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20/10/2009

Coligações e acordos e as suas ilusões. Um artigo Sarsfield Cabral


Foram publicados ontem no Público dois artigos interessantes pelo contraditório que estabelecem entre si a propósito de coligações governamentais ou acordos de incidência parlamentar que poderiam resultar da eleição de uma maioria de esquerda para o Parlamento.
Assim, Sarsfield Cabral escreve um artigo, a que chama A retórica da esquerda unida, afirmando liminarmente que o PS está muito mais próximo politicamente do PSD e do CDS do que da sua esquerda, Bloco e PCP.
Cipriano Justo, assinando o artigo como dirigente da Renovação Comunista, retira lições das recentes eleições autárquicas para Lisboa – Lisboa é uma lição – e afirma que existe um bloco social que não se revê na fragmentação da esquerda.
Sou daqueles que mais tenho falado do problema da maioria de esquerda, da sua unidade e alianças. Não vou enumerar todos os posts em que já fiz referência a este tema, mas porque ele está na ordem do dia, vou, como se compreende, voltar a ele.

Sendo rápido e incisivo, direi que não é por acaso que à direita, entre PSD e CDS é tão fácil estabelecer acordos e que à esquerda, entre PS e PCP, isso tem sido impossível. É mais fácil, como já se verificou no passado, entre o PS e os outros dois partidos da direita, do que com os da sua esquerda. Este facto assenta na história recente da democracia portuguesa, mas igualmente na inserção de Portugal, no confronto da Guerra-Fria, num dos Blocos militares. Hoje estes já desapareceram, mas a sua memória e a nossa integração na NATO é ainda motivo para oposição a alianças entre o PS e a sua esquerda.
Como sabem, no tempo do PREC, a ruptura política deu-se entre os “moderados” do MFA, tendo por detrás o PS e toda a direita, e a esquerda militar gonçalvista e a extrema-esquerda otelista. A primeira era apoiada pelo PCP e a segunda por uma míriade de pequenos partidos da extrema-esquerda. Como eleitoralmente o PCP era o único que tinha votos, a acção dos partidos da extrema-esquerda esteve extremamente limitada, só tendo expressão eleitoral nas eleições presidenciais, como foi a primeira candidatura de Otelo, em 1976, à presidência da República e a de Maria de Lurdes Pintassilgo, anos depois.
Nesse sentido, sempre que houve na Assembleia da República maioria de esquerda, o PS tudo fez para que o PCP não entrasse para o Governo. Temos assim, o primeiro Governo PS sozinho ,em 1976, seguido depois do PS-CDS, com fingidas negociações com o PCP, e já posteriormente, nos anos 80, um Governo do Bloco Central, PS-PSD.
Guterres governa também em minoria, tentando no seu último Governo, quando já só lhe restava o queijo limiano, fazer acordos com o PCP, mas aí, verdade se diga, a situação, já era um bocado diferente dentro deste partido.
Mas não foi só a própria história da Revolução de Abril a influenciar estas opções do PS, foi como afirmei as pressões internacionais dos “nossos amigos” da NATO e das forças económicas dominantes em Portugal a impedirem que tal sucedesse.
Sem vos querer maçar com história da última metade do século XX, remeto-vos para um filme que está presentemente em exibição, chamado Il Divo, de Paolo Sorrentino, que é a biografia, dos últimos anos, de um dos políticos mais importantes da Democracia Cristã Italiana, um dos mais corruptos e dos mais comprometidos com a Máfia, e onde por meias palavras se fala na estratégia seguida em Itália, por uma facção da democracia-cristã, da extrema-direita, dos serviços secretos e da loja maçónica P 2, para numa estratégia de tensão, que implicava atentados bombistas e assassinatos, de que o de Aldo Moro é um possível exemplo, impedir o acesso do euro-comunista Partido Comunista Italiano ao poder.
Por isso, todos aqueles que, com alguma facilidade, falam das coligações ou alianças do PS com os partidos à sua esquerda não podem esquecer o peso histórico dessa interdição e, a meu ver, José Sócrates não tem o mínimo perfil político para ser capaz de na sociedade portuguesa romper com esta chantagem que a direita sempre impôs ao PS.
O artigo de Sarsfield Cabral é mais uma acha para as pressões de direita e do capital, já também expressas pelo patrão dos patrões, de impedir qualquer aliança do PS com a sua esquerda.
Gostaria, no entanto de chamar a atenção para que o texto daquele articulista é uma resposta a um abaixo-assinado, que por aí circula e de que Cipriano Justo é um dos principais subscritores, para um Compromisso de Esquerda. Apelo à estabilidade governativa. Assim, diz Sarsfield Cabral: “O tema da unidade da esquerda é propício a tiradas retóricas. Um mínimo de honestidade intelectual, sobretudo por parte de políticos com currículo e responsabilidades, deveria desfazer o nevoeiro ideológico e sentimental, evitando o palavreado oco para analisar o que, de facto, une e separa os partidos que se dizem de esquerda.” Sarsfield Cabral da sua superioridade de direita e de amigo do capital resolve falar da desonestidade intelectual dos outros. Sobre o conteúdo do próprio artigo e do seu desmascaramento já se pronunciaram, e bem, Ricardo Noronha, no 5 Dias, e Vítor Dias, em O Tempo das Cerejas.
Mas este exemplo só vem ilustrar, como em muitos outros que eu já descrevi, de que as alianças do PS com a sua esquerda não é um assunto fácil, de que se entra e sai, como nos acordos entre Paulo Portas e Santana.

Resta o artigo de Cipriano Justo, que analisarei numa segunda parte.

