar-se pela N.E.P., ou seja, ao "reforçar o mercado", teria agido "em proveito do capitalismo”.
A resposta de Sweezy à referência feita por Bettelheim à N.E.P. é a seguinte, existe “a possibilidade de movimentos temporários e reversíveis num sentido ou noutro. Lenine pensava justamente que a N.E.P. constituía um movimento deste tipo. Mas o crescente apoio ao mercado a que actualmente assistimos na União Soviética e na Europa de Leste é qualquer coisa de profundamente diferente (estávamos nos finais dos anos 60 e não na época da Perestroika - JNF). O fenómeno em questão não é considerado como um recuo temporário mas, antes, como um progresso socialista que beneficia de uma aprovação e de uma legitimação ideológica”.
Para Bettelleim, como se viu anteriormente, o período de transição seria o período da construção do socialismo e é um período contraditório. Este autor publicou mesmo um livro, em 1968, cuja tradução do título em francês é A transição para a economia socialista, onde no Prefácio afirma que “transição para o socialismo” é uma expressão que “está longe de ser adequada à realidade que pretende designar. Com efeito ela evoca um "movimento em frente" cujo objectivo, por assim dizer assegurado, seria o socialismo. Ora, o que, de facto, assim se designa é um período histórico que mais justamente se pode qualificar como o "da transição do capitalismo para o socialismo". Tal período não conduz de forma linear ao socialismo; pode levar lá mas pode também levar a formas renovadas de capitalismo, particularmente ao capitalismo de Estado”. Sweezy na sua réplica, em que cita este prefácio, concorda com ele, e relembra um seu artigo, de 1964, sobre a Jugoslávia, onde chega “à conclusão que o período de transição é uma via de dois sentidos”. E diz mais na sua réplica a Bettelheim: “na minha concepção, considero que as relações de mercado (que implicam, evidentemente, a moeda e os preços) são inevitáveis em regime socialista, e isto durante um longo período, mas constituem um perigo permanente para o sistema; e, a menos que sejam estritamente limitadas e controladas, conduzirão à degenerescência e à regressão.”
É evidente que esta polémica entre Sweezy e Bettelheim foi muito mais rica do que este pequeno resumo deixa antever e reflectia, para lá da caracterização mais ou menos correcta das sociedades de Leste, alguns pontos de vista maoistas, muito em voga na altura junto da intelectualidade progressista do ocidente.
A sua inclusão neste texto, que alguns pensarão despropositada, tem simplesmente a ver com a ideia que percorre as teses de Sweezy que bastava a introdução de mecanismo económicos que não eram tipicamente socialista para que a transição para o socialismo fosse posta em causa, como agora alguns apressados comentadores, consideram que a introdução de mecanismo mais eficazes de regulação ou aquilo que eles chamam as nacionalizações da banca são já o prenúncio do fim do capitalismo e o aparecimento de uma nova sociedade. Bettelheim, e bem, responde que a transição para o socialismo é uma questão do poder, que ele identifica ingenuamente com a dominação do proletariado, e que hoje em face da complexidade das sociedades modernas tem que ser encarada como o predomínio de um bloco social hegemónico. Por isso, o fim do capitalismo só pode ser encarado quando houver condições políticas, culturais e ideológicas para a sua substituição.
Por último, recordar que esta polémica nos conduz a alguns aspectos que hoje andam muito arredados na discussão sobre o que foi a invasão da Checoslováquia, permitindo que sob a capa da sua condenação, e da defesa em abstracto da liberdade e da democracia, se não faça uma interpretação mais rigorosa sobre as suas causas e qual o sentido da sua “Primavera”.
Por outro lado, demonstrar como os intérpretes oficiais do PCP, que continuam a defender a invasão, que nunca condenaram, vão introduzindo sub-repticiamente no seu discurso, sem a profundidade dos dois autores citados, a viragem que foi empreendida para o capitalismo pelos dirigentes da URSS que sucederam a Estaline.
Apesar do emaranhado de questões levantadas penso que para vós, leitores avisados, os assuntos aqui abordados são relevantes e poderão levar-vos a pensar em alguns dos temas que estão hoje na ordem do dia.

PS.: existe uma versão electrónica em português da Monthly Review já assinalada neste blog.

08/10/2008

A triste sina de um Governo que segue a voz do dono


Se há coisas que me irritam é o servilismo dos sucessivos Governos em matéria em política externa. Desgraçadamente, desde que o regime democrático se normalizou que os nossos governantes, de um modo ou de outro, têm seguido, por esta ordem, os ditames dos Estados Unidos, da NATO e da União Europeia. Ainda hoje, Luís Amado referiu que uma das causas para a falta de informações do Governo português relativamente aos voos da CIA se devia a não querer pôr em causa o consenso sobre política externa existente há mais de 30 nos entre os partidos do arco da governação.
Nos últimos tempos, o não reconhecimento do Kosovo e as relações privilegiadas com Chavez levaram-me a encarar a política externa deste Governo como relativamente independente em relação ao amigo americano, seguindo de certo modo os passos de Zapatero, em Espanha.
Hoje, sem que nada o justificasse e provavelmente para seguir as instruções de Condoleezza Rice, que recentemente tinha estado em Portugal, o Governo português, pela voz do seu Ministro dos Negócios Estrangeiros, anuncia que irá reconhecer o Kosovo. O mote já tinha sido dado por esse dirigente desclassificado do PS que é José Lello, agora veio a confirmação.
O PS nem num assunto que parecia fácil e que tinha o apoio dos portugueses consegue ter um comportamento digno. A voz do dono falou mais alto.
Imagem da principal base americana no Kosovo. Ver referência neste blog

