31/05/2008

Vai bonito o insulto no PSD


Ouvi hoje na televisão, mas não consegui encontrar o registo vídeo destas declarações, por isso reproduzo-as como vêm noticiadas pela Lusa:

Lisboa, 31 Maio (Lusa) - O presidente demissionário do PSD, Luís Filipe Menezes, criticou hoje a "canalha" que lhe fez "a vida negra" e que "não tem carácter", lançando um duro ataque a Pacheco Pereira, apoiante de Manuel Ferreira Leite.
"Vou mostrar logo à noite [quando forem conhecidos os resultados] como sou diferente dessa canalha que me fez a vida negra, que não tem carácter", disse, adiantando que o grupo a que se referia inclui "pessoas como aquele senhor de barbas que participa na Quadratura do Círculo", numa alusão a Pacheco Pereira, apoiante de Manuela Ferreira Leite e um dos mais ferozes críticos da presidência do autarca de Gaia.
Questionado pelos jornalistas hoje de manhã em Gaia após votar nas directas do PSD, Menezes afirmou que respeitará "os resultados [das directas] sejam eles quais forem".
A propósito, criticou os "tristes, infelizes e barbaramente obcecados" que quando foi ele eleito para a presidência do partido não tiveram a mesma atitude.
"Não pertenço a essa laia", salientou.”

Que eu, um simples mortal, chame canalha a alguém, e há uns que bem merecem, vá que não vá. Mesmo assim que eu me recorde não utilizei ainda esta “bonita expressão” na net. Que o Sr. Filipe Menezes chame canalha ao Pacheco Pereira, com todas as letras e em canal aberto, é um espanto. Assim vai este PSD, que em tempos pretendeu ser comandado por dois miríficos políticos nacionais, os Srs. Sá Carneiro e Cavaco Silva.

30/05/2008

Sessão festa no Teatro da Trindade promovida pela esquerda plural

Vai realizar-se 3º-feira, dia 3 de Junho, às 21h30, no Teatro da Trindade, em Lisboa, uma festa sessão, em que serão oradores Manuel Alegre, Isabel Allegro, professora universitária e antiga colaboradora de Maria de Lourdes Pintasilgo, e o deputado bloquista José Soeiro.
A festa terá como tema Aqui e Agora, 1974-2008 Abril e Maio. Apesar do lema da convocatória falar Contra o pensamento único, a injustiça e a desigualdade a sua mobilização está a ser feita na base de um Apelo subscrito por 85 personalidades, de algumas importantes correntes de esquerda: Manuel Alegre e alguma esquerda do PS, o Bloco de Esquerda, a Renovação Comunista e alguns independentes.
Segundo declarações do próprio Manuel Alegre, este encontro visa estabelecer um diálogo à esquerda, entre gente que tem andado desavinda. E refere-se a Abril e Maio, o primeiro como o mês da conquista da Liberdade e, o segundo, como o da luta pela igualdade social.

28/05/2008

Duas novas revistas on-line


Passaram a ser distribuídas on-line duas novas revistas, editadas pela Zion Edições. O primeiro número de qualquer delas é gratuito, depois terá que se pagar a sua assinatura. Não sou proprietário de nenhuma, nem seu colaborador, mas pelo seu inegável interesse recomendo, pelo menos, a consulta dos primeiros exemplares electrónicos.
A primeira é a edição portuguesa da célebre revista marxista norte-americana Monthly Review, fundada em 1949, por Paul M. Sweezy (ver fotografia aqui ao lado), em colaboração com Leo Huberman. O primeiro foi um dos mais reputados estudiosos, do ponto de vista marxista, do desenvolvimento do capitalismo e do imperialismo. Qualquer deles já falecido.
O sumário do primeiro número é o seguinte:
Estados Unidos da insegurança, entrevista com Noam Chomsky
A crise alimentar mundial, Fred Magdoff
O colapso do subprime, Karl Beitel
Sweezy em perspectiva, John Bellamy Foster
Este último o seu actual director.
Quanto à segunda revista, que será editada simultaneamente com a anterior, é uma revista portuguesa, que se chama Shift – revista do pensamento crítico radical. É dirigida por Fernando Ramalho e com um conselho redactorial formado Bernardino Aranda, Fernando Ramalho, Paulo Fidalgo, Ricardo Noronha e Rui Duarte. O primeiro número tem como título geral O fim do neoliberalismo ou a segunda morte de Milton Friedman.
O sumário deste número é composto pelos seguintes artigos:
Editorial Das últimas ilusões à vida imprevisível Fernando Ramalho
O financeiro contra o económico Carlos Pimenta
Mecanismos de formação das crises económicas Guilherme da Fonseca-Statter
Poder mundial e dinheiro mundial Robert Kurz
Recensão Socialismo sem dogma Ricardo Noronha
Pelo exposto parece-me pois que valerá a pena a consulta ao site da editora, sendo possível a partir daí, desde que nos registemos, obter gratuitamente o primeiro exemplar de cada uma delas.
Desejo pois às duas grande sucesso .

21/05/2008

Quem é Ricardo?




Curta-metragem de José Barahona, com argumento e diálogos de Mário de Carvalho, sobre um interrogatório da PIDE

20/05/2008

50º Aniversário da Candidatura de Humberto Delgado a Presidente da República


Sei que estes posts também se fazem de memórias e que nem sempre sou obrigado a escrever prosa “séria”, mal de que muitas vezes padeço.
Tinha 14 anos quando Humberto Delgado se candidatou às “eleições” presidenciais de 1958. Faria 15 anos pouco depois da sua “derrota”.
O que fazia e o que sabia sobre a Oposição.
Vivia em Lisboa, sempre vivi, e estudava no Liceu Gil Vicente. Estava no 4º ano do liceu, com um atraso de um ano escolar em relação à idade. Era filho de uma família oposicionista, que me mantinha mais ou menos bem informado sobre as notícias que fervilhavam na Baixa lisboeta. Os meus pais trabalhavam no Terreiro do Paço. Estava pois a par dos mexericos, dos reboliços, dos abaixo-assinados, das cartas-abertas e de alguns comunicados da Oposição Democrática. Nunca por minha casa, que eu visse, passou o papel de bíblia dos comunicados do Partido Comunista.
Não me lembro se fui informado antecipadamente da chegada do Humberto Delgado à Estação de Santa Apolónia, regressado da sua visita triunfal ao Porto. Soube depois da repressão sobre aqueles que o tinham ido esperar. Um amigo meu contou-me mais tarde que tinha ido com a sua mãe, como quem vai esperar um familiar, à Estação ver o General.
O clima estava criado, todos os dias iríamos ouvir falar daquelas eleições e de Humberto Delgado. Nem eu, nem os meus pais, participámos em qualquer manifestação ou comício, mas todos os dias o tan-tan das notícias me chegava da Baixa.
Os meus amigos à época, que eram colegas de escola, não se interessavam por política. Eram jovens entre os 14 e 15 anos, mais virados para catrapiscar as raparigas que saíam da Escola Voz de Operário, que, na altura, era uma Escola Comercial para o sexo feminino, ou então para jogar bilhar no Largo da Graça. Eu, um pouco mais espigadote intelectualmente, já era mais dado a leituras.
Sei, no entanto, que o furacão Delgado impressionou todos, foi motivo de conversa e de apoio. Mesmo aqueles que estavam a leste de qualquer preocupação política não deixaram de se entusiasmar com a personagem.
Não me recordo de muitas mais coisas, sei, no entanto, que alguns dos meus amigos foram ou tentaram ir ao célebre comício do Liceu Camões, aquele em que Santos Costa, pôs a tropa na rua. Tive depois a descrição de repressão e do que se passou nas imediações da praça José Fontana.
Lembro-me também que havia um grupo no meu liceu, em que participava o Mário Vieira de Carvalho, que tempos depois se tornou um bom amigo, muito desenvolto, que fazia às claras propaganda do General. Fui avisá-los, com a minha proverbial prudência, que não se expusessem demasiado.
Recordo-me igualmente de uma tia que tinha visto passar Humberto Delgado em Almada e que vinha excitadíssima com a loucura que tinha sido a sua recepção naquela localidade.
Pouco me recordo da campanha do Arlindo Vicente, outro dos candidatos da Oposição, que desistiu a favor do Delgado. Sabia que este tinha sido apoiado pelo Partido Comunista, enquanto que Delgado inicialmente não tinha sido.
Os meus pais, que me recorde, não foram votar, porque não achavam as eleições livres e tinham provavelmente medo de represálias nos seus locais de trabalho. É preciso dizer que os votos estavam separados e facilmente, dada a cor do papel, se distinguia o voto na Situação do da Oposição.
Tudo isto terminou de um modo muito triste para mim e para a Nação. Recordo que fui passar umas férias, das muitas que tínhamos, a casa de um tio, um fascista um pouco encapotado, que no dia em que a Oposição decidiu protestar contra a fraude eleitoral – devia ser Julho –, propondo que todos pusessem luto, não fossem a espectáculos e tomassem outras medidas que ilustrassem a sua indignação, me propôs irmos ao cinema para verificarmos in loco se as pessoas tinham aderido ao boicote. A minha ingenuidade e o desejo de ir ao cinema levaram-me a participar, um pouco a contra gosto, na farsa.
No ano escolar seguinte, acho que mudei de amigos, passei a reunir-me com eles ao cimo da R. Angelina Vidal, facto que já comentei num post anterior. Encontrava-me, para o Fernando Penim Redondo que os conhece, como Victor e o Osvaldo. Um dia, primeiro a medo e depois claramente, começaram-me a falar do “nosso homem”. Este não era outro senão o general Humberto Delgado. A partir daí criou-se entre nós uma amizade, a que depois se juntaram muitos outros, também adeptos do “nosso homem”, que durou para o resto da vida. Todos esses jovens aos poucos foram entrando para o Partido Comunista, alguns, como eu, já lá não estão, mas mantiveram sempre com a esquerda uma forte relação.

Reflexões em aberto sobre o Maio de 68


Num programa de Júlio Isidro, por sinal de uma piroseira indescritível, dedicado ao Maio de 68 e que passou na RTP I, na passada quarta-feira, Fernando Rosas, um dos convidados, considerou, por outras palavras, que, em oposição à visão de Sarkosy, que considerava que era necessário “liquidar a herança do Maio de 68”, o legado daqueles acontecimentos abriu as portas à modernidade dos nossos dias.

