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10/09/2009

Um belo post de José Neves. Como eu o gostaria de ter escrito.


José Neves, um jovem pensador das novas gerações, escreveu no 5 dias um texto exemplar, chamado Terceira margem – edição revista e aumentada, sobre o actual momento político e, acima de tudo, sobre as relações da esquerda. Uma crítica severa ao PS e provavelmente a todos aqueles, que nos seus cozinhados políticos, pensam há muito, deixando-se de romantismos, votar seguro e certo no PS, apesar deste ser chefiado por Sócrates, o político que pela sua postura e formação menos tem a ver com a esquerda em toda a história do PS. É, ao mesmo tempo, um elogia à possível e desejável subida eleitoral do Bloco e do PCP e à ruptura que esse facto provocará na sociedade portuguesa.
Provavelmente, por eu ser de outra geração, não escreveria assim, diria as coisas de outro modo, mais agressivas, mais datadas, mais enraivecidas, com contas a ajustar com o passado. Mas é de um jovem, sem o lastro de anos de política mal digerida, que vem este límpido e claro post sobre aquilo a que poderíamos chamar a verdadeira unidade de esquerda.

07/09/2009

O impasse do conservadorismo nacional – I


Já foi publicado um post de Miguel Cardina sobre o artigo de José Pacheco Pereira (JPP), Debate Louçã – Jerónimo: O Impasse da Esquerda Revolucionária, publicado no Público, de Sábado passado. Esperando dizer coisas novas, aqui vai a minha reflexão pessoal sobre o tema.
Pacheco Pereira, por razões do seu trabalho como historiador, tem mantido com o PCP relações de amor-ódio, que por vezes chegam mesmo ao elogio ou, pelo menos, à sua defesa. Nesse sentido é manifesto uma maior complacência de JPP pelas posições do PCP do que pelas do Bloco. Mas este facto, que no caso de JPP poderá simplesmente coincidir com os seus interesses profissionais, tem expressão significativa num conjunto vasto de comentadores de direita.
E porquê? Quanto a mim, neste momento o PCP, depois da queda do Muro de Berlim e do desabar do mundo do “socialismo real”, desperta pouco receio na direita portuguesa. Estamos longe do ódio e do silenciamento com que o PCP foi tratado depois do 25 de Novembro de 1975, principalmente a quando dos Governos do PS, sozinho ou acompanhado, e da Aliança Democrática. Soares Carneiro, com a arrogância de todos os generais fascistas, chegou a afirmar que se ganhasse as eleições para Presidente da República permitiria a existência legal do PCP e que essa seria a melhor maneira de o aniquilar.
Hoje, o PCP, ainda mantendo o mesmo espírito dessa época, continua a gritar que é ele o mais perseguido e o mais mal tratado na comunicação social. Penso que isso já não corresponde à realidade. É que hoje a Festa do Avante, os comícios do PCP e as opiniões do mesmo são vistas pelos media dominantes, por uma lado, como aquele turista que visita a reserva de índios, achando-lhes muita graça, mas que não se quer misturar com eles, e por outro como um património importante do nosso passado político, em que se mostram os heróis, quando eles já estão mortos e não podem voltar a agir. No entanto, é bom que se diga que a ofensiva ideológica contra o comunismo não esmoreceu, quer internacional quer nacionalmente. Com certa regularidade são publicados livros a demonstrar quão terríveis eram aquela ideologia e a experiência que dela se podia retirar. Mas isto é outro tema.
Já agora, porque vem a talho de foice, quando ontem no debate entre Manuela Ferreira Leite (MFL) e Francisco Louçã, aquela falou que as nacionalizações do pós 25 de Abril tinham arrasado o tecido produtivo português e que, por isso, já se sabia no que dariam as actuais propostas do Bloco, todos os comentadores das televisões informativas (ver o post anterior), com aquele sorriso alvar que caracteriza a direita, acharam que tinha sido a melhor intervenção de MFL. Ou seja, o PREC ainda mete medo à nossa direita.
Podemos dizer que o artigo do JPP é todo ele contra o Bloco, tema que já não é novo naquele articulista e que demonstra que este partido pode ser na conjuntura actual, ao contrário do que pensa o PCP, aquele que maiores engulhos trará ao cinzento quotidiano da política portuguesa.
Como já afirmei em post anterior, o Bloco pode ser, se para isso tiver capacidade e agilidade, a força política capaz de desbloquear o círculo vicioso em que se tem movido nos últimos anos a esquerda portuguesa, com um Partido Socialista a mostrar-se de esquerda quando está na oposição ou, como agora, em véspera das eleições, e a ser de direita quando está no Governo, e um PCP bloqueado, que mantém a sua identidade para não perder votos e a não poder ganhá-los porque a conserva. O Bloco aparece, à esquerda, como a força que é capaz de captar todos aqueles que no PS ansiavam por uma política de esquerda, mas que não se reviam no PCP, alguns comunistas que desejavam uma modificação na esquerda portuguesa ou no conjunto de independentes que flutuavam nesta área política.
No artigo seguinte prometo que, com mais rigor e menos subjectividade, fazer a apreciação da crítica que JPP faz ao Bloco e ao PCP.

06/09/2009

O caso de que se fala


Como já devem ter previsto o caso de que se fala é o da suspensão do Jornal Nacional, da TVI, das sextas-feiras. Segundo os analistas políticos, transvertidos agora em politólogos, parece que esta suspensão está a provocar profundos estragos na estratégia eleitoral do PS e até nos possíveis resultados eleitorais deste partido.

Comecemos pelo princípio. Vi raras vezes o Jornal Nacional e quando ele começou a ser falado tive o cuidado o visitar, mais para me actualizar sobre o caso Freeport, que foi neste blog bastante referido, do que verdadeiramente pela informação prestada. Podemos dizer que o Jornal Nacional, era o protótipo do populismo, tão de agrado direita inculta portuguesa e do lumpen-proletariado citadino, sempre pronto a pescar nas águas turvas do Paulo Portas ou do Santana Lopes. Era uma coisa intratável, muito do género do que se faz na América do Norte, segundo dizem, e do que povoa as televisões latino-americanas, também segundo opiniões alheias.
Nesse sentido, percebe-se que no último Eixo do Mal, da SIC Notícias, Clara Ferreira Alves, considerando este jornal aberrante e a sua autora uma jornalista desclassificada, ache bem a sua suspensão e mostre alívio por o mesmo desaparecer.
O que se me oferece dizer sobre esta opção.
Este tipo de jornalismo, populista, dirigido a alguns políticos específicos, nada objectivo e apelando aos sentimentos mais baixos e rasteiros da opinião pública, há muito que existia – veja-se os jornais tablóides –, só não tinha lugar nas televisões. Nelas estávamos habituados à respeitabilidade e seriedade na informação, que, no entanto, vinha de há uns anos para cá a ser alterada, tanto na TVI como na SIC, dado que tinham começado a recorrer ao sangue e às misérias individuais para aumentar as audiências. Contudo, temos que ser claros, aquela informação dita objectiva, a que existia na RTP, praticou durante muitos anos a censura mais rasteira e a desinformação mais descarada. Estou-me a lembrar, porque segui este assunto de perto, do caso dos hemodialisados de Évora, num dos Governos de Cavaco Silva, cuja morte foi devida à qualidade da água que lhe era injectada nas veias, e que a televisão pública, numa manobra de censura e manipulação de informação, conseguiu fazer passar a ideia de que a culpa era da Câmara Municipal de Évora, nessa altura gerida pelo comunista Abílio Fernandes, porque as águas de abastecimento público tinham valores de ferro que ultrapassavam os limites superiores estipulados na lei, e não do Hospital, que injectava essa água directamente nas veias dos pacientes, para economizar, sem a fazer passar por um sistema de osmose inversa que retivesse o ferro existente na água de abastecimento. Estou recordado que foi devido à existência da SIC, nos bons tempos iniciais, em que esta dedicava grande espaço televisivo aos programas de informação, que foi possível esclarecer este assunto e que acarretou posteriormente o julgamento e a acusação dos médicos envolvidos no processo. Não existisse a SIC, e a RTP, com toda a seriedade informativa, conseguia manipular a opinião pública de modo a culpar a Câmara comunista das malfeitorias do Hospital.
Portanto, este exemplo, só vem ilustrar como nem sempre a informação séria é aquilo que pensamos e como a mesma pode censurar e manipular a seu belo prazer.
Tudo isto para concluir que, havendo diversas opções, aquele tipo de televisão não deve ser abafado, até porque pode permitir o contraditório, não podemos é permitir que, devido aos interesses dos grupos capitalistas envolvidos, ele se torne dominante e consiga abafar a outra informação. É bem verdade, que no nosso país, dada a estrutura frágil e dependente dos nossos grupos económicos, é difícil durante muito tempo uma televisão privada manter no ar informação que deliberadamente hostilize o poder vigente. Mas isto acontece enquanto for o bloco central a mandar. Forme-se um governo de esquerda, hostil aos grupos económicos, e ver-se-á imediatamente as campanhas que estas televisões serão capazes de desencadear. Por isso, se deve manter sempre uma televisão pública forte e com audiências, capaz de na devida altura responder a estas ameaças asfixiantes da democracia.
Já agora, para aqueles que tem muitas preocupações com o que se passa na Venezuela e em alguns países latino-americanos, gostaria de informar que a maioria dos canais televisivos desses países praticava um jornalismo deste tipo. Como não existiam televisões nacionais com a projecção devida, quando as forças progressistas ganham as eleições aquele tipo de televisões, arruaceiras e de extrema-direita, controladas pelos grandes grupos económicos, se não pelos norte-americanos, são normalmente lestas em desencadear em uníssono campanhas de desinformação contra os novos governantes. Quando, de acordo com a lei, são retiradas a essas televisões a concessões que lhe tinham sido concedidas, ai que é a liberdade de informação que está em jogo. Conhecemos a história.

No mesmo programa do Eixo do Mal, Daniel de Oliveira, vem defender, contra a opinião de Clara Ferreira Alves, a intocabilidade de programas deste tipo, já que considera a liberdade de informação um valor absoluto, que não pode estar submetida aos interesses dos governos ou das empresas. É evidente que aqui Daniel de Oliveira leva longe de mais a sua absolutização da liberdade de imprensa. Em primeiro lugar temos que saber como é que este programa foi criado. Não foi devido ao prestígio de jornalista de Manuela Moura Guedes que ele lhe foi atribuído. Por exemplo, Marcelo Rebelo de Sousa tem prestígio e jeito, vale por si. Ninguém o convida por ser do PSD e ser professor doutor, mas sim pelas audiências e prestígio que trás à televisão. Já tenho mais dúvidas sobre António Vitorino. Ora a apresentadora do Jornal Nacional estava lá por ser unicamente mulher do “patrão”, José Eduardo Moniz, afastado este eis que a mulher lhe segue os passos. Portanto não estamos aqui perante um atentado à liberdade de informação, mas provavelmente ao acabar com um caso simples de nepotismo familiar. Por isso, tenhamos alguma moderação naquilo que dizemos e não transformemos uma menina rabina e de poucas letras, numa heroína da liberdade de informação em Portugal.