07/10/2008

Na morte de Diniz Machado - Recordações do Primeiro Festival de Cinema de Lisboa


Por vezes dá-me para recordar e à míngua de não ter notícias para comentar, apesar de não faltarem assuntos, resolvi contar como conheci o Diniz Machado e como participei no Primeiro Festival de Cinema de Lisboa, organizado pela Casa da Imprensa, em 1964.
Eu pertencia à Direcção do Cine Clube Universitário de Lisboa (CCUL). O movimento cine-clubista de Lisboa, apesar de não ter nada a ver com a organização daquele festival, tinha boas relações com a Casa da Imprensa, e penso até que iria ter alguma participação no júri ou na atribuição de um prémio. Coube-me, à falta de alguém para a meio do dia ter disponibilidade para reuniões, ir falar com o Diniz Machado, um dos principais organizadores daquele Festival.
Já não me recordo da longa conversa que tive com o Diniz Machado, sei que ele estava preocupado com a possibilidade do júri, de forte influência católica, como convinha no tempo do fascismo, atribuir o prémio a uma xaropada espanhola chamada Dulcineia, inspirada numa personagem do D. Quixote, em vez de a Fellini 8 ½, de Frederico Fellini, que estava também a concurso.
O Festival, que tinha oficialmente o pomposo nome de I Festival Internacional de Arte Cinematográfica, teve lugar no cinema S. Luís e os filmes que foram exibidos eram propostos pelas Distribuidoras. Todos eles foram previamente visados pela censura, o que implicou cortes significativos em algumas das obras exibidas. Na maioria dos casos iriam pouco tempo depois ter estreia comercial nas salas de cinema. Era o Festival possível no tempo do fascismo.
Sei que houve mais dois, em 1965 e 1966, em que foram permitidos filmes apresentados directamente pelo produtor ou por entidades não comerciais, não sei se com cortes da censura, mas de certeza com a autorização explícita daqueles serviços.
Deste Festival retenho duas coisas. A primeira está relacionada com os bilhetes que foram atribuídos aos cine-clubes. A mim, porque tinha a missão de fazer crítica de alguns dos filmes, a Direcção do CCUL deu-me bilhetes para todas as sessões, que era uma cadeira num camarote, nos outros cineclubes era à vez. Sucedeu que apareceram mais candidatos do que bilhetes, e então, todas as noites, era organizada uma entrada com vista a enganar os porteiros, tentando-se encaixar todos os cineclubistas nos dois camarotes que nos foram atribuídos. Nunca percebi como foi possível durante tantos dias enganar aqueles profissionais, nem consigo perceber como tanta gente coube nos camarotes.
Outro aspecto, esse muito mais desconhecido, foi que a “malta” do CCUL influenciada, na altura, por um jovem português, que dizia que trabalhava no Piccolo Teatro di Milano e era amigo de alguém da Direcção, achava que se podia interferir com as decisões do júri ou então preparar o público para ver com outros olhos os filmes presentes no Festival. O que estava em causa é que no Festival ia ser exibido um filme que reflectia uma visão marxista da sociedade e que de modo muito coerente aplicava ao cinema os princípios brechtianos da distanciação. O filme era Salvatore Giuliano, em português O Bandido da Sicília, de Francesco Rosi. A história, em forma de inquérito, relatava o papel desempenhado por aquele bandido no contexto da máfia siciliana e do seu assassinato por aquela organização, nunca nos mostrando de frente o bandido, de modo a que nunca nos identificássemos com ele.
O filme a abater era o Fellini 8 ½, que hoje, passados tantos anos, sobrevive incólume ao desejo iconoclasta daqueles jovens.
Que nos propúnhamos fazer. Reuniram-se os cine clubistas de esquerda e as ideias foram mais que muitas. Desde o lançamento em plena exibição do filme de panfletos a reflectir as nossas posições, à distribuição de críticas à entrada da sala. Já se sabe que a primeira proposta foi desde logo abandonava. Dava, naquele tempo, para irmos parar à PIDE sem sabermos porquê. Foi decidido fazer-se um dépliant, com pequenas críticas a cada um dos filmes exibidos, em que se mostrava como O Bandido da Sicília era o filme que melhor “reflectia” a realidade italiana. Já se sabe, quando o papel ficou pronto já há muito que o Festival tinha acabado e penso que hoje ainda estamos a dever o dinheiro da sua impressão à tipografia que na altura se prestou a imprimi-lo.
No meio disto há um episódio caricato que relembro hoje, passados que já são mais de 40 anos sobre o assunto. Havia na Direcção dois responsáveis, um deles que depois desempenhou um cargo importante na reitoria da Universidade Clássica de Lisboa, que na altura, muito influenciados pelos novos tempos que vinham do Partido Comunista Italiano, propuseram ao grupo de jovens mais aguerridos que convidassem para discutir o tal documento os representantes do Cine Clube Católico, que nessa altura, participavam conjuntamente com os cineclubes de esquerda no já referido apoio ao Festival. Eu achei a ideia disparatada, não que eu não fosse sensível à unidade com os católicos, mas para um objectivo que tinha fins claramente de apoio a uma dada proposta estética, não tinha o mínimo sentido solicitarmos a participação dos católicos nesse projecto. Fui apodado de sectário e desconhecedor das novas realidades que percorriam a Europa. Obediente, e porque as minhas ideias não tiveram vencimento na Direcção, quando o grupo se reuniu propus aos católicos a sua participação na elaboração do tal dépliant. Já se sabe que polidamente recusaram.
Como manda o bom senso, que nestas coisas nem sempre prevalece, o filme que ganhou o Festival foi o Fellini, 8 ½. Nem os receios do Diniz Machado se concretizaram nem as preocupações sociais e políticas daqueles jovens se realizaram. Hoje, passados estes anos recordo a boa conversa que tive com Diniz Machado, a justa vitória do Fellini 8 ½, e a qualidade estética e social do filme de Rosi.

PS:. Fui consultar os meus arquivos e descubro que havia a concurso algumas das obras-primas do cinema italiano da época: Dois Irmãos, Dois Destinos (Cronaca familiare), de Valérico Zurlini, e A Noite, de Michelângelo Antonioni, e ainda do sueco Ingmar Bergman, Luz de Inverno. Eu fiz a crítica a um filme hoje desconhecido, O Apaixonado, de Pierre Étaix, para a Página de Cinema Plano, do Notícias da Amadora.

28/09/2008

O Forte de Peniche transformado em Pousada de Portugal


Já tinha lido no Público a notícia de que o Forte de Peniche, antiga prisão de anti-fascistas, se ia transformar em Pousada. Como a política normalmente seguida por este blog não é reagir de imediato ao noticiário do dia, tinha-a deixado passar. No entanto Joana Lopes, aqui, e Irene Pimentel, em Caminhos da Memória , chamam a tenção para o facto.
Há anos visitei o Forte de Peniche e lamentei a sensação de abandono a que estava votado. Percebia-se que mais uns anos e o monumento ou, pelo menos, a antiga parte celular se degradaria completamente. Simplesmente, nunca pensei que a solução fosse entregar a sua preservação às Pousadas de Portugal, que neste momento pertencem ao grupo Pestana.
Irene Pimentel perguntava, com muita graça, se está à espera que os “«clientes» bebam um copo, num hipotético bar, erguido junto ao «parlatório», onde os familiares visitavam os presos políticos com uma placa de vidro encimado por uma rede de permeio e os guardas a vigiarem? Ou que dêem um mergulho na piscina, junto à «furna» isolada em cimento, que servia de «segredo», para punir os presos políticos? Ou ainda que façam parapente para o mar, ou escalada dos muros, para reviver as fugas audaciosas dos presos políticos?” Estas perguntas eram dirigidas ao Presidente da Câmara que tinha afirmado «Com um investimento previsto de dez a 15 milhões de euros, a nova unidade deve compatibilizar a função hoteleira com a “preservação da memória da prisão política”».
Parece-me a mim, primeiro, que não será um grupo privado que melhor irá preservar um património colectivo e que representa um pouco da nossa história contemporânea. Segundo, estranha-se que um Presidente de Câmara da CDU, que estará muito mais habilitado que outros para a preservação da memória, seja o defensor de uma solução como a preconizada. Terceiro, mesmo que o grupo Pestana não pratique todas as maldades que ironicamente Irene Pimentel lhe atribui, não estou a ver como será possível este Forte ser visitado diariamente por portugueses e estrangeiros interessados em conhecer como era uma prisão do tempo do fascismo. Poderíamos ter um Forte e a sua área carcerária muito bem preservada, o que me parece desde já manifestamente impossível dada a falta de espaço para a Pousada propriamente dita, mas só visitada pelos utentes da Pousada, que provavelmente se estariam nas tintas para a sua anterior função.
Pense a Câmara, em colaboração com a entidade responsável pela gestão daquele património, em explorar aquele Forte como museu evocativo dos anos do fascismo e cumprirá de certeza uma grata aspiração dos habitantes de Peniche que foram sempre contra a utilização do seu Forte como prisão de anti-fascistas

26/09/2008

“O Socialismo Traído”