I – O revisionismo da direita
Aquela proposta de liquidação do Maio de 68, insere-se num certo revisionismo histórico, que sendo coisa demasiado complicada para um político fogo-de-vista, como é o Sr. Sarkosy, percorre no entanto muito do pensamento conservador contemporâneo e pode, por isso, ser perceptível mesmo para políticos menos dotados para as “questões filosóficas”.
Hoje a direita conservadora, com o apoio de alguma esquerda bem-pensante, tenta eliminar da história todos os momentos de grande transformação social, que, por essa razão, são portadores de uma dose, por vezes não controlada, de violência. Assim valoriza unicamente a Revolução Americana, de que resultou a independência da América do Norte e, segundo ela, a formação das sociedades democráticas do Ocidente, opondo-a à Revolução Francesa, principalmente à fase de domínio jacobino, o chamado período do Terror. Abomina a Revolução Russa, considerando que Estaline é o continuador, para pior, dos métodos de Lenine, que por sua vez já se fora inspirar em Marx.
Depois, mais recentemente, o nazismo não seria mais do que uma resposta ao comunismo e a II Guerra Mundial só terminou com a queda do Muro de Berlim, porque primeiro se derrotou o “totalitarismo” nazi, que no princípio estava associado ao comunismo, e depois o “totalitarismo” comunista com a “libertação” dos povos do leste Europeu (Bush dixit: ver notícia no Público e a prosa reaccionaríssima de um comentador americano, traduzida para brasileiro). Para alguns conservadores, só por acaso, é que houve uma aliança entre as democracias e os comunistas, que na altura, e bem, se chamava antifascismo, e se realizou uma conferência de Yalta, em que o principal representante das democracias, Roosevelt, era, para aqueles, um chefe débil e à beira da morte. Sobre todos estes assuntos ver a prosa interessantíssima de António Figueira aqui e aqui .
Também, o conservadorismo nacional tenta rever a nossa história contemporânea. É a reabilitação do Rei D. Carlos e o estigma dos regicidas, com a tentativa de impedir a transladação de Aquilino Ribeiro para o Panteão. É a República transformada em antecâmara da ditadura, pois seria tão prepotente como que aquela (veja-se as declarações de Rui Ramos ao Primeiro de Janeiro ou ao programa Diga Lá Excelência ). É o PREC transformado em ditadura comunista (ver este artigo do Diário de Notícias sobre a morte do cónego Melo).
Chegou agora a vez do Maio de 68 e é vê-los em bicha, desde o Vasco Pulido Valente até ao João Carlos Espada, a combaterem a herança do Maio de 68.

II – O adquirido civilizacional progressista
Retomando as declarações iniciais de Fernando Rosas, lembremos outras que ele fez ao P2, do Público, de 2 de Maio. A propósito das afirmações de Sarkosy, considera que “mais tarde ou mais cedo, a lógica neoliberal do discurso político tinha que ir a Maio”. E acrescenta “os adquiridos civilizacionais progressistas de Maio só estarão seguros quando se escorarem numa verdadeira alternativa de poder à agenda e aos valores do neoliberalismo. Maio não é um fecho é uma abertura. Abre um campo de possibilidades muito actuais. Toda a nova esquerda europeia só pode ser pensada em função desse momento original e genético que são as revoluções de Maio”.
O discurso é empolgante, fala-se mesmo em revoluções, e não só no Maio de 68 francês. Mas é indispensável fazer uma reflexão mais fina. Pela minha parte tentarei fazê-la.
A parte mais consensual das heranças dos diversos Maios consiste talvez na conquista da igualdade de género, com a libertação da mulher das suas limitações sexuais, devido ao aparecimento da pílula, e com a sua independência económica, resultante do acesso maciço ao mercado de trabalho. Qualquer delas estarão mais ligadas a toda a década de 60 do que unicamente ao Maio de 68.
Quanto à transformação das mentalidades, o surgimento de um novo relativismo de valores e de uma maior liberdade individual – cada um por si –, é efectivamente um adquirido que eu continuaria a considerar mais da época do que do Maio de 68, mas que radica numa transformação social do assalariado de que irei falar a seguir.

III – A transformação da classe operária e da sua representação política
Penso que as greves operárias de 68 em França foram as maiores, na Europa Ocidental, da segunda metade do século XX, mas que constituíram também o fim de uma certa classe operária, como a entendíamos no pós-fordismo, integrada em grandes fábricas e fazendo parte de uma infindável linha de montagem, tal como era representada nos Tempos Modernos, de Chaplin. Em Portugal, com todos os atrasos que nos são característicos, tivemos também um exemplo dessa classe operária. Estava localizada na margem esquerda do Tejo e era constituída pela Siderurgia, pela CUF do Barreiro ou pelos estaleiros da Lisnave e Setenave.
Esta classe operária foi destruída. Terceirizou-se ou reformou-se. O que resta dela são hoje os operários de bata branca da Auto-Europa, ou então foi substituída por trabalhadores de Leste, por africanos ou brasileiros.
No resto da Europa a situação não foi muito diferente. Os grandes partidos operários desapareceram. Do PCF e do PCI já quase nada resta. Thatcher acabou por destruir a ala esquerda do Labour inglês. A social-democracia alemã está hoje muito mais desfigurada do que a que existia nos tempos de Willy Brandt .
Tudo isto teve efeitos devastadores, por um lado, na composição da esquerda europeia, por outro, na organização das forças capazes de resistir à ofensiva neoliberal.
Por isso, custa-nos a perceber que um filósofo respeitável como Daniel Bensaïd, em entrevista à Visão História, Abril de 2008, possa afirmar que “os trabalhadores estão menos organizados e, por isso, menos capazes para resistir à brutalidade da ofensiva neoliberal. Mas, por outro lado, estão menos controlados por aparelhos e mais livres para lutas espontâneas.” Ou seja, de acordo com dados por fornecidos pelo entrevistado, a CGT tinha na altura “3 milhões de filiados, hoje tem menos de 700 mil, já contando com os reformados. O Partido Comunista tinha entre 20 a 25% dos votos e tinha o controlo, quase o monopólio, sobre a maioria dos trabalhadores. Por isso, entre estudantes e trabalhadores, em 68 havia um muro de desconfiança. Não era uma desconfiança espontânea, mas construída, principalmente pela CGT e pelo PCF. Hoje esse muro foi destruído. Isso é positivo”. Estranho que alguém, sabendo o que é a ofensiva neoliberal, e a dificuldade de resistência dos trabalhadores a essa ofensiva, possa ainda acreditar, em nome da espontaneidade das lutas, que a destruição dos sindicatos operários e dos seus partidos foi benéfica para combater essa ofensiva. (ver igualmente uma entrevista sobre o Maio de 68 de Daniel Bensaïd ao Rebelion ).

IV – Crítica à herança política do Maio de 68
Voltemos ainda às declarações de Fernando Rosas à Visão História, repetindo as suas afirmações finais: “toda a nova esquerda europeia só pode ser pensada em função desse momento original e genético que são as revoluções de Maio”.
Estou bastante em desacordo com esta afirmação. Primeiro como já o afirmei no ponto anterior, lamento não considerar como estruturante de uma nova esquerda a destruição das mais importantes centrais operárias, nem dos seus partidos, mesmo que isso corresponda a uma maior espontaneidade das lutas.
Segundo, que podemos nós hoje pensar da herança maoista, há muito renegada no seu centro de origem, e que constitui sem dúvida um dos piores momentos de sectarismo e de esquerdismo do movimento marxista, não correspondendo de modo algum a visão humanista e rigorosa dos seus fundadores.
Terceiro, que podemos nós hoje dizer, que interesse verdadeiramente à transformação social da Europa e à luta contra a ofensiva neoliberal, que tenha haver com o guevarismo – com a teoria do foco ou a criação de um, dois ou três Vietnames –, ou com o respeitável pensamento de Trosky, só provavelmente com a sua crítica à burocracia do antigo “socialismo real”.
Que pode hoje a esquerda, a que se reclama do Partido da Esquerda Europeia, retirar do Maio de 68 senão nostalgia e recordação dos bons velhos tempos. Politicamente, lamento dizer, mas Maio está morto desse ponto de vista. Hoje o nosso trabalho é outro. Temos que ir provavelmente apanhar os cacos daquilo que deixámos pelo caminho: Gramsci em primeiro lugar, o austro-marxismo, algum do marxismo ocidental, tão renegado pela ortodoxia soviética, Rosa Luxemburgo e a sua crítica ao centralismo bolchevique, provavelmente a Bukarine e a defesa do mercado no socialismo.
Por isso, afirmei em post recente “que bem exprimido o Maio de 68, na sua forma comemorativa e retórica, pouco nos deixou que verdadeiramente seja transformador das sociedades hodiernas”.
Considero que esta afirmação é discutível, e que se pode confundir com os ataques da direita. Contudo, penso que ao comemorar o Maio de 68 não o podemos reduzir a adorno da mediatização triunfante, que tudo transforma em espectáculo, ou de uma certa esquerda que dele se serve para ajustar umas contas com os antigos partidos comunistas. Tal como em todas as comemorações, temos que valorizar o que ainda hoje está válido e qual a sua contribuição para o processo transformador, tendo sempre em conta que o nosso discurso se integra na luta ideológica que quotidianamente travamos com a ideologia dominante.

