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09/11/2009

A Queda de um muro. Histórias pessoais


Já agora começo por algumas histórias pessoais.

Visitei o Muro de Berlim pela primeira vez em Setembro de 1978. Lembro-me da data, porque estava em viagem pela RDA (República Democrática Alemã) e alguém disse que o Papa João Paulo I tinha morrido, como foi um pontificado breve, memorizei esse facto e depois foi só ver no Google.
Era daquelas viagens organizadas pela Associação Amizade Portugal-RDA, com a colaboração da Agência Abreu, que tinha funcionários comunistas especialmente preparados para isso. Fomos logo no início levados à porta de Brandenburgo e ao Muro que a rodeava e onde pude verificar que do lado de lá havia umas escadinhas onde os turistas podiam subir para espreitar por cima do muro para o lado de cá, o mundo comunista. Numa sala, que se situava perto, um oficial da ex-RDA demonstrou por a+b como tinha sido necessário a sua construção e descreveu as provocações diárias do “imperialismo”. Como a ilustrar o que ele tinha acabado de dizer lá vimos um helicóptero da NATO quase a ultrapassar o muro, sobrevoando perigosamente a zona onde nós estávamos. Fiquei convencido. Estava de repente e involuntariamente na fronteira onde se confrontavam o “mundo socialista” e o capitalista.
Depois, nas conversas com o guia e com algumas trabalhadoras com quem falei (a minha mulher sabia alemão) vim com uma ideia mais matizada do que era a RDA.
Lembro-me do guia ter dito que o verdadeiro milagre económico tinha acontecido na Alemanha de Leste, porque Estaline, depois da Guerra, tinha desmantelado toda a indústria, que já não era muita naquela zona da Alemanha e tinha-a transportado para a URSS, como compensação pelos estragos sofridos. Pelo contrário, a Alemanha Ocidental foi enormemente beneficiada com o Plano Marshall dos americanos. Este facto foi confirmado por mim em várias fontes escritas.
Uma das coisas que me tinha espantado era ver nos locais de trabalho a fotografia dos trabalhadores que se tinham destacado no último mês. Com alguma ousadia perguntei, por intermédio da minha mulher, às trabalhadoras que encontrámos numa espécie de bar onde fomos beber uns copos, como é que os mesmos eram seleccionados. Simples, era rotativo, umas vezes eram escolhidos uns outras vezes outros, chegava a todos.
Depois lembro-me de uma conversa sobre batatas. Se todos os dias também comíamos batatas. Pelos vistos isso acontecia com aquelas trabalhadoras. Achámos graça. Mas sinceramente já não me recordo do que se falou mais.
Lembro-me de ter perguntado ao guia se estavam publicadas na RDA as obras completas de Rosa Luxemburgo, a revolucionária social-democrata alemã, e heroína da Revolução Espartaquista de Berlim de 1918 e que tinha sido assassinada por militares, com a cumplicidade do Presidente e do Ministro do Interior, que pertenciam ao partido social-democrata alemão. Tive uma semi-resposta, este lembrou-me que aquela socialista defendia que a liberdade era também a liberdade de divergir.
Sei que quando cheguei a Lisboa e houve uma reunião na Associação Portugal-RDA para discutirmos colectivamente a viagem eu fiz críticas e levantei alguns problemas resultantes do que tinha ouvido e visto. Sei que uma das camaradas rapidamente se apressou a classificar as trabalhadoras que tínhamos encontrado naquela noite como “putinhas”. E porquê, imagino eu, porque além de estarem à noite a beber copos sem macho, acharam, não de mim, que já era um pouco entrado, mas de dois homens jovens que integravam a excursão, que eram lindíssimos e disseram-no claramente à minha mulher. Já se sabe que a camarada, provavelmente uma simpatiquíssima senhora, tinha já idade para ser mãe delas e portanto já em menopausa adiantada. Mas sei que as minhas opiniões foram criticadas por alguns camaradas que velavam pela ortodoxia da visita.