14/10/2009

Alianças, compromissos e voto útil. Resultados em Lisboa


II – Os resultados em Lisboa

Fazendo o mesmo tipo de comparações que efectuei para o conjunto do país, verifica-se que para a cidade de Lisboa votaram praticamente o mesmo número de eleitores que há quatro anos: menos 2 mil desta vez. Este facto está correlacionado com a diminuição do número de eleitores nesta cidade, ao inverso do que sucede no resto do país. Mesmo assim, houve uma diminuição da abstenção, menos 0,78 % do que em 2005.
Como se sabe o PS oficial, aliado às correntes de esquerda do PS e com o apoio de alguns independentes, conseguiu uma vitória expressiva para o executivo municipal. Assim, teve cerca 48 mil votos a mais do que nas autárquicas de 2005 – a comparação com 2007, em termos de votos, que é o meu critério principal, é enganosa, dado a maior abstenção verificada naquelas eleições intercalares –. Comparando com as legislativas de há quinze dias atrás, o PS subiu cerca de 11 mil votos. Serão estes os tais 11 mil votos de que falava Santana Lopes na noite das eleições?
Quanto à coligação de direita vamos a números. O PSD e CDS em 2005 tiveram em conjunto, já que concorreram separados, cerca de 135 mil votos. Agora, em coligação, mais uns partidinhos para alegrar, tiveram cerca de 108 mil. Perderam portanto entre umas e outras 27 mil votos. Como sempre não comparo com as intercalares de 2007. Em relação às legislativas de há quinze dias perderam cerca de 21 mil votos, pois tiveram cerca de 129 mil nas legislativas. Ou seja, Santana e companhia não fez o pleno da direita em Lisboa, a culpa não foi só do voto de esquerda em Costa, foi também o medo que alguma direita tem de Santana Lopes.
É bom que se diga que o grau de participação nas legislativas é maior do que nas autárquicas. Há mais abstenção nestas últimas.
Quanto à CDU, perdeu cerca de 10 mil votos das autárquicas de 2005 para estas últimas eleições e perdeu cerca de 5 mil em relação às legislativas de há quinze dias. Houve 5 mil votos que fugiram à CDU. Terá sido para o voto útil em Costa?
No Bloco a situação ainda é mais complicada, perdeu cerca de 10 mil votos das autárquicas de 2005 para as de agora e perdeu cerca de 19 mil em quinze dias.
Conclui-se pois que, a nível do executivo municipal, só o PS é ganhador em Lisboa, o que se torna claro olhando para a maioria absoluta obtida para a vereação.

Falemos agora do desvio tão falado entre os resultados para o executivo e para a assembleia municipal. O PS perdeu cerca de 13 mil votos. A coligação de direita ficou quase na mesma e a CDU ganhou cerca de 6 mil votos e o Bloco cerca de 6 mil. Ou seja, a CDU e o Bloco contribuíram em partes iguais para a maioria absoluta de Costa, já que este só ganhou a Assembleia Municipal por cerca de 2 mil votos de diferença em relação à coligação de direita.
Como se compreende Costa não tem a maioria absoluta na Assembleia Municipal, precisará dos votos dos deputados da CDU para a eleição da própria mesa da assembleia ou para a aprovação de quaisquer outros diplomas, a não ser que conte com a boa-vontade da coligação de direita ou da sua abstenção. O PS e a coligação de direita ficaram com o mesmo número de deputados municipais: 23. Restam os presidentes de junta de freguesia, que por lei integram a Assembleia Municipal

Falemos agora dos votos para as assembleias de freguesia no seu conjunto. Aqui quem ganha é a coligação de direita, com cerca de mais de 9 mil votos do que o PS. A CDU sobe em relação à Assembleia Municipal, cerca de 9 mil votos, o mesmo que o PS perde em comparação idêntica. A votação do Bloco não se altera.
Foi provavelmente este aumento das listas de direita no conjunto das freguesias que fez Santana afirmar na noite eleitoral que o PS tinha ganho o executivo camarário com os votos da CDU. É mentira. Como se viu para a Assembleia Municipal Costa ganhava as eleições por pouco. Obteve foi a sua maioria absoluta com o contributo em igual proporção da sua esquerda.
Mas também não é verdade aquilo que Costa disse na noite eleitoral que tinha ganho em 36 freguesias. Ora ele ganhou foi na votação para o executivo municipal, pois a coligação de direita ficou com 26 juntas de freguesia, o PS com 22 e a CDU com 5. Devido a este facto, a coligação de direita junta aos seus deputados municipais mais 26 presidentes de freguesia, o que lhe permite ter mais 4 deputados do que o PS.

Por aquilo que se conhece da vida autárquica foi o trabalho do PSD e da CDU na vida das freguesias que lhes valeu terem maior votação nestas. O que reflecte verdadeiramente o voto útil é a diferença entre os votos para o executivo e para as assembleias municipais. Por esse motivo, é que, de um modo geral, a CDU apresenta quase sempre os seus resultados autárquicos com as votações para as assembleias e não para os executivos.
Por isso, foi estultícia de Santana Lopes dizer que foi devido a um acordo secreto entre Costa e a CDU que aquele ganhou Lisboa. O que sucedeu é que a esquerda, à esquerda do PS, tomada de medo e devido ao isolamento em que estes partidos se colocaram, foi, em partes iguais, votar Costa.
Mas esta interpretação fica para outro post.

Os resultados eleitorais podem ser consultados aqui

20/07/2009

A governabilidade, a política de alianças à esquerda e o voto útil – II


No post anterior afirmei que a previsível, mas não garantida, subida da esquerda, à esquerda do PS, estava a alarmar a direita, tendo esta, por essa razão, recomeçado a defender alterações constitucionais para artificialmente obter a governbilidade do país.
Gostaria neste post de relançar um outro problema que atravessa toda a esquerda, qual fantasma que percorre a Europa (Marx dixit), que é o das alianças à esquerda.

Comecemos pela nossa história recente.
Como resultado do PREC formaram-se na sociedade portuguesa dois blocos políticos, um maioritário, chefiado por Mário Soares, e que agrupava o PS e toda a direita, outro bastante mais reduzido que englobava o PCP e a esquerda radical, mas que entre si não tinham qualquer unidade política.
Por esta razão, como eu já afirmei no post anterior, o PS sempre se recusou a fazer alianças à sua esquerda, ou seja, com o PCP, já que a outra não tinha expressão parlamentar. As suas propostas foram sempre de governar sozinho e quando não podia, fazia o “sacrifício” de governar coligado com o CDS ou o PSD. No fundo, Portugal reproduzia as clivagens da guerra-fria: os partidos da governabilidade, eram pró-americanos e os outros, ligados aos vários campos comunistas.
E quando alguém no PS se atrevia a sugerir alianças à sua esquerda lá vinha a ladainha que esses eram partidos anti-NATO, e depois, mais tarde, anti-União Europeia. Desaparecido o campo comunista, como o entendíamos antes da queda do Muro de Berlim, acabada, pelo menos em palavras, a guerra-fria, ainda hoje a direita com a cumplicidade do PS, continua a chamar aos partidos à esquerda dos socialistas, anti-NATO e anti-União Europeia e radicais e extremistas. Sobre isto já escrevi vários posts (ver aqui e aqui), que só vêm sublinhar o bloqueamento por parte do PS oficial de qualquer aliança com a sua esquerda. Neste aspecto, como noutros, a linguagem da guerra-fria continua a manter-se e o PS nada faz para que haja uma reversão destes factos.
Manuel Alegre nos seus recentes encontros com o Bloco de Esquerda e a Renovação Comunista, quer no Teatro da Trindade, quer na Aula Magna, pretendeu desbloquear esta situação, iniciando, e bem, uma diálogo com a sua esquerda. Houve de facto frutos, mas quanto a mim eles não são ainda transponíveis para estas eleições.