Resta por último a posição daqueles que por ódios antigos, Cintra Torres, no Público, ou por aproveitamento eleitoral evidente - a posição de Pacheco Pereira e de Manuela Ferreira Leite, e do factótum Cavaco Silva - quiseram transformar este caso num ataque do PS à liberdade de informação. Isto são guerras em que não me quero meter. Não posso, no entanto, deixar de constatar que Sócrates, quando ainda os ventos da política lhe corriam de feição achou por bem desencadear um ataque em forma aquele Jornal Nacional, com aquele ódio e aspereza que se lhe conhecem e que o tornam um político arrogante e sobranceiro. Neste momento está por isso a colher as tempestades que semeou e é bem feita, porque todas as que lhe caiam em cima são o resultado de quatro anos de um Governo pesporrente, dono e senhor do poder.

05/09/2009

O "extremismo" volta a atacar

Alguma esquerda não alinhada partidariamente, sempre impulsionada pela pulsão unitária, atitude louvável, mas nem sempre produtiva, vinha há muito defendendo uma aliança para derrotar a direita e empreender um novo rumo para a esquerda.
Como Sócrates parecia de pedra e cal – os resultados das sondagens, mesmo que não confirmassem a maioria absoluta, garantiam uma confortável maioria governamental, que com algum esforço poderia dar em absoluta –, todas as preocupações se viravam para o que iria fazer Manuel Alegre, depois de gorada a criação de um novo ente político que fosse capaz de dar continuidade aos encontros do Trindade e da Aula Magna.
Como o oráculo nada disse, só restava apelar para a eleição de uma maioria de esquerda para Câmara de Lisboa. Assim, surgiu um abaixo-assinado para uma convergência de esquerda para Lisboa. Eu próprio fui um dos seus subscritores, alertando logo para o perigo que se poderia correr de o mesmo servir os objectivo políticos de António Costa e não o da criação dessa maioria em Lisboa.
Lamentavelmente, foi isso que veio posteriormente a acontecer (ver aqui), simplesmente num tempo em que as condições políticas já se tinham degradado extraordinariamente. Sócrates e o PS convictos dos resultados das sondagens, nunca esperaram pela derrota estrondosa que tiveram em 7 de Junho, nas eleições para o Parlamento Europeu. Nem eles, nem esta esquerda a que tenho vindo a fazer referência. Por isso, com alguma pressa se tentou, mas sem grande êxito, virar as baterias para um novo apelo a uma maioria de esquerda para derrotar Manuela Ferreira Leite. Simplesmente Sócrates e os seus amigos não ajudavam nada. Correram com Manuel Alegre e os seus companheiros das listas. A única abertura à esquerda foi a inclusão de Miguel Vale de Almeida, que se prestou a isso, mas que abrange um grupo muito específico de votantes. A manobra com Joana Amaral Dias não resultou. E por aqui nos ficamos nas aberturas à esquerda.
Por isso, a esta esquerda desalinhada só restou e só resta, gorada qualquer aproximação a Sócrates, batalhar para que o Bloco, já que não têm qualquer esperança em relação ao PCP, se proponha participar e apoiar um governo de esquerda. Simplesmente, a expressão pública destas iniciativas e propostas é diminuta. A campanha eleitoral está aí em força, com outros temas, não facilitando de modo algum estes apelos ou estas propostas.
Ao contrário do que sucedeu com as listas do PS para a Assembleia da República, António Costa teve êxito nas suas iniciativas. Conseguiu captar, como já se esperava, José Sá Fernandes, que oportunamente arranjou uma associação política que lhe deu cobertura para a sua inclusão na lista do PS. E fez um acordo “coligatório” com Helena Roseta, dando cumprimento, a uma antiga proposta sua de uma coligação PS mais Manuel Alegre (ver aqui). Foi isto que levou alguns a considerarem que se não houve uma coligação de banda larga para Lisboa houve, pelo menos, uma de banda estreita (Expresso, 22/08/09).
Feito este enquadramento, que me pareceu indispensável para se compreender o que vem a seguir, retomo aquilo que me trouxe aqui, que foi mais uma vez a referência explícita de António Costa, na Quadratura do Círculo, desta quinta-feira, aos partidos extremistas, que recolhem o voto de protesto. Como já aqui referi, estes epítetos de António Costa não são novos, mas depois de vir defender uma coligação para Lisboa com os partidos à esquerda do PS: Bloco e PCP, os tais partidos extremistas, e continuar a classificá-los como tal, leva-me a pensar que a sua posição nunca foi séria nem honesta, porque não nos coligamos com aqueles que consideramos extremistas, e que foi sempre uma grande treta, acalentada por alguns, a sua vontade de unidade à esquerda. Conseguidos os objectivos mais imediatos, e que parece, e ainda bem, lhe vão permitir derrotar Santana Lopes, eis que a máscara unitária se desfaz com já tinha acontecido no próprio Congresso do PS, ou nas referências reiteradas que tem vindo a fazer aos partidos extremistas no programa Quadratura do Círculo.

02/09/2009

Como o "social-fascismo" irrompe na campanha eleitoral


Não será o assunto mais importante. Só um coca-bichinhos como eu se dedicaria a escrever sobre este tema exótico, quando a campanha eleitoral está aí em força, cheia de pequenos fait-divers que permitem trocadilhos chocarreiros, como as afirmações disparatadas da mandatária para a juventude do PS – a dos caroços e da empregada.
No entanto, foi sobre as afirmações relativas ao social-fascismo que me resolvi debruçar.
Vital Moreira já tinha dado o tom. Na crónica semanal que tem no Público, publicou na semana passada (25 de Agosto) um artigo intitulado Arcaísmos de esquerda (sem link). Entre outras asserções provocadoras para a esquerda, à esquerda do PS, tem esta afirmação:
Ao ouvir certas declarações mais destemperadas de alguns dirigentes do PCP e BE (ver os seus últimos congressos), dir-se-ia que voltámos ao tempo em que os partidos estalinistas qualificavam de “sociais-fascistas” os partidos sociais-democratas, contribuindo dessa forma para abrir um fosso irreparável na luta contra a ascensão do nazismo e do fascismo nos anos 30 do século passado. Agora, é evidente que não está em causa sequer o regime democrático, mas não podem restar muitas dúvidas de que a principal prioridade de tais partidos é derrotar o PS, mesmo que isso acarrete, como seria inevitável, a entrega do poder à direita”.
Irene Pimentel não lhe quis ficar atrás, ou não fosse Vital Moreira o ideólogo oficial do socratismo, e assim num post no Simplex apesar de dizer “que jamais utilizaria a História para comparações abusivas com a realidade actual”, afirma depois, “se o fizesse, vir-me-ia logo à cabeça a forma como o Partido Comunista Alemão contribuiu para a subida de Hitler ao poder, ao erigir os sociais-democratas como «sociais fascistas». Claro que, ao ser criado o primeiro campo de concentração em Dachau, foram lá encarcerados tanto sociais-democratas como comunistas, mas o mal já estava feito. Upsss! Do que me fui lembrar e até estou a dar ideias!”. Este post retorquia a um texto crítico de José Neves no 5 dias (foi uma grande “contratação” para aquele blog) e que mereceu deste a devida resposta.
Na minha área política, os renovadores comunistas, também é frequente recordarem-me em relação a esta campanha eleitoral os tristes dias da ascensão de Hitler ao poder e esta posição ultra-sectária da Internacional Comunista e do PC alemão.
Como escrevi um longo texto sobre o assunto, diria com algum carácter pioneiro entre nós, já que a maioria dos textos escritos por alguns historiadores comunistas se referem à radical ruptura da Internacional, em 1935, no seu VII Congresso, com esta posição, sinto-me na obrigação de me referir a este tema lançando algumas pistas que os textos em causa esquecem.
Em primeiro lugar quem utilizou em Portugal o termo social-fascista foram os "esquerdistas", nos ataques que dirigiam ao PCP, antes e depois do 25 de Abril. Era vulgar o MRRP e posteriormente a AOC, cujo o chefe era um conhecido provocador, chamado Eduíno Vilar, acusarem o PCP de ser social-fascista, na sequência das posições dos maoistas, que acusavam a União Soviética de ter um comportamento social-imperialista e de os partidos que a apoiavam serem sociais-fascistas. Na altura, esta designação, que os maoistas tinham ido buscar ao léxico da Internacional Comunista, do início dos anos 30, soava aos ouvidos da juventude esquerdista como uma grande novidade terminológica, esquecendo-se do seu triste passado. Mas na sequência destas críticas, a rapaziada o PS, a que andava de braço dado com alguns AOC, aqueles que afirmavam que um voto na AOC era uma espinha cravada na garganta do Cunhal, muitas vezes no entusiasmo da crítica deixaram-se arrastar por esta terminologia e chamavam sociais-fascistas aos militantes do PCP.
Por isso, alguns ideólogos do PS seria bom que metessem a mão na consciência e vissem quem iniciou e utilizou no passado esta terminologia.
Em segundo lugar, Vital Moreira ainda afirma que esta classificação dos sociais-democratas como sociais-fascistas abriu “um fosso irreparável na luta contra a ascensão do nazismo e do fascismo nos anos 30 do século passado”, já Irene Pimentel provavelmente menos preparada ideologicamente afirma: “vir-me-ia logo à cabeça a forma como o Partido Comunista Alemão contribuiu para a subida de Hitler ao poder, ao erigir os sociais-democratas como «sociais fascistas»”. Nesta citação aquele chavão não enfraqueceu unicamente a luta mas contribuiu igualmente para a subida de Hitler ao poder. Já estamos pois no perfeito delírio de atribuir aos comunistas alemães a responsabilidade de um facto que em primeiro lugar, tem origem na direita, que com um medo atávico do avanço dos comunistas alemães preferiu vender a República de Weimar ao seu carrasco, do que permitir a ascensão eleitoral do PC alemão.
Como exemplo histórico é péssimo , já que o sectarismo era comum aos dois partidos, aos sociais-democratas e aos comunistas alemães.
A crítica ao ultra-esquerdismo da Internacional Comunista desses anos pode ser citada como exemplo em relação ao actual sectarismo do PCP, mas nunca pode servir para isentar o PS de Sócrates de um comportamento direitista e igualmente sectário em relação às forças à sua esquerda, cujo o exemplo mais chocante é o artigo já referido de Vital Moreira. Nem pode muito menos servir de apelo ao voto útil no PS, como ingenuamente nos querem convencer os ideólogos daquele partido.
Por último gostaria de lembrar que foi a própria Internacional, ainda no tempo de Estaline, que fez a crítica severa a estas posições ultra-esquerdistas, e defendeu posteriormente, a partir do VII Congresso (1935), a união de socialistas e comunistas naquilo a que viria a chamar-se as frentes populares, que tanto êxito tiveram na França, na Espanha e no Chile. Quem no nosso país sempre denegriu o frentismo, criticando-o e achincalhando-o mesmo, foram alguns socialistas, de que de certeza Vital Moreira é herdeiro, que consideravam que estava ultrapassado pelo socialismo moderno e que não passava de um velharia histórica. Era bom pois que metessem todos a mão na consciência e não falassem de cor sobre assuntos bastante sérios, que dificilmente se enquadram na actual chicana política.
No cimo, fotografia de Rosa Luxemburgo, uma das fundadoras do Partido Comunista Alemão, assassinada em 1919, com a cumplicidade da social-democracia de direita. Uma pequena homenagem.