13/05/2008

A hegemonia cultural e política da esquerda nas vésperas do 25 de Abril


Ao consultar na net a edição portuguesa do Le Monde Diplomatic encontrei referência a uma conferência internacional, que eu já conhecia, mas na qual não pude infelizmente participar, sobre o Maio de 68 e que teve lugar a 11 e 12 de Abril passados.
Sei que dessa conferência resultaram imensas entrevistas aos participantes estrangeiros, incluindo uma a Daniel Bensaïd, que irei posteriormente comentar, e que ela serviu de fonte de inspiração a muitos jornalistas para as suas reportagens sobre o Maio de 68.
Uma das primeiras comunicações apresentadas foi a de Fernando Rosas, que se intitulava: Teses sobre a geração dos anos 60 em Portugal e a questão da hegemonia e cujo resumo, que constava do programa, era o seguinte: “pretende-se discutir o papel que o "Maio de 68" em Portugal, ou seja, a contestação estudantil de 1969, desempenhou na radicalização da luta política em geral e na alteração das relações de hegemonia em favor das mundivisões marxizantes e revolucionárias na sociedade portuguesa da época.”
Fiquei bastante interessado no tema e tentei ver se na net havia o texto completo da comunicação. Eu próprio, em reflexões pessoais, e na perspectiva de um estudante comunista, já tinha dado a minha visão do que tinha sido a influência do Maio de 68 no movimento estudantil desses anos.
Mas, o que despertou mais o meu interesse foi, no resume da sua comunicação, a expressão “a contestação estudantil de 1969” provocou “alteração das relações de hegemonia em favor das mundivisões marxizantes e revolucionárias na sociedade portuguesa da época.”
Com a audácia de alguém que não assistiu à conferência, queria no entanto sublinhar que se isto é verdade, houve à época um outro conjunto de circunstâncias, políticas e culturais, que permitiu a alteração das relações hegemónicas a favor de uma modificação revolucionária da sociedade portuguesa e com contornos marxistas, que teve evidentemente reflexos no pós-25 de Abril, que não seria o que foi se não tivesse o terreno já previamente adubado.
Mas comecemos pelo princípio.
Num filme que passou recentemente na RTP I, sobre Humberto Delgado e as eleições de 1958, muito discutível pela selecção dos depoimentos a que recorre – não há nenhum comunista a falar sobre aquelas eleições –, Lauro António, o seu realizador, vai ouvir a opinião de Marcelo Rebelo de Sousa. Este, com grande ligeireza opinativa, refere que a queda do salazarismo teria começado com aquelas eleições. Victor Dias no seu blog já comentou devidamente estas declarações. No entanto, gostaria de acrescentar, que os tempos em que se desenrolaram aquelas eleições, que corresponderam ainda a um Portugal arcaico, nada tiveram a ver com o clima político e cultural criado durante o marcelismo e que de facto correspondeu ao fim do regime fascista. Ou seja, em 58 era ainda impossível descortinar qualquer hegemonia das “mundivisões marxizantes e revolucionárias” na sociedade portuguesa. É bom não esquecermos que Salazar ainda em 1961, com os acontecimentos no Norte de Angola e a sua exigência de ir para lá e em força, tinha conseguido de novo a mobilização de certas camadas populacionais, do campesinato a certa pequena-burguesia citadina. Só posteriormente, com o arrastar da guerra e a emigração para França da grande base de apoio do clericalismo e do salazarismo, se começa a verificar uma nova correlação de forças desfavoráveis à ditadura e à criação de uma cultura de resistência à mobilização para a guerra colonial.
Se o Maio de 68 teve sem dúvida efeitos na esquerdização da juventude e por reflexo na sociedade portuguesa, é evidente que não foi o único evento que provocou essas alterações. A queda de Salazar e a nomeação de Marcelo, tendo provocado algumas ilusões em certa “oposição”, possibilitou ao mesmo tempo o seu revigoramento. Basta pensar que as eleições para Assembleia Nacional, que tiveram lugar em 69, com o reforço do trabalho de base promovido pela CDE, nessa altura uma coligação de comunistas e católicos progressistas e de “outros democratas”, como se dizia então, teriam sido impossíveis nos anos de chumbo de Salazar. Basta comparar com as anteriores, de 65.
Mas, mais do que isso foi todo o clima cultural e politico criado na época. A conquista dos sindicatos fascistas pelos trabalhadores e a formação da Intersindical foi um facto de enorme importância. Quem esquece as manifestações à hora do almoço dos bancários, essa classe tão recuada, a propósito da prisão de um dos seus dirigentes, o Daniel Cabrita.
A criação de cooperativas culturais e livreiras, onde se procedia à realização de colóquios e à venda de livros, muitas vezes proibidos. A realização dos Congressos Republicanos em Aveiro. A manutenção sobre formas legais e semi-legais da CDE durante todo esse período.
Mas também o que se lia. O próprio panorama editorial se modificou: editou-se Lenine, dando-lhe o nome de baptismo, Ulianov. O revigoramento do jornal República e de grande parte da informação regional, como o Jornal do Fundão, o Notícias da Amadora, e o Comércio do Funchal. Revistas como a Seara Nova, a Vértice e o Tempo e o Modo tiveram grandes tiragens.
As canções que se ouviam: José Afonso e Adriano, mas a seguir todos os baladeiros. Até já nem o Festival da Canção escapava, com as letras do Ary dos Santos.
É a tudo isto que chamo as alterações de relação hegemónica que se deram a favor da esquerda, das mudanças revolucionárias, se quiser do anti-fascismo, que se verificaram nas vésperas do 25 de Abril e a que os militares não ficaram imunes, no Continente e nas colónias. Em 1970, dá-se a incorporação dos expulsos da Universidade de Coimbra pelo Governo devido à crise de 69. Em Abril de 1970, na minha incorporação, fui encontrar muita desses estudantes, o que necessariamente ia ter reflexos nas companhias que partiam para África.
E aqui entronca outra das discussões que se travou aqui há tempos na blogosfera a propósito de um artigo de Pacheco Pereira sobre a guerra colonial. Se todos os que nos opúnhamos àquela guerra tivéssemos desertado, a nossa intervenção junto dos militares no activo tinha sido insignificante e não teria depois a importância que veio a ter na sua insubordinação e adesão a muito dos princípios da própria luta de libertação dos povos coloniais.
Quero com tudo isto dizer que houve uma alteração hegemónica cultural e política, que se verificou a partir de 69, que apressou o fim do marcelismo, motivou um grupo de militares da baixa patente e permitiu a explosão revolucionária do pós-25 de Abril.
Por tudo isto, considero que os problemas da hegemonia cultural e política deveriam ser hoje um tema central do nosso debate político contemporâneo.

12/05/2008

Sectarismo no Avante!


Num artigo de um tal Henrique Custódio, na rubrica A Talho de Foice, do jornal Avante!, é feita referência a uma comemoração que ia ter lugar no ISCTE, no dia 10 de Maio, promovida pelo Bloco de Esquerda sobre o Maio de 68.
Logo, no próprio título do artigo se inicia a provocação, O Maio deles, dando a sensação que os do PCP comemoram um outro Maio, o dos trabalhadores, esquecendo que dias antes trabalhadores do PCP e do BE e de outras tendências tinham desfilado até à Alameda Afonso Henriques sob a bandeira da CGTP.
Acho também estranho que se considere como o Maio deles, o Maio de 68,quando o PCP, que eu me recorde, organizou, numa outra data redonda, um colóquio sobre o Maio de 68. Mas, passemos adiante.
Depois toda a prosa do artigo tem um tom chocarreiro, normalmente utilizado para retratar as iniciativas do primeiro-ministro ou da direita. Assim, um almoço transforma-se em “patuscada”, o “comício da praxe é abrilhantado pelo inevitável Francisco Louçã, esse líder fatal das “esquerdas” e são promovidos “artistas mimosos” de uma dada banda
Depois, é insinuado que “por um conto reis ida-e-volta” se podia vir “passear” a Lisboa, para ouvir o Louçã, tal como os “excursionistas que vinham aos Maios promovidos pelos salazaristas nunca souberam quem era o tal “Baltazar” (faz referência à canção do Sérgio Godinho) que lhes pagava as viagens”. Ou seja, concretizando, as pessoas que vinham ouvir o Louçã, vinham só porque lhes pagavam a viagem, tal como no tempo de Salazar se fazia, quando se queria uma sala cheia.
O tom continua, agora fazendo referência a onde é que o Bloco foi arranjar dinheiro para fazer tal comemoração, já que os preços de participação eram baixos.
E termina, afirmando que o BE já arranjou lugar para si, “como se vê por esta adaptabilidade aos truques “do mundo novo” que medra por aí”.
Sei que o Daniel de Oliveira já tinha feito um post sobre este mesmo assunto, no entanto, não quis deixar de lhe fazer referência, tal é a rasquice e o sectarismo que medram na mente de certos escribas do Avante!, com a autorização do seu Director, o José Casanova.
Em todo o artigo não há uma ideia sobre o Maio de 68, alguma divergência sobre a oportunidade da comemoração, só há galhofa e graves insinuações sobre um tipo de realização que é, do ponto de vista organizacional, igualzinha às do PCP.

02/05/2008

Ainda o Maio de 68


No meu texto sobre o Maio de 68 , que a Joana Lopes que teve a amabilidade de citar, fiz referência genérica a alguns livros publicados em França sob a égide do Partido Comunista Francês (PCF) relativos aos acontecimentos que se acabavam de se desenrolar.
Um deles chamava-se Mai des prolétaires, foi escrito por Laurent Salini, estava integrado numa colecção de livros de algibeira chamada Notre Temps e era das Éditions Sociales, que eu no post referido traduzi por Edições Sociais, uma editora ligada ao PCF, que já desapareceu. O livro foi publicado em Novembro de 1968, portanto muito em cima dos acontecimentos.
No capítulo final, dedicado Em direcção ao socialismo, numa tradução da minha autoria, é afirmado o seguinte:
…“longe de transformar as “regras estratégicas em princípios morais”, nós (PCF) lutamos contra os esquerdistas não porque eles fossem “a vanguarda do movimento de Maio”, não porque eles preparassem a revolução, mas porque ao voltarem-se contra o Partido Comunista e a estratégia que propõe, travam o caminho do nosso povo em direcção ao socialismo, ajudam a contra-revolução, abrem caminho às forças reaccionárias. Combatemo-los, não porque queiram, apesar da nossa iniciativa, incentivar a luta proletária, mas porque trabalham para a enfraquecer, desviando-a dos seus objectivos. Combatemo-los porque, à tentativa de encontrar novos caminhos para o socialismo, opõem dogmas mortos, transpõem de forma livresca tácticas válidas noutros locais, mas inaplicáveis aqui, copiam tristemente experiências inspiradas por situações diferentes da nossa.
E, já que falamos de estratégia – os estrategas são muitos neste momento nas ruas de Paris – o que é que se entende por uma estratégia revolucionária senão aquela que tende a juntar efectivamente contra a burguesia e para lhe retirar o poder, forças decisivamente superiores às do adversário e a este unicamente. Toda a tentativa de dividir o movimento, toda a acção que conduza a formas de luta extremas de uma única parte das forças que se devem unir no combate contra o grande capital, toda a acção que isole um grupo de combatentes é necessariamente nefasta. É criminosa. Sobretudo quando, aproveitando a inexperiência da juventude, quer-se lançar esta, ou seja, a geração que vai carregar com o peso principal das lutas do futuro, em aventuras, que, magoando-a, arriscam-se a semear entre ela a derrota e o desencorajamento e a afastá-la do combate popular.” E o texto continuava neste termos.
É evidente, que esta é uma linguagem de palha, muito comum ontem e hoje a algum movimento comunista, no entanto, este texto não deixa de reflectir o que pensava o PCF sobre o movimento esquerdista e aquilo que ele propunha aos estudantes, bem como o que nós comunistas portugueses, ou pelo menos alguns de nós, também pensávamos sobre o assunto. E ainda hoje, sem me rever nesta fraseologia, reconheço que bem exprimido o Maio de 68, na sua forma comemorativa e retórica, pouco nos deixou que verdadeiramente seja transformador das sociedades hodiernas.
Quando ainda recentemente, no programa Prós e Contras, Fátima Campos Ferreira queria comparar o “é proibido proibir”, do Maio de 68, com a má educação de uma jovem que queria impedir que uma professora lhe retirasse o telemóvel, podemos perceber o que aquela data significa para muita gente. Lamento, mas eu não alinho nesta onda comemorativista.
Se integrarmos o Maio de 68 no conjunto de fenómenos que pelos anos 60 atravessaram as sociedades capitalistas do ocidente desenvolvido, e até algumas do socialismo real, e os confrontarmos com a posterior transformação do capitalismo, poderemos talvez compreender melhor o que se passou naqueles anos e enquadrá-los numa verdadeira perspectiva histórica.