Como é que o PCP tentou, sem êxito, romper estes bloqueamentos que o PS e a direita lhe estavam a impor desde a instituição do Estado constitucional, saído do 25 de Abril?
Primeiro, tentando puxar o PS para a sua área. Na altura, falava muito em partidos democráticos, em oposição aos não democráticos, que seriam o PSD e CDS. Esta linguagem ainda teve algum curso, e irritou particularmente aqueles partidos, hoje está completamente fora de uso. Depois, evita defrontar em conjunto o bloco PS, mais a direita. Por exemplo, na primeira eleição de Ramalho Eanes, em 1976, para Presidente da República, não apoia qualquer candidato “unitário”, como na altura foi sugerido pelo MDP, que queria Costa Gomes, e sacrifica o seu dirigente Octávio Pato. Por razões mais tarde compreensíveis, foge, como Diabo da Cruz, de se juntar a Otelo, que era o candidato da esquerda radical nessas eleições.
Em seguida é a questão, já abordada num post anterior, dos cartazes a falar da eleição de uma maioria de esquerda para a Assembleia da República e a sua posterior transformação de maioria numérica em política. Por último, é a operação PRD, que visa enfraquecer o PS e encontrar à sua direita um possível aliado. Essa operação culmina com o apoio a Salgado Zenha, contra Lurdes Pintassilgo, Mário Soares e Freitas do Amaral, nas eleições para Presidente da República de 1986. Tudo isto saiu furado e teve-se que ir à última da hora votar em Mário Soares. Hoje tenho dúvidas se não se devia ter apoiado Lurdes Pintassilgo. Os “esquerdistas” diriam que o PCP, na hora da verdade, preferiu sempre alianças à sua direita do que à sua esquerda.
Depois foi “a apagada e vil tristeza” dos últimos anos em que a perspectiva unitária se transformou em fazer aliança consigo mesmo, ou seja, com os Verdes e a Intervenção Democrática.

Quanto à política de alianças do Bloco – partido recente, apesar da sua origem na esquerda radical, com a qual cortou –, já escrevi um longo texto sobre esse assunto, a propósito da intervenção do Louçã na sua IV Convenção. Aí falava da sua proposta para uma esquerda grande e que esta seria “anti-capitalista, porque só pode ser socialista”, em ruptura com a actual prática “terceira-via” do socialismo dito democrático e reformista, ou de centro-esquerda. Ou então, da defesa que fez de uma convergência de esquerda que não deve ter pressa, ou seja, que só se poderá concretizar para depois destas eleições, já que naquele momento nada garantia que Manuel Alegre se afastasse do seu partido e formasse um novo.

Deste longo arrazoado fácil é de concluir que, neste momento, não são previsíveis alianças à esquerda. Sem querer pretender ser moralista, é razoável concluir que o PS é quanto a mim o principal culpado. Poderíamos dizer, como agora é vulgar afirmar, que está no seu código genético a pulsão para ser um fiel reprodutor entre nós, primeiro, das práticas atlantistas de não se coligar com comunistas. Segundo, como defensor do chamado socialismo reformista, e seguindo as directivas da terceira-via, enfileirar no apoio ao neo-liberalismo triunfante e ao chamado reformismo, que não passa de repor a ordem estabelecida antes da instalação do estado de bem-estar social. Hoje, com a crise e a retoma do papel do Estado e com vista a piscar o olho à esquerda, vem contrapor um maior intervencionismo estatal, contra uma Manuela Ferreira Leite ainda sem saber que programa e que princípios há-de defender, se os de Pedro Passos Coelho da privatização da Caixa Geral de Depósitos, se os de rasgar todas as medidas de cárter social ou então deixar tudo como dantes.
Este é o PS que temos, com quatro anos de um longo Governo responsável por medidas bem gravosas contra os trabalhadores, como o Código de Trabalho ou o ataque aos professores, fechando as portas a qualquer saída possível, ou ainda por todas as pequenas injustiças e trapalhadas na administração pública. Um primeiro-ministro autista e arrogante, que depois de entradas de leão, muito apreciadas por quem gosta de pulso forte para governar o povo, se transforma num empecilho, mesmo para aqueles que tanto apreciavam o seu estilo.
Quanto às outras esquerdas estão na retranca: o PCP, a garantir a sua sobrevivência, e o Bloco pensando que ainda não está chegado o momento de fazer a convergência de esquerda, e provavelmente terá razão, pois com este PS e o seu Governo não é possível qualquer entendimento.
Nesse sentido, todos aqueles que neste momento apelam ao voto útil no PS, pois não há outro, para combater a direita e a sua actual versão, que pode acabar num Governo e num Presidente, estão a dar um voto em branco a Sócrates, não percebendo que com ele a esquerda não irá a lado nenhum.
Este tem sido sempre o dilema da esquerda, que é votar útil naqueles que miticamente se consideram de esquerda, e depois ficar desiludida porque o seu voto não serviu para nada a não ser para prolongar a vida daqueles que nunca cumpriram as promessas feitas.
Que cada homem e mulher vote em quem em sua consciência pensa que na esquerda melhor defende os seus interesses. Eu por mim votarei no Bloco.


Resta o problema bem real, mas se não houver maiorias absolutas de nenhum dos lados, que fazer? Em post posterior tentarei responder a essa pergunta

04/06/2009

As eleições para o Parlamento Europeu


Reparei ontem que estando umas eleições à porta ainda não me tinha pronunciado sobre elas. Há tempos tinham-me criticado por não ter manifestado nenhum apoio à manifestação da Inter. Justifiquei que a minha postura política pressupunha um claro apoio à manifestação e que, como não tinha havido nenhum debate político-ideológico que merecesse a minha tomada de posição, o meu comentário era desnecessário. Não sei se convenci o meu crítico. Mas a razão era de facto essa.
No entanto, em relação a umas eleições em que há diversos candidatos não posso admitir que à partida os meus leitores deduzam a minha intenção de voto, apesar de eu pensar que muitos já estarão a dizer: “olha este, está a fazer-se caro, vai votar no Bloco de Esquerda e ainda finge que temos dúvidas em quem vai votar”.
A verdade é que a minha decisão há muito que está tomada e por ser linear não me pareceu que fosse necessário explicitá-la, daí não ter ainda elaborado nenhum texto. Mas aqui vai um.