01/08/2009

Indagar não é convidar


Assistimos hoje, na SIC Notícias, a um Secretário de Estado nervoso e atrapalhado, a meter os pés pelas mãos, para negar uma evidência, que tinha convidado Joana Amaral Dias para integrar a lista de deputados do PS pelo círculo de Coimbra. Ainda por cima, recorrendo a um truque sujo de dizer que os contactos tinham sido “privados e íntimos”, quando não passaram de uma troca de telefonemas entre ambos.
Na versão de Paulo Campos, alguém lhe tinha soprado que Joana estável disponível para ser deputada pelo PS e eis que o Secretário de Estado, sem consultar o partido, resolve numa acção voluntarista, que lhe podia render uma promoção, convidar a bloquista. Ou, noutra versão, que não a dele, a Direcção Nacional do PS incumbiu aquele de sondar a Joana para ver se ela queria ser candidata a deputada. Em qualquer dos casos tramou-se. Se foi por decisão própria incorreu de certeza na ira dos dirigentes, que se viram com um menino nos braços que os desprestigia. Se foi por incumbência alheia, também não lhe correu bem, porque foi ele sozinho que teve que arrostar com as consequências. Triste sina de quem mete o bedelho onde não deve.
Mas o mais grave nas declarações de hoje de Paulo Campos foi, na sua ânsia de dizer mal de Francisco Louçã, para compensar o seu amado secretário-geral dos prejuízos que lhe tinha causado, referir-se àquele que, como trotskista, não se ensaiava nada em destruir as pessoas que se lhe opunham. Provavelmente confundindo Trotsky, com Estaline, este sim mais vocacionado para eliminar fisicamente as personagens que o combatiam. Triste sina de um PS que, há míngua de argumentos políticos, recorre aos chavões do passado para combater os seus inimigos. Ainda há alguns que querem fazer alianças com esta gente, o PS de Sócrates, que não tem o mínimo pudor em dizer estes disparates.
PS.: Lisboa, 01 Ago (Lusa) - O PS "regista e lamenta" a falta de um pedido de desculpas do líder do Bloco de Esquerda (BE) e afirma que a 'bloquista' Joana Amaral Dias desmentiu "ela própria o Dr. Francisco Louçã".
Numa nota escrita, o Partido Socialista considera estar hoje "claro", através da confirmação de Joana Amaral Dias, "que em caso algum o secretário-geral do PS a convidou para fazer parte das listas de deputados, desmentindo ela própria o Dr. Francisco Louçã".
"O PS regista e lamenta que o Dr. Francisco Louçã não tenha pedido desculpas ao Engenheiro José Sócrates", lê-se.
A falta de pudor chega a tal ponto que são capazes de emitir um comunicado para dizer isto. Estamos perante uma das piores características do PS, que é o "chico-espertismo", ou seja, tomar os outros por parvos.
PS. (2 de Agosto): Assisti esta noite a um daquelas situações caricatas, que resultam de se gravar um programa num dia e de se transmitir noutro. O Eixo do Mal, da SIC Notícias, resolveu falar deste caso, simplesmente como ainda não sabia o desfecho da história permitiu que os seus participantes se espraiassem nos maiores disparates. Já se sabe que à cabeça esteve Pedro Marques Lopes (PML), que não achou melhor mote do que, duvidando da veracidade da história, considerar as declarações do Louçã como uma vingança por o PS lhe ter “roubado” Miguel Vale de Almeida. Timidamente, o homem do Inimigo Público, mais bem informado, ainda disse que constava que tinha sido o Paulo Campos a convidar JAD, mas PML não lhe ligou nenhuma, já que tinha uma teoria pronta para justificar o caso. Mais uma boçalidade daquele senhor.
PS. (2 de Agosto, manhã): Hoje, na revista da imprensa da SIC Notícias, convidaram a constitucionalista Isabel Moreira, uma menina que anda a fazer pela vida, para comentar o caso JAD. Ouvi desta senhora a teoria mais peregrina sobre o assunto. Paulo Campos teria telefonado a JAD para saber se era verdade que ela estava interessada em integrar as listas do PS. Haja paciência.

30/07/2009

Um programa às direitas


Ontem foi apresentado com pompa e circunstância o programa do PS para governar Portugal nos próximos quatro anos. Não me vou referir às promessas, porque essas devem ter o mesmo destino que tiveram as anteriores, o caixote de lixo. Vou falar de política, tal como nos meus posts anteriores. Pois o tempo é dos confrontos políticos e da luta ideológica, não dos fait-divers.

A apresentação do programa de Governo teve, que me apercebesse pelas notícias dos media, dois protagonistas distintos, António Vitorino e José Sócrates, passando pela intervenção de uns independentes que só serviram para compor o ramalhete.
António Vitorino deu o tom. Segundo o Público o programa é ao centro, e deu exemplos, no entanto, o seu coordenador teve o cuidado de se referir que o “programa é da esquerda moderna e plural”. Quanto à esquerda moderna parece-me que estamos conversados, as opções neo-liberais tomadas desde o início pelo Governo Sócrates fazem pensar que em vez de ser moderna, é um regresso ao passado, à exploração do trabalho, sem regra nem princípios, veja-se a Lei Laboral anteriormente aprovada. Quanto a ser plural, não é por incluir nas listas um ex-bloquista, que se transformou em recém-convertido à "modernização" socratista, e uma realizadora e actriz de cinema, que passam a ser plurais. Do Manuel Alegre nem sombra, qual fantasma pairando sobre esta esquerda plural.
A António Vitorino foi também entregue o trabalho sujo de atacar a esquerda, à esquerda do PS, afirmando que existem “soluções à esquerda, mas que não passam pelo imobilismo, nem por modelos do passado, por muito pós-modernas que sejam as roupagens com que os querem vestir”. Só faltou voltar a afirmar que o PS não se mistura com os radicais e extremistas do Bloco e do PCP. As “soluções à esquerda” já nem passam pela aliança entre o PS-I, o de Sócrates, com o PS-II, o de Manuel Alegre, é de Sócrates consigo próprio.
A Sócrates foi atribuído o ataque à Dr.ª Manuela Ferreira Leite. Muita energia, muita “bota-abaixismo”, como gosta de dizer o nosso primeiro, muita crítica. Vamos a ver se em Setembro não tem que engolir tudo o que disse, a bem da estabilidade governativa, como quer o Cavaco e como os patrões anseiam, e formar um Governo de bloco central.
Mas para dar também o tom, Sócrates classificou o programa de “progressista”, empregando uma expressão que há tempos Miguel Urbano Rodrigues, a propósito de outro assunto, considerava mais apropriada do que de esquerda.
Estamos pois numa época das grandes piscadelas de olho à esquerda, mas à esquerda inócua, que não dá trabalho, não obriga a cumprir compromissos, nem vai exigir no Parlamento que estes se concretizem, daí a aliança que eu referi de Sócrates consigo próprio e, quando o país o exigir, com aqueles com quem sempre teve vocação de governar, os interesses instalados.
Quem ainda tentar descortinar qualquer solução à esquerda com este PS de Sócrates que se desengane. Os dados estão lançados. As rupturas que não se fizeram no devido tempo, não são agora, em época de apertos, que se vão fazer. Sócrates com muitos floreados de esquerda e com alguns, muito poucos, convertidos ao encanto do líder, irá continuar o seu caminho. E diga-se de passagem para quem perdeu as eleições europeias, está a reagir bem. O programa da outra esquerda será de fortalecer a alternativa, congregar os descontentes e propor soluções que não passem pelo passado.

25/07/2009

Os amigos de Manuel Alegre, as nuances do discurso e compromissos e “esquerda grande”


Elaborei muito recentemente um texto em resposta a algumas controvérsias que atravessam a esquerda e que resultam de diferentes visões políticas para a sua acção. Porque penso que este debate é actual, e retirando do texto qualquer fulanização que pudesse existir, aqui vos deixo este post.

Quem é mais amigo de Manuel Alegre?
Ouvi na quinta-feira à noite a entrevista a Francisco Louçã a Judite de Sousa, na RTP 1, em que este falava de Manuel Alegre e fazia mais uma vez uma referência positiva à sua intervenção e às posições assumidas. Para um político que diz que pode fazer campanha a favor de um partido cuja prática seguida não se coaduna com o que quer o Bloco, é no fundo um pouco estranho que se lhe façam tão rasgados elogios. Por isso eu penso que o Bloco quer ser amigo de Manuel Alegre e conquistar a amizade deste.
Mas não é só o Bloco. A Associação Política Renovação Comunista vai lançar na segunda-feira, dia 27, às 18h00, na Associação 25 de Abril, o livro As Linhas de Mudança – Debate para a Alternativa e convidou para o seu lançamento e para intervir Manuel Alegre. Conhecendo as posições públicas de alguns renovadores de apoio a um dos participantes na pequena convergência conseguida para a Câmara de Lisboa, este convite tem um significado. Qual dos dois movimentos é mais amigo de Manuel Alegre? Mas não são só os dois citados, também a aproximação ente Helena Roseta e Costa se deve, segundo foi dito e escrito, a Manuel Alegre. Ou seja, este homem está em toda a parte, no discurso do Bloco, nos convites da Renovação, na aproximação de dois socialistas desavindos.
Isto só pode resultar ou de um discurso dúplice que está bem com todos ou no trabalho constante de aproximação de toda a esquerda. Acreditemos que seja esta última a razão destas recentes amizades políticas.