30/04/2008

Notas Soltas


I – A suposta carta do almirante Rosa Coutinho

Há tempos António Barreto, na sua crónica que publica regularmente aos Domingos no Público, comentou muito favoravelmente um livro recentemente editado e que se chama Holocausto. Este trata da descolonização e dos primeiros anos de independência de Angola. Nesse livro aparece em fac-simile uma carta forjada do almirante Rosa Coutinho ao dirigente do MPLA, Agostinho Neto, e que António Barreto dá como verdadeira, comentando horrorizado o seu conteúdo
O assunto foi pouco referido nos media, no entanto, JoãoTunes primeiro, no Água Lisa, e depois Victor Dias, no Tempo das Cerejas, aqui e ali, na blogosfera, e Ferreira Fernandes em comentário assinado no Diário de Notícias pegaram no assunto e denunciaram a marosca.
Esperava-se que António Barreto, reconhecendo ter citado uma carta forjada, se retratasse e pedisse desculpa ao visado. No último Público de Domingo (27/04) aparece finalmente uma desculpa de António Barreto e um grande artigo, bastante crítico em relação ao cronista, do provedor dos leitores daquele jornal, Joaquim Vieira.
A história está pois contada nos sites que fui indicando. Quem a quiser seguir pode ir clicando aqui e ali e rapidamente se aperceberá do conteúdo do livro e do artigo do António Barreto.
Nesta história não sei o que mais me espanta se a suposta ingenuidade de António Barreto, que afirma textualmente, no desmentido referido: “O almirante Rosa Coutinho acaba de negar, na revista Visão, a autoria da carta. Lamento ter utilizado como argumento esse documento apócrifo. As minhas desculpas ao senhor almirante e aos leitores”, se a desvergonha de alguém que acredita que uma carta, em papel timbrado, do alto-comissário para Angola poderia conter os desplantes referidos na sua crónica. Só um espírito embotado pelo pior anti-comunismo e com pouca coragem poderia produzir estas duas coisas: citar a carta e desmenti-la posteriormente, como se fosse um pormenor sem qualquer importância


II – A ignorância dos jovens sobre o 25 de Abril

Relataram os media que Cavaco Silva no discurso que pronunciou na Assembleia da República, no dia 25 de Abril, referiu-se à ignorância dos jovens sobre o significado daquela data. Para isso citou um inquérito de opinião efectuado pela Universidade Católica em que foram feitas três perguntas a que os jovens não souberam, na sua maioria, responder. A primeira era qual tinha sido o primeiro Presidente da República eleito democraticamente depois do 25 de Abril, a segunda, quantos Estados compunham actualmente a União Europeia e a terceira, se o PS tinha obtido ou não a maioria absoluta nas últimas eleições.
Acho que anda tudo doido, como é que a partir destas três perguntas, em que duas delas nada têm a ver com o 25 de Abril e outra só indirectamente, já que o Presidente da República foi eleito muito depois, se pode induzir que os jovens desconhecem o significado aquela data. A única conclusão que se pode tirar é de que têm fracos conhecimentos sobre a história contemporânea de Portugal, não têm informação suficiente sobre a União Europeia e não estão a par da situação política actual. Nada ficamos a saber sobre a ignorância dos jovens relativa ao 25 Abril.
Esta história, que motivou um variado leque de comentário dos nossos cronistas, tem no entanto pouco tem a ver com a realidade.
Isto porque o estudo da Universidade Católica, denominado Os Jovens e a Política, é um inquérito muito mais extenso, em que aquelas três perguntam estão relacionadas com os conhecimentos políticos da população em geral e não com o 25 de Abril em particular e não se dirigem exclusivamente aos jovens.
O próprio Presidente da República no seu discurso faz uma distinção entre os objectivos do estudo, por ele encomendado à Universidade Católica, e a relação da juventude com o 25 de Abril. No entanto, ao reproduzir unicamente aquelas três perguntas e ao limitar as respostas àquela faixa etária é também responsável pela confusão gerada, que levou os media, a partir daquelas perguntas, a afirmar que os jovens desconheciam o que tinha sido o 25 de Abril.
Mesmo o Público, que cita o estudo, é capaz de afirmar que “o que mais impressiona o chefe de Estado é "ignorância" dos jovens, pois muitos não sabem sequer o que foi o 25 de Abril, nem o que significou para Portugal”. Quanto à Televisão Pública foi o descalabro, não só tirou iguais conclusões sobre a ignorância dos jovens relativamente à data, como de seguida, em inquérito de rua, foi interrogar outros jovens com as mesmas perguntas, chegando à conclusão que eles nada sabem. Alguns, por acaso, até sabiam.
Depois, para demonstrar o desinteresse do cidadão por aquela data, vai à Costa da Caparica interrogar alguns banhistas porque é que eles estavam ali a apanhar Sol e não a comemorar o Dia da Liberdade. Já se sabe este tipo de perguntas só amplia, por contraste, o desinteresse das pessoas pelo significado da data. Quando a participação cívica se torna obrigação e dever e não puro prazer, o cidadão encontra imediatamente justificações para fugir a essa participação. Por isso, parece-me sempre de mau gosto, e um apelo sub-reptício à inacção, quando um inquérito televisivo opõe praia ou férias a deveres de cidadania.
Quanto à interrogação do Presidente da República relativa à ignorância dos jovens sobre o 25 de Abril, ao menos que, para a próxima, peça que ponham uma pergunta sobre aquela data.

22/04/2008

O Maio de 68


De repente, senti-me interpelado pela Joana Lopes, do blog Entre as Brumas da Memória, a falar do meu Maio de 68.
O Maio de 68 apanhou-me ainda na Faculdade de Ciências. Curso “longo”.
À época eu era militante do PCP, portanto, tínhamos um grande cuidado em saber qual era a posição do PCF sobre o que se passava em França. Por outro lado, em Portugal, começava-se a travar um luta importante contra a deriva esquerdista que ia afligir o movimento estudantil nos anos subsequentes, agravada é certo pelo Maio de 68. Posso garantir que se este assunto foi falado entre alguma juventude universitária, nesses mesmos meses, a verdade é que as suas maiores repercussões se verificaram no ano escolar seguinte, com a queda do Salazar e a nomeação do Marcelo Caetano.
Entre estes dois factos passou-se também a Primavera de Praga, que só em Agosto desse ano se tornou quente, com a ocupação daquele país pelas tropas do pacto de Varsóvia.
Quanto ao Maio de 68, há pelo menos da parte dos jovens universitários comunistas um grande distanciamento em relação às movimentações estudantis, que considerávamos esquerdistas. Opúnhamo-las à responsabilidade dos operários, que aos milhões se puseram a fazer greve e que foram posteriormente apoiados e enquadrados pelos sindicatos e pelo PCF. Líamos muita literatura vinda das Edições Sociais, ligadas ao PCF, que em post posterior poderei referenciar, e que nos afirmavam categoricamente que os estudantes nunca seriam vanguarda de nada, nem eram capazes de fazer a revolução. Só a classe operária era depositária dessa possibilidade de transformação. Aceitámos portanto os acordos que os sindicatos fizeram com o patronato para conseguir melhores regalias sociais.
No entanto, fiquei sempre com a ideia, via Rádio Argel, que nunca fui capaz de confirmar, que o nosso PCP se tinha demarcado do PCF. Não sei se isto foi imaginação minha se de facto aconteceu. Sei que em debate recente no Vitória (PCP) ninguém foi capaz de confirmar esta minha suspeita.
Todos conhecem o final desta história. De Gaulle apela às tropas francesas localizadas Alemanha e um milhão de franceses, com Malraux à frente, desfilam nos Campos Elísios. O PCF e PS francês sofrem uma grande derrota eleitoral, confirmando aquilo que nós já dizíamos, que tudo não tinha passado de uma “anarqueirada”, para utilizar a célebre expressão de Bento Gonçalves.
É evidente que para alguns de nós outras esperanças despontavam a leste. Conhecíamos pelas revistas o novo cinema checo (eu era dirigente do cine-clube universitário - CCUL), sabíamos que uma época de renovação e liberdade se abria naquele país. Acreditávamos, alguns de nós, na possibilidade de renovação do paradigma socialista. Eu estava de férias, na praia, quando soube da ocupação de Praga. Indignei-me. Tinha saído de Lisboa com a convicção, partilhada com mais camaradas, que os checos iam no bom caminho. Eis senão quando, em Setembro, chego a Lisboa, e a palavra de ordem do Partido era apoiar a invasão. Valeu-nos nessa altura uma célebre carta, não me recordo a quem era dirigida, de Fidel de Castro, a justificar a invasão e a falar da atitude egoísta de alguns países socialistas que queriam ganhar dinheiro com a ajuda a Cuba: referia-se à Jugoslávia. Penso que também tenho um livrinho, que saiu nessa altura, com estas discussões. Aceitámos pouco convencidos, mas sem dúvida pensando que tinha sido derrotado um perigoso desvio direitista.
Neste ínterim, Salazar cai da cadeira e Marcelo é nomeado. O movimento associativo estudantil ganha uma nova dinâmica. Pelo menos, na Faculdade de Ciências, o novo Governo autoriza que haja um processo eleitoral para instalar de novo a Associação de Estudantes, eleita pelos seus sócios, pois estava a ser regida por uma Comissão Administrativa nomeada pelo Governo.
É nesta perspectiva que o Maio de 68 se começa a fazer sentir. Para a Reunião Inter-Associações (RIA), que agrupava todas as Associações Estudantis de Lisboa, é eleito no princípio do novo ano escolar um novo Secretariado, de que faziam parte o Alberto Costa (o actual Ministro da Justiça), à época militante do PCP, o Jaime Gama (Presidente da Assembleia da República), e ligado, julgo eu, à linha PS, o Serras Gago, não sei o que é feito dele, e a Teresa Melhano, boa amiga que há muito tempo não vejo.
Logo no início as Associações pretendem confrontar o novo Governo com a agitação estudantil e por isso são lançadas algumas manifestações e contestações. Sei que não tiveram êxito, mas que levaram a uma situação caricata, que está relacionada com o Maio de 68. Jaime Gama, em nome do Secretariado da RIA, devia levar a um plenário um moção de convocação de uma manifestação. Não o fez e a moção ficou sempre no seu bolso. Era inevitável a sua demissão do Secretariado. O seu discurso de justificação pela atitude tomada começou assim: “Lisboa não é Nanterre” e depois partia para outros considerandos de que eu já não me recordo.
Quanto às eleições em Ciências, a influência do Maio de 68 começava-se a fazer sentir. Foi criado um mural onde todos podiam escrever o que lhes apetecia. Nada disto se passava anteriormente. Os discursos dos candidatos, principalmente dos mais jovens, o que não era o meu caso – fui candidato a vice-presidente – eram muito mais soltos, os temas de Maio começavam a fazer o seu percurso. Era possível fazer reuniões, que provavelmente teriam um nome especial, de acordo com a linguagem do Maio francês, por tudo e por nada. Muitos dos participantes, alguns chegados mesmo de França reclamavam-se da míriade dos pequenos partidos existentes entre os estudantes franceses. Tive dificuldade em adaptar-me a este novo estilo, fui considerado um revisionista de direita e progressivamente fui-me afastando da Associação.
Tempo depois e na linha do Maio de 68 rebenta a crise académica em Coimbra.
Tenho a certeza que depois de Maio, e com o atraso típico de Portugal, a Universidade não foi a mesma. Já em 69, penso que no final do ano lectivo 68/69, o Secretariado da RIA cai e o Arnaldo de Matos é eleito para ele. Em Ciências nunca mais ninguém do PCP pôs os pés na Direcção da Associação de Estudantes. As direcções seguintes eram na sua totalidade “esquerdistas”. Mesmo, o “pobre” cineclube que durante tantos anos tinha sido influenciado pelo PCP acaba os seus dias com direcções do MRRP.
Penso que o Maio de 68 esquerdizou de forma irreversível, até ao 25 de Abril, o movimento estudantil. Quanto às liberdades de género, sexuais e outras, penso que, desde 62-64, elas se foram progressivamente introduzindo no estrito universo universitário, tendo-se alargado por esta época. Mas ainda me recordo que havia alguns jovens que tinham sérios problemas com os pais, que não os autorizavam a passar noites fora de casa ou mesmo a poderem sair à noite.
Estas recordações feitas de chofre, sem recurso a papeis ou a bibliografia, poderão vir a ser completadas se para tanto acharem qualquer interesse nestas minhas memórias.