Hoje, penso que para à esquerda o inimigo principal é o José Sócrates e a sua clique. Emprego esta expressão datada, mas suficientemente explícita para designar aquilo a que me quero referir. E faço esta delimitação, porque considero que o inimigo principal nunca será o PS no seu conjunto, mas o grupo a que me refiro.
José Sócrates pela sua arrogância, autismo e pesporrência conseguiu criar na sociedade portuguesa um conjunto de anti-corpos difíceis de superar. Rodeou-se simultaneamente de um conjunto de apaniguados (José Lello, Santos Silva, Edite Estrela, etc.) que ainda o superam em antipatia pessoal.
Reconheço que a esquerda não deve ter ódios às pessoas, mas sim às políticas. O PCP e o Bloco referem-se constantemente à necessidade de uma nova política. Simplesmente eu entendo que se a política até agora seguida pelo Governo de José Sócrates foi de direita e mereceu, mesmo que encapotadamente, o apoio daquela área política, não deixa de ser verdade que ultimamente, num esforço para não se distanciar da esquerda, seja de Manuel Alegre, seja daqueles dois partidos, até tem tentado tomar medidas que parecem ser de esquerda. Simplesmente é tarde e provavelmente já não consegue convencer ninguém de que prossegue uma política de esquerda, nem vai retirar votos à direita, pois neste momento os eleitors desta área política pensam que está a seguir uma política demasiado de esquerda para o seu gosto. Por outro lado, José Sócrates, não prossegue unicamente uma política errada, a prática utilizada é perfeitamente repulsiva. Queremos correr com o Governo de Sócrates não só pelas políticas que tem vindo a seguir, mas igualmente pela forma como actua. Isto implica não votar em Vital Moreira nestas eleições, que por sinal, num claro mimetismo com o herói dos seus artigos no Público, consegue ser tão arrogante como ele.
Por outro lado, nas eleições para o Parlamento Europeu o voto útil não é importante. Se, como forma de protesto, o Bloco e o PCP tiverem muitos votos ou o PSD ganhar, ninguém se importa muito com isso. É mais um deputado num Parlamento tão distante, que nem percebemos qual a sua função. E a derrota do PS, para quem não é ferrenho deste partido, corresponde a uma suave alegria. Uma forte alegria só acontecerá se perder por muitos a maioria absoluta nas próximas eleições legislativas, mantendo-se no entanto à frente do PSD por um ou dois deputados. Mas isso é assunto para falarmos lá mais para o Verão.
Quanto ao voto no Bloco ou na CDU a situação é mais complicada. Ambos os partidos fazem parte do mesmo agrupamento político no Parlamento Europeu, apesar das suas posturas em relação à Europa serem diferente. Aqui, no entanto, a nossa opção tem mais a ver com as nossas preferências nacionais e com o modo como cada um dos partidos se posiciona para a resolução da actual crise sócio-política. E para mim torna-se cada vez mais claro que o Bloco e a sua área de possível convergência (PS de Manuel Alegre) começa a ser hoje, na sociedade portuguesa, a alternativa possível e politicamente consistente à governação de direita, seja ela protagonizada pelo PS-Sócrates ou pelo PSD/CDS. Hoje o PCP é um partido bloqueado, sectário, fechado sobre si próprio, incapaz de representar uma saída de esquerda para actual situação política. Lamento ter de dizer isto, sei que no futuro terá obrigatoriamente que ser parte de uma solução à esquerda, mas enquanto esta direcção e orientação política permanecerem, é impossível a sua colaboração numa saída e alternativa de esquerda.

15/04/2009

Apelo à Convergência de Esquerda para a cidade de Lisboa


Provavelmente alguns dos meus leitores já se interrogaram que sendo eu membro da direcção da Renovação Comunista (RC) e deputado municipal independente pelo Bloco de Esquerda ainda não tenha dito nada sobre o Apelo à Convergência de Esquerda nas Eleições para Lisboa promovido inicialmente pela RC e subscrito por várias personalidades, que na altura da sua apresentação já ultrapassavam os 200 subscritores.
Aqui vai a minha opinião e a indicação do site onde o Apelo pode ser lido e subscrito.


Têm alguns camaradas renovadores feito referência aos aspectos negativos deste Apelo. Assim, não só admitem que o mesmo pode sobrevalorizar e dar credibilidade ao candidato da direita, como reforçar a votação em António Costa porque, sendo o que está em melhor posicionado para derrotar a direita, promove o voto útil nele.
Nem no Apelo, nem na sua apresentação se realça exclusivamente esse facto. Santana Lopes não aparece como o papão que obrigaria a esquerda a unir-se de imediato. Este aspecto foi bem sublinhado na intervenção inicial de Paulo Fidalgo (ver fotografia) e na de um dos signatários, Aquilino Ribeiro Machado, na sessão de lançamento do Apelo. Esperemos pois que durante todo o desenrolar da recolha de assinaturas, aquele surja como defensor de uma coligação positiva e não apareça como uma união negativa contra alguém.
Os media com a ânsia de personalizar tudo, já garantiram que o candidato dos subscritores é António Costa, quando o que se disse, pela voz de Paulo Fidalgo, foi que sendo o PS o partido mais votado em Lisboa era natural que coubesse a ele a indicação do candidato a Presidente. O que não impede que subscritores mais próximos do PS vão garantindo que este é o seu candidato (ver aqui). Por outro lado, o Diário de Notícias refere-se mesmo a Frente anti-Santana arranca em Lisboa. Contra isto é muito difícil traçar armas, mas sabendo nós o que a casa gasta, não podemos ficar paralisados e não agir, porque os media nos deturpam as palavras.