A segunda vez que fui à RDA, devo confessar, foi a expensas do Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC), subsidiário do Conselho Mundial da Paz. Fui ao Festival de curta-metragem e de cinema de animação de Leipzig, que tinha como mote a Paz. Depois de uma consulta no Google verifiquei que o Festival continua, já vai na 52ª edição. Este ano teve lugar entre 26 de Outubro e 1 de Novembro. O festival chama-se DOK Leipzig e continua a exibir o mesmo tipo de filmes.
A minha deslocação devia ter tido lugar no início dos anos 80 e em data igual à da última edição, porque quando fui já não tinha quase nenhumas férias para gozar.
Por essa época, tinha retomado as minhas funções de cineclubista, que tinha desempenhado no nos anos da minha juventude, e pertencia à direcção do ABC Cine-Clube de Lisboa. No PCP, integrava a Direcção do Sector Intelectual de Lisboa, com a responsabilidade pelo que restava dos cine-clubistas da capital. Carlos Aboim Inglês, de que já falei vai para dois posts, achou por bem que quem fosse aquele Festival, devia ser quem tinha responsabilidades no Sector Intelectual por aquela área. Isto porque a ida a este tipo de eventos era muito disputada e havia uns enviados crónicos que asseguravam sempre a representação portuguesa nestes acontecimentos que se realizavam a Leste. Lembro-me que um dos camaradas que costumava ir andou freneticamente atrás de mim, porque não estava interessado em perder o barco em futuras idas, para que eu lhe desse toda a documentação que tinha recebido e lhe prestasse todas as informações. Deu-me pena. Mas fiquei a compreender melhor a natureza humana.
A delegação portuguesa que ia em nome do CPPC era composta por mim e pelo realizador Luís Filipe Rocha. Tinha sido eu que tinha sugerido o seu nome, pois tinha visto o seu filme Cerromaior (1981) e tinha gostado. O nome mereceu a concordância do CPPC e o realizador estava disponível para ir. Penso que nunca se deixou seduzir pelo viu, mas na altura era um homem de esquerda, que tinha feito a Fuga (1977), sobre a fuga de Dias Lourenço do forte de Peniche. Nunca percebi o que o levou a fazer Camarate (2000), mas os destinos do cinema em Portugal são insondáveis e hoje já sou incapaz de opinar sobre cinema português.
Directamente convidadas pelo Festival ou por outras organizações houve mais gente que fazia parte da delegação portuguesa. Foi e veio connosco no avião uma ex-locutora da televisão, na altura bastante nova e bonita, a Fátima Medina, que por ser casada, ou ter sido casada com um Medina, da família do Cunhal, mal chegou a Leipzig passou a ter um crachá com o nome de Medina Cunhal ou Cunhal Medina. Sei que o nome de Cunhal aparecia. Boa carta de apresentação para abrir todas as portas na RDA. Por sinal era muito simpática e demo-nos muito bem, mas suspeito que não viu nenhum dos filmes do Festival. Ou estava a comprar coisas ou a namoriscar, segundo diziam as más-línguas.
Quem já lá estava e penso que tinha projectos cinematográficos com a RDA, era o Manuel Costa e Silva, o director de fotografia de alguns filmes portugueses, já falecido. Fomos um dia visitar em Dresden o museu Gemäldegalerie Alte Meister (Galeria de Pintura dos Velhos Mestres), que eu já conhecia da primeira viagem, onde se podia ver grande parte da obra de Vermeer. Foi um reconhecimento e desde aí nunca mais me separei deste pintor, que encima a página principal deste blog. A obra A leiteira está no Rijksmuseum, de Amesterdão.
A situação mais ridícula porque passei nesta viagem foi alguém do cine-clube me ter pedido para levar à namorada, que estava a estudar em Leipzig, um embrulho, que eu religiosamente levei com algum custo, porque era grande, na bagagem de cabine. Entreguei à dona e ninguém teve o cuidado de me informar qual o seu conteúdo, coisa que se fosse hoje nunca faria, sem saber o que estava a transportar. Depois, maldosamente alguém insinuou que eu tinha transportado para a RDA pensos higiénicos, que era coisa que lá não havia.