20/04/2008

Ponto da Situação


Pela leitura rápida que fiz de alguns blogs de referência reparei como as minhas intervenções na blogosfera se encontravam tão desfasadas da realidade. Acontecia-me a mim o mesmo que aos doutores da Igreja que, na Bizâncio cercada, continuavam a discutir o sexo dos anjos. Por isso resolvi entre dois post sobre Leituras de um Convalescente voltar um pouco à realidade.

I – Eleições italianas
Primeiro gostaria de manifestar o meu espanto e tristeza por os comunistas italianos ou os seus herdeiros não terem qualquer representação parlamentar. Aquele que tinha sido o mais forte partido Comunista do Ocidente, que maior contribuição tinha dado para a actuação dos comunistas em regime de democracia parlamentar e que era herdeiro do legado desse grande teórico que tinha sido Antonio Gramsci, deixa de estar representado no Parlamento e no Senado italianos. Um pesadelo.
A nossa direita exultou. Teresa de Sousa afirma no Público, de 16/4, que esse facto “representa uma saudável clarificação” e continua: “aliás, se há um sinal de novidade e de regeneração do sistema político italiano ele vem daí – da esquerda que não é essa "esquerda". Talvez esperançada que em Portugal se dê alguma vez essa mesma clarificação, que o PCP e BE deixem de vez de estar presentes no Parlamento e que o PS sozinho e sem qualquer constrangimento possa afirmar que representa toda a esquerda.
Segundo afirmar o óbvio, os italianos gostam imenso destas personagens histriónicas, que de Mussolini a Berlusconi, sempre representaram o pior da vida política italiana. Mas isto é uma constatação, que não justifica em nada o que se passou.
Terceiro referir por graça que uma das causas que foi apontada por Daniel de Oliveira, no seu interessante artigo no Arrastão, para a perda de votos dos comunistas foi a sua integração numa coligação, a que chamaram Esquerda Arco-Íris (Sinistra L’Arcobaleno), tendo a foice e o martelo desaparecido dos boletins de voto. Pelo contrário, em Portugal o PCP sempre concorreu debaixo de outra sigla (excepto nas duas primeiras eleições do pós-25 de Abril) e foi a direita, com a cumplicidade do PS, que obrigou a incluir nos boletins de voto o seu símbolo.
É evidente que tudo isto são opiniões avulsas, de quem está longe da realidade italiana e não dispõe de instrumentos de apreciação que lhe permitam fazer a análise do resultado das eleições naquele país.

II – O “entendimento” nos professores
Já muito se escreveu sobre este acordo, que os sindicatos designam por “entendimento”, entre os professores representados pelos seus órgãos de classe e o Ministério da Educação.
Penso que todos aqueles que, como o Miguel Sousa Tavares, queriam uma política de porrete para meter os sindicatos na ordem se vêm agora frustrados porque estes foram a solução do problema e não, como eles julgavam, a causa do mesmo.
Por outro lado, achei graça que uns anos depois da vaga esquerdista ter sido derrotada neste país, ainda alguns ingénuos e outros ressabiados, como a Ana Benavente, porque não tiveram o protagonismo que gostariam de ter, clamam que os sindicatos traíram a vontade dos professores. Já se sabe que os media fizeram imediatamente grande eco destas posições e assim entrevistaram um professor que declarou que mais valia morrer de pé do que ceder. Só a grande ingenuidade e a falta de experiência política-sindical pode levar alguns a fazerem estas declarações e a tomarem esta posição. Quem já anda nisto há muitos anos e se bateu sempre contra o esquerdismo e a falsa radicalidade pode perceber que este tipo de posições surge sempre quando a luta abrange novas camadas. A falta de experiência histórica é sempre má conselheira.

III - A lei do divórcio
Por minha grande ignorância eu pensava que o problema do divórcio estava resolvido em Portugal, eis senão quando o BE apresenta uma lei que, segundo eu depreendi, acabava com o divórcio litigioso e permitia, por opção única e exclusiva de um dos cônjuges, a separação. Na altura não dei grande importância ao assunto. Mas eis que o BE volta à carga, depois de ver o seu primeiro projecto chumbado, e o PS no mesmo dia anuncia que irá apresentar um lei que, com diferenças que parece que são significativas, vai no mesmo sentido. Achei em princípio bem.
Feito o anúncio, não é que a Igreja faz constar que está contra e um dos seus membros chega a clamar que estávamos perante um Estado “militantemente ateu”. “Coitado” do Sócrates, podem-no acusar de muitas coisas mas desta é que ele de certeza não estava à espera.
A Igreja tem, quanto a mim, toda a liberdade para se pronunciar sobre este assunto, não pode é fazer afirmações extravagantes como aquela que reproduzo e acho que é um disparate vir clamar contra o fim do divórcio litigioso, quando este, segundo as estatísticas, não representou no ano passado mais do que 6% do total de divórcios e hoje os que se realizam por mútuo consentimento estão, parece-me, bastante facilitados sem, que eu conheça, objecções de fundo daquela instituição.
Mas o mais grave, não foi a posição da Igreja, foi o que disseram os comentadores de direita, desde Vasco Pulido Valente a Constança Cunha e Sá, que criticaram e disseram que estávamos perante uma grave ofensa à Igreja feita pelo Governo do PS. Estas críticas são feitas unicamente porque pensam que o PS cedeu ao BE, ou seja, às “causas fracturantes” deste partido, abandonando por instantes a sua política de direita de que eles tanto gostam. Até porque é gente que nem católica é, que já se divorciou inúmeras vezes e que portanto não é por razões de fé, mas pela sua atávica formação de direita que toma posição contra esta legislação.

Como o texto já vai longo deixo para outra oportunidade o caso Fernanda Câncio e a demissão de Luís Filipe Menezes

16/04/2008

Leituras de um convalescente II – Ryszard Kapuscinski (1932-2007)


Neste conjunto de leituras que fui fazendo durante a minha convalescença referir-me-ei, por conveniência de apresentação, a dois livros que li do jornalista polaco Ryszard Kapuscinski, falecido o ano passado.
Há muito que conhecia as traduções que regularmente a Campo das Letras vinha fazendas das reportagens que aquele autor fazia dos diversos conflitos africanos. No entanto, porque o tema nunca me pareceu suficientemente aliciante, nunca tinha adquirido qualquer dos seus livros, até que finalmente, porque o assunto me parecia mais próximo das minhas preocupações políticas, resolvi comprar e ler O Império (Campo das Letras, 2005).
É um livro profundamente crítico do que foi o”império” soviético e que descreve bem o seu estertor final. Relembro unicamente o primeiro capítulo, passado durante a juventude do autor, em que este descreve de forma profundamente negativa a chegada das tropas soviéticas à sua aldeia natal. Esta ficava situada naquela parte da Polónia que foi atribuída pelo pacto germano-soviético à URSS e que foi ocupada por esta em Setembro de 1939, quando Hitler invadiu a Polónia. Havia razões históricas para a URSS reivindicar e ocupar aqueles territórios, pois ficavam a leste de uma linha que o insuspeito Lord Curzon tinha estabelecido no final da I Guerra Mundial como fronteira natural entre a Polónia e o nascente Estado soviético e que aquela ocupou por ter saído vitoriosa na guerra que travou contra este. Eram territórios da Ucrânia e da Bielo-Rússia, que ainda hoje continuam a fazer parte daqueles dois países. No entanto, isso não autorizava a URSS a cometer as barbaridades que se conhecem, como o massacre dos oficiais polacos em Katyn, nem o que é descrito pelos olhos de uma criança no livro de Kapuscinski.
Impressionado pela leitura daquele livro pus-me a ler durante o período de convalescença as Andanças com Heródoto (Campo das Letras, 2007) e o recentemente publicado Os Cínicos Não Servem para Este Ofício, Conversas Sobre o Bom Jornalismo (Relógio de Água, 2008).
Do primeiro livro, que não achei especialmente interessante, retirei a história da primeira viagem do autor ao Ocidente, a Roma, a caminho da Índia para fazer uma reportagem sobre aquele país, que na altura tinha adquirido a independência, e a homenagem, sempre constante ao longo de todo o livro, a Heródoto, que, com o seu livro Histórias, tinha dado origem na Grécia antiga à história, como disciplina credível.
Relembro, porque gostei muito do filme, O Paciente Inglês, de Anthony Minghella, recentemente falecido, que transportava sempre consigo um exemplar das Histórias de Heródoto.
Quanto ao pequeno livro de Kapuscinski sobre jornalismo, para além de uma entrevista em que o autor denuncia a situação actual em que se faz jornalismo, com os jornalistas completamente submetidos aos grandes monopólios dos media, pareceu-me ser um livro inútil, a viver do prestígio do seu autor. Aquele não passa de um conjunto de entrevistas que Kapuscinski deu em Itália nos longínquos anos de 90 e que a organizadora, Maria Nadotti, reuniu para uma edição original em 2002, e que foi recuperada em 2008, à míngua de novas ideias, por uma editora nacional.
Espero no próximo capítulo voltar a temas mais interessantes e convidativos.