Pedi aos blogonautas, que nos seus blogs introduziram a pequena imagem referida nos posts anteriores, que nos explicassem a razão desse boneco. Como nenhum esteve para aí virado, tenho de admitir que ou ninguém me lê ou já criei suficiente entropia para não merecer qualquer resposta.
Mas não é sobre isto que venho falar e considero mesmo o assunto arrumado.
Foram publicadas ontem, como anexo ao Avante!, as Teses que a Direcção do PCP irá apresentar no XVIII Congresso daquele Partido. Apesar de alguns as considerarem como "literatura de terror" sou suficientemente masoquista para as tentar ler e dar, em post futuro, a minha opinião. Não me limitarei à notícia que foi publicada ontem no Público, que fala em “traição de dirigentes” como causa da derrota da URSS, tentarei, se para isso tiver forças e entusiasmo, apreciar outros pontos.
Hoje regresso a um dos meus “temas preferidos” que é o livro que foi publicado pelas Edições Avante!, que tem como título o Socialismo Traído. Por trás do colapso da União Soviética. Como se pode concluir pelos termos comuns utilizados as Teses têm uma relação directa com as preocupações manifestadas naquele livro. A terminologia usada nas Teses é mesmo “a traição de altos responsáveis do Partido e do Estado”, e ao contrário do que diz o Público, para quem esteja interessado em consultá-las, esta transcrição não é feita da página 15, mas da 17.
O Avante desta semana traz uma entrevista com os autores daquele livro, Thomas Kenny, economista, e Roger Keeran, historiador, militantes comunistas norte-americanos, bastante elucidativa de como o órgão oficial do PCP encara hoje o fim da União Soviética.
Da entrevista é de realçar, como já o tínhamos feito em artigo anterior a propósito do livro, a existência de duas tendências no PCUS: a de “direita”, “que defendia a incorporação de formas e ideias capitalistas”, e a de “esquerda”, que “apostava na luta de classes, num partido comunista forte e na defesa intransigente das posições da classe operária”, que os autores de forma mistificadora, comparam à linha menchevique e bolchevique existente antes da Revolução de Outubro. No artigo citado, eu já tinha referido quais os protagonistas de cada uma destas linhas. Poderíamos acrescentar a oposição entre Bréjenev e Andropov e Gorbatchov e Ligatchov, não referidas anteriormente. Os primeiros a representarem a direita e os segundos a esquerda.
Quanto aos períodos da história soviética em que cada uma destas linhas foi dominante os autores consideram que houve um primeiro período, nos anos 20, com a NEP, e com Bukharine, que afirmam que “ficou marcado não só pelo florescimento do capitalismo e dos sectores marginais e criminosos, mas também pelo alastramento de uma ideologia de direita, anti-socialista”. O que levado a letra justifica todos os abusos de Estaline ao mandar matar não só o seu principal ideólogo, Bukharine, como todos os aqueles que previamente foram classificados como marginais e criminosos.
Depois, segundo a entrevista, houve um “segundo período, mais prolongado e gradual”, que “teve início em meados dos anos 50, após a morte de Estaline. Khruchov foi a primeira peça deste puzzle.”
Como corolário destas afirmações o entrevistador conclui “praticamente todas as conquistas do socialismo que enumeraram na introdução do livro foram alcançadas em particular durante os anos 30, sob a direcção de Estaline…” e depois noutra pergunta acrescenta “mas se a tese do vosso livro está correcta, então as políticas de Estaline terão sido as mais correctas e as únicas que podiam garantir a construção do socialismo e defender as conquistas revolucionárias.” A que os autores respondem “o ódio a Estaline é tão cego e intenso que alguns críticos do nosso livro dizem que estamos errados e insistem que Estaline foi a causa do colapso da URSS”.
A terminar só gostaria de sublinhar o espantoso destas afirmações de que os ideólogos do PCP não se dão conta. Quando se defende que foi com Khruchov que começou a degenerescência do socialismo na URSS, está-se a retomar a velha tese maoista e “esquerdista” de que aquele político é o responsável pela instauração do capitalismo naquele país. No fundo andámos anos avalizar, com a ajuda de Cunhal, o comportamento da URSS, para virem agora os seus sucessores, como se nada se tivesse dito no passado, a publicarem no Avante! as velhas teses maoista sobre o fim do socialismo na URSS, com a ascensão da linha de direita, que na altura os pró-chineses chamavam revisionista.
A questão de Estaline, que parecia estar morta depois do XX Congresso do PCUS, e as teses maoistas que o pretendiam ressuscitar, e que tinham sido objecto de crítica severa, entram agora pela porta do cavalo, com pezinhos de lã, como se sempre no PCP se tivesse dito isto. É no fundo, como tenho afirmado, o sectarismo esquerdista a prevalecer.
É bom recordar também que nesta entrevista é retomada, sub-repticiamente, a velha tese estalinista que quanto mais o socialismo avança mais se agrava a luta de classes, o que serviu sempre para aquele político reprimir todos os seus opositores.
Não gostaria de terminar sem referir uma nota de rodapé com os dados biográficos de um dos apoiantes de Gorbatchov que foi citado na entrevista, Alekssander Iákovlev, cuja responsabilidade deve ser do entrevistador. Em que depois da descrição de um conjunto de malfeitorias que seriam da sua responsabilidade é dito que “faz publicar uma série de romances de escritores dissidentes e anti-soviéticos, bem como cerca de 30 filmes antes proibidos.” E termina, como justificando este excesso de liberalismo, “em Agosto de 1991 anuncia a decisão de abandonar o PCUS”. Como se não fosse um título de glória para alguém libertar filmes que anteriormente estavam proibidos. Este entrevistador nem sabe como os portugueses que conheceram o fascismo odeiam aqueles que lhes proibiam filmes.

PS.: A imagem que ilustra este post é de Bukharine, que tão vilipendiado é neste livro. Uma pequena homenagem a um dos heróis do movimento comunista. Mandado assassinar legalmente por Estaline.

24/09/2008

Um pedido público de desculpas aos visados


Recentemente o Fernando Penim Redondo publicou um post, já anteriormente descrito por mim, interrogando-se porque é que determinada imagem aparecia em alguns blogs, e fazia graça com esse caso.
No dia em que li esse post do Fernando tinha descoberto que o Arrastão tinha agregado um conjunto de blogs a que atribuía o nome de Santa Aliança. Pensei erradamente que havia um grupo que achava, por razões que eu fui inventando, que publicamente deveria assumir que não pertencia àquele aliança.
Citei exemplos, fiz considerações a despropósito. A verdade é que ninguém teve a gentileza de me avisar que aquela pequena imagem nada tinha a ver com os blogs agregados na Santa Aliança, mas sim, provavelmente, - é mais uma suposição minha - com um movimento que se denomina Planetuga e que parece que agrega blogs com vista a fazer uma divulgação das notícias dos seus aderentes. Foi isto que me pareceu perceber de uma consulta rápida ao Google.
Mesmo assim, continuo a não perceber e gostaria que me explicassem, se para aí estiverem virados, porque é que inseriram aquele pequeno ícon.
No entanto, desde já, e pelas interpretações erróneas que fiz do vosso activismo de bloggers, as minhas desculpas.
Quanto às outras afirmações que faço no post anterior todas elas são verdadeiras.

21/09/2008

Andam a acontecer coisas estranhas na bloggosfera


Depois de denúncia de massacres de índios bolivianos pela direita putschista, resolvi fazer um post sobre acontecimentos recentes na bloggosfera.
O Fernando Penim Redondo, do DOTeCOMe…o Blog, tinha chamado a atenção para alguns Enigmas da bloggosfera , contrapondo a uma pequena imagem de um homem a beber, e com legenda Este blog não está agregado, uma pintura clássica de alguém com um copo na mão, onde ele escreveu Este blog não está embriagado (que eu aqui incluo com a devida vénia). Aquela pequena imagem tinha começado a aparecer em alguns blogs.
Respondi lesto que provavelmente este pequeno ícone era a resposta de alguns contestatários a um conjunto de “blogs de política e de cultura escritos por bloggers de esquerda” e que tinham sido agregados, com o nome de Santa Aliança , pelo Arrastão, depois da sua última reestruturação. Uma das suas páginas estava permanentemente a ser actualizado com os post mais recentes dos blogs agregados.
A que o Fernando me respondeu com muita graça se “a tal Santa Aliança é composta por alcoólicos? Ou pelo contrário decretou a lei seca?”
Que eu tivesse percebido, ninguém até agora explicou a razão daquela pequena imagem. O primeiro blog onde a encontrei foi no da Joana Lopes e depois na Natureza do Mal . Como a expressão que utilizam é “agregado”, igual à que é utilizada pela Santa Aliança, pareceu-me que a minha dedução era lógica. Só não explicaram o porquê da garrafa, que eu suponho que é de vinho, daí a pergunta pertinente do Fernando.
Expliquem-se, reconheçam que se sentem marginalizados ou então que não alinham em Blocos, mas como há blogs na Santa Aliança que até são de militantes do PCP e têm escrito alguma prosa pouco meiga sobre o Bloco, espanta-me a convivência. Eu cá por mim nada tenho contra. É a unidade de esquerda!
Mas não foi só isto que motivou a minha estranheza. Ontem, depois de ter sido divulgado a noticia de que Human Rights Watch tinha apresentado um Relatório crítico do regímen de Chavez. A sua apresentação tinha sido feita em Caracas, por um chileno e um americano membros daquela organização e que tinham sido expulsos de imediato da Venezuela. Logo uma série de blogs, dois da tal Santa Aliança, o Arrastão e o Womenage à trois condenaram o sucedido, seguidos muito de perto pelo Terceira Noite , do Rui Bebiano, este acrescentando até o relatório apresentado por aquela organização sobre a CIA. Estranho pois que este post pouco tempo depois tenha desaparecido daquele blog.
Assim, rapidamente tirei três conclusões “maldosas” sobre aquele súbito desaparecimento, ou o Rui Bebiano se tinha convertido nessa noite ao chavismo, ou quis dar realce ao seu texto final sobre a Revolução de Outubro, que eu espero, quando tiver oportunidade, vir a comentar, ou então não se quis misturar com as condenações que já tinham aparecido na Santa Aliança.
Quanto ao conteúdo do relatório e à condenação da atitude de Chavez, não me pronuncio. No entanto, estranho que quando um pouco mais abaixo, na Bolívia, se massacram camponeses, todos se sintam na obrigação de condenar o regímen da Venezuela e nem uma palavra sobre tal massacre. Eu bem tenho afirmado que andamos todos ao serviço da agenda mediática dos media dominantes e não das verdadeiras coisas que interessam à Humanidade. Pensem nisto.
Para terminar e se estiverem interessados em ler uma outra opinião sobre o referido Relatório recomendo este artigo do site Rebelion.
PS.:
Provavelmente por distracção minha ou porque o pequeno ícone só agora foi introduzido a verdade é que ele também aparece no já referido blog Terceira Noite. Por isso a minha hipótese sobre o Rui Bebiano não se ter querido misturar com a Santa Aliança é capaz de ser a mais verosímil. Até porque depois do seu post sobre a Revolução de Outubro, publicou outro, com grande ironia e muito bem escrito, coisa que é seu apanágio, sobre um e-mail publicitário que lhe chegou à caixa do correio. Leiam, que vale a pena.