Mas há mais episódios. Quando chegávamos era-nos dado, coisa que eu não sabia, uma pequena quantia de marcos da RDA para gastarmos na alimentação, pois só nos pagavam a viagem e o hotel. Eu levava marcos do ocidente. Os suficientes para cobrir as despesas que fosse necessário fazer. Nessa altura não havia ainda os cartões de crédito. Já se sabe que não resisti a trocar os meus marcos ocidentais no mercado negro, que não era negro, pois toda a gente o fazia às claras, por marcos da RDA. O câmbio oficial era de um marco ocidental para um oriental. Pois eu consegui por um ocidental obter quatro orientais. Pode-se dizer que foi a primeira vez na vida que me senti verdadeiramente rico. Não sabia onde gastar o dinheiro. Comprei livros de arte, comi bem, adquiri discos ainda de vinil, que como eu não percebia a língua não eram aquilo que eu queria, mas acho que no final lá consegui despachar todos os marcos, pois ninguém os aceitava no Ocidente. O Luís Filipe Rocha aproveitou para se vestir e comprar velhas máquinas de fotografia, que eram quase objectos de museu, que depois teve alguma dificuldade em fazer passar na fronteira.
Havia muitos estudantes portugueses e africanos a estudar em Leipzig, que aproveitaram a nossa estadia para falarem com os portugueses que frequentavam o Festival. Foram conversas longas. Falámos com grande abertura. Se a Stasi nos escutava, era em português. No fundo, todos éramos críticos disto e daquilo, mas todos aceitávamos o regime. Hoje se tentar espremer o que se disse não me recordo de nada que fosse relevante.
Também conviveu com a nossa delegação o Luandino Vieira, o escritor de Angola, que estava lá com o filho. Houve críticas veladas como era possível que um jovem, em idade militar e com o país em guerra, estar a usufruir das “delícias” do socialismo.
Houve algumas cenas também caricatas ou que, pelo menos, eu não estava habituado. O presidente do ABC Cineclube que desde sempre tinha ido àquele Festival - não foi quem me atormentou o juízo por ser eu a ir e não ele, foi outra personagem medíocre e “pequenina” - pediu para que eu comprasse no aeroporto uma garrafa de Vinho de Porto e a entregasse ao Director do Festival em seu nome e no meu e ao mesmo tempo deixasse no ar a ideia dos filmes do Festival poderem ser exibidos em Portugal, como já anteriormente tinha sucedido. Lá pedi uma entrevista ao senhor, com intérprete para português e depois de umas amabilidades, puxei da garrafa e dei-lhe. O homem ficou, pareceu-me, atrapalhado, porque não tinha nada para me retribuir. Foi buscar uma medalha em barro do Festival e deu-ma. Ainda hoje a conservo, não sei a onde.
Os filmes nunca chegaram a vir. O Costa Silva, que também se considerava dono daquele certame, manifestou na altura igualmente interesse e tantos galos para uma só poleiro era manifestamente demais para mim, ainda por cima não sendo eu da “arte”. Andava nisto porque gostava de cinema e era militante do PCP. Anos depois estava rapidamente a deixar o cineclubismo e a direcção do Sector Intelectual do PCP, onde só voltei pela mão da Helena Medina, a mulher do Edgar Correia.
Por último, aquilo que fui lá fazer que era ver os filmes do Festival. Houve coisas que gostei muito e que gostaria de rever. Lembro-me de alguns documentários que tinham imagens dos comícios de Hitler que me impressionaram extraordinariamente. Houve reposição de alguns documentários sociais de Joris Ivens, o cineasta holandês, mestre do documentarismo e comprometido com a esquerda – pelos vistos este ano houve mais uma vez uma retrospectiva de Joris Ivens. Quando cheguei, fiz um relato para a página cultural de O Diário, que deve andar por aí. Faz parte dos meus objectivos, se ainda tiver tempo, pôr os textos que fui escrevendo ao longo da vida na net.
O regresso foi acidentado, porque, por razões que hoje já não me recordo, só me deram bilhete de ida, dizendo depois que no local me davam o de regresso. Estive praticamente até ao fim, eu e o Luís Filipe Rocha, à espera desse bilhete. O realizador não estava muito preocupado, achava que não o deixavam lá ficar. Eu, como o principal responsável pela delegação do CPPC e sempre preocupado com situações menos claras, comecei-me a enervar. Ainda por cima vi a Fátima Medina, que regressava connosco, já com bilhete e eu sem nada. Por último, já nem me recordo como, à última da hora, lá apareceram os bilhetes salvadores.
É evidente que nada disto tem a ver com o Muro de Berlim. Mas está mais ou menos relacionado e conta a história de uma delegação portuguesa a um país que já desapareceu.