As nuances do discurso
Parece-me para mim claro que há quem à esquerda realce mais, no actual quadro da luta política, o problema da sua união contra o perigo da direita. Direita que desta vez, se governasse, fazia o pleno de um Governo, de um Presidente e até das principais câmaras do país. Nesse sentido têm sido feitos alguns discursos um pouco aterradores, chamando a atenção para o perigo que acarretaria o regresso da direita ao poder. Este é, podemos dizê-lo, o discurso mais antigo da esquerda, apelar à unidade contra os avanços da direita, que, no passado, era representada pelo fascismo.
Outros há que realçam mais a importância de que havendo uma maioria de esquerda essa esquerda se deve unir para formar Governo. Acham fundamental ter uns tantos ministros, que praticassem numa política de esquerda. Por isso, quando o Bloco acha que não deve ser muleta do PS, criticam-no severamente porque não apresenta um programa mínimo para que fosse possível haver convergência para governar. Chegam ao ponto de recorrer a uma metáfora, como a da construção da ponte da Arrábida, no Porto, para pôr em prática essa proposta. Ou seja, o Bloco construía um arco, o que partiu da margem esquerda do rio Douro, e esperava que o PS construísse o outro, o da direita, e que alguém pusesse o cimbre que os ligava (ver fotografia a ilustrar o que digo). Estes, sem subestimar o perigo da direita, dão particular relevo à governabilidade à esquerda, confiantes de que o PS viria a construir o arco em falta.
É evidente que a primeira hipótese pressupõe o apelo ao voto útil, apesar de haver alguns que dizem que, como a Assembleia da República é eleita pelo método de Hondt, não se justifica esse apelo. Ou seja, pareceria indiferente votar em qualquer partido da esquerda, já que o que interessava é que esta esteja em maioria. No entanto, há outros que não defendem isso, porque dizem que se o PS ficasse atrás do PSD, tal como sucedeu nas eleições europeias, Cavaco Silva chamaria o partido mais votado para formar Governo e a partir daí o caldo estaria entornado.
Na eleição para os executivos municipais, apesar de se utilizar o método de Hondt para distribuir os vereadores pelas diferentes forças políticas, a presidência vai sempre para o partido mais votado. Por isso, a táctica seguida por alguns lisboetas de esquerda foi apelar à convergência de esquerda contra o Santana, que não foi nomeado. Alguns ficaram muito satisfeitos com a pequena convergência conseguida entre Costa, Sá Fernandes e Helena Roseta. Aqui, é interessante, funcionou a primeira hipótese. Pois, que eu tivesse reparado, não se garantiu, apesar dos acordos aprovados, a eleição de vereadores para praticarem uma política de esquerda. Não se discutiu um programa mínimo conjunto que pudesse dar essa garantia. Acredita-se que Sá Fernandes e Helena Roseta cumpram esse desiderato.

Compromissos e “esquerda grande”
A primeira parte desta dicotomia já foi, de certo modo, discutida no ponto anterior. No entanto, gostaria de sublinhar outros aspectos. Alguns acham que é muito importante ter influência no Governo, ter alguns ministros favoráveis às políticas de esquerda e que para isso é necessário compromissos, acordos, propostas de programas mínimos, ou seja, propõem uma panóplia de processos que permitissem a esquerda e neste caso o Bloco, já que o PCP está fora de questão, poder apoiar e mesmo entrar para o Governo. Nesta constante crítica, não têm qualquer certeza se a outra parte, o PS, quer isso. A sua prática continuada não é essa. Mas eles insistem que se deve fazer mais um esforço. E pensam que dentro do PS há gente que, apoiada no exterior, era capaz de forçar essa possível convergência. Ou seja, o Bloco deveria orientar a sua estratégia em função de uma remota possibilidade de influenciar os elementos de esquerda no PS. Ainda agora o Manuel Alegre teve que constatar que nenhum dos seus elementos, quer do PS quer dos independentes, faz parte das listas apresentadas por aquele Partido para a Assembleia da República. A única vitória que conseguiu, e isso já satisfez muita gente, foi ter conseguido pôr Alberto Martins em primeiro, no Porto, em vez de Teixeira dos Santos, o ministro da economia.
Que nos propõe o Bloco e que para mim ficou claro na entrevista referida. Este partido, acha que não pode fazer cedências ao bloco central, que alternadamente tem governado Portugal. Mas se o PS for Governo e quiser aprovar medidas de esquerda, os votos de o Bloco nunca lhe faltarão e citou o exemplo do trabalho conjunto desenvolvido na luta pela legalização do aborto. Propôs uma esquerda grande que englobaria Manuel Alegre e os PS de esquerda que a quisessem engrossar e todos os independentes, que neste momento se encontram entre um e outro partido. No fundo, se bem percebo, propõem-se agregar uma esquerda que seja alternativa a este centrão que, segundo ele, nos desgoverna.
Alguns, um pouco na linha do PCP, mas de sentido contrário, dizem que estas propostas do Bloco são iguais às do PCP. Imobilistas e incapazes de forçar alianças à esquerda. O PCP diz quase a mesma coisa, por outras palavras, esta gente é louca, com Manuel Alegre e com a esquerda do PS não se vai lá, estão sempre prontos a trair e a regressar ao PS.
Ora bem, eu acredito nesta alternativa de esquerda grande, que está a romper o tradicional bloqueio em que o PCP e o PS tinham lançado a esquerda. É uma esquerda que está a engrossar e entrou em diálogo com quem achou que devia entrar. Não se meteu nos caminhos ínvios dos compromissos, das intrigas palacianas, na procura de quem é quem no PS, para mais uma vez falhar e não conseguir nada. É uma esperança, que como sempre pode sair completamente furada, tão furada como para aqueles que estão sempre à procura de sinais no PS.

20/07/2009

A governabilidade, a política de alianças à esquerda e o voto útil – II


No post anterior afirmei que a previsível, mas não garantida, subida da esquerda, à esquerda do PS, estava a alarmar a direita, tendo esta, por essa razão, recomeçado a defender alterações constitucionais para artificialmente obter a governbilidade do país.
Gostaria neste post de relançar um outro problema que atravessa toda a esquerda, qual fantasma que percorre a Europa (Marx dixit), que é o das alianças à esquerda.

Comecemos pela nossa história recente.
Como resultado do PREC formaram-se na sociedade portuguesa dois blocos políticos, um maioritário, chefiado por Mário Soares, e que agrupava o PS e toda a direita, outro bastante mais reduzido que englobava o PCP e a esquerda radical, mas que entre si não tinham qualquer unidade política.
Por esta razão, como eu já afirmei no post anterior, o PS sempre se recusou a fazer alianças à sua esquerda, ou seja, com o PCP, já que a outra não tinha expressão parlamentar. As suas propostas foram sempre de governar sozinho e quando não podia, fazia o “sacrifício” de governar coligado com o CDS ou o PSD. No fundo, Portugal reproduzia as clivagens da guerra-fria: os partidos da governabilidade, eram pró-americanos e os outros, ligados aos vários campos comunistas.
E quando alguém no PS se atrevia a sugerir alianças à sua esquerda lá vinha a ladainha que esses eram partidos anti-NATO, e depois, mais tarde, anti-União Europeia. Desaparecido o campo comunista, como o entendíamos antes da queda do Muro de Berlim, acabada, pelo menos em palavras, a guerra-fria, ainda hoje a direita com a cumplicidade do PS, continua a chamar aos partidos à esquerda dos socialistas, anti-NATO e anti-União Europeia e radicais e extremistas. Sobre isto já escrevi vários posts (ver aqui e aqui), que só vêm sublinhar o bloqueamento por parte do PS oficial de qualquer aliança com a sua esquerda. Neste aspecto, como noutros, a linguagem da guerra-fria continua a manter-se e o PS nada faz para que haja uma reversão destes factos.
Manuel Alegre nos seus recentes encontros com o Bloco de Esquerda e a Renovação Comunista, quer no Teatro da Trindade, quer na Aula Magna, pretendeu desbloquear esta situação, iniciando, e bem, uma diálogo com a sua esquerda. Houve de facto frutos, mas quanto a mim eles não são ainda transponíveis para estas eleições.

Como é que o PCP tentou, sem êxito, romper estes bloqueamentos que o PS e a direita lhe estavam a impor desde a instituição do Estado constitucional, saído do 25 de Abril?
Primeiro, tentando puxar o PS para a sua área. Na altura, falava muito em partidos democráticos, em oposição aos não democráticos, que seriam o PSD e CDS. Esta linguagem ainda teve algum curso, e irritou particularmente aqueles partidos, hoje está completamente fora de uso. Depois, evita defrontar em conjunto o bloco PS, mais a direita. Por exemplo, na primeira eleição de Ramalho Eanes, em 1976, para Presidente da República, não apoia qualquer candidato “unitário”, como na altura foi sugerido pelo MDP, que queria Costa Gomes, e sacrifica o seu dirigente Octávio Pato. Por razões mais tarde compreensíveis, foge, como Diabo da Cruz, de se juntar a Otelo, que era o candidato da esquerda radical nessas eleições.
Em seguida é a questão, já abordada num post anterior, dos cartazes a falar da eleição de uma maioria de esquerda para a Assembleia da República e a sua posterior transformação de maioria numérica em política. Por último, é a operação PRD, que visa enfraquecer o PS e encontrar à sua direita um possível aliado. Essa operação culmina com o apoio a Salgado Zenha, contra Lurdes Pintassilgo, Mário Soares e Freitas do Amaral, nas eleições para Presidente da República de 1986. Tudo isto saiu furado e teve-se que ir à última da hora votar em Mário Soares. Hoje tenho dúvidas se não se devia ter apoiado Lurdes Pintassilgo. Os “esquerdistas” diriam que o PCP, na hora da verdade, preferiu sempre alianças à sua direita do que à sua esquerda.
Depois foi “a apagada e vil tristeza” dos últimos anos em que a perspectiva unitária se transformou em fazer aliança consigo mesmo, ou seja, com os Verdes e a Intervenção Democrática.

Quanto à política de alianças do Bloco – partido recente, apesar da sua origem na esquerda radical, com a qual cortou –, já escrevi um longo texto sobre esse assunto, a propósito da intervenção do Louçã na sua IV Convenção. Aí falava da sua proposta para uma esquerda grande e que esta seria “anti-capitalista, porque só pode ser socialista”, em ruptura com a actual prática “terceira-via” do socialismo dito democrático e reformista, ou de centro-esquerda. Ou então, da defesa que fez de uma convergência de esquerda que não deve ter pressa, ou seja, que só se poderá concretizar para depois destas eleições, já que naquele momento nada garantia que Manuel Alegre se afastasse do seu partido e formasse um novo.