17/09/2008

Genocídio na Bolívia


Tenho seguido com alguma atenção o que se passa na Bolívia. Até ao presente ainda não encontrei qualquer notícia sobre os massacres de camponeses que tiveram lugar na naquele país em nenhum dos blogs dessa Santa Aliança que se formou com bloggers de esquerda e foi organizada pelo Arrastão, nem nos que sobraram, e são muitos, que têm a vocação de passar sempre ao lado, por "distracção", da violação dos direitos humanos perpetrados pela direita.
Como se sabe, e não vou contar a história com todos os pormenores, há alguns Governadores de Departamentos na Bolívia, os mais desenvolvidos, que não aceitam o presidente eleito, Evo Morales. Realizou-se um referendo que reafirmou a sua vitória e agora com resultados muito mais expressivos. Esses Governadores, que, ao que parece, também foram confirmados eleitoralmente no seu cargo, têm vindo a rebelar-se contra o poder central, encetando em alguns casos rebeliões violentas, com claro desrespeito das regras da legalidade democrática. Evo Morales tem tentado dialogar com eles, mas acusou o Governo dos Estados Unidos de os apoiar e fomentar um golpe de estado, expulsando por isso o seu embaixador.
O que dizem as agências internacionais que são a fonte de informação dos nossos media: Bolívia à beira de um golpe de Estado, dado por quem, não se sabe. Desacatos já causaram trinta mortos. O estado de sítio foi decretado numa das províncias. Estaríamos assim num país em revolta, com desordens nas ruas, responsáveis por aquela mortandade.
Perante este cenário, o que é que ontem nos informava o Público pela pena de um enviado especial chamado Nuno Amaral? Que o Governo estaria a negociar com chefes das províncias (departamentos) rebeldes, mas que à revelia dessas negociações o estado de sítio tinha sido proclamado na província de Pando. E o interlocutor do nosso repórter chamava ao Governo “traidores de merda” e dizia que “não se podia acreditar nessa corja”, o Governo claro. E o artigo continuava nestes termos, afirmando que foi naquela província que se registaram os piores confrontos, em que pelo menos 30 pessoas morreram. E o que diz o interlocutor do nosso repórter: “o Governo culpa o governador pelos assassinatos, diz que contratou mercenários brasileiros e peruanos. É mentira, foi o exército que matou essas pessoas” e o o nosso valente repórter continua: “Ao mesmo tempo que demonstrava disponibilidade para negociar com a oposição Morales mandou deter o governador de Pando”. Depois termina com declarações de outro dos revoltosos. “Cortámos estradas e linhas de caminho-de-ferro, invadimos aeroportos e organizações do Estado”. Era necessário, frisa. Urgente. “Só assim desmascaramos os planos desse fantoche (Morales) de Chávez, o fascismo comunista não avançará, nem que isso nos custe a vida”. E o repórter finaliza o texto afirmando “cai-lhe uma lágrima, duas”.
Vai séria a reportagem do Público. Desde quando é que se houve só uma parte, e que parte?
A seguir vem um artigo como título: Presidente chilena quer ir à Bolívia ouvir as duas partes. Referia-se à reunião que se iria realizar no Chile da União dos Países do Sul (UNASUL). Como se verá a seguir não foi essa a principal conclusão da reunião.
Ontem, durante o dia, as televisões já afirmam que o comunicado final desta reunião apoia o Governo constitucional de Evo Morales, não reconhece qualquer situação que implique uma tentativa de golpe civil e reafirma a unidade territorial do país. Contudo não deixaram de acrescentar que esta reunião não tem meios para impedir a realização de um golpe de Estado, como que a transformarem em notícia aquilo que desejariam que acontecesse.
Mas o que há de verdade nestes trinta mortos que são referidos como vítimas da convulsão que se vive a Bolívia. Fui consultar por isso os sites onde poderia recolher informação mais precisa.
Assim, começo pelo comunicado final da reunião da UNASUL, onde é dito no ponto 5: “Nesse contexto, expressa sua mais firme condenação ao massacre que se viveu no departamento de Pando, e respalda o chamado realizado pelo governo boliviano para que uma comissão da UNASUL possa se constituir nesse país irmão para realizar uma investigação imparcial que permita estabelecer e esclarecer a brevidade dessa lamentável acção, e formular recomendações de tal maneira que o mesmo não termine impune”. Estamos pois, ao contrário da voz nada inocente transmitida pelo Público, perante um massacre reconhecido oficialmente pela UNASUL, que quer investigar.
Mas as notícias vão mais longe o Governador do Departamento de Pando foi preso e acusado genocídio na forma de massacre sangrento. Pensa-se que pelo menos foram massacradas 15 pessoas. E em últimas notícias afirma-se mesmo que a UNASUL pode levar chacina boliviana a tribunal internacional, onde já são referidos 30 mortos e 100 desaparecidos.
O Ministro dos Negócios Estrangeiros do Brasil afirma “acusação contra Governador de Pando é "muito séria" e que "não se pode mudar a vontade do povo através de acções violentas".
Termino este conjunto de notícias com estas palavras retiradas de um blog brasileiro: “não devemos ter nenhuma dúvida sobre a gravidade da situação na Bolívia e do que são capazes as suas elites políticas de direita, seja em Santa Cruz, seja em Cobija (capital do Departamento de Pando, JNF) ou em qualquer outra região do país. São racistas e violentas. Optaram pela derrubada do governo e não respeitam nem a lei e nem a Constituição. A comunidade sul-americana tem que dar um recado duro e directo para eles, de que não vão tolerar mais as suas acções violentas e ilegais e nem a tentativa de estrangular a economia boliviana.”
Lembraria que os mortos são camponeses, provavelmente índios e daí igualmente a acusação de racismo a quem empreendeu esta acção.
Depois disto chegamos à conclusão que a imprensa portuguesa de referência vai mal e de que os nossos bloggers são vítimas da sua agenda mediática.
PS.:
esta notícia foi redigida ontem dia 16. Hoje o Publico reincide e de que maneira pela pena do seu enviado especial Nuno Amaral. Mas, não são só os jornalistas, Rui Ramos em artigo de opinião no mesmo jornal pergunta a dada altura: “Estará a Bolívia já ”libertada”, daquela parte do povo que não é “povo”, porque não partilha as opiniões do Presidente?”, mistificando demagogicamente os acontecimentos e brincando com assuntos sérios.
PS (20/09/08).:
Quando eu pensava que o massacre, para que tinha modestamente chamado a atenção, tinha caído no esquecimento entre os media, não é que o Expresso de hoje, com chamada na primeira página, não noticia Bolívia: a verdade sobre o massacre de Cobija. Depois, no interior, mais comedido, fala só de O massacre de Cobija. É evidente que não esclarece grande coisa sobre a quem atribui-lo, mas alerta para um problema para o qual o Público, depois de ter enviado de propósito um jornalista àquele país, vinha engonhando à quase uma semana. Nas páginas que aquele semanário dedica à situação na Bolívia um outro título chama igualmente a atenção Todos juntos… contra os EUA. Retira-se do artigo a conclusão, que eu também já tinha tirado, de que o comunicado final da UNASUL era bastante favorável a Evo Morales. Só o Público, pela pena seu enviado, continuava a não perceber isso.
É evidente, como leitor diário do Público, exijo outro comportamento do meu jornal. Não sei o que os outros jornais disseram, a televisão vinha muito na linha do Público. Ou seja, tentou-se desinformar até ao fim. O Expresso, contra a corrente, decidiu-se pela completa cobertura dos acontecimentos, dentro é evidente da análise preconceituosa e de direita de Miguel Monjardino, que assina a coluna de opinião sobre o conjunto de notícias que aquele semanário dedica à Bolívia

14/09/2008

A razão da minha ida à Festa do "Avante!"