Leituras de um convalescente – O nazismo e o fim de Hitler

Saí do hospital com uma contratura lombar. Um jeito, ao deslocar-me na cama, no último dia de internamento, fez com que em vez de sair do hospital pelo meu próprio pé tivesse que ser transportado numa cadeira de rodas. Daí resultou que a primeira semana em casa fosse passada deitado na cama, com um saco de água quente nas costas. E, para entreter o tempo, livros à volta. Já não era a primeira vez que isto me sucedia e em qualquer dos casos pude sempre pôr em dia as minhas leituras.
Começar por onde? Por aquele que me pareceu mais simples e mais descritivo. Assim, estriei-me com o livro de António Louçã e de Isabelle Paccaud, O Segredo da Rua do Século, Ligações perigosas de um dirigente judeu com a Alemanha nazi (1935-1939) (Fim de Século, 2007). É a descrição do desmoronar de uma reputação, de alguém acima de qualquer suspeita, que sempre, no entanto, tivera com o fascismo português as melhores relações, mas de quem não se suspeitava até ao momento que tivesse sido condecorado pela Alemanha nazi. Livro bastante interessante, relata inclusivamente o papel que o jornal O Século desempenhou na propaganda daquele regímen entre nós. Estas revelações provocaram alguns engulhos à comunidade judaica portuguesa, que não acredita naquelas ligações e apareceu em força em sua defesa. Quanto a mim não me restam dúvidas. Sempre me recordo o nome do Moses Amzalak como um dos figurões do salazarismo.
Passei em seguida para A Queda, Hitler e o fim do Terceiro Reich, de Joachim Fest (Guerra e Paz, 2007). Em jeito de chamariz a editora acrescenta na sua capa “O livro que deu origem ao Filme”. De facto, este livro juntamente com o depoimento da última secretária de Hitler, Traudl Junge, expresso em Até ao Fim, Um relato verídico da secretária de Hitler (Dinalivro, 2005), que eu já tinha lido, inspiraram o argumento do filme A Queda, Hitler e o fim do Terceiro Reich, do realizador alemão Olivier Hirschbiegel. Este filme tinha provocado em mim um grande impacto na altura em que se estreou, ao ponto de ter comprado o DVD respectivo quando este apareceu à venda e tê-lo visionado quase fotograma a fotograma. Isto porque me impressionou de sobremaneira o universo claustrofóbico em que os dirigentes do III Reich tinham vivido os seus últimos dias, bem como o suicídio dos principais dirigentes nazis, que é amplamente mostrado no filme. Conhecia o caso de Hitler e da sua mulher, de Goering, que não é relatado no filme, e que se verificou durante o julgamento do responsáveis nazis em Nuremberga, provavelmente já teria lido referências ao de Goebbels, mas nunca ao da sua mulher e ao assassinato dos seus cinco filhos e muito menos ao da oficialidade mais responsável, que na parte final do filme, e penso que com veracidade, quase que praticam um suicídio colectivo.
Do livro não me ficou mais do que aquilo que eu sabia do filme. Quem, como eu, tiver a curiosidade de conhecer os últimos dias do nazismo pode de facto ler os dois livros que serviram de inspiração ao filme. Mas penso que seria igualmente interessante contar a história do cadáver de Hitler, ou do que restou dele, e como a sua falsa ausência alimentou durante tanto anos a Guerra-fria. Um trabalho documentado e sério sobre isto exige-se, pelo menos eu não o conheço.
Por último, e integrado neste conjunto de livros li o O Livro de Hitler, (Alethëia, 2006) que de acordo com o que é dito na capa constitui um “Dossier secreto do NKVD, encomendado por Josef W. Estaline, organizado com base no interrogatório feito em Moscovo, entre 1948 e 1949, a Otto Günsche, oficial das SS e responsável pela agenda político-militar de Hitler, e a Heinz Linge, mordomo de Hitler”. O livro tem um prefaciador e dois organizadores. O prefácio é um pequeno compêndio de revisionismo histórico na linha de que Hitler estava bem para Estaline. Cito alguns exemplos, só para recordar aos meus leitores em que consiste esta nova maneira de tratar a história da Segunda da Guerra Mundial. Interroga-se o prefaciador: “o que terá levado ao interesse mútuo entre os líderes das duas mais fanáticas ideologias que, no século XX, precipitaram Europa no abismo?” Ou seja, para este prefaciador, a responsabilidade pela II Guerra Mundial é de Hitler e Estaline, os estados ocidentais nada tiveram a ver com isto. Mas para além de outros mimos, bem mais graves, temos igualmente este: “A vitória militar, que ditava a ofensiva contra a União Soviética, levou-a a aliar-se a Estados Ocidentais com ideologias pelo menos tão opostas como a da Alemanha de Hitler, nomeadamente os Estados Unidos e a Grã-Bretanha”. Ou seja, o prefaciador esquece que em Junho de 1941, quando Hitler invadiu a URSS, os Estados Unidos ainda não tinham entrado na guerra, e que foi Churchill, sozinho a enfrentar o esforço de guerra contra a Alemanha nazi, quem propôs de imediato uma aliança com a URSS.
Não será este o espaço indicado para debater este novo revisionismo histórico, encabeçado hoje pela direita e por alguma esquerda sem referenciais históricos. Quanto ao livro em si é uma história, que engloba os últimos dias do nazismo e de Hitler, redigida para agradar aos soviéticos, já que os narradores estavam prisioneiros daqueles. Não retive na memória nada que merecesse especial destaque.
Em próximo capítulo irei fazer referência a outras leituras sobre temas diferentes.

13/04/2008

O “meu caso”, as procissões hospitalares e “A Sala Magenta”


Quando passava longas noites sem dormir no hospital, arranjava sempre modo de passar as horas elaborando mentalmente o que poderia escrever quando tivesse acesso ao meu blog. Era uma forma de me manter intelectualmente activo e de ir entretendo a insónia que sempre me ataca nos períodos pós-operatórios.
Pensava contar o “meu caso”, descrever tudo aquilo que padecia e que me tinha levado até àquela situação. Pensava que do ponto de vista da medicina o assunto poderia interessar. Por outro lado, como hoje está na moda criar blogs onde se vai descrevendo o sofrimento dos pacientes, pensei que tinha chegado a minha vez de mostrar os meus dotes de escritor.
Chegado a casa e tendo deparado com um computador avariado e uma enorme falta de vontade de fazer seja o que for, reparei como seria ridículo pôr-me a descrever a minha situação, mesmo que ela tivesse qualquer interesse clínico.
Por isso, passados que são já quase três meses sobre a minha operação, resta-me aquilo que também me entretinha o tempo e me dava alento para aguentar o internamento hospitalar, que é descrever a situação em que decorre hoje o dia a dia de uma enfermaria, neste caso com doentes recentemente operados.
Na altura teria de certeza muito mais queixas e imprecações contra o hospital público. Hoje, e porque é um assunto que de cada vez que sou internado me desperta a atenção e que até ao momento nunca encontrei resposta para ele, limito-me a relatar unicamente este caso.
Existem três turnos diários de enfermeiros e de pessoal auxiliar, penso ser esta a designação correcta para aquele pessoal que nos hospitais nos fornece as refeições, faz a cama e atende, em primeira linha, os nossos pedidos. Os turnos são de oito horas, começando o primeiro às oito da manhã, o segundo às quatro da tarde e o terceiro, penso que às onze, isto porque, segundo me disseram, é para o pessoal não sair tão tarde dos hospitais e não ter problemas de transportes e de maus encontros.
Ora a mudança de turno durante a tarde não tem qualquer problema. Dantes, quando as famílias tinham um horário muito limitado de visitas, correspondia à hora do lanche e ao enxotar das mesmas. O mesmo já não sucede com a mudança da noite. Assim, o que se verifica, é que o turno que vai sair prepara tudo para, pelo menos, deixar deitados os doentes e as luzes da enfermaria apagadas. Isso acontece aí pelas dez horas. Ora, à meia-noite e meia, um pouco menos ou um pouco mais, quando estamos no nosso melhor dos sonos – aqueles que conseguem adormecer – eis que percorrem os corredores e nos entram pela enfermaria a dentro, os auxiliares a perguntarem se queremos beber uma coisa a que eles chamam “leitinho quente”, que nem é leite, nem está quente, ou então um chá que eu, porque não aprecio, nunca soube se sabia de facto a qualquer coisa de parecido. Por outro lado, os enfermeiros vêm-nos dar os últimos comprimidos e medir-nos a tensão e a temperatura. Acrescente-se que os comprimidos são transportados num carro, normalmente pouco oleado, que percorre os corredores a fazer uma chinfrineira dos diabos. Um pouco depois daquela intromissão, os enfermeiros ou o pessoal auxiliar vem rapinar os sofás que estão atribuídos aos doentes, e onde estes passam o dia, levando-os em comboio pelos corredores fora até ao local onde, penso eu, aproveitam para descansar durante a noite, já que não devem dispor de camas para esse efeito. Esses sofás são distribuídos novamente pelas enfermarias na manhã seguinte, mas muitas vezes não se recupera o sofá que se tinha ganho na véspera. É sempre um risco e um motivo para estar de olho alerta.
A situação anteriormente descrita repete-se com a mudança de turno da manhã. Como o pessoal sai às oito, tem que deixar os doentes já medicados e com o tal “leitinho” tomado, que não é equivalente ao pequeno-almoço, já que este só virá pelas nove, dez horas. Ou seja, pelas seis e meia, na melhor das hipóteses sete, lá vem novamente a procissão com os carros e o “leitinho”, e os doentes, que muitas vezes só agora conseguiram adormecer, são acordados violentamente para se dar início a esta nova operação.
A isto acresce, que aqueles que conseguem readormecer são novamente acordados pelas senhoras da limpeza, que entre as oito e as nove horas vêm proceder à limpeza da enfermaria. Acendem as luzes, por vezes ligam a televisão sem ninguém lhes pedir, conversam durante todo o tempo entre si e lá nos impedem mais uma vez de dormir.
Fui encontrar uma descrição semelhante, muito mais bem escrita é evidente, no belo romance de Mário de Carvalho, A Sala Magenta, em que a personagem principal, que funciona como narrador, diz a determinada altura (página 22): “Do hospital guardava a memória duma voz feminina … e do escarcéu brutal de todas as mudanças de turno, em que o pessoal irrompia pelos corredores aos berros, com pancadas nas portas, e chinfrim de latas batidas, como se fossem agredir os doentes, a ideia mais próxima que tinha da invasão dos bárbaros….”
Penso sinceramente que estes horários deveriam ser modificados. Provavelmente dir-me-ão que não há outra solução, que os doentes devem ser medicados àquelas horas, que um diabético não pode estar muito tempo sem ingerir qualquer coisa. Tudo isso são boas razões, mas até hoje nunca ninguém me conseguiu explicar devidamente, porque se interrompe tão violentamente o sossego daqueles que tanto necessitam dele.
Não gostaria de terminar este meu post sem reconhecer que sou a favor do Serviço Nacional de Saúde e por isso recorri a ele. Que do ponto de vista médico e mesmo de enfermagem sempre fui excelentemente tratado. Que utilizaram cirurgicamente as melhores técnicas que tinham à sua disposição e que os médicos e enfermeiros sempre se esforçaram com grande qualidade por executarem as suas tarefas com a maior probidade e competência. Este agradecimento era devido e indispensável.