A terceira história passa-se já depois de 89, mas pouco depois. Deve ter sido no início 1990. Fui a Berlim Ocidental, ainda não se tinha dado a reunificação alemã e o muro ainda existia, mas já meio escaqueirado. Podia-se, se quisesse, ir ao lado de lá. Mas não fui.
Fui numa viagem em serviço. Quando as reuniões acabavam e durante o fim-de-semana visitei Berlim Ocidental, que não conhecia e fui várias vezes até ao Muro e ao Checkpoint Charlie. Passeei pelo jardim situado perto da Porta de Brandenburgo e do Muro, o Tiergarten. Fui uma vez acompanhado de um velho conhecido meu, investigador francês em áreas afins às minhas, que tinha militado no PCF e não sei se naquela altura ainda por lá andava. Visitámos o Muro ou o que dele restava como os derrotados do comunismo. Vendiam já na altura pedaços do mesmo, mas eu fui apanhar alguns do chão, muito pequenos, porque os maiores eram para venda. Também se vendiam medalhas e quinquilharia do Leste. Mas a imagem para mim mais imorredoura foi a que vi, ao passear no jardim, uma série de famílias com carrinhos de supermercado cheios de televisões e vídeos, todas a dirigirem-se para Leste. Foi igualmente nesse mesmo jardim que eu vi autocarros carregados, pelo menos na parte de trás dos bancos, com televisões e vídeos. Não vale a pena fazer comentários. Foi a realidade que eu observei com os meus próprios olhos. Um mundo tinha acabado.