Passada que foi a agitação da blogosfera provocada pela realização da Festa do Avante! eis que me decido a revelar as razões porque, no Domingo, de fugida, resolvi ir à Festa do Avante!.
Para além de razões familiares, que não são para aqui chamadas, queria comprar um livro publicado pelas Edições Avante!, lançado durante a Festa com a presença dos autores e chamado O Socialismo Traído – Por detrás do colapso da União Soviética, de Roger Keeran e Thomas Kenny. Não estive presente na sua apresentação, que foi Sábado, mas aceito este pequeno relato do sucedido.
Sempre imaginei a venda de livros e discos na Festa como uma realização semelhante a uma que era promovida há muitos anos pelo PCF, que se chamava a Semana do Livro Marxista, onde nunca fui, mas pela descrição dos colóquios lá realizados e pelo aspecto gráfico dos seus cartazes, sempre encheu o meu imaginário de comunista rodeado de livros marxistas. Por isso, sempre encarei a Feira do Livro e do Disco com uma grande frustração. Os livros estavam sempre cheios de pó, todos a monte e, muitas vezes, na tenda onde se promovia a sua venda, havia um calor insuportável, dado que esta funcionava como estufa.
No entanto, no princípio, em que o PCP tinha duas editoras, a Avante! e a Caminho e até uma distribuidora importante, as coisas eram ligeiramente melhores. Havia fundos editoriais, onde se podiam encontrar algumas preciosidades por tuta-e-meia.
Hoje, depois da venda Caminho, a Feira do Livro é um autêntico deserto. Não há fundos editoriais a preços de saldo (pelo menos não vi). Tudo tem um aspecto de ser despejado a eito e não há critério, nem selecção dos livros. Vi lá mesmo um livro fascista sobre o 25 de Abril (25 de Abril – Marxismo e Revolução, da Nova Arrancada), que talvez fosse seleccionado pelo título. E critério e selecção não significam censura. Há anos comprei na Festa esse belo livro de Pierre Daix, Acreditei na Manhã – Um Comunista revela os motivos porque abandonou o Partido, e sempre considerei que era o local certo para o adquirir, apesar de não esperar lá encontrá-lo.
Dito isto, passemos à primeira impressão sobre o livro que adquiri.
O Socialismo Traído pretende justificar a queda da União Soviética dando uma interpretação muito favorável àquela que a actual Direcção do PCP gostaria que fosse: a traição de Gorbatchov e de alguns membros da sua equipa. Simplesmente filia-a numa linha que vem desde Bukharine e Kruchtchov e termina no político já citado. Passando, pasme-se, por Jdanov. A boa, a da classe operária, seria a de Lenine, Estaline e Malenkov.
O capítulo que estou a ler onde estas duas linhas são referidas, localiza-se ainda no princípio do livro, e chama-se Duas tendências na Política Soviética. Retoma, ainda que não o diga, um velho hábito dos manuais de marxismo-leninismo, que era a existência de duas linhas, uma idealista e outra materialista, isto aplicava-se à arte, à filosofia, e neste caso à política, a linha pequeno-burguesa e do campesinato e a da classe operária.
Neste mesmo capítulo é feita a espantosa afirmação que Gorbatchov teria lido a biografia de Bukharine feita pelo historiador norte-americano Stephen F. Cohen. - Livro que eu recomendo vivamente a quem se interessa por estes temas da história da URSS e de que há uma edição brasileira (Cohen, Stephen. Bukharin, uma biografia política”, Paz e Terra, 1990). -Segundo os autores do livro que vimos citando “de acordo com um conselheiro próximo de Gosbatchov, Anatoli Tcherniaev, foi então que Gorbatchov decidiu reabilitar Bukharine, e a reavaliação de Bukharine “abriu as comportas para a reconsideração de toda a nossa ideologia”” (Keeran, R e Kenny, T., O Socialismo Traído, “Avante!”, pag. 29). Depois de assassinado legalmente por Estaline, Bukharine torna-se assim o responsável ideológico pelo fim da URSS.
Mas há mais. Afirma-se a determinada altura “Kruchtchov concentrou-se na alegada (sublinhado meu) repressão de Estaline sobre os líderes do Partido e afirmou que metade dos delegados ao XVII Congresso e 70 % de Comité Central foram mortos. Ken Camaron, biógrafo de Estaline, concluiu que é “difícil acreditar que os números de Kruchtchov estão correctos”. E a seguir, entre parêntesis, afirma-se que “usando os arquivos soviéticos recentemente abertos, os estudiosos (o estudioso citado é unicamente Michael Parenti -JNF) determinaram o número total de execuções de 1921 a 1953 em 799 455, muito abaixo dos milhões estimados por Robert Conquest, Roi Medvedev e outros académicos anti-soviéticos” (idem, pag. 41).
Os autores que avalizaram estas duas afirmações são ambos americanos, com obra publicada. O primeiro contesta um assunto que foi objecto de consenso na própria direcção do PCUS e que vem relatado, num documento universalmente aceite como verdadeiro, que é o Relatório Secreto de Kruschtchov. O segundo levanta a questão dos números de mortos, também debatida a propósito dos nazis, mas que são tão absurdamente grandes, que mais cem mil ou um milhão pouca importância tem em função da barbaridade do acontecido.
Por aqui me fico, esperando dentro em breve fazer uma crítica ao livro em questão. Ficando este cheirinho como forma de despertar o apetite a quem queira debruçar-se sobre a questão do fim da URSS.
PS.: Como as Edições "Avante!" ainda não publicitaram o livro referido, tive que recorrer à fotografia da edição original.