Este Apelo já mereceu de dois dos seus principais destinatários algumas críticas que me parecem injustas. As primeiras vieram do PCP, que pela voz de um responsável pela organização de Lisboa diz que o PS virou completamente à direita e que por isso não se pode fazer coligações com ele. Por outro lado, o seu candidato ao executivo camarário desvaloriza a acção de António Costa (AC), garantindo que o mesmo favorece a “especulação imobiliária”, tal como os seus antecessores de direita. Parece-me que o primeiro é um argumento de circunstância, pois o PS não é um partido homogéneo, e nem todos os seus militantes a votantes se podem globalmente meter no mesmo saco. O segundo, uma desculpa sem grande fundamento, já que AC devido às enormes dificuldades económicas em que foi encontrar a Câmara pouco tem feito, para se lhe poder assacar essas malfeitorias.
Já Jerónimo de Sousa, mais agreste, depois de formular uma boutade em que ninguém acredita, ou seja, que já concorre coligado na CDU, garante que o PCP está mais interessado em discutir políticas do que lugares na Câmara, mal de que acusa o PS. Ora nem o Apelo, nem quaisquer declarações de AC levam a pensar que assim seja. Parece também uma desculpa, neste caso um pouco menos inocente.
Já o Bloco de Esquerda, pela voz de Francisco Louçã, garante que o Apelo “é uma forma de apoio a António Costa, mais nada” (Visão, de 9/4/09, sem link).
Este perigo, como se viu no início, é verdadeiro, mas aqui parece-me que a razão é outra. O Bloco, depois do fracasso da iniciativa junto de Helena Roseta, gostaria de passar desapercebido nestas eleições. O importante para aquele partido são as legislativas, que se irão realizar um pouco antes das autárquicas. Qualquer coligação com o PS, que não abrangesse toda a esquerda e que desse a entender que a sua luta contra aquele partido não é para valer, enfraquece a sua posição para as eleições legislativas. Por isso, qualquer proposta que chame a atenção para a necessidade de convergência à esquerda em Lisboa, abre um debate que desvia a atenção do essencial, que é tirar a maioria absoluta ao PS.
É evidente que estes argumentos utilizados para apreciar a posição do Bloco podiam também aplicar-se ao PCP, simplesmente este partido já apresentou argumentário que, no essencial, se pode considerar como pouco credível e por isso facilmente rebatível. Por outro lado, neste momento alimenta uma posição estratégica que pretende a todo o custo conservar a sua identidade política, não alimentando ilusões sobre alianças com outras forças, que não sejam aquelas que tradicionalmente estão debaixo da sua área de influência.
Já os parágrafos anteriores estavam redigidos quando no Esquerda.net se diz que dirigentes do Bloco declararam à imprensa que este Apelo “representa um apoio a António Costa que nada traz de novo ao debate sobre as políticas para a cidade".
Aqui, repetindo o que já tinham declarado à Visão, acrescentam qualquer coisa de inédito, que um Apelo político de personalidades tão diversas deveria desde logo propor um programa para a cidade. Lamento, mas considero esta, uma desculpa de mau pagador.

Em relação ao PS reconheço que é o Partido que sai mais favorecido com este Apelo. António Costa já nas eleições anteriores tinha alimentado a possibilidade de uma coligação para Lisboa. Se fez os esforços necessários, não sei. Mas na altura muitas das respostas que obteve tinham a ver com o timing apertado daquelas eleições. Depois foi conseguindo pescar à linha os vereadores que lhe faltavam. Teve êxito. Hoje deixa correr ideia que também estaria interessado num coligação. No entanto, ao fazer no Congresso do PS as declarações que fez, tornou muito difícil qualquer aliança para a cidade de Lisboa. Reconheço que depois de se chamar "parasita "a uma força política não seja fácil convencê-la que se fez aquelas declarações no calor da polémica. Já temos, contudo, conhecido volte faces mais espectaculares e em política tudo é possível. Constato que este é o obstáculo mais difícil de vencer.
O medo que as forças minoritárias de esquerda têm que este Apelo favoreça o PS e António Costa poderia ser combatido se qualquer delas fosse capaz de dar a volta por cima e encostar o PS à parede, confrontando-o com as suas verdadeiras intenções. Sei que é uma operação arriscada, mas não impossível.

Quanto à Renovação e à sua intervenção neste Apelo algumas considerações se devem fazer. Na recente história deste movimento político a sua preocupação unitária é conhecida. Dissidente do PCP e pretendendo renovar o movimento comunista em Portugal é fácil compreender a sua pulsão unitária, que só a crescente sectarização do PCP tem vindo a destruir como património histórico daquele movimento. Nesse sentido, a redacção de um apelo à convergência em Lisboa é compreensível e desejável e vai pois no sentido do seu passado. Simplesmente, a sua intervenção na realidade política diária, a inserção dos seus militantes nas forças políticas existentes, provoca sempre nos momentos em que há que fazer opções à esquerda algumas divisões e incompreensões. No fundo, a Renovação Comunista balança entre o ser uma força política interveniente na realidade ou em transformar-se num movimento de discussão e de estudo da situação do comunismo hoje. Já foi assim a quando das anteriores eleições legislativas (as de 2005) em que uma parte maioritária da Renovação decidiu fazer um acordo com o Bloco de Esquerda contra a vontade de uma minoria. Hoje, novamente, alguns renovadores são sensíveis às posições do Bloco e consideram desadequado lançar este Apelo que irá favorecer a estratégia do PS e de António Costa. Recordam com alguma nostalgia as últimas eleições presidenciais em que os renovadores se distribuíram pelas diferentes candidaturas de esquerda.
É quanto a mim o dilema que a RC enfrenta e que mais cedo ou mais tarde os seus dirigentes e militantes têm que dirimir, decidindo se querem ser um grupo de estudo ou um movimento de intervenção política, com uma estratégia própria.

E o que pensa o autor destas linhas de tudo isto, já que não pode unicamente ficar na pele de comentador da sua própria participação. Em primeiro lugar valoriza a tradição unitária comunista assinando o Apelo e considerando que ele corresponde a um amplo anseio de um grande número de eleitores que desejam que a esquerda se apresente unida às eleições municipais para a cidade de Lisboa. Até porque isso já foi possível e correu bem.
Em segundo, entende que o Apelo deve privilegiar os aspectos positivos que essa unidade representaria para a cidade. Não isentando de culpas qualquer dos intervenientes se ele não se concretizar. Nunca devemos em qualquer caso assumir a posição de idiotas úteis da candidatura de António Costa.
Em terceiro, pensar que a Renovação Comunista pode e deve assumir uma maior intervenção política, podendo-se mesmo transformar em partido, não se limitando a aparecer exclusivamente na época das eleições, já que a falta de intervenção política constante leva muito dos seus militantes a procurarem outras forma mais expeditas de militância.
Por último desejar que o Apelo tenha êxito e que a convergência das esquerdas em Lisboa seja uma realidade.

17/01/2009

Cautela com os amores, nem Alá sabe onde é que acabam?