03/04/2008

Iniciar actividade

Ao fim de mais de dois meses e meio de paragem forçada eis que retomo o contacto com a blogosfera. Poder-se-ia depreender do meu último post que as razões seriam motivadas pela falta de saúde, o que também é verdade. Mas, para minha desgraça, foi o computador que entrou em colapso, frequentemente mostrava um daqueles ecrãs azuis que são sempre sinónimo de erro fatal e de que nada se pode fazer senão recomeçar o mesmo tantas vezes quantas ele queira. Por fim, o disco rígido, entrou em colapso e o o fabricante não teve outra alternativa senão recolhê-lo e eu esperar pacientemente que o mesmo fosse arranjado. Hoje vim a descobrir que parece estar na mesma. Este meu post é só para vos avisar que se desaparecer outra vez a culpa é do computador e não do meu estado de saúde.
Um abraço a todos.

18/01/2008

As palavras dúbias de um comentador de direita


Publicou Pacheco Pereira (PP), no Sábado passado, mais uma das suas crónicas (Os velhos do Restelo contra a West Coast of Europe) que escreve regularmente para o Público. Depois da sua leitura, percebe-se que ele se dirige genericamente aos apoiantes de Sócrates e de Luís Filipe de Menezes, ao centrão, que criticam os Velhos do Restelo, que seria formado por ele próprio, Vasco Pulido Valente (VPV) e António Barreto (AB). Este grupo caracterizar-se-ia por não se conformar com o Portugal expresso pelos cartazes com que o Governo entendeu fazer propaganda ao nosso país, localizando-o na Costa Oeste da Europa, fugindo, provavelmente com medo dos camelos e dos atentados, a situá-lo ao Sul. Deste modo, PP e consortes consideram-se os Velhos do Restelo em luta contra os situacionistas do regime.
Partindo desta ideia simples, que no seu conjunto é um disparate, mas que se coaduna com aquilo que PP gostava que pensassem de si, começa a disparar em todas as direcções, atribuindo-se, e provavelmente aos outros, a participação em batalhas em que a maioria dos novos comentadores não participaram.
Assim, fala de um tempo em que a luta contra os comunistas era conduzida por poucos e em que “o arranque da historiografia e da sociologia para fora das baias do antifascismo e do jacobinismo se lhes deva em parte (VPV e AB, digo eu), quando a academia permanecia gloriosamente dominada pelo PCP e pelos esquerdistas”. PP aparece assim como um herói avant-la-lettre, coisa em que o comum yuppie (a expressão é dele) dos nossos dias não tem pergaminhos.
Para um sexagenário como eu, da mesma geração que a dos Velhos do Restelo, esta referência aos novatos, à gente sem espessura, nem história, nem formação é sempre agradável de ouvir. Pode-se dizer que li um pouco embevecido algumas das críticas que lhes eram dirigidas.
Mas eis que um jovem de outra geração, Rui Tavares, numa crónica que escreveu igualmente para o jornal Público, se sente atingido pelas afirmações de PP e acutilantemente lhe responde, garantindo que este, “como opinador independente e corajoso que é,... não consegue citar um nome, responder a uma opinião, refutar um argumento. O seu confronto faz-se fantasmagoricamente, contra categorias vagas de gente — os “modernizadores”, os “pensadores-engraçadistas”, os “inocentes úteis” — em estilo críptico de treinador de futebol”.
Tal como afirmei no princípio, se a crónica tem destinatários gerais, não consegue particularizar nenhum dos seus adversários, ficando de forma enviesada pela generalidade dos comentadores.

Mas o que diz Pacheco Pereira: “Não adianta sequer dizer à ignorância impante que, com excepção de meia dúzia de conservadores, poucos, aliás, a "luta final" que terminou em 1989 com a queda do Muro de Berlim, como escreveu Silone, foi mais entre comunistas e ex-comunistas. Os grandes textos simbólicos contra o comunismo, O Retorno da URSS, O Zero e o Infinito, o 1984 e O Triunfo dos Porcos, vieram de homens como Gide, Koestler e Orwell. Nos momentos mais duros da guerra fria, os ex-comunistas e os liberais mais radicais com quem se aliaram foram os únicos a travar o combate intelectual contra a hegemonia intelectual comunista. Revistas como o Encounter ficaram como exemplo dessa aliança em tempos bem mais difíceis do que os de hoje. E que, nos momentos decisivos do fim do império soviético, quando o expansionismo soviético conheceu o seu espasmo agressivo entre o Afeganistão e Angola, só ex-comunistas, como Mário Soares, e ex-maoistas lutaram contra a URSS, a favor de dissidentes soviéticos como Sakharov, em Portugal, em França com os "novos filósofos", mesmo nos EUA, onde muitos neocons vinham da esquerda radical americana.”
Transcrevi longamente esta pérola de PP para mostrar como este historiador se auto-valoriza e incensa todos aqueles que, como ele, vieram do maoismo e do marxismo-leninismo.
Começa PP por atacar os tais “ignorantes impantes” que não sabemos quem são. Pode até coincidir com a minha apreciação, que sempre tive a pior das opiniões de alguns dos intelectuais orgânicos do actual situacionismo, mas ao qual não são alheios PP, VPV e AB.
Depois, socorre-se de Silone para afirmar que a “luta final” seria entre comunistas e ex-comunistas, porque os conservadores seriam muito poucos. Desconheço estas afirmações de Silone, mas elas nunca se poderiam referir ao fim da União Soviética, porque este escritor morreu antes de ter a “felicidade” de assistir a tal fim.
A seguir altera francamente a história do século XX e da luta contra o comunismo. Porque ao citar Gide, começa por localizar o seu início entre as duas Guerras, o que é justo. Ora é preciso ter desplante para esquecer a ofensiva fascista, e não só, contra os comunistas. A “luta final” para alguns, e não foram poucos, foi de facto a sua encarceração na prisão e em campos de concentração e a política levada a efeito por um conjunto de intelectuais, muitos hoje esquecidos, que contribuíram de forma decisiva para a prevalência daquela ideologia e do combate anticomunista. Hoje é prática corrente dos anticomunistas hodiernos tentar provar que se havia uma ditadura fascista havia igualmente uma ditadura ideológica comunista, como o seu confrade Rui Ramos vem regularmente afirmando (ver aqui).
Quanto ao pós-guerra resume a luta anticomunista a uma aliança entre os intelectuais ex-comunistas e uns poucos ultraliberais. Ou seja, tenta generalizar a situação de França a todo o campo “ocidental”. Naquele país, que não é mencionado, a maioria dos intelectuais conservadores bandearam-se com o colaboracionista Pétain e mesmo com o nazismo, e por isso havia uma prevalência das ideologias de esquerda. O que não sucedeu por exemplo nos EUA, onde a sinistra Comissão das Actividades Anti-Americanas, com a sua caça às bruxas, levou à prisão ou forçou à emigração alguns dos mais importantes cineastas e argumentistas de Hollywood, com a acusação de serem comunistas. Depois, para sua desgraça cita a revista Encounter, que hoje se sabe que foi financiada pela CIA, tal como o Congresso para a Liberdade da Cultura, que de facto apostou em alguns ex-comunistas, e não só, como força de choque para a luta contra os comunistas (ver a obra – “Qui Mène la Danse? La CIA et la Guerre Froid Culturelle”, de Frances Stonor Saunders, da Denoel, 2003).
E para provar as suas afirmações mistura três intelectuais de diferentes níveis e formações. André Gide, um grande escritor, que no auge da ascensão do fascismo colaborou momentaneamente com os comunistas, mas que depois de uma visita à URSS (“Retour de l’URSS” - 1936), num ano tão terrível como o dos primeiros processos de Moscovo, se desiludiu com a mesma. No entanto, nunca passeou pelos corredores do poder a sua profissão de fé anti-comunista.
Arthur Koestler que de militante comunista passou, com a sua mais famosa obra “O Zero e O Infinito” (1941) (há uma primeira tradução portuguesa de Domingos Mascarenhas, um jornalista ligado ao cinema e à direita, de 1947, da Livraria Tavares Martins – Porto) a activista anticomunista e a um dos principais suportes do já referido Congresso para a Liberdade da Cultura. A parte final da sua obra é dedicada à ciência e à parapsicologia, deixando em testamento dinheiro para se fundar uma cátedra desta última “ciência”.
Quanto a George Orwell, bem conhecido e incensado, é involuntariamente, porque morreu em 1950, um dos principais expoentes da ofensiva anticomunista do pós-25 de Abril em Portugal – Júlio Isidro dedicou-lhe na televisão pública uma tarde de Sábado no ano referente ao seu mais célebre livro, 1984. Sabe-se hoje que escreveu listas com os nomes de intelectuais com possíveis afinidades comunistas e as entregou ao Governo Britânico.
Continuando na senda do seu auto-elogio, fala em que só um ex-comunista como Mário Soares – há quantos anos ele tinha pertencido ao PCP? - e ex-maoistas empreenderam a defesa de Sakarov e lutaram contra a URSS. Aqui esquece como os maoistas há muito já tinham classificado a URSS e os partidos que a apoiavam como social-fascistas e como o seu camarada de partido Durão Barroso se passou gloriosamente da luta contra os sociais-fascistas para a luta contra os comunistas. Ou então, quando ele e Mário Soares apoiavam, em nome provavelmente da solidariedade atlantista, um bando de assassinos chefiados por Jonas Savimbi, e esqueciam, como foi provado recentemente, o massacre perpetrado em Angola contra comunistas (Nito Alves, Sita Valles, Zé Van Dunen e mais 30 mil companheiros).
É preciso ter uma grande ousadia para transformar em heróis um conjunto de personalidades de diferentes origens e percursos (ex-maoistas, como ele, “novos filósofos” franceses ou neoconservadores americanos) que se prestaram a defender a ideologia dominante e a usufruírem gloriosamente das cadeiras da fama e do poder.
Por tudo isto, sendo sempre agradável ouvir dizer mal dos yuppies dos nossos dias, considero que Rui Tavares tem toda a razão para criticar PP, esse “glorioso” lutador do anti-comunismo.