12/09/2008

A memória dos textos


Joana Lopes publicou no seu blog, Entre as Brumas da memória , e em os Caminho da Memória , site mais ou menos afecto ao Movimento Não Apaguem a Memória, um documento que ela chama O grupo dos 16, porque foram 16 o número de militantes da Comissão Democrática Eleitoral (CDE) a assiná-lo, mas que no original tem o título de Porque saímos da CDE. O documento é de Julho de 1973, segundo percebi, e reflecte as razões porque diversos militantes abandonaram aquela Comissão, que antes do 25 de Abril agrupava as principais correntes políticas de oposição ao fascismo (naquela altura PCP e PS).
Por essa época estava eu quase a sair da tropa e não militava na CDE. Estava mesmo politicamente pouco activo. Tinha participado em 1969 numa das estruturas daquela Comissão, mas posteriormente a minha actividade resumiu-se à participação na organização clandestina do PCP para o exército. Recordo que foi o Barros Moura, já falecido, que estava na altura também a cumprir o serviço militar, e que eu não sabia quem era, que entrou em contacto comigo e me levou ao funcionário que era responsável por aquela estrutura na região de Lisboa.
Recordo-me, mas muito vagamente, de alguém ter dito que a Isabel do Carmo e o seu grupo tinham abandonado a CDE. Mas esta recordação é vaga e portanto, pouco precisa.
Mas o que me interessa sublinhar, não são estas memórias desconexas, sobre um tempo que já passou há muito. O importante é o texto do comunicado.
Recentemente publiquei um texto sobre O PCP, a revolução democrática e nacional e o rumo ao socialismo – Algumas contribuições para a caracterização do 25 de Abril (ver aqui e aqui ). Estes posts, que pouca gente leu e não foram discutidos, exceptuando aqui , referiam-se a alguns dos temas abordados naquele comunicado, que estavam relacionados com os objectivos que se pretendiam alcançar com a alteração da situação política em Portugal.
Se virem os três pontos que Joana Lopes transcreveu do comunicado verificam que eles são centrais nas opções políticas então discutidas:
«Não devemos criar a ilusão de que o capitalismo, sem a sua forma fascista, é menos capitalismo, é menos explorador.»
«E que significaria acabar com os monopólios e continuarem os pequenos e médios comerciantes e industriais? Como patrões que são, como burguesia que são, instalar-se-iam no poder e transformariam a sociedade a seu modo. E apesar de serem pequenos ou médios exploram menos, pagam melhor? Que diferença sente um trabalhador ao ser explorado por um pequeno, um médio ou um grande burguês?»
«Mas pôr como objectivo as liberdades – de expressão, de associação sindical, etc. – é pôr como objectivo uma sociedade democrática burguesa onde não pareceria haver censura, onde as pessoas se poderiam reunir e organizar “livremente”, onde os trabalhadores teriam sindicatos para defenderem os seus interesses, mas onde tudo se passaria com o capitalismo no poder.»
O que é que se criticava no comunicado? A unidade antifascista proposta pela CDE opondo-a à unidade pelo socialismo; a luta antimonopolistas em contraposição à luta anticapitalista – é espantoso que ainda no discurso de encerramento da Festa do Avante, Jerónimo de Sousa faça referência aos “interesses e aspirações de todas as classes e camadas sociais antimonopolistas” –; e a defesa da democracia burguesa em vez da “democracia” não capitalista.
Depois de resumir abreviadamente estas divergências entre os que ficaram e os que saíram, gostaria de tirar duas conclusões. Primeira, são os objectivos definidos pela CDE, que era nitidamente influenciada pelo PCP, e criticados no comunicado, que tornam depois difícil explicar, porque é que alguns ainda continuam a insistir que o PCP pretendia no pós-25 de Abril implantar o socialismo em Portugal, através de uma ruptura revolucionária, que instaurasse, como fez Lenine na Rússia, a ditadura do proletariado. Uma das alterações que o PCP introduziu nos seus estatutos aprovado no primeiro Congresso que realizou depois da Revolução dos Cravos foi a eliminação, quanto a mim justificada, do termo “ditadura do proletariado”. Por isso quando hoje o PCP se diz herdeiro da tradição leninista e acusa outras forças políticas de reformismo e eleitoralismo (ver o recente artigo de José Manuel Jara, no Avante! ), devia ter cuidado e reler os seus textos ainda recentes.
Segunda, quando hoje a maioria dos herdeiros dos “revolucionários” dessa época aparecem a criticar o anquilosamento actual do PCP, a defesa que faz das ditaduras de esquerda, etc., etc., que sendo fundadas, esquecem que, de um modo geral, as propostas que apresentaram no passado eram bem mais “perigosas”, do ponto de vista do normal funcionamento das instituições democráticas, do que aquelas que o PCP hoje propõe. Por isso, como todos temos telhados de vidro, era bom que tivéssemos mais pudor nas apreciações que fazemos uns aos outros.

09/09/2008

Quanto mais reaccionário melhor – Parte II


Há tempos, antes de ter publicado esse grande sucesso que foi o meu post sobre o Manta Beach Club, tinha escrito um outro sobre um fenómeno que percorria os media portugueses e que se estava a avolumar no Público, que era o aparecimento de um conjunto de comentadores de direita, alguns mesmo profundamente reaccionários, que eram contratados em função da boçalidade dos seus comentários.
Palavras não eram ditas e no programa da SIC Notícias, o Eixo do Mal, o comentador residente José Júdice foi substituído por um outro chamado Pedro Marques Lopes, com ar de pegador de toros (ver fotografia ao lado), e que me pareceu demasiado jovem para ter vivido no tempo do fascismo.
José Júdice tinha comentários de direita, era anti-comunista, mas tinha a experiência de ter passado, antes do 25 de Abril, pela Pró-associação dos Liceus, e de pelo menos não fazer afirmações que roçassem o reaccionarismo mais boçal.
Quando abri a televisão no Sábado já o programa ia adiantado. Até certa altura, tudo parecia normal, quando de repente se fala na Festa do Avante e Pedro Marques Lopes, com um fúria típica de fascista, começa primeiro por dizer que se a Festa hoje parecia normal e era notícia nos principais órgãos de informação, devíamo-nos lembrar que já tinha apoiado as ditaduras mais sinistras do Planeta, chamando “colaboracionistas” (termo nada inocente) aos responsáveis que na Festa que promoviam aqueles regimes. Falou igualmente da propaganda que lá se fazia “desse ícone pop” chamado Che Guevara, tratado com grande desprezo, e em muitas outras coisas, enquanto lhe deram tempo de antena. Daniel de Oliveira lá foi defendendo a honra dos comunistas, considerando que a Festa do Avante tinha sido, em determinado momento, a maior manifestação de cultura popular existente no país, com que o outro gozou, considerando que era igual aos festivais do Sudoeste e do Super Rock, Super Bock. Lembrou o Daniel o papel desempenhado pelo PCP na resistência ao fascismo, a que outro retorquiu considerando que aquele partido queria implantar uma nova ditadura.
Estamos pois perante um reaccionário convicto, que a produção – As Produções Fictícias – foi buscar por essa mesma razão e que permite que um programa que alguém considerou estar desequilibrado para a esquerda, vá contar com dois comentadores de direita, Luís Pedro Nunes e o novo residente, uma PS envergonhada, Clara Ferreira Alves, e Daniel de Oliveira, do Bloco de Esquerda
Dirão alguns que isto se encontra equilibrado, pois eu acho que não. Primeiro falta alguém próximo do PCP, já que pelos vistos vai ser o bombo da festa nos próximos tempos, e depois tinha havido, até ao momento, a decência de o pessoal de direita ter um comportamento civilizado, onde a boçalidade dos novos tempos não prevalecia.
Mas não foi esse o critério seguido. Este novo espécime foi caçado na blogosfera. Parece que escreve para o Acidental, que eu não frequento, mas igualmente para o blog da revista Atlântico, que há tempos tinha uma capa com o Che Guevara com o bigodinho de Hitler. Elucidativo, não é.
É difícil adaptar-me a esta nova vaga que percorre com grande desenvoltura os media dominantes em que a boçalidade reaccionária está novamente a vir ao de cima e, mais do que isso, pagam-lhe para ser assim. Acho difícil ser de esquerda e conviver com esta gente.
PS.:Valha-me o Spectrum. Afinal sempre havia reaccionarice e da grossa, o mal foi eu não ter andado a procurar na net. Vejam este belo texto do senhor acima referido sobre o Governo Democrático de Allende. É muito difícil conviver com estes figurões.