Em próximos episódios tirarei as conclusões.
PS. (11/11/09): Mão amiga sugeriu-me que corrigisse no final o nome do Luís Filipe Rocha, que estava trocado com o de outra pessoa. Aproveitei também para rever o texto.

08/11/2009

O estranho caso da nota do PCP sobre a passagem do 20º aniversário da queda do Muro de Berlim


Comecei de forma enviesada a ler nos blogs referências às posições do PCP sobre a passagem do 20º aniversário da queda do Muro de Berlim. Encontrei mesmo referências ao Avante, achei por isso necessário ir ler aquele jornal, já que, por razões que não vêm aqui ao caso, o recebo semanalmente em minha casa. Estranhamente, não encontrei qualquer editorial, qualquer comunicado sobre aqueles acontecimentos, a não ser uma notícia redigida para a secção Europa, semelhante a muitas outras que lá se publicam, encimada pelo título 20 anos de retrocesso, os alemães de Leste preferem socialismo. A notícia tinha alguns dos ingredientes que têm vindo a ser noticiados, mas não todos e depois explanava-se numa sondagem promovida pelo Governo Federal Alemão “entre a população de Leste sobre as actuais condições de vida em comparação com a experiência da RDA socialista.”, garantindo que a «a maioria dos inquiridos considera que a antiga República Democrática Alemã (RDA) tinha “mais aspectos positivos que negativos”» e termina com a defesa de Erich Honecker em tribunal, quando foi julgado em 1992, na Alemanha. O estilo era o de A defesa acusa, tão utilizado pelos comunistas desde a célebre defesa de Dimitrov nos tribunais nazis.
Depois disto fui ler melhor os blogs que faziam referência ao comunicado do PCP e nenhum tinha qualquer link para esse comunicado, e por vezes remetiam para outros blogs que continuavam a citar o comunicado do PCP. Todos, no entanto, faziam referência que a notícia tinha sido dada pela Lusa, mas, para minha desgraça, também não tinham nenhum link para a notícia original. O mais próximo que consegui foi obter no blog Câmara Corporativa a transcrição, parece-me que na íntegra, da notícia da Lusa, sem a linkar. Dizia-se nela, entre outras coisas: "As “comemorações de regime” a que assistimos – com o seu carácter profundamente anti-comunista – são uma operação de reescrita da história e de branqueamento do capitalismo", critica o PCP numa nota enviada à Lusa a propósito dos 20 anos da queda do Muro de Berlim".
É natural que uma nota enviada à Lusa fosse transcrita para o Avante, era isso que se esperava do jornal do Partido. Era também natural que no site oficial essa nota tivesse sido transcrita, mas nada.
Não duvido que a Lusa tenha recebido ou pedido um comentário ao PCP sobre aqueles acontecimentos, mas seria lógico que para não haver deturpação do que se dizia que a dita nota ou comentário fosse transcrito na íntegra por qualquer órgão oficial do PCP. Isto digo eu, que não sou do PCP. Até porque na referida notícia da Lusa a parte referente explicitamente à ao ex-mundo socialista é só esta: “intensifica-se a opressão e a exploração dos povos – a começar por muitos dos ex-países socialistas, com a regressão de direitos laborais, a privatização de funções do Estado, com a ofensiva contra direitos e liberdades historicamente alcançados", com visíveis patetices no que se refere “à regressão dos direitos laborais” ou “à ofensiva contra direitos e liberdades historicamente alcançados”. Porque se lerem bem tudo mais é relativo ao nosso actual mundo e afirmar que ele está melhor do que há vinte anos é um pouco forçado.
Dito isto, gostaria ao menos que alguém me esclarecesse sobre esta nota e se de facto ela existiu e em que termos. Provavelmente ninguém me responderá. Quanto ao muro e a sua queda reservar-me-ei para depois.