PS. Este vosso comentador suspende por algum tempo a sua intervenção porque vai ser submetido a uma operação cirúrgica melindrosa. Depois relatarei as minhas impressões.

11/01/2008

Um Camelot du Roi à Portuguesa


Fui assistir na quarta-feira ao doutoramento no ISCTE do jovem José Neves – a quem dou os parabéns – sobre o tema Comunismo e Nacionalismo em Portugal – Política, Cultura e História no Século XX. No final da sua dissertação afirmou que, com a sua tese, quis também escrever a história na perspectiva dos vencidos e citou, como contraponto à sua intenção, uma frase que tinha lido nesse dia e que atribuiu ao “historiador do Público”: Luís Pacheco, recentemente falecido, tinha vivido entre duas ditaduras a de Salazar e a do PCP. Fiquei espantado, tinha lido naquele jornal os textos necrológicos que normalmente são reunidos quando alguma personalidade relevante morre e não tinha encontrado nada que se pudesse assemelhar a tão estranha, mas corrente afirmação.
Descobri que José Neves já tinha lido o Público desse dia e que frase era do historiador Rui Ramos, que semanalmente, às quartas, tem uma crónica naquele diário.
A frase, que depois encontrei, referia-se ao drama dos "jovens intelectuais" da "colheita literária de 1945" – Cesariny, O’Neil e outros, incluindo Luís Pacheco –, que "passaram os trinta anos seguintes a ser moídos entre a ditadura política do Estado Novo e a ditadura cultural do PCP". Ou seja, por outras palavras, confirmava-se o que eu tinha ouvido da boca do José Neves.
Já se sabe que para reforçar esta provocação o “historiador do Público” tinha que recorrer à bênção de algumas prestimosas figuras intelectuais: Eduardo Lourenço, que segundo o autor explica bem esta situação, ou então ao diário de Virgílio Ferreira ou à correspondência de Jorge de Sena. Os dois últimos estão mortos e não podem vir desmentir o que se lhes atribui. Provavelmente Virgílio Ferreira até concordaria, quanto a Jorge de Sena, tenho dúvidas. Em relação a Eduardo Lourenço considero-o probo de mais para aparecer misturado com este pequeno provocador de direita.
Mas analisemos a prosa deste camelot du roi de trazer por casa. Os trinta anos a seguir a 45, altura em que surgiu o surrealismo, que desalinhou com o "nacionalismo salazarista e o neo-realismo comunista", vão parar a 1975, o que só por manifesta ignorância se pode considerar como a época "colonizada por “antifascistas” e académicos, todos muito respeitáveis". Todos sabemos, os que vivemos aquela época, que em 75, vá lá nas vésperas do 25 de Abril, há muito que o neo-realismo como corrente literária tinha esgotado a sua capacidade de intervenção, e que se de facto os grandes escritores portugueses eram antifascista, o que deve desagradar muito a este corifeu da direita, a verdade é que novos caminhos literários e com outras problemáticas tinham surgido. Não falando do Virgílio Ferreira, temos, no entanto, o Cardoso Pires, o Augusto Abelaira, o Stau Monteiro, o Nuno de Bragança, o próprio Urbano Tavares Rodrigues, que estava longe de ser neo-realista. Ou gente que veio do surrealismo, como o Ernesto Sampaio, o Virgílio Martinho ou o Mário-Henrique Leiria, e depois, como o Luís Pacheco, se aproximaram do PCP.
É difícil a um historiador, que tinha meia dúzia de anos em 74 perceber este meio literário, cheio de pequenas intrigas, que tinha ódios de estimação, recordava memórias e picardias de há vinte ou trinta anos atrás. Mas uma coisa era certa não usufruíam das sinecuras, dos bons lugares, dos convites para a rádio e a televisão, não reforçavam de certeza o seu fim de mês com a prosa escrita para os jornais do regime. Por isso, para os bem instalados de hoje este meio pode parecer claustrofóbico, mas a única ditadura que havia era de Salazar, com a PIDE a vigiar os cafés e a fazer relatórios sobre o que aqueles “irados” diziam.
Mas depois desta prosa do Rui Ramos, o mais espantoso é lermos o Avante! desta semana, dedicando um longo texto ao Luís Pacheco, escritor e comunista, com um discurso do José Casanova, no seu enterro, lembrando que uma das condições que ele exigiu para se tornar membro do Partido, é que tivesse um enterro como o Ary, com bandeira do PCP e discurso.
Pode o Sr. Rui Ramos tentar recuperar para a sua ideologia o Luís Pacheco, o provocador dos grupos “nacionalistas e neo-realistas”, mas na sociedade dominada pela beatice e pelo respeitinho o Luís Pacheco tinha sempre que ser subversivo, coisa de que está longe ser o “historiador do Público”.

PS.: Camelots du Roi, grupo de provocadores católicos e monarquistas, adeptos da Action française, de Charles Maurras, que pontificavam entre as duas guerras e que participaram activamente nos motins provocados pela extrema-direita em França, no dia 6 de Julho de 1934.

09/01/2008

A Regra do Jogo


Esta noite estreou-se na SIC Notícias mais um programa de debate. Aquela estação de televisão, percebendo que o seu público é sensível ao confronto de ideias, tem espalhado ao longo da semana diversos modelos de debate. Este é semelhante à Quadratura do Círculo, dado que há também um moderador e comentadores residentes, que se movem politicamente em redor do Bloco Central. Assim, no confronto desta noite estrearam-se José Miguel Júdice e António Barreto, moderados por António José Teixeira.
O programa chama-se indevidamente A Regra do Jogo, que foi o nome de um filme, uma das grandes obras-primas entre as duas Guerras (1939), de Jean Renoir. Uma comédia de enganos que antevia a guerra que ai vinha, feita por um realizador que pouco tempo antes tinha realizado a La Vie est á Nous, uma homenagem ao Partido Comunista Francês e ao Governo da Frente Popular de 1936. Portanto, pouco recomendável para nome de programa do sistema.
É evidente, que António Barreto, no contexto actual, aparece como muito crítico em relação ao Governo de José Sócrates e às suas escolhas. Basta ler os seus artigos do Público para se perceber as suas claras opções críticas e como neste momento não está enfeudado a nenhum partido político, pode evitar os pinos que os comentadores ligados aos partidos do centrão são obrigados a dar. No entanto, em nome de que valores critica? Não é de certeza em nome da esquerda.
Quanto a José Miguel Júdice está tudo dito. De fascista, com actividade reconhecida na Universidade de Coimbra antes do 25 de Abril, passando por preso político durante o PREC e exilado em Espanha a trabalhar no departamento político do MDLP, a apoiante pela direita do Governo de José Sócrates, é um bom exemplo do que a necessidade camaleónica obriga. Por isso, nada de bom deste comentarista há-de vir.
Quanto aos temas abordados: foram a ASAE, o referendo europeu e a Mensagem de Ano Novo do Presidente da República. Em relação ao primeiro todos estiveram de acordo, o que é fácil suceder. Quanto ao referendo já se conhecia a defesa que dele faz António Barreto. Quanto a Júdice, na linha de José Sócrates, é contra. Relativamente à Mensagem do Presidente, principalmente na parte referente aos ordenados dos administradores, manifestaram-se contra aquelas palavras. Acham que a defesa de um certo moralismo não deve ser apanágio do Estado. São favoráveis, se fosse caso disso, ao aumento fiscal sobre aqueles elevados rendimentos. Apresentaram, neste caso, um discurso muito menos ultraliberal do que os intervenientes na Quadratura do Círculo por mim referidos em post anterior.

08/01/2008

Declaração de Princípios


Num ímpeto de fazer o meu próprio caminho sozinho, resolvi à pressa construir o meu blog. Todas as vezes que inscrevia a minha palavra-passe no site onde colaboro, para inserir novos posts, aparecia sempre a sugestão de criar um novo blog. Hoje finalmente não resisti.
A primeira pergunta foi qual era o nome? Fui buscar às memórias da adolescência um nome, um dito, alguma coisa que fosse comum a um conjunto de jovens que, pelos inícios dos anos 60, passeavam a sua ociosidade pela Lisboa daquela época. E nada melhor de que o grito que eu lançava de vez em quando: Trix-nitrix, penso que designava um fecho-éclair, mas nem isso estou seguro. Aquela onomatopeia era gritada unicamente pelo prazer de juntar aquelas palavras, pela riqueza da sua sonoridade.
Depois, a segunda pergunta foi qual era o texto que eu queria inserir? Fiquei aflito, não tinha ainda nenhuma Declaração de Princípios para publicar. Veio-me à memória, uma célebre Declaração escrita por Kane (Orson Welles), no Mundo a seus Pés (Citizen Kane), em colaboração com o seu crítico teatral (Joseph Cotten), para o jornal que ia dirigir e a felicidade que lhe estava estampada no rosto depois de a ter assinado no final da noite. Eu não tinha ainda redigido nenhuma Declaração e o primeiro texto que de que me lembrei foi o prosaico post que recentemente tinha publicado sobre a Mensagem de Ano Novo de Cavaco Silva.
Mas para que quero eu um blog? Para poder, quando me apetece, escrever aquilo que penso sem achar que este ou aquele texto não se enquadram no estilo ou no projecto dos sites para onde escrevo normalmente os mesmos textos: o blog já referido ou o site da Renovação Comunista.
Nesse sentido, este vosso blog será um local de reflexão pessoal e de armazém de textos já publicados ou que irei dando à estampa regularmente.
Que tenha sucesso é o meu desejo.