07/09/2008

O sectarismo pequeno burguês de fachada socialista


Por ter estado ausente de Lisboa não tinha ainda folheado o Avante de 28 de Agosto. Mão amiga chamou-me a atenção para o artigo de José Manuel Jara (JMJ), Bloco de Esquerda: um neo-reformismo de fachada socialista, que parafraseava o título da célebre obra de Álvaro Cunhal, O Radicalismo pequeno burguês de fachada socialista, cuja a primeira edição, clandestina, é das Edições “Avante!”, de 1970.
JMJ nos anos idos da revolução já tinha escrito alguns textos sobre o “esquerdismo”. Posteriormente, transformou-se em defensor do templo e sempre que este é ameaçado vem à praça pública dizer de sua justiça.
Mas não são os seus dotes como porta-voz ideológico das posições do PCP que me interessa analisar. Este post refere-se unicamente ao artigo que dedica ao Bloco de Esquerda.
Não me vou envolver na discussão sobre a ideologia do Bloco, já que não sou militante daquele Movimento, nem para isso fui incumbido, limito-me só ao que está escrito por JMJ.
JMJ passa todo o artigo a tentar encontrar contradições nos textos dos principais responsáveis políticos do Bloco, mas, acima de tudo, a gozar (agora, o BE contenta-se, no que poderão chamar-se «relações de produção», com uma vaga alusão à não privatização da «água» e da «energia», como bens «públicos» … Acrescentemos poeticamente, e o mar, e o sol, e o céu?...), a desvirtuar (a facilidade com que se dá a volta a Portugal a pé contra o «desemprego», e a facilidade com que se volta à Europa a votar, eis a expressão acabada do idealismo e da inanidade do «movimento»), a enumerar vocábulos tirados do seu contexto (a ideologia baseia-se num discurso fluente e redundante onde vocábulos como «novo», «moderno», «modernizador», «aberto», «plural», «social», «socialista», «popular», «alternativo», «radical», «democrático», «mudança», vão alternando sem grande preocupação com o referente e a realidade), de modo que o leitor fica com a ideia que o Bloco não é capaz de juntar duas ideias seguidas. No fundo, uns pobres de espírito que não têm norte, nem sabem o que querem. A isto se resume todo o articulado de quatro páginas de escrita cerrada a descascar num movimento político que, para azar do PCP lhe come as franjas e se implanta nas suas margens, ao contrário do que tinha sucedido com os antecessores daquele movimento. Os tempos também eram outros e diferente era a intervenção política do PCP.
Resumindo, podemos dizer que, no essencial, tirando esse contínuo jogo de palavras e de pequenas citações, não há qualquer ideia que atravesse o texto. A sua pobreza ideológica é evidente.
Mas no final, JMJ achando que a sua prosa tinha que ser apimentada por uma citação de um clássico, lá vai recorrer a Rosa Luxemburgo e ao seu Reforma e revolução. No fundo, para classificar o BE como reformista e eleitoralista, penso que por contraposição ao PCP, considerado como partido revolucionário.
É uma ideia feita considerar-se o PCP como o Partido revolucionário, capaz de, estando as condições objectivas reunidas, empreender a revolução e instaurar o socialismo em Portugal. Como tentei provar aqui e aqui e em textos anteriores, aí igualmente citados, há muito que o PCP e o próprio movimento comunista, ainda no tempo da III Internacional, tinham abandonado a defesa da ruptura revolucionária com o sistema poder da burguesia, e encarado a transformação social como passando por diversas etapas intermédias, que, consoante o momento histórico, assumiam diferentes objectivos. Assim, no caso do PCP no tempo do fascismo propunha-se como programa a Revolução Democrática e Nacional e hoje, numa época de relativa estabilidade do capitalismo e de consenso democrático, defende-se Uma democracia avançada no limiar do século XXI. Ou seja, deixa cada vez mais de ter sentido andarem as diferentes forças de esquerda, e neste caso o PCP, a chamarem-se umas às outras reformistas e eleitoralistas, quando há muito que assumiram, dada a conjuntura de resistência e de domínio do capitalismo, objectivos políticos limitados e inseridos estritamente na legalidade democrática.
É de puro delírio político que o PCP a propósito de tudo e de nada continue a fazer propaganda das teses leninistas sobre a Revolução, que visavam, na época, a instauração da ditadura do proletariado, quando há muito que cortou essa expressão do seu próprio programa político.
O mal do PCP é que, incapaz de perceber isto, continua de forma esquizofrénica a defender em teoria coisas que depois na prática não aplica. Há por isso um desfasamento entre a doutrina que se conserva pura (o marxismo-leninismo) e a prática diária que exige outro tipo de acção. E se isto durante a existência de Cunhal era feito com alguma subtileza, de que se realça a sua formulação relativa à Revolução Democrática e Nacional, mas, posteriormente ao 25 de Abril, com a defesa da maioria de esquerda ou do favorecimento ao aparecimento do PRD, o partido do Eanes. Hoje, devido ao sectarismo galopante da Direcção do PCP, essa conduta caracteriza-se por um fechamento e isolamento na sociedade portuguesa que, se momentaneamente colhe alguns frutos, invertendo a queda eleitoral a que aquele Partido vinha a sofrer, torna impossível a criação de qualquer saída alternativa para a actual situação política.
Parece-me pois que este texto de JMJ mais não faz do que errar o alvo, confundindo os interesses sectários e isolacionistas do PCP actual, com o combate do PCP dos anos 70 contra uma deriva esquerdista que ameaçava perigosamente os objectivos nacionais do derrube do fascismo em Portugal.

06/09/2008

O Tempo Desvela a Verdade


A notícia já não é de agora, tinha-a lido nos jornais sem dar grande importância. Até que li a coluna Opinião, de Eduardo Cintra Torres, no Público, de 30 de Agosto (como sempre é impossível linkar para os não assinantes), e que se intitulava O Mamilo da Verdade. Depois de a ler, fui consultar a Net para obter mais informação. Se eu não a considerasse trágica e reveladora dos tempos que vivemos, poderia tomá-la como inspiradora de um tema para uma opera buffa.
Do que estamos a falar.
O Sr. Sílvio Berlusconi escolheu para decorar a sala onde dá as suas conferências de imprensa, no Palácio Chigi, uma reprodução de um quadro do pintor barroco Gianbattista Tiepolo (1696-1770), denominado La Verita Svelata dal Tempo e que foi pintado por volta de 1743 (para mais informações ver, em italiano, aqui ). A tradução que se tem feito do nome do quadro varia entre O Tempo Desvela a Verdade, do próprio Cintra Torres, ou então O Tempo que Desvenda a Verdade, do Diário de Notícias, e de uma série de blogs brasileiros. Prefiro a primeira que corresponde mais ao significado simbólico do quadro, no sentido de o Tempo tirar o véu à Verdade. Já se sabe que ao tirar o véu à Verdade, esta fica quase nua, de seios e umbigo à mostra. Até aqui tudo normal. Se Berlusconi ganhava dinheiro mostrando nas suas televisões “gajas boas”, como escreve Cintra Torres, porque não rodear-se de belos quadros, que simbolicamente representam a mulher desvelada. Simplesmente os seus assessores não acharam graça a que o seu chefe aparece-se nas fotografias e na televisão por baixo de um farto seio da Verdade e então decidiram que deviam mandar retocar o quadro de modo a que o seio e o umbigo não fossem visíveis. Assim o “machão” Berlusconi já não aparece encimado pela auréola do mamilo da Verdade.
Como se vê, esta história só no registo da comédia poderá subsistir, porque encarada a sério revela a mentalidade ditatorial de um dos principais dirigentes desta União Europeia que se pretende apresentar ao resto do mundo como defensora da tolerância e da liberdade artística.