06/11/2009

Anda uma grande agitação na blogosfera: o caso de "5 Dias" – II


Cada um tem a sua própria agenda. Há os que todos os dias ou várias vezes ao dia põem um post novo sobre o que está a acontecer no país e no mundo ou aqueles, como eu, que por vezes lhes dá, com grande desfasamento, para pensarem sobre o que se vai postando na blogosfera. Não sou melhor que os outros, simplesmente sou mais lento a escrever e por isso quando faço qualquer comentário sobre os acontecimentos do dia já a minha opinião se tornou inútil. Mais vale escrever sobre temas que me incomodam , do que comentar notícias ultrapassadas.

Dito isto, uma pequena referência ao nome do post. Poderia ser o caso de Rita Rato, mas como não queria dar importância ao mesmo, chamei-lhe o caso de 5 Dias, pois foi neste blog que houve uma troca de opiniões mais acesa sobre aquele fait-divers.

Como é evidente tudo começa com a defesa de Rita Rato sobre a sua não resposta ao que era o Gulag quando questionada sobre o assunto, mas depois a discussão vai tomando forma e passa rapidamente para o próprio regime soviético, a ditadura na China, a liberdade de imprensa em Cuba e o próprio Gulag.
Ricardo Noronha começa com A culpa é do manchinhas e Carlos Vidal responde-lhe: Ainda a polémica sobre Rita Rato e uma rejeição completa do “socialismo democrático.
Este texto de Carlos Vidal é espantoso. Não conheci Carlos Vidal quando andei pelo Sector Intelectual de Lisboa do PCP, mas se ele fosse fazer esta conversa para os camaradas daquele sector, era ouvido com um sorriso nos lábios, pois pensariam que estava a efabular sobre coisas de que não tinha a mínima ideia. Se encontrasse então o Carlos Aboim Inglês, que foi um dos seus responsáveis e que era “teso” para o debate ideológico, era de certeza arrasado. Mas, porque me é dado perceber, começa a ser prática de alguns novos-vindos ao PCP e que escrevem no 5 Dias, repetirem por novas palavras, mais modernaças e menos perceptíveis, o mesmo que os velhos marxistas-leninistas “daquela casa” dizem, com os ensinamentos que foram beber à “Escola do Partido”, que eu também frequentei em cursilhos de fim-de-semana, ou então nos cursos mais demorados na URSS. Valha-nos ainda no “sector” (penso que ainda pertencem ao mesmo) a sensatez e a inteligência de intelectuais como um Manuel Gusmão ou como um João Arsénio Nunes, porque prosa desta é de uma pedanteria insuportável. São os ares dos tempos.
A partir do conceito de “acontecimento” e de “sequência política” Carlos Vidal pretende explicar a novidade da Revolução de Outubro e a acção de Gorbatchov, o “manchinhas”, que, como ele diz, “veio interromper a sequência “existência do estado socialista soviético”.
Ora a novidade da Revolução de Outubro, utilizando a terminologia clássica marxista, foi a transformação de uma revolução democrático-burguesa atrasada (a Revolução de Fevereiro, de 1917), numa revolução socialista vitoriosa (a Revolução de Outubro de 1917), que uniu uma classe operária incipiente ao imenso campesinato russo, desejoso de terra e de paz para a poder trabalhar. Esta foi a obra dos bolcheviques e da sua capacidade de construírem um partido e de o dotarem de uma grande força ideológica, obra devida principalmente à acção de Lenine. Mas isto só foi possível devido à particular situação da Rússia czarista. Gramsci, o grande revolucionário italiano, que morreu nas cadeias fascistas, dizia que nas formações sociais do Oriente (a Rússia czarista pode-se incluir nesta definição) o “Estado era tudo, a sociedade civil era primitiva e gelatinosa (*)”, predominava aí o Estado-coerção. Era portanto fácil, em dado momento, desenvolver aquilo que o político italiano, recorrendo à terminologia da I Guerra Mundial, designou como guerra de movimento, a que “impõe à luta de classes uma estratégia de ataque frontal … voltada para a conquista e conservação do Estado” (**). Ao contrário do que se passava nas formações sociais do Ocidente onde, segundo Gramsci, “havia entre o Estado e a sociedade civil uma justa relação e, ao oscilar o Estado, podia-se imediatamente reconhecer uma robusta estrutura de sociedade civil. O Estado era apenas uma trincheira avançada, por trás da qual se situava uma robusta cadeia de fortalezas e casamatas; em medida diversa de Estado para Estado, é claro, mas exactamente isto exigia um acurado reconhecimento de carácter nacional.” (**)
Com isto, Gramsci justificava a derrota da revolução no Ocidente e defendia aqui uma guerra de posição que, ao contrário da outra, defendesse que “as batalhas devem ser travadas inicialmente no âmbito da sociedade civil, visando a conquista de posições e de espaços, da direcção político-ideológica e do consenso dos sectores maioritários da população, como condição para o aceso ao poder de Estado e para a sua posterior conservação” **. Reside precisamente aqui a “luta pela conquista da hegemonia, da direcção política ou do consenso” **.
Parece-me pois que num breve post estes conceitos de Gramsci são muito mais produtivos que as noções de “acontecimento” e “sequência política”.
Parece-me por outro lado que utilizar a noção de sequência política para o que aconteceu no PREC é não perceber nada do que se passou e mais, é tomar dele a visão “esquerdista” da derrota da revolução pela traição do PCP ou, neste caso, pela traição de Mário Soares. Para não invocar os argumentos já por mim utilizados neste post, remeto os interessados para o mesmo.
Por último quando escreve que Gorbatchov, “e não se sabe bem por que carga de água”, veio interromper a sequência “existência do estado socialista soviético”, é não compreender o estado de degradação e a incapacidade de crescimento económico em que Brezhnev tinha deixado a URSS e todo o sistema soviético. A classe dirigente da época preferiu o capitalismo selvagem que lhe propunha o "ocidente", ao capitalismo de estado que lhe tolhia os movimentos e o crescimento. Mas esta é só uma explicação, não podemos é arrumar a questão com as patetices ditas por Carlos Vidal.
Voltarei se para tanto tiver “engenho e arte” , ou seja, paciência, a estes posts do 5 Dias.

A fotografia que ilustra este post é de António Gramsci (1891-1937). Para os que estiverem mais interessados as referência citadas no post são retiradas de:
* António Gramsci, Cadernos do Cárcere. Edição de Carlos Nelson Coutinho, Civilização Brasileira, 2007, Rio de Janeiro: vol 3, pag. 262. Magnífica edição e tradução dos Cadernos do Cárcere, de António Gramsci, em 6 volumes, editada por Carlos Nelson Coutinho, e outros, para a editora Civilização Brasileira.
** Carlos Nelson Coutinho, Gramsci, um estudo sobre o seu pensamento político. Civilização Basileira, Rio de Janeiro, 2003: Pags. 147-148. Introdução bastante acessível e bem feita ao pensamento político de António Gramsci.
PS. (11/11/09):
Ma última linkagem, por erro, remetia para o post que estava a criticar e não para o meu post que pretendia referir.