Não me irei debruçar sobre estas declarações extremamente infelizes do Cardeal Patriarca de Lisboa. Há quem admita que o senhor estaria com uns copitos a mais e que, por esse motivo, a tradicional vigilância opinativa que a Igreja impõe aos seus ministros foi abandonada por momentos. No entanto, elas podem ser entendidas como uma crítica ao multiculturalismo defendido no “Ocidente” por certa esquerda ou por aqueles que advogam o politicamente correcto. Hoje a direita e alguma esquerda são contra a permissividade em relação a outras civilizações, culturas e comportamentos que afrontam claramente os valores ditos ocidentais. É evidente que, na maioria dos casos, aquilo que se critica refere-se normalmente aos praticantes da religião muçulmana.
É sobre isto que gostava de fazer alguns comentários.
Primeiro, manifestei-me na altura própria em artigo na net, que hoje já não sei a onde é que anda para poder linkar, contra as posições de alguma esquerda que achava que se deviam censurar as gravuras sobre Maomé publicadas num jornal dinamarquês de extrema-direita. Pensava eu, que não se devia proibir a publicação daquelas gravuras, ao contrário da posição na altura igualmente assumida pela Igreja Católica, pois estaríamos a abrir a porta para que qualquer crítica à religião pudesse ser censurada em nome da ofensa aos seus praticantes. Nesse artigo enumerava os atentados à liberdade desencadeados em Portugal, já depois do 25 de Abril, em nome dos valores ditos religiosos. Recordava um episódio antigo (1979) de uma bomba que rebentou junto ao cinema que estava a exibir As Horas de Maria, do António de Macedo.
Segundo, penso que se deve criticar todos os atentados aos direitos das mulheres praticados em países muçulmanos, bem como a permissão em alguns daqueles países da justiça ser regida pela lei corânica. Mas esta crítica não deve ser desenquadrada das implicações políticas e sociais que estes comportamentos acarretam às populações que são vítimas destas tradições. Sabemos que muitas vezes atrás destes princípios religiosos vem a defesa do conservadorismo social e político, a manutenção das classes dominantes no poder e a preservação de estruturas sociais arcaicas. Por isso, quando hoje se assiste à crítica das acções de grupos ditos extremistas, muitas vezes recorrendo a estes estereótipos, deixa-se ficar no esquecimento países ditos “amigos do Ocidente”, cujo exemplo mais flagrante é Arábia Saudita, cuja classe dominante pratica até ao horror aquele tipo de comportamentos sobre as suas populações.
Terceiro, manifesto-me igualmente contra a crítica a certos movimentos islamitas baseada em valores civilizacionais, que permitem absolver Israel, garantido que os seus comportamentos seriam iguais aos nossos – esquecendo-se que Israel é um Estado confessional – e condenar, por exemplo, os palestinianos, hoje influenciados pelo Hamas. A defesa desta posição não visa mais, em última instância, do que permitir o domínio destes povos por hierarquias corruptas ao serviço dos interesses do imperialismo “ocidental”.
Quarto, foi o “Ocidente” que contribuiu para eliminar certas direcções políticas que defendiam a modernidade nestas sociedades, ao combater por todos os meios os movimentos laicistas, que de um modo geral representavam uma ideologia progressista e anti-imperialista, apoiando, na maioria dos casos, os movimentos islamitas que defendiam um regresso aos valores corânicos tradicionais.
Enumerarei, um pouco ao correr da pena, todos os casos de que me lembro.
O golpe apoiado pela CIA, em Agosto de 1953, contra Mohammed Mosadeq, no Irão, que tinha nacionalizado a Anglo-American Oil Company e que seguia um programa nacionalista e anti-imperialista naquele país.
A inclusão da Síria como um dos inimigos do Ocidente, mas que é governada desde 1963, com mão de ferro, por um partido laico e que se clama como socialista, o partido Baas, cujo nome oficial é Partido Baas Árabe Socialista. Este partido também dominava o Iraque, de Saddam Hussein, outro dos poucos países laicos da região, é certo que regido por uma ditadura sangrenta, mas que foi apoiada pelo Ocidente quando atacou a República Islâmica do Irão.
A luta contra o regime de Nasser, no Egipto, que nacionalizou o Canal de Suez (Julho de 1956), quer explicitamente, atacando-o directamente, como fizeram ingleses e franceses em Outubro de 1956, na sequência da nacionalização do Canal, ou apoiando os Irmãos Muçulmanos, grupo de inspiração religiosa, que foi um instrumento da monarquia saudita para combater Nasser e os nacionalistas árabes. Hoje o Egipto é governado por uma oligarquia corrupta apoiada por Israel e pelos Estados Unidos.
O caso mais conhecido é a luta empreendida pelos mujahidin contra o Afeganistão socialista, dominado pelas tropas do Exército Soviético, apoiados às claras pelos americanos. É interessante ter ouvido há tempos um depoimento do jornalista da RTP, Barata-Feyo, que andou por aquelas paragens, e afirmou que a única altura em que as mulheres afegãs se puderam libertar da burka, frequentar a escola pública e exercer a sua profissão foi quando os comunistas estavam instalados em Kabul. Barata-Feyo não se pode considerar com apoiante de qualquer movimento ou país comunista.
Por último, o caso mais recente do Hamas, na Palestina, que foi apoiado por Israel para combater a Fatah, um movimento laico, que no entanto, dadas suas recentes cumplicidades com aquele país e a grande corrupção dos seus dirigentes se deixou ultrapassar no apoio popular por aquele movimento religioso.

No fundo, resumindo e concluindo, o "Ocidente", ou melhor o imperialismo, primeiro franco e anglo-saxónico e depois americano, e o seu testa de ferro que é Israel, têm vindo a contribuir para a vitória das forças islamitas, derrotando ou corrompendo qualquer saída laica e progressista, que neste contexto teria que ser nacionalista e anti-imperialista.
È pois nesta conjectura que a luta de uns contra o multiculturalismo e a oposição bacoca de outros, que consiste na justificação de algumas das mais aberrantes práticas religiosas muçulmanas, devem ser criticadas, defendendo uma saída laica, progressista e anti-imperialista para os povos e países que seguem aquela religião.

Vem a propósito, citar um belo documentário de Diana Andringa e Flora Gomes sobre a guerra colonial na Guiné, As duas faces da Guerra, onde no episódio final exibido pela RTP, se destaca, com provas concretas no terreno, esta frase sempre repetida de Amílcar Cabral, “não fazemos a guerra contra o povo português, mas sim contra o colonialismo”. Hoje quando a reacção e os sionistas tentam confundir a esquerda, que ao atacar o imperialismo americano e o expansionismo sionista, nos tentam opor o rótulo de anti-americanos e anti-semitas, temos que lhes devolver as belas palavras de Amílcar Cabral afirmando que a nossa luta não é contra o povo americano nem contra os judeus. Mas temos igualmente que fugir, mesmo que achemos justificada alguma diarreia anti-semita, da defesa das práticas e dos actos que vão nessa direcção.