22/08/2008

A Batalha de Praga – Diário de um lutador


Trouxe ontem o Público uma reportagem escrita pelo seu Director, José Manuel Fernandes, sobre uma visita que tinha feito dois anos antes a Praga, na companhia de Cândida Ventura (o artigo pode ser consultado no site do jornal, mas é impossível fazer um link). Aquela tinha sido militante do PCP, chegou a pertencer ao seu Comité Central e estava em Praga na altura da invasão da Checoslováquia, em 1968, pelas tropas de alguns países do Pacto de Varsóvia, capitaneadas pela União Soviética. Afastou-se daquele Partido em 1976, quando regressou a Portugal, tendo publicado, em 1984, um livro, O "socialismo" que eu vivi (O Jornal), muito justificativo das posições que então tomou em relação aos seus camaradas que então protestaram contra a invasão e por isso foram expulsos na altura do PCP. Há já bastantes anos li partes do livro, que me pareceu bastante desigual, mas não é isso que me interessa realçar agora.
Esta reportagem de José Manuel Fernandes e as suas referências às opiniões de Cândida Ventura, visam por um lado justificá-la aos olhos da História, depois do que é insinuado no livro de Flausino Torres, já referido no post anterior, e por outro inserem-se na campanha do Público, e do seu Director, com vista a combater quaisquer veleidades do ideal comunista poder renascer, mesmo que expurgado do seu passado estalinista. Um dos realces do artigo é esta frase de um livro recentemente publicado sobre o Pós-Guerra, em que é afirmado “a ilusão de que o comunismo era reformável, que o estalinismo fora um passo em falso, um erro que ainda podia ser corrigido (…), foi esmagada pelos tanques a 21 de Agosto (data da invasão) e nunca se recompôs”.
Debrucemo-nos agora sobre o recentemente publicado Diário da batalha de Praga, socialismo e humanismo (Edições Afrontamento, 2008), livro póstumo de Flausino Torres (1906-1974), historiador, militante comunista e antifascista. Aquele Diário é um manuscrito inédito, escrito durante a invasão da Checoslováquia e que foi dado agora à estampa devido ao meritório trabalho do seu neto Paulo Torres Bento, que já tinha escrito uma biografia bem interessante denominada Flausino Torres, documentos e fragmentos biográficos de um intelectual antifascista (Edições Afrontamento, 2006).
Antes do falar do livro gostaria de fazer uma referência pessoal ao meu conhecimento do autor, como ouvinte numa conferência que o mesmo pronunciou na Cooperativa dos Trabalhadores de Portugal. Esta conferência, referenciada no ano de 1962 na biografia do autor publicada no seu livro, teve provavelmente lugar durante o Inverno daquele ano, pois lembro-me – tinha eu 18 anos – ter sido feita referência às cheias do rio Douro, que periodicamente afligiam a zona ribeirinha do Porto, com grandes prejuízos de bens e vidas e que acarretavam sempre as lamúrias piegas dos responsáveis governamentais, que falavam da desgraça que se abatia sobre as populações. Flausino Torres nessa conferência desmascara a pieguice dos responsáveis políticos, afirmando que era possível domar o rio Douro de modo a evitar-se estas catástrofes anuais. Foi de facto o que depois veio a acontecer com o conjunto de barragens que foram construídas naquele rio.
Também, por aquela altura lembro-me de em conjunto com alguns jovens interessados em intervir politicamente termos organizado umas palestras, em que naquela que me coube em sorte me servi abundantemente do livro de Flausino Torres sobre as Sociedades Primitivas (1946), onde, que eu me recorde, se fazia uma comparação entre a aprendizagem nas sociedades humanas e nas animais. O autor fazia referência a estudos que indicavam que mesmo entre as abelhas havia alguma aprendizagem, apesar de muito reduzida. Esta minha referência às abelhas mereceu durante muitos anos algum gozo por parte dos meus amigos.
Gostaria também de alertar para um dado que muito me impressionou no livro biográfico que o seu neto publicou. Aos 60, Flausino Torres, depois de uma vida de luta antifascista e de militância no PCP, vê-se obrigado a fugir para não ser preso mais uma vez pela PIDE. Vai para Paris e depois para a Argel, onde cai no saco de gatos que era a pequena comunidade emigrada portuguesa. Não se adaptando ao que lá se passava, pede para ser transferido para outro sítio, indo então para Praga onde assiste à já referida invasão. O que espanta é como aos 60 anos alguém com uma vida organizada, professor do liceu, vivendo na província, com mulher e filhos, vai recomeçar a sua vida longe da sua terra, num ambiente desconhecido, onde como é previsível era difícil adaptar-se ao universo claustrofóbico do exílio. É de lutador.
Quanto ao Diário, poderemos dizer que é um documento pungente, que o autor tentou publicar em Portugal, quando ainda era vivo, mas que nunca foi possível. Fernando Rosas, prefaciador do livro, glosa sobre este tema, atribuindo culpas à influência do PCP. Para fugir à censura fascista, este diário é apresentado como se fosse escrito por um checo e as referências aos outros exilados portugueses e às posições do seu próprio Partido são cifradas. Com a ajuda do neto e conhecendo algumas referentes já relatados na sua biografia percebe-se a quem é que ele se quer referir.
Comecemos pela Cândida Ventura, que o autor identifica como uma Responsável e que depois o seu neto, em nota de rodapé, traça o perfil, muito pouco abonatório para alguém que posteriormente declara que já em 1968 estava contra a opinião do PCP de apoio à invasão. A própria Cândida Ventura no seu livro-justificação “lamenta que já não seja possível falar com Flausino Torres, sobre estas questões”. Dai que eu considere que a reportagem do Público, ressuscitando o livro e a autora, mais não visa do justificar para a História o seu comportamento passado.
Outro aspecto interessante é a raiva com que Flausino Torres reage às decisões do Direcção do PCP de apoio à invasão e à posição de Álvaro Cunhal, que é tratado, na tal linguagem figurada, como estrangeiro, caixeiro-viajante ou alto funcionário e com quem chega a ter uma reunião agitadíssima em Praga, que leva ao seu posterior afastamento.
No seu Diário, Flausino Torres, mantém sempre uma esperança num socialismo renovado, expurgado da prepotência dos soviéticos e dos seus satélites. Apresenta-se sempre como defensor da nova experiência iniciada pelo PC Checoslovaco e as medidas liberalizadoras por este tomadas. Nunca dá armas aos adversários, considerando que é a própria invasão que favorece o campo capitalista.
Em pequenos apartes critica a posição do PC Francês relativa ao Maio de 68 por ter saído derrotado nas eleições a seguir àquele agitado mês e ter arrastado a classe operária para uma situação sem saída. Faz também apreciações negativas sobre Fidel de Castro e a situação em Cuba, provavelmente motivadas pela posição que aquele tomou em relação à invasão, já por mim referidas em post anterior.
Como comentário final direi que é um testemunho presencial, que não pretende ser mais do que isso, mas que nos leva a pensar como as posições na altura assumidas pelo PCP já levavam este a um beco sem saída, mas em que aqueles que se demarcaram, como o PC Italiano, o Francês e o Espanhol, não tiveram melhor sorte.
Por último, referir o Prefácio, de Fernando Rosas, em que este refere o corte geracional que Praga e o Maio de 68 representaram para um conjunto de jovens a que ele pertencia, que por essa época romperam “com o campo político e ideológico polarizado pelo PCP”. É bom ter presente que para esses jovens a experiência da Checoslováquia era o exemplo acabado do revisionismo contemporâneo e que o seu modelo, a China maoista, acabou no mais desapiedado capitalismo, que verdade seja dita eles hoje denunciam igualmente. Portanto, não erijamos mitos que a história acabou por revelar falaciosos.

21/08/2008

Dois pesos e duas medidas - a guerra da Geórgia

Um dos meus dilemas é ter matéria para regularmente ir preenchendo o espaço que me foi atribuído por essa “entidade misteriosa” que me permitiu instalar o meu blog no ciberespaço Por vezes não há paciência para escrever, outras não há mesmo tema. O pior é que vemos a concorrência sempre num grande afã, a inserir novos temas que gostaríamos também de tratar, mas para os quais já vamos atrasados. A pressão diária é muita. Podemos sempre escolher temas intemporais, mas aí provavelmente ninguém nos lerá.
Mas passemos ao que interessa. Tenho andado para escrever sobre a guerra da Geórgia. Mas já a paz está feita e ainda não escrevi uma linha. Depois pensei no artigo interessante do Pacheco Pereira, A Emergência de Novas Potências, publicado no Público, de Sábado passado, relacionado com o tema anterior, para o criticar e fazer algumas apreciações sobre o assunto abordado. Mas por último, vou-me fixar na visita a Praga que José Manuel Fernandes fez na companhia de Cândida Ventura, há dois anos atrás, e publicada hoje no Público, e no livro, que já li, de Flausino Torres, Diário da Batalha de Praga, Socialismo e Humanismo (Edições Afrontamento).
No entanto, não gostaria de passar em claro esta guerra que se desenrola nas paragens distantes da Geórgia.
Primeiro, dias depois de ter iniciado as hostilidades, invadindo a Ossétia do Sul, o Presidente da Geórgia, conclama que estava a ser vítima de uma invasão pelos russos semelhantes à que os mesmos tinham empreendido em relação à Hungria, em 1956, e a Checoslováquia, em 1968. Clara manobra de propaganda, para motivar a opinião pública ocidental a forçar os seus Governos a intervirem no conflito. Faz-me lembrar, há uns anos, quando um líder de direita que tinha sido derrotado numa eleições na Albânia pelos ex-comunistas, saiu à rua a gritando que tinha havido fraude nas eleições e pondo na mão dos seus apoiantes bandeiras da Albânia e dos Estados Unidos, já se sabe com a claro propósito de influenciar o Governo americano a intervir a seu favor. São este tipo de líderes, sem qualquer ponta de respeito pelas soberanias nacionais, que o “Ocidente” apoia e depois fica muito chocado quando fazem “borrada” da grossa.
Segundo, foi a espantosa afirmação de Bush quando disse que a invasão de um estado soberano vizinho é "inaceitável no século XXI". É preciso não ter vergonha na cara para, pouco anos depois de violar grosseiramente a soberania do Iraque, que nem sequer era vizinho, vir afirmar que os outros não têm o direito, e neste caso com alguma justificação, de fazer aquilo que ele fez.
Por último, a afirmação da mesma personagem, e da sua Secretária de Estado, Condoleezza Rice, de que tem que se respeitar a “integridade territorial” da Geórgia, quando ainda recentemente os Estados Unidos reconheceram a independência do Kosovo, permitindo assim o desmembramento da Sérvia.
Contradições risíveis, que envergonham qualquer política séria das chamadas forças ocidentais.
Quanto ao tema que nos propúnhamos tratar deixemos para o próximo post, visto que, uma táctica que eu tenho que aprender é escrever pouco, ilustrar muito, para permitir uma leitura rápida e “agradável”.