Deste longo arrazoado fácil é de concluir que, neste momento, não são previsíveis alianças à esquerda. Sem querer pretender ser moralista, é razoável concluir que o PS é quanto a mim o principal culpado. Poderíamos dizer, como agora é vulgar afirmar, que está no seu código genético a pulsão para ser um fiel reprodutor entre nós, primeiro, das práticas atlantistas de não se coligar com comunistas. Segundo, como defensor do chamado socialismo reformista, e seguindo as directivas da terceira-via, enfileirar no apoio ao neo-liberalismo triunfante e ao chamado reformismo, que não passa de repor a ordem estabelecida antes da instalação do estado de bem-estar social. Hoje, com a crise e a retoma do papel do Estado e com vista a piscar o olho à esquerda, vem contrapor um maior intervencionismo estatal, contra uma Manuela Ferreira Leite ainda sem saber que programa e que princípios há-de defender, se os de Pedro Passos Coelho da privatização da Caixa Geral de Depósitos, se os de rasgar todas as medidas de cárter social ou então deixar tudo como dantes.
Este é o PS que temos, com quatro anos de um longo Governo responsável por medidas bem gravosas contra os trabalhadores, como o Código de Trabalho ou o ataque aos professores, fechando as portas a qualquer saída possível, ou ainda por todas as pequenas injustiças e trapalhadas na administração pública. Um primeiro-ministro autista e arrogante, que depois de entradas de leão, muito apreciadas por quem gosta de pulso forte para governar o povo, se transforma num empecilho, mesmo para aqueles que tanto apreciavam o seu estilo.
Quanto às outras esquerdas estão na retranca: o PCP, a garantir a sua sobrevivência, e o Bloco pensando que ainda não está chegado o momento de fazer a convergência de esquerda, e provavelmente terá razão, pois com este PS e o seu Governo não é possível qualquer entendimento.
Nesse sentido, todos aqueles que neste momento apelam ao voto útil no PS, pois não há outro, para combater a direita e a sua actual versão, que pode acabar num Governo e num Presidente, estão a dar um voto em branco a Sócrates, não percebendo que com ele a esquerda não irá a lado nenhum.
Este tem sido sempre o dilema da esquerda, que é votar útil naqueles que miticamente se consideram de esquerda, e depois ficar desiludida porque o seu voto não serviu para nada a não ser para prolongar a vida daqueles que nunca cumpriram as promessas feitas.
Que cada homem e mulher vote em quem em sua consciência pensa que na esquerda melhor defende os seus interesses. Eu por mim votarei no Bloco.


Resta o problema bem real, mas se não houver maiorias absolutas de nenhum dos lados, que fazer? Em post posterior tentarei responder a essa pergunta

19/07/2009

A governabilidade, a política de alianças à esquerda e o voto útil – I


O Expresso este fim-de-semana desenvolve uma série de cenários sobre aquilo que pode acontecer depois das eleições de 27 de Setembro. Põe mesmo o título: Guia para sobreviver no caos pós-eleitoral. Já se sabe que estamos perante uma antevisão que é típica da especulação jornalística e pouco reflectida deste tipo de imprensa. No entanto, há duas coisas que desde logo convém realçar, por um lado é o título perfeitamente aterrador do artigo e depois são a descrição das propostas que vários comentadores da direita e o representante do patronato andam a fazer para reforçar os poderes do Presidente da República. Catroga na entrevista que dá ao Diário Económico, e que eu já referi em post anterior, chega mesmo a afirmar: “os poderes do Presidente da República deveriam ser revistos se os partidos provocarem instabilidade política permanente”.
No mesmo sentido vão as declarações de Francisco Van Zeller, o patrão dos patrões, e de Medina Carreira, que, segundo diz o Expresso, foi o primeiro a pregar esta solução.
Qual é o significado de tudo isto? Eu diria que não estamos perante um facto novo, desde que o regime constitucional saído da Revolução de Abril foi implantado em Portugal que o cenário da ingovernabilidade e da necessidade de se fazer alterações constitucionais para a assegurar tem sido periodicamente acenado. E porquê?
Se estão recordados as primeiras eleições para a Assembleia da República quase que distribuíam os votos igualmente pelos quatro partidos então existentes: começando da direita para a esquerda: CDS (15,98%), PPD/PSD (24,35%), PS (34,89%) e PCP (14,39%). Por isso, se um deles se aliasse com outro facilmente poderia fazer uma maioria absoluta para governar. Ora como o PS se recusava a governar com o PCP, as maiorias só poderiam ser entre os outros três partidos e foi o que se verificou. Assim, depois de um fracassado Governo minoritário do PS, tivemos uma aliança PS/CDS, a seguir frágeis governos de iniciativa presidencial, e depois PSD/CDS (a Aliança Democrática) e por último o bloco central PS/PSD. Foi então que a criação do PRD, de Ramalho Eanes, veio provocar um relativo abalo nestas combinações a três. Não só porque inflige uma extraordinária derrota ao PS (fica nessas eleições – 1985 - com 20,77%), como começa a fazer descer o PCP, para níveis que posteriormente roçariam a irrelevância (em 2002 chega aos 6,94%), e permite o PSD começar a governar sozinho, primeiro com um Governo minoritário e depois com duas maiorias absolutas. O CDS a partir dos Governos de Cavaco começa descer significativamente chegando em 1991, na segunda maioria absoluta do PSD, a ter 4,43%. A partir daí começa a consolidar-se a ideia de que era possível uma alternância, o rotativismo do tempo da Monarquia, entre PS e PSD, este por uma vez coligado com o CDS. O PCP começava de certo modo a ser descartável.
Esta longa história, que eu aqui resumo, visa unicamente chamar-vos a atenção para que durante estes anos o regime foi sempre encontrando soluções que impedissem uniões à esquerda, mas ameaçando sempre que poderia recorrer a soluções mais radicais, que lhe permitissem artificialmente obter o rotativismo sem qualquer sobressalto.
Assim, foi durante os anos 80 a propaganda a favor da bipolarização, com comentadores e fortes meios de comunicação a martelar que a alternância era entre o PS e o PSD, que só estes é que podiam governar. A verdade é que durante o consulado de Cavaco o CDS quase desaparece e o PCP vai inexoravelmente definhando.
Para completar esta propaganda acenava-se com as alterações da lei eleitoral. Ele era a redução do número de deputados, o que tornaria irrelevantes os pequenos partidos. Ele era a ligação do eleito ao eleitor, moscambilha que só serviria para tentar diminuir ou forçar por métodos administrativos a diminuição da proporcionalidade e por último Jorge Sampaio, em dia de azar, a propor a alteração da lei eleitoral de modo a obter-se maiorias absolutas com poucos votos. Lembro-me de Pacheco Pereira a aplaudir esta proposta.
Agora, com a subida exponencial dos partidos à esquerda do PS, Bloco e PCP, vem novamente ao de cima uma qualquer solução para os impedir de ter acesso ao Governo. Pede-se por isso o reforço do papel do Presidente da República, já que a direita tem nesse órgão um amigo. Mas, como já aqui escrevi, é também o ressurgir de uma proposta que andou sempre em cima da mesa, a das moções de censura construtivas, de modo a impedir alianças espúrias no Parlamento para deitarem abaixo o Governo.
No fundo, o relato desta história recente de Portugal tem como objectivo mostrar que a democracia é muito bonita enquanto o poder se distribui por entre os “amigos”, quando há perigo de alguém estranho “ao compadrio” poder entrar, eis que temos que fazer tudo para que isso não suceda. Já em post anterior escrevi sobre isto e recordo até um Expresso da Meia Noite, da SIC Notícias, em que as senhoras bem pensantes do centrão, Maria João Avilez e Teresa de Sousa, se horrorizaram quando Alfredo Barroso falou da hipótese de o PS discutir com a sua esquerda a questão das alianças.
Ou seja, a vida política portuguesa ganhou um novo alento com a subida eleitoral do Bloco de Esquerda e do PCP. Os famosos 20% assustam muita gente e põe toda a direita em polvorosa, não vá por qualquer razão imponderável o PS, trair o seu compromisso de não trazer a sua esquerda para a área do Governo.

Concluindo, está hoje em cima da mesa a possibilidade de a esquerda, à esquerda do PS, poder obter aquilo que nunca foi capaz de ter (a votação mais alta do PCP em legislativas foi 18,80%, em 1979): uma votação acima dos 20%. Esse facto assusta a direita e obriga o PS a ter que reflectir sobre esta situação, não podendo assobiar para o lado, quando há aquela percentagem de votantes à sua esquerda. No próximo artigo desenvolverei este tema.
PS. (20/07/09): Estive hoje a ler um texto que escrevi em Maio, e que indiquei na segunda parte deste artigo, que refere uma outra proposta da direita para forçar a governabilidade, foi a de um novo bloco central (PS-PSD). Já me tinha esquecido desta, dada a rapidez com que entrou e saiu do debate político. É interessante que foi defendida pelo patronato, que pelos vistos anda a atirar barro à parede, e por Martim Avillez Figueiredo, director do novo jornal i. Já se percebeu que todos os dias há propostas novas, tem é que se forçar o PS a não fazer alianças à sua esquerda.

17/07/2009

A grande coligação de esquerda: Manuel Alegre/PS


Saiu hoje no Sol esta declaração espantosa de Manuel Alegre “Se foi possível em Lisboa será possível em todo o país” e depois acrescenta o “entendimento à esquerda na Câmara de Lisboa devia ser um exemplo para todo o país, evitando o risco de um triunfo da direita”.
Já num post, que tinha escrito em Março, relatava que António Costa falava de uma coligação entre o PS oficial e Manuel Alegre. Pacheco Pereira respondeu-lhe no Público com um artigo denominado Uma coligação do PS-1 (Sócrates) com um PS-2 (Alegre). Simplesmente o tempo passava e não se via nada. Manuel Alegre recusa ir nas listas do PS e escreve um artigo para o Expresso, É urgente acordar . De facto, era um bom começo para um distanciamento em relação ao PS oficial. Tirava o tapete a alguns dos seus arautos que achavam que perante a ameaça da direita tudo se devia fazer, inclusive votar útil no PS, para que aquela não tivesse uma maioria, um presidente e até as principais Câmaras do País (Lisboa e Porto).
Eis que no lançamento da OPS! Manuel Alegre afirma que estaria disposto até a colar cartazes para que o PS derrotasse a direita. Hoje, no Sol, leio isto. Como a única coligação que vejo em Lisboa, e que foi apadrinhada por Manuel Alegre, é entre Costa e Helena Roseta, seu braço armado para a cidade e antiga militante socialista, concluo que a coligação que o Manuel Alegre deseja para o país é entre ele e o Sócrates, garantindo provavelmente alguns lugares nas listas para os seus amigos, já que ele se reserva para voos mais altos, como sejam as presidenciais.
Hoje começa a ficar claro que a ambição de Alegre é ser Presidente da República, o que não lhe fica mal, e que a estratégia unitária desenvolvida no teatro da Trindade e na Aula Magna não servia para outra coisa do que lhe dar importância política, valorizar as suas hostes e poder negociar com o PS oficial em posição de força. Andou muita gente enganada a acalentar esperanças que de facto não se concretizaram. A vida é assim, mas cá estaremos para depois de 11 de Outubro vermos como tudo isto vai evoluir.