05/07/2008

A história virtual de alguns ideólogos de direita


Agora no findar da vida deu-me para ser historiador e tão convencido ando nesta nova veste que já me ponho a criticar os meus confrades.
Vem isto a propósito de seminário sobre História Virtual de Portugal realizado no Instituto de Ciências Sociais e coordenado por Fernando Martins e Rui Ramos.
O Público já tinha dado uma notícia desenvolvida. Hoje resolveu começar a relatar as comunicações e aquela que mais o sugestionou foi o que teria acontecido se Jorge Sampaio não tivesse convidado Santana Lopes para formar Governo. A comunicação foi apresentada por Carlos Gaspar e a conclusão que tirou foi a mais disparatada. Dado que até aí os Presidentes da República tinham convocado eleições sempre que um primeiro-ministro se demitia, se desta vez Jorge Sampaio actuasse do mesmo modo teríamos na prática um “presidencialismo” de primeiro-ministro, pois era ele que influenciava a convocação de eleições, o que levaria os partidos do centrão, em próxima revisão constitucional, a retirarem poderes ao Presidente da República, como seja a sua eleição por sufrágio directo e universal. Isto é um exemplo, quanto a mim feliz, das idiotices que se podem apresentar nesta história virtual de Portugal. Mas este é dos mais inócuos. Nada aconteceria de importante se em vez de ter sido como foi tivesse sido doutra maneira. É mera especulação e brincadeira de historiadores.
Mas o assunto tem outras implicações mais ideológicas, ou não estivesse metido na organização deste evento, Rui Ramos, que já classifiquei, em texto anterior, como um camelot du roi . Assim, no texto de hoje do Público logo no cabeçalho é destacado que esta história virtual é uma “reacção contra as escolas deterministas marxistas e dos “Annales” (revista de história francesa que teve grande influência entre alguns dos nossos melhores historiadores).
Depois desta afirmação de princípio, vamos aos factos e aqui é que "a porca torce o rabo". Rui Ramos tem uma comunicação sobre “O que teria acontecido se o Rei D. Carlos não tivesse sido assassinado em 1908?"; mas uma das que me pareceu mais sugestiva, e que foi resumidamente referida em edição anterior do Público (é muito difícil fazermos links para o Público), é “O que é que teria acontecido se a oposição não tivesse desistido nas eleições de 1945?”, de David Castaño. Nela, o autor diz que foi o sectarismo do PCP o responsável por a oposição não ter ido a votos naquelas eleições (Novembro de 1945), que teriam permitido acabar com o fascismo muito mais cedo. Este autor não intui que depois de Salazar ter garantido, em Agosto desse ano, que pretendia que as eleições fossem “tão livres como na livre Inglaterra”, fez tudo, já depois de ter assegurado o apoio dos ingleses e norte-americanos, para transformá-las em mais uma das suas farsas eleitorais.
Já se percebeu que esta história virtual, não deixa de ser aquilo que os seus autores queriam que tivesse sucedido se as coisas não se tivessem passado como passaram. Os marxistas actuais há muito que já abandonaram qualquer determinismo na história humana, mas certos historiadores, incapazes de aceitarem o rumo que os acontecimentos tomaram, praticam esta história virtual como modo de desvalorizarem os acontecimentos da época e desse modo poderem influenciar para a direita os acontecimentos de hoje. Por isso parece-me pouco séria esta sua história virtual.

PS.: é evidente que não assisti às comunicações. Só li a notícia hoje do Público e a primeira que saiu naquele jornal, que reproduzo de memória, pois não consigo localizá-la na net.

18/01/2008

As palavras dúbias de um comentador de direita


Publicou Pacheco Pereira (PP), no Sábado passado, mais uma das suas crónicas (Os velhos do Restelo contra a West Coast of Europe) que escreve regularmente para o Público. Depois da sua leitura, percebe-se que ele se dirige genericamente aos apoiantes de Sócrates e de Luís Filipe de Menezes, ao centrão, que criticam os Velhos do Restelo, que seria formado por ele próprio, Vasco Pulido Valente (VPV) e António Barreto (AB). Este grupo caracterizar-se-ia por não se conformar com o Portugal expresso pelos cartazes com que o Governo entendeu fazer propaganda ao nosso país, localizando-o na Costa Oeste da Europa, fugindo, provavelmente com medo dos camelos e dos atentados, a situá-lo ao Sul. Deste modo, PP e consortes consideram-se os Velhos do Restelo em luta contra os situacionistas do regime.
Partindo desta ideia simples, que no seu conjunto é um disparate, mas que se coaduna com aquilo que PP gostava que pensassem de si, começa a disparar em todas as direcções, atribuindo-se, e provavelmente aos outros, a participação em batalhas em que a maioria dos novos comentadores não participaram.
Assim, fala de um tempo em que a luta contra os comunistas era conduzida por poucos e em que “o arranque da historiografia e da sociologia para fora das baias do antifascismo e do jacobinismo se lhes deva em parte (VPV e AB, digo eu), quando a academia permanecia gloriosamente dominada pelo PCP e pelos esquerdistas”. PP aparece assim como um herói avant-la-lettre, coisa em que o comum yuppie (a expressão é dele) dos nossos dias não tem pergaminhos.
Para um sexagenário como eu, da mesma geração que a dos Velhos do Restelo, esta referência aos novatos, à gente sem espessura, nem história, nem formação é sempre agradável de ouvir. Pode-se dizer que li um pouco embevecido algumas das críticas que lhes eram dirigidas.
Mas eis que um jovem de outra geração, Rui Tavares, numa crónica que escreveu igualmente para o jornal Público, se sente atingido pelas afirmações de PP e acutilantemente lhe responde, garantindo que este, “como opinador independente e corajoso que é,... não consegue citar um nome, responder a uma opinião, refutar um argumento. O seu confronto faz-se fantasmagoricamente, contra categorias vagas de gente — os “modernizadores”, os “pensadores-engraçadistas”, os “inocentes úteis” — em estilo críptico de treinador de futebol”.
Tal como afirmei no princípio, se a crónica tem destinatários gerais, não consegue particularizar nenhum dos seus adversários, ficando de forma enviesada pela generalidade dos comentadores.