02/11/2009

Anda uma grande agitação na blogosfera: o caso de "5 Dias" – I


A entrevista de Rita Rato, a nova deputada do PCP na Assembleia da República, ao Correio da Manhã, causou alguma agitação na blogosfera. Foi motivo de grande gozo e chacota e de defesas apaixonadas. Eu, que não gosto de seguir a agenda mediática dominante, neste caso, dos blogs, a não ser que traga alguma achega nova à discussão, abstive-me de repetir os comentários insultuosos ou de ironia crítica que prevaleceram na blogosfera. No entanto, não resisti a comentar um dado histórico apresentado por Vítor Dias, em defesa de Rita Rato no seu blog, Tempo das Cerejas, e cujo post foi transcrito para o 5 Dias. Não interessa agora aqui relatar o que se passou, vão aos comentários ao post que o transcreve e sigam a contenda.
Vítor Dias fez a correcção devida, tanto no seu post como pediu ao 5 Dias que alterasse a sua transcrição, e o assunto morreu ali. Mas a minha crítica não se limitava à correcção histórica, tentava também fazer graça com o título que encimava o post da transcrição e que era assinado por Carlos Vidal, escrevinhador do 5 Dias, que não tem sido muito bem tratado por mim (ver aqui). Carlos Vidal, correctamente, justificou a sua escolha e também o assunto ficou arrumado. Mas não é que Nuno Ramos de Almeida, que não era chamado a esta história, tomou como suas as dores das minhas referências e resolve intempestivamente, na área dos comentários vir-me atacar, fazendo umas insinuações a meu respeito um pouco enviesadas e afirmando que eu tomo o PCP como o meu inimigo principal. Já se sabe que lhe respondi como soube e pude, lamentando que alguém que navega nas mesmas áreas políticas que eu, na corrente comunista do Bloco ou, pelo menos, daqueles que neste partido vieram do PCP, não perceba o que digo, nem as posições que tomei em relação aos seus companheiros de blog, Carlos Vidal e Tiago Mota Saraiva (ver o último post referido).
Mas isto é um simples fait-divers, ou má-língua bloguista, que nada acrescenta ao que vos quero relatar.
Na sequência desta acesa discussão do caso de Rita Rato, e que como todos devem saber envolvia a recusa da deputada do PCP a comentar o Gulag (campos de trabalho forçado), que existiu na ex-União Soviética, começou a travar-se no dito blog uma discussão deveras interessante sobre a natureza daquele regime, do estalinismo e de outros temas afins. É sobre isso que irei escrever, talvez como tem sido ultimamente meu costume, em vários posts.
É evidente que, como o pessoal do 5 Dias é muito produtivo, os posts a que me refiro já foram todos completamente ultrapassados e neste momento já se discutem muitos outros e interessantes assuntos
Quem quiser seguir a polémica toda pode fazê-lo seguindo este roteiro. Primeiro o post já referido de Carlos Vidal e a seguir todos os outros (citarei sequencialmente, pela ordem que apareceram, fazendo referência ao nome do seu autor a partir do qual, por link, poderão chegar ao artigo): Ricardo Noronha, Tiago Mota Saraiva, José Neves, Nuno Ramos de Almeida, Carlos Vidal, José Neves, José Neves, Tiago Mota Saraiva, Tiago Mota Saraiva, Carlos Vidal, Tiago Mota Saraiva, Ricardo Noronha, Ricardo Noronha

Como já se percebeu não quero acrescentar nada ao caso de Rita Rato, no entanto, aproveito a recomendação de José Neves sobre qual o livro que gostaria de oferecer neste Natal a Rita Rato, que era um, que não sendo um conjunto de originais, fosse uma antologia de autores que, se reclamando do comunismo, fizessem a crítica da sua experiência concreta.
Este desejo de José Neves só pode ser novidade no caso excepcional português. Em todo o mundo é vasta a literatura de autores que se reclamando do comunismo ou de uma visão progressista da sociedade se referem ao estalinismo, ao Gulag, à experiência do socialismo real de forma auto-crítica e descomplexada, ao contrário de que se passa no nosso país. Sem precisar de ir mais longe, do que aquilo que se escreve ou traduz em língua portuguesa, é ver a forma como múltiplos sites e revistas brasileiras ou mesmo o PCdeB, tão próximo do PCP, fazem referência àqueles fenómenos de forma muito mais límpida do que em Portugal, em que toda e qualquer referência é objecto de paixão e de perca de lucidez. Os blogs próximos do PCP e os seus anónimos comentadores, para não falar já do Avante, tomam-se de tal fúria que é impossível qualquer discussão séria. O pior é que há muita gente que se diz à esquerda, mas que toma como sua a agenda do anti-comunismo militante, tornando também impossível qualquer troca de ideias. Basta referir que há bloggers sérios que defendem o corte radical com o PCP e tudo que ele representa, condenando assim a esquerda ao eterno desentendimento e separando irremediavelmente as diversas correntes da esquerda.
Em segundo post voltarei ao assunto da polémica.
Pretendi ilustrar este post com uma fotografia da Anna Larina Bukharina, a mulher de Bukharine, uma das vítimas dos Processos de Moscovo montados por Estaline, e que, por ser a sua mulher, sofreu longos anos no Gulag. Escreveu um livro notável, Bukharine, minha paixão (Terramar), onde dá notícias daquele bolchevique e da vida dela de sofrimento nos campos de trabalho forçado (Gulag). A tradução do livro é de um comunista, que toda a vida o foi, Ludgero Pinto Basto. Não consegui, com o mínimo de qualidade, publicar uma fotografia de Anna Larina, por isso a do seu marido Nicolai Bukharine. Como se vê, de fontes sérias, não falta informação a quem a queira.