16/07/2009

Segundas reflexões melancólicas sobre a política à portuguesa


Em dois dias, grandes desenvolvimentos se verificaram no nosso panorama político.
Helena Roseta e o seu movimento de cidadãos fizeram um acordo com António Costa para ser ela a número dois nas listas do PS à Câmara de Lisboa e conseguir ainda incluir, em área elegível, o Prof. Nunes da Silva, especialista em transportes.
Helena Roseta tinha dito, quando o Sá Fernandes e o Bloco de Esquerda fizeram um acordo com o Costa, "agora já se sabe para que serve o Zé", acabaram os dois na mesma lista. O Nunes da Silva no célebre debate no Prós e Contras sobre os contentores de Alcântara, atacou o Zé forte e feio, dizendo que antes era o Zé agora era o Sr. Vereador, pelos vistos parece que vão também aparecer na mesma lista.
São estes factos que descredibilizam a política, permitindo que os eleitores não acreditem nos seus eleitos.
E não se diga que se fez este sacrifício pela unidade de esquerda, ou pela possibilidade de cumprir o seu programa, quando ainda há bem pouco tempo essa possibilidade era recusada.
Simplesmente, nas primeiras sondagens, Helena Roseta aparecia atrás do Costa, mas à frente do Bloco e do PCP. Estava muito bem lançada para obter os mesmos dois vereadores que tinha alcançado nas eleições de 2007. Já nas últimas aparecia em último lugar, com possibilidades dela própria não ser eleita. Depois teríamos uma longa campanha de Verão, em que só se falaria de legislativas e o movimento dela não apareceria na televisão. Tinha 15 dias, entre 27 de Setembro e 11 de Outubro, para se fazer lembrada aos cidadãos de Lisboa. Assim, o melhor é fazer uma aliança e dizer que os outros, os da esquerda radical, é que não quiseram.

Ontem manifestei uma particular paixão por um artigo de Manuel Alegre sobre o PS de Sócrates. Acreditei pela resposta de António Vitorino que afinal eles estavam mesmo zangados e que o Manuel Alegre, ao contrário de muitos outros, não alinhava na versão português suave de apoiar Sócrates para não deixar a direita tomar o poder.
Hoje li nos media que Manuel Alegre estaria até disposto a ir colar cartazes para que o PS vencesse e a direita não cumprisse seu ideal: uma maioria e um presidente.
Afinal aquilo que eu antevi em Março que poderia acontecer: “acabar tudo com Manuel Alegre e Sócrates nos comícios eleitorais a darem vivas ao PS”, pode-se transformar, numa versão mais esforçada, com o Secretário-geral mais o Manuel Alegre a colarem cartazes no Largo do Rato, para impedirem a chegada de Manuela Ferreira Leite ao poder.
Estamos pois numa época de grande instabilidade e aquilo que foi verdade há uns tempos poderá rapidamente transformar-se no seu contrário. É preciso ter uma linha bem definida para não soçobrar às primeiras incongruências.

13/07/2009

Algumas reflexões melancólicas sobre os últimos desenvolvimentos da política à portuguesa


Desde que escrevi o último post sobre o ponto final na Convergência para Lisboa que algumas coisas se têm vindo a modificar na política portuguesa e, um pouco em jeito impressivo, gostaria de partilhar convosco algumas das minhas preocupações.

Realizou-se na semana passada um almoço que juntou antigos apoiantes de Sá Fernandes e que deram conhecimento à cidade que tinham criado uma associação, Lisboa é muita gente, para concorrer à Câmara da capital. Sá Fernandes chegou mesmo a apelar a uma convergência de esquerda, dizendo que iria reunir-se com António Costa para ultimarem a realização de um acordo. Domingo esse acordo é assinado num dos miradouros mais bonitos da cidade, o da Graça.
Andou um conjunto de lisboetas a recolher assinaturas para um apelo a uma convergência de esquerda e eis que tudo acaba com Sá Fernandes a apossar-se desse desejo e a convergir com Costa. Desde que o Bloco lhe retirou a confiança já pressentíamos que era isso que iria acontecer, só não sabíamos como. Ficámos a saber.
Quando o apelo à Convergência de Esquerda foi lançado, Jorge Sampaio tornou público o seu apoio, apesar de não o assinar. Falou-se igualmente em José Saramago, mas este encontrava-se hospitalizado e ninguém poderia jurar que da sua boca ou da sua pena tinha saído qualquer recomendação nesse sentido. Houve uma notícia num jornal e foi a partir daí que se começou a dizer que o mesmo era igualmente apadrinhado pelo Saramago. Parece que houve um desmentido do PCP a dizer que não era verdade.
Posteriormente, veio a público uma declaração de Saramago a afirmar a sua concordância com o apelo e hoje sabemos claramente que apoia António Costa. Carlos do Carmo, mais explícito, assinou o apelo à convergência, apareceu mesmo na sua sessão de enceramento. Hoje é o mandatário de António Costa.
Vim a saber que vai igualmente ser activado, a partir de alguns dos peticionários da convergência, um novo apelo denominado CLAC – Cidadãos Lisboetas Apoiam António Costa.
Fiquei com a sensação depois de tudo isto que o apelo já continha no seu bojo um claro encaminhamento para o apoio ao Costa. Sinto algum desconforto na figura que eu e outros andámos a fazer nisto tudo. Paciência, temos que aprender.

Fui dos mais entusiastas apoiantes das Sessões que se realizaram quer no Teatro da Trindade, quer na Aula Magna e juntaram o Bloco de Esquerda e Manuel Alegre. Na primeira, a Renovação Comunista participou como uma das suas promotoras, na segunda, apesar dos seus principais dirigentes estarem quase todos presentes, não juro que tivesse obtido o realce que teve na anterior.
Eu próprio fui escrevendo vários textos em que enaltecia o papel de Manuel Alegre e previa uma possível alteração na correlação de forças partidária, reforçada por esta junção de esforços entre a esquerda do PS e o Bloco, com a participação de independentes. Foi inclusive, na sequência da reunião do Trindade que me zanguei com o meu amigo Fernando Redondo, do DoteCome, tendo até abandonado a colaboração no seu blog. Podemos dizer que levei demasiado a sério as perspectivas de unidade que aqueles encontros poderiam proporcionar.
Em Março, depois de alguns episódios a que chamei a novela Manuel Alegre, faço um aviso à navegação para que não “acaba tudo com Manuel Alegre e Sócrates nos comícios eleitorais a darem vivas ao PS”. Parece que pelo menos esse perigo já foi ultrapassado. Com o seu recente artigo, É urgente acordar, Manuel Alegre consegue, até com alguma clareza, distanciar-se do PS oficial e do seu Secretário-geral. A crítica é certeira e tira o tapete àqueles que a pretexto de vem aí a direita se preparam para que se volte ao círculo vicioso ou nós, o PS de Sócrates, ou a Manuela Ferreira Leite, com a figura do Cavaco a agigantar-se por detrás. Esta alternativa com que o PS já nos começou a matraquear a cabeça, tem que ser quebrada e este artigo de Manuel Alegre, a exigir mudanças profundas no PS, não desmerece dos encontros que ao longo do ano se foram tendo com ele. Espero não deitar foguetes antes do tempo. No entanto, hoje António Vitorino, no comentário político que tem na RTP I, Notas Soltas, considerou tão inoportuno aquele artigo, que me deu alguma esperança da sua real utilidade.

03/07/2009

Ponto final no Apelo à Convergência de Esquerda nas Eleições para Lisboa


Realizou-se no passado dia 29, no Hotel Roma, uma conferência de imprensa em que os peticionários, ou seja, os subscritores do Apelo à Convergência de Esquerda nas Eleições para Lisboa prestavam contas aos lisboetas e à comunicação social das diligências desenvolvidas. De todos os contactos efectuados “cumpre-nos informar com verdade a cidade de que, chegados à passada 5ª feira, 25 de Junho, acabaram por não ter resultado as inúmeras diligências efectuadas.”
Sendo esta uma das conclusões do comunicado final dos peticionários, gostaria pela minha parte, que também fui um dos ssubscritores do apelo e por duas vezes comentei neste blog (ver aqui e aqui ) este assunto, de fazer algumas considerações sobre o mesmo.
Como eu afirmei por diversas vezes há entre a esquerda portuguesa uma clara pulsão unitária, que tem origem principalmente na luta antifascista e que se manteve ao longo dos anos, alimentada mais pelo PCP do que pelo PS, e que encontrou nos recentes eventos que tiveram lugar no Teatro da Trindade e na Aula Magna uma expressão significativa. O encontro da esquerda do PS, corporizada pelo Manuel Alegre, do Bloco de Esquerda e da Renovação Comunista trouxe para a praça pública o renovado desejo de um diálogo à esquerda.
Nesse sentido, a Renovação Comunista tentando expressar este desejo empreendeu alguns contactos, primeiro com vista a uma possível saída de esquerda para as eleições legislativas que se avizinham e depois, goradas aqueles, iniciou movimentações para a Câmara de Lisboa, porque lhe pareceu que era o local onde melhor se poderia corporizar aquela união.
Por isso redigiu um apelo e submeteu-o a um conjunto de personalidades independentes ou que num ou noutro caso têm aparecido ligadas a alguns dos partidos da esquerda.
Quando aquele apelo surgiu já praticamente o quadro das diferentes candidaturas à Câmara estava traçado. Sabia-se que António Costa, pelo PS, queria continuar e que o Bloco e o PCP (vulgo CDU) iriam apresentar candidaturas próprias e que Helena Roseta manteria o seu movimento de cidadãos. Ou seja, a esquerda aparecia completamente desunida, “cada um por si e fé em Deus”. Foi contra isto que este movimento arrancou, primeiro com duzentas assinaturas e depois na Internet, aberto a quem o quisesse assinar. Quer o Bloco quer o PCP manifestaram desde logo, com justificações diferentes, que eu já assinalei num dos post referidos, a sua indisponibilidade para alianças. António Costa, sem nunca ter tido um gesto público significativo em relação à convergência foi alimentando nas conversas com os peticionários essa possibilidade.
Restava aos peticionários, principalmente ao seu núcleo organizado, que incluía alguns elementos da Renovação Comunistas, mas também independentes que prontamente se quiseram juntar, prestar contas dos resultados e da acção empreendida, foi isso que foi feito no dia 29 de Julho.
É evidente que diferentes eram os motivos para que várias pessoas, oriundas de diversas áreas políticas de esquerda, se tivessem juntado com o mesmo objectivo.
Da minha parte, devo reconhecer que foi para mim irresistível o apelo à unidade de esquerda. A minha formação ao longo dos anos sempre teve em conta este desejo, e sempre mitifiquei, provavelmente, pelas boas razões, as épocas históricas em que ele foi conseguido. Nesse sentido assinei o referido apelo.
Reconheço, no entanto, que o mesmo poderia, dada a aceitação em palavras, não sei se em actos, de António Costa, servir para apoiar a sua candidatura, favorecendo aquilo em que o PS é mestre em momentos de aperto: fazer o apelo ao voto útil.
Sei que alguns dos peticionários tinham claramente essa intenção, no entanto, conseguiu-se fazer um esforço, não extravasando as claras competências que nos tinham sido atribuídas, para que esse facto nunca transparecesse claramente.
A não existência de acordo e a possibilidade real de Santana Lopes e a direita ganharem a Câmara levou a algum dos peticionários a classificarem a não existência de coligação como "uma tragédia patética" e "quem não entrar em acordo é um traidor para o povo lisboeta" (Pílar del Rio, mulher de José Saramago, Diário de Notícias, de 30/06/09).
Acredito piamente que este seja o pensar de muitos dos peticionários. Que a presença de Santana Lopes na Câmara seja uma tragédia para eles. Mas tenho que reconhecer, que sendo verdade este facto, não podemos, por outro lado, deixarmo-nos cair na tentação de que o voto útil é que é a solução ou então que a estratégia dos partidos se deve submeter a uma lógica local, esquecendo que uma das partes, o PS, nem nacionalmente se portou para merecer o nosso apoio, nem mesmo a sua face visível na Câmara deu motivos para que nele confiássemos. Provavelmente a longo prazo os eleitores que acreditam nos valores e na clareza das atitudes não compreenderiam que em nome de uma possível vitória local sacrificássemos algumas estratégias nacionais ou avalizássemos a postura de quem sempre demonstrou um grande desprezo pelos “extremistas” de esquerda. Há nestes casos que avaliar entre um legítimo anseio de unidade e a queda irremediável para o oportunismo e o laxismo.