Mas o que diz Pacheco Pereira: “Não adianta sequer dizer à ignorância impante que, com excepção de meia dúzia de conservadores, poucos, aliás, a "luta final" que terminou em 1989 com a queda do Muro de Berlim, como escreveu Silone, foi mais entre comunistas e ex-comunistas. Os grandes textos simbólicos contra o comunismo, O Retorno da URSS, O Zero e o Infinito, o 1984 e O Triunfo dos Porcos, vieram de homens como Gide, Koestler e Orwell. Nos momentos mais duros da guerra fria, os ex-comunistas e os liberais mais radicais com quem se aliaram foram os únicos a travar o combate intelectual contra a hegemonia intelectual comunista. Revistas como o Encounter ficaram como exemplo dessa aliança em tempos bem mais difíceis do que os de hoje. E que, nos momentos decisivos do fim do império soviético, quando o expansionismo soviético conheceu o seu espasmo agressivo entre o Afeganistão e Angola, só ex-comunistas, como Mário Soares, e ex-maoistas lutaram contra a URSS, a favor de dissidentes soviéticos como Sakharov, em Portugal, em França com os "novos filósofos", mesmo nos EUA, onde muitos neocons vinham da esquerda radical americana.”
Transcrevi longamente esta pérola de PP para mostrar como este historiador se auto-valoriza e incensa todos aqueles que, como ele, vieram do maoismo e do marxismo-leninismo.
Começa PP por atacar os tais “ignorantes impantes” que não sabemos quem são. Pode até coincidir com a minha apreciação, que sempre tive a pior das opiniões de alguns dos intelectuais orgânicos do actual situacionismo, mas ao qual não são alheios PP, VPV e AB.
Depois, socorre-se de Silone para afirmar que a “luta final” seria entre comunistas e ex-comunistas, porque os conservadores seriam muito poucos. Desconheço estas afirmações de Silone, mas elas nunca se poderiam referir ao fim da União Soviética, porque este escritor morreu antes de ter a “felicidade” de assistir a tal fim.
A seguir altera francamente a história do século XX e da luta contra o comunismo. Porque ao citar Gide, começa por localizar o seu início entre as duas Guerras, o que é justo. Ora é preciso ter desplante para esquecer a ofensiva fascista, e não só, contra os comunistas. A “luta final” para alguns, e não foram poucos, foi de facto a sua encarceração na prisão e em campos de concentração e a política levada a efeito por um conjunto de intelectuais, muitos hoje esquecidos, que contribuíram de forma decisiva para a prevalência daquela ideologia e do combate anticomunista. Hoje é prática corrente dos anticomunistas hodiernos tentar provar que se havia uma ditadura fascista havia igualmente uma ditadura ideológica comunista, como o seu confrade Rui Ramos vem regularmente afirmando (ver aqui).
Quanto ao pós-guerra resume a luta anticomunista a uma aliança entre os intelectuais ex-comunistas e uns poucos ultraliberais. Ou seja, tenta generalizar a situação de França a todo o campo “ocidental”. Naquele país, que não é mencionado, a maioria dos intelectuais conservadores bandearam-se com o colaboracionista Pétain e mesmo com o nazismo, e por isso havia uma prevalência das ideologias de esquerda. O que não sucedeu por exemplo nos EUA, onde a sinistra Comissão das Actividades Anti-Americanas, com a sua caça às bruxas, levou à prisão ou forçou à emigração alguns dos mais importantes cineastas e argumentistas de Hollywood, com a acusação de serem comunistas. Depois, para sua desgraça cita a revista Encounter, que hoje se sabe que foi financiada pela CIA, tal como o Congresso para a Liberdade da Cultura, que de facto apostou em alguns ex-comunistas, e não só, como força de choque para a luta contra os comunistas (ver a obra – “Qui Mène la Danse? La CIA et la Guerre Froid Culturelle”, de Frances Stonor Saunders, da Denoel, 2003).
E para provar as suas afirmações mistura três intelectuais de diferentes níveis e formações. André Gide, um grande escritor, que no auge da ascensão do fascismo colaborou momentaneamente com os comunistas, mas que depois de uma visita à URSS (“Retour de l’URSS” - 1936), num ano tão terrível como o dos primeiros processos de Moscovo, se desiludiu com a mesma. No entanto, nunca passeou pelos corredores do poder a sua profissão de fé anti-comunista.
Arthur Koestler que de militante comunista passou, com a sua mais famosa obra “O Zero e O Infinito” (1941) (há uma primeira tradução portuguesa de Domingos Mascarenhas, um jornalista ligado ao cinema e à direita, de 1947, da Livraria Tavares Martins – Porto) a activista anticomunista e a um dos principais suportes do já referido Congresso para a Liberdade da Cultura. A parte final da sua obra é dedicada à ciência e à parapsicologia, deixando em testamento dinheiro para se fundar uma cátedra desta última “ciência”.
Quanto a George Orwell, bem conhecido e incensado, é involuntariamente, porque morreu em 1950, um dos principais expoentes da ofensiva anticomunista do pós-25 de Abril em Portugal – Júlio Isidro dedicou-lhe na televisão pública uma tarde de Sábado no ano referente ao seu mais célebre livro, 1984. Sabe-se hoje que escreveu listas com os nomes de intelectuais com possíveis afinidades comunistas e as entregou ao Governo Britânico.
Continuando na senda do seu auto-elogio, fala em que só um ex-comunista como Mário Soares – há quantos anos ele tinha pertencido ao PCP? - e ex-maoistas empreenderam a defesa de Sakarov e lutaram contra a URSS. Aqui esquece como os maoistas há muito já tinham classificado a URSS e os partidos que a apoiavam como social-fascistas e como o seu camarada de partido Durão Barroso se passou gloriosamente da luta contra os sociais-fascistas para a luta contra os comunistas. Ou então, quando ele e Mário Soares apoiavam, em nome provavelmente da solidariedade atlantista, um bando de assassinos chefiados por Jonas Savimbi, e esqueciam, como foi provado recentemente, o massacre perpetrado em Angola contra comunistas (Nito Alves, Sita Valles, Zé Van Dunen e mais 30 mil companheiros).
É preciso ter uma grande ousadia para transformar em heróis um conjunto de personalidades de diferentes origens e percursos (ex-maoistas, como ele, “novos filósofos” franceses ou neoconservadores americanos) que se prestaram a defender a ideologia dominante e a usufruírem gloriosamente das cadeiras da fama e do poder.
Por tudo isto, sendo sempre agradável ouvir dizer mal dos yuppies dos nossos dias, considero que Rui Tavares tem toda a razão para criticar PP, esse “glorioso” lutador do anti-comunismo.

PS. Este vosso comentador suspende por algum tempo a sua intervenção porque vai ser submetido a uma operação cirúrgica melindrosa. Depois relatarei as minhas impressões.