02/09/2009

Como o "social-fascismo" irrompe na campanha eleitoral


Não será o assunto mais importante. Só um coca-bichinhos como eu se dedicaria a escrever sobre este tema exótico, quando a campanha eleitoral está aí em força, cheia de pequenos fait-divers que permitem trocadilhos chocarreiros, como as afirmações disparatadas da mandatária para a juventude do PS – a dos caroços e da empregada.
No entanto, foi sobre as afirmações relativas ao social-fascismo que me resolvi debruçar.
Vital Moreira já tinha dado o tom. Na crónica semanal que tem no Público, publicou na semana passada (25 de Agosto) um artigo intitulado Arcaísmos de esquerda (sem link). Entre outras asserções provocadoras para a esquerda, à esquerda do PS, tem esta afirmação:
Ao ouvir certas declarações mais destemperadas de alguns dirigentes do PCP e BE (ver os seus últimos congressos), dir-se-ia que voltámos ao tempo em que os partidos estalinistas qualificavam de “sociais-fascistas” os partidos sociais-democratas, contribuindo dessa forma para abrir um fosso irreparável na luta contra a ascensão do nazismo e do fascismo nos anos 30 do século passado. Agora, é evidente que não está em causa sequer o regime democrático, mas não podem restar muitas dúvidas de que a principal prioridade de tais partidos é derrotar o PS, mesmo que isso acarrete, como seria inevitável, a entrega do poder à direita”.
Irene Pimentel não lhe quis ficar atrás, ou não fosse Vital Moreira o ideólogo oficial do socratismo, e assim num post no Simplex apesar de dizer “que jamais utilizaria a História para comparações abusivas com a realidade actual”, afirma depois, “se o fizesse, vir-me-ia logo à cabeça a forma como o Partido Comunista Alemão contribuiu para a subida de Hitler ao poder, ao erigir os sociais-democratas como «sociais fascistas». Claro que, ao ser criado o primeiro campo de concentração em Dachau, foram lá encarcerados tanto sociais-democratas como comunistas, mas o mal já estava feito. Upsss! Do que me fui lembrar e até estou a dar ideias!”. Este post retorquia a um texto crítico de José Neves no 5 dias (foi uma grande “contratação” para aquele blog) e que mereceu deste a devida resposta.
Na minha área política, os renovadores comunistas, também é frequente recordarem-me em relação a esta campanha eleitoral os tristes dias da ascensão de Hitler ao poder e esta posição ultra-sectária da Internacional Comunista e do PC alemão.
Como escrevi um longo texto sobre o assunto, diria com algum carácter pioneiro entre nós, já que a maioria dos textos escritos por alguns historiadores comunistas se referem à radical ruptura da Internacional, em 1935, no seu VII Congresso, com esta posição, sinto-me na obrigação de me referir a este tema lançando algumas pistas que os textos em causa esquecem.
Em primeiro lugar quem utilizou em Portugal o termo social-fascista foram os "esquerdistas", nos ataques que dirigiam ao PCP, antes e depois do 25 de Abril. Era vulgar o MRRP e posteriormente a AOC, cujo o chefe era um conhecido provocador