01/07/2009

Quebrar o Círculo Vicioso


A história da classe e do movimento operário em Portugal tem algumas originalidades de que a esquerda moderna ainda é um pouco devedora. Nesse sentido qualquer análise da situação da nossa esquerda e das suas perspectivas futuras tem que ter em conta a o seu passado e a especificidades que lhe são próprias. Comecemos pois pelo princípio.

I – O PS
Como se sabe o PCP não teve origem em qualquer dissidência do socialismo português mas sim no movimento anarco-sindicalista. Este facto só vem provar que nunca os socialistas tiveram qualquer influência visível na história da nossa classe operária. Tirando alguns próceres que no século XIX tentaram introduzir mais as ideias do Proudhon do que as de Marx em Portugal e deram origem ao socialismo português, aquilo que sobrou desta organização depois da República e do advento do fascismo foi um Ramada Curto, seu antigo secretário-geral, a apelar, no fim da vida, à defesa das colónias portuguesas.
Bem podem hoje alguns historiadores com boa vontade descobrir a participação socialista no 18 de Janeiro de 1934, a greve geral contra a fasciszação dos sindicatos, que dificilmente encontrarão referências sólidas a essa intervenção. Nesse sentido, quando em 1973 se funda novamente o Partido Socialista português este é mais devedor das novas ideias que percorriam o socialismo europeu na época do que de qualquer passado histórico relacionado com a luta da nossa classe operária. Estou-me a recordar do António Reis, hoje Grão-Mestre da Maçonaria, a propor em 1974 como programa político do PS a adopção do “reformismo-revolucionário” então defendido por um sociólogo francês, André Groz.
Por outro lado, e não de forma despicienda, este partido herda a velha ideologia republicana e oposicionista, com algum vocação maçónica e jacobina.
Mas a carta de alforria ganha-a durante o PREC, depois de vencida em Congresso a sua ala esquerda, representada por Manuel Serra. Foi no anti-comunismo, ou como o PS gosta de dizer na luta contra o anarco-populismo, que o PS se destacou, ganhou apoios e gratidão na direita nacional e conquistou a admiração da social-democracia internacional mais ligada a um dos lados da guerra-fria. Para aqueles que esquecem estas coisas lembro a frase do socialista francês Jean-Pierre Chevènement que a dada altura do PREC teria afirmado, mais ou menos isto, sobre o socialismo europeu, “não morrer como no Chile e não trair como em Portugal.”
Mas isto são histórias passadas. O PS tornou-se, vencida a esquerda revolucionária no 25 de Novembro, num dos principais partidos da rotação governamental, fazendo tudo para, juntamente com o PSD, bipolarizar a sociedade portuguesa, de modo a se evitarem coligações, principalmente à esquerda. Ou seja, depois do PREC, tentou-se por todos os meios impedir que na sociedade portuguesa houvesse uma alternativa de esquerda plural. Daí, que ainda recentemente André Freire, num estudo sobre os diversos partidos socialistas europeus, ter afirmado que o português era o que se situava mais ao centro, distanciando-se menos ideologicamente do seu opositor de direita.
Esta é a história, e por muito que o PCP na sua máxima pujança eleitoral tentasse que a maioria numérica que a esquerda dispunha no Parlamento se transformasse em maioria política, nunca o PS acedeu a isso. Para romper este círculo vicioso o PCP tenta, aproveitando a situação criada com a saída do Ramalho Eanes de Presidente da República, apoiar a criação de um novo partido, o PRD, que pudesse romper e dividir o PS. Foi a sua última grande operação política, que redundou num profundo fracasso. É só ver a diminuição de votos e de percentagem que a partir daí, 1985, o PCP foi tendo.
Mais uma vez o PS, de modo ainda pouco claro, mas que alguns, mais papistas que o Papa, tendem a verbalizar, começou a ensaiar a melodia do voto útil. Se não votam em mim terão a direita no poder. Por enquanto esta operação resume-se a começar a encostar o PSD à direita conservadora e se possível salazarenta, provavelmente só depois virá o apelo ao voto útil. É verdade que ainda estamos na fase da classificação dos partidos à esquerda do PS como extremistas, radicais e pouco confiáveis, mas com o tempo lá iremos à sedução dos seus votantes.

II – O PCP
Como já foi anteriormente afirmado a origem do PCP entronca no movimento anarco-sindicalista e dessa influência ser muito clara nas suas primeiras movimentações. No entanto, a principal razão da sua existência deve-se em primeiro lugar ao êxito da Revolução Soviética de 1917 e depois à existência da III Internacional e da sua influência no movimento operário internacional. Partido disciplinado e com características próprias para lutar contra a investida fascistas consegue, muito melhor que os anarco-sindicalistas, resistir à repressão fascista e poder organizar o movimento operário. Transforma-se com o tempo num grande partido nacional, que influencia toda a ideologia da Oposição. Podemos dizer, utilizando um conceito gramsciano, que conquistou a hegemonia ideológica da esquerda em Portugal durante o final dos anos 30, e depois durante os anos 40, 50, até meados dos anos 60. Não deixando, no entanto, de estar por detrás ou de influenciar profundamente a ideologia de esquerda que pôde renascer com a queda de Salazar e o advento de Marcelo.
Não é por acaso que o PCP surge logo a seguir ao 25 de Abril como a grande força organizativa da esquerda portuguesa, que obriga Spínola a atribuir-lhe um lugar no Executivo, incapaz que se sentia de governar sem a participação do PCP.
Mesmo hoje, quando alguns herdeiros do esquerdismo dos anos 60/70 falam da perda e fraqueza do PCP nesses anos, esquecem a força política e organizativa deste partido a seguir ao 25 de Abril. Ainda recentemente, num colóquio organizado no Museu da República e Resistência (1º Colóquio "Os Comunistas em Portugal"), um historiador brasileiro, nada favorável ás posições do PCP, reconheceu isto. É evidente que a sua força organizativa não correspondeu depois à sua força eleitoral, como eu já demonstrei aqui .
Derrotada que estava a fase revolucionária houve no PCP alguma dificuldade em adaptar-se aos novos tempos. Continuou-se por razões meramente programáticas a acreditar que o país avançava para o socialismo, porque isso estava inscrito na nossa Constituição, quando há muito tempo que esta, neste aspecto crucial, não passava de uma ficção. Ainda recentemente num museu que foi recentemente inaugurado em Sines encontrei um cartaz da Câmara Municipal daquela cidade, de 1980, que falava das realizações do poder autárquico socialista. Dando a ideia que estaríamos a caminhar para o socialismo.
Tirando esta ficção, que provavelmente foi um pouco inebriadora, sempre o PCP tentou forçar uma saída à esquerda. Daí o apelo a uma maioria de esquerda, que chegou a estar publicitada em cartazes, ou depois, o apelo discreto à formação do PRD. No entanto, o círculo fecha-se, com o governo de Cavaco a direita e as classes dominantes em Portugal encontram a sua estabilidade, o Muro de Berlim cai, começam as divergências e purgas no PCP, este partido reduz significativamente a sua votação. Duas soluções surgem entretanto no horizonte: o Novo Impulso, que visa a sua renovação, ou o enquistamento e o refúgio nos valores seguros. Esta última foi a opção vencedora. E hoje o PCP é um partido sectário e com laivos esquerdistas, que não desaparece, como os outros PC da Europa, mas que é incapaz de crescer, de romper com o cerco e as limitações que lhe criaram e em que ele próprio foi caindo.

III – O BE
O Bloco de Esquerda foi criado em 1999. Herdeiro da tradição esquerdista do final dos anos 60 e do PREC, rompeu com ela a e apresentou-se com uma outra cara. Abordando primeiro os chamados temas fracturantes, foi progressivamente voltando a sua atenção para os temas nacionais, surgindo com uma nova linguagem e uma grande flexibilidade táctica. Podemos dizer que no panorama político português foi a novidade que pode permitir com alguma razoabilidade romper com o círculo vicioso em que a esquerda portuguesa tinha caído: voto útil no PS, para não deixar a direita tomar o poder, ou fidelidade aos princípios, continuando a votar PCP.
Ainda é cedo para avaliar o desenvolvimento futuro do Bloco. Para já, e perante o êxito nas eleições europeias, as tentativas de diálogo com a esquerda do PS (Teatro da Trindade e Aula Magna) e um claro evitar de confrontos desnecessários com o PCP, reconhecendo-lhe a importância e o valor histórico, têm permitido a este partido aglutinar as forças que se reclamam da esquerda.
Para muitos resta o problema da ideologia. O Bloco, fugindo às discussões ideológicas e aos rótulos, cobra da tradição da social-democracia de esquerda e do movimento comunista, com toda a sua complexidade e diferenciação.
Reconhecendo que são realidades muito diferentes o Bloco poderia ser na sociedade portuguesa aquilo que o PT foi na brasileira. Um partido aglutinador de toda a esquerda, principalmente a que vinha dos meios católicos e que rompia com as tradições clássicas da esquerda comunista e da que provinha da guerrilha.
É evidente que o Bloco sozinho não irá longe, precisa de compreender que, como força aglutinadora da esquerda, deverá juntar à sua volta outros parceiros ou mesmo se necessário ser capaz de diluir a sua identidade num movimento mais vasto que inclua a esquerda do PS, socialistas sem partido e dissidentes do PCP, que se têm vindo pelas razões aduzidas a afastar-se dele. No fundo o Bloco poderá ser um movimento aglutinador e, porque não, refundador da esquerda.

IV – Conclusões provisórias
Pelo que atrás foi dito há neste momento uma necessidade da esquerda romper, e do movimento operário, se ainda terá sentido falar nele como movimento autónomo, com o círculo vicioso em que há bastantes anos se tem vindo a deixar espartilhar.
Ser capaz de assumir que o PS como um todo não foi capaz de se assumir como um parceiro de confiança, com quem seja possível estabelecer um programa comum de esquerda, como aquele que há uns largos anos se estabeleceu entre o PS e o PC francês. Que regularmente nos pede o seu voto para evitarmos ser governados pela direita e que posteriormente sem qualquer escrúpulo faz tudo aquilo que não seria de esperar de um partido de esquerda, mesmo que só cumprisse os mínimos exigidos. A situação actual é das mais gravosas, sendo José Sócrates e a sua equipa completamente responsáveis pela situação de degradação a que o Governo e o partido socialista chegaram.
Por outro lado, a outra opção era quase até ao presente votar num PCP que sempre nos pediu o seu voto para se reforçar e conseguir fazer sair o país da situação de atoleiro em que ia progressivamente mergulhando, quer com os Governos do centro-direita, quer do centro-esquerda, ou seja do centrão. Nunca como hoje, aqueles que nele votaram sentiram a impotência desse voto.

Hoje, a fugindo à chantagem do voto útil, é possível termos uma perspectiva, encarnada pelo Bloco, de rompermos com este bloqueio da esquerda. Nada disto é certo e muito menos garantido, no entanto só numa perspectiva de aglutinação de todos os descontentes é possível romper com o círculo vicioso em que a esquerda tem vivido nos últimos anos.

28/06/2009

Os novíssimos sectários



Para Tiago Mota Saraiva, desta vez cito-lhe o nome, não vá o “autor” ofender-se (ver aqui uma polémica antiga), o parágrafo inicial do referido Manifesto: “Estamos a atravessar uma das mais severas crises económicas globais de sempre. Na sua origem está uma combinação letal de desigualdades, de especulação financeira, de mercados mal regulados e de escassa capacidade política”, merece-lhe este comentário “Terá sido só isto? Já não é o sistema que provoca as crises para se reforçar, José Castro Caldas, Francisco Louçã, Ricardo Paes Mamede, João Rodrigues, Nuno Teles? O que mudou entretanto? É táctica política?

Voltando novamente a Carlos Vidal, noutro post: “o manifesto de economistas recentemente assinado por “socialistas” e “bloquistas”, com Francisco Louçã, mais cedo do que eu esperava, lá muito bem integrado.É um sinal para o futuro próximo. Uma estrela para guiar os novos magos: palavras para quê, é o manifesto dos “51″ em resposta em cima da hora e nos timings do PS ao manifesto dos “28″, desenvolvendo a agenda do PS: os chamados, pelo PS (!!), “investimentos públicos”!!!
Para não me acusarem de estar a desvirtuar o conteúdo destes post, macei-vos com esta prosa de blog, cheia de perguntas, pontos de exclamação e insinuações, que muitas vezes só os próprios e os amigos percebem. Para mim, que redijo longas laudas, muito bem explicadinhas, esta maneira de escrever é intragável. São gostos. Mas, o seu conteúdo é que interessa.
A verdade é que o que está aqui em causa é mais uma vez uma velha prática esquerdista de tentar meter tudo no mesmo saco. Como há economistas do PS e do Bloco a assinar aí temos a convergência do PS de Sócrates com o Bloco do Francisco Louçã. Está visto, mais depressa do que estas almas previam e gostavam que acontecesse, aí temos a aliança PS-BE.
São incapazes de perceber como esta junção de esforços entre gente de esquerda do PS com a “esquerda radical” (José Manuel Fernandes, do Público, dixit) do Bloco é importante, para romper os consensos neo-liberais e conservadores dos economistas do centrão. No fundo é a repetição do Trindade e da Aula Magna. Mas estes rapazes, com uma linguagem modernaça, convencidos que já não seguem os figurinos de antanho, recuperam a velha linguagem esquerdista: todos aqueles que em dado momento colaboraram em projectos unitários, que permitam subtrair à direita a sua influência ideológica, estão vendidos ao inimigo. No fundo, com a aparência de novidade, retomam o mesmo esquerdismo e sectarismo que em tempos atacou o “esquerdismo” português e que hoje, lamentavelmente, é apanágio do PCP.
PS. (28/06/09): Carlos Vidal volta novamente ao local do crime com um novo post sobre o Manifesto dos 51. Não o conheço pessoalmente, mas pela prosa parece-me um jovem intelectual pretensioso e convencido. E como todos os jovens desconhece que no fundo as ideias têm também um passado, uma história. E tudo o que ele diz não foge ao que diziam os nossos “esquerdistas” que no final dos anos 60 e princípio dos 70 se opunham ao PCP e à sua política de unidade com a pequena–burguesia, contra os monopólios, principal força de apoio ao fascismo. Achavam, que a luta se devia dirigir contra o capitalismo no seu conjunto e não contra os monopólios. Ser explorado por um grande ou pequeno-burguês era, para eles, a mesma coisa. Já se sabe que estas opções sociais e económicas correspondiam depois a escolhas políticas. Assim a luta pela unidade e contra o fascismo, correspondia para estes críticos à luta pela democracia burguesa e o que interessava era lutar pela democracia popular. Quer se queira quer não, estas velhas consignas “esquerdistas” estão mais uma vez implícitas na apreciação que Carlos Vidal faz do Manifesto dos 51. Mas isto digo eu que já há muitos anos conheço esta ladainha.
No mesmo blog, mas num post anterior, alguém que não sendo da minha geração, mas tendo a mesma origem política e fazendo um percurso, pelo menos, semelhante, diz, por outras palavras, o mesmo que eu. É o post de Nuno Ramos de Almeida, que juntamente com António Figueira, que presentemente não escreve sobre política, dão ainda alguma qualidade a este blog.

27/06/2009

Fim de Festa


Por razões familiares e de saúde – lá fui mais uma vez a Madrid – não tenho escrito nada neste meu blog. Sei como a ausência de novidades determina imediatamente uma clara diminuição de leitores. É como se um jornal diário só saísse quando o seu director quisesse, rapidamente iria à falência. Aqui como não tenho custos, nada me acontecerá economicamente, mas de certeza que aqueles que me costumavam ler regularmente já nem se lembram de dar aqui um pulo. Dificuldades de quem não precisa da prosa para viver. Dito isto, passemos ao que interessa.

No post anterior fiz uma análise do resultado das eleições para o Parlamento Europeu. Afirmei que os resultados tinham sido mais graves do que eu desejava e, posso dizê-lo, previa. O PS sofreu uma derrota de que provavelmente já não se consegue recompor e aquilo que poderia ser intuído antes das eleições, mas que ninguém levava muito a sério, tal eram as certezas das sondagens, hoje passou a ser uma evidência. E estas coisas são como são, a comunicação social, os comentadores e todos aqueles que vivem da política perderam todo o respeito ao Governo de José Sócrates e, por tabela, ao PS. Sucede a este Governo como àqueles homens fortalhaços, que no fulgor da idade conseguem amedrontar todo o mundo e são os reis da sua rua, e que depois, quando a velhice chega, já só são objecto de escárnio e de desprezo generalizado. Assim está José Sócrates. Ainda há pouco tempo se dizia que estava imbatível, as sondagens davam-lhe quase a maioria absoluta, todos os comentadores opinavam que a dúvida seria se Sócrates ganharia com maioria relativa ou absoluta. E não é que depois das eleições já ninguém acredita que o Primeiro-ministro continue a sê-lo no próximo Governo.
Este clima já se respira em todo o lado, é o fim de festa socialista. Hoje, na SIC Notícias, foi Medina Carreira a malhar no Governo, à mesma hora ,Vasco Pulido Valente, na TVI, e no Expresso da Meia-Noite todos contra os disparates de Sócrates a propósito do episódio da venda daquela estação televisiva à PT.
Tudo isto me faz lembrar o final do reinado de António Guterres (2001), quando este, antes eleições autárquicas, que ditaram o seu afastamento, não tinha para onde se virar. Era a direita, mais o patronato, a atacar em força, o PCP a não abrandar a sua crítica – nessa altura ainda não havia um Bloco de Esquerda com a força que tem hoje. Neste momento a situação repete-se, já ninguém tem respeito para com José Sócrates, que de animal feroz passou ao velho decrépito do nosso exemplo.
Dirão uns que é cedo de mais para ditar a sua morte. Pode suceder. Mas tudo vai no sentido oposto.
Mas isto são só apreciações intuitivas, que nada devem à reflexão política. A verdade, é que em política nem tudo se resume a correlação de forças, à táctica e à estratégia prosseguidas. Há de facto percepções da realidade que nos podem fazer compreender melhor o sentido da corrente. Há alterações dos “estados de alma” que nos permitem intuir o que se passa. E hoje penso que Sócrates e o seu Governo estão em queda absoluta, que já é impossível corrigir a direcção e daí os disparates que começam a ser feitos, como este caso da TVI.
É evidente que isto pode ser mau para as forças de esquerda. A direita pode tomar o freio nos dentes e apoderar-se, além da Presidência, que já detém, da Assembleia da República, do Governo e das Autarquias. É um perigo real. E muitas vezes a queda do PS arrasta também a sua esquerda. Isso não está provado, mas às vezes sucede. A ascensão dos Governos de Cavaco Silva coincidiu com o fracasso do PS, mas também do PCP.
Por isso, para aqueles que possam embandeirar em arco com a derrota de Sócrates e do PS, há que tomar as devidas cautelas, porque não é garantido que isso seja no seu conjunto benéfico para a esquerda, à esquerda do PS. Podemos depois das eleições ter uma desagradável surpresa.
Verdade seja dita que tudo que está a acontecer ao PS é por sua exclusiva culpa. Que não diga que não foi avisado, que não atribua culpas à sua esquerda, que nunca abonou as más companhias com que andava. Não se pode redigir um Código Laboral como aquele que se aprovou ou manter a intransigência que se demonstrou com os professores e depois vir-se dizer candidamente que a culpa é da esquerda, que não se moderniza. Quando se está convencido que se tem o rei na barriga e que se pode dispensar as forças à sua esquerda, chamando-lhes totalitárias, extremistas e não democráticas, está-se inexoravelmente a cavar um fosso intransponível que torna impensável, na hora da derrota, contar com qualquer ajuda.
Nunca se aprende nada e cometem-se sempre os mesmos erros. Vamos a ver como vai sair o PS e toda a esquerda desta curva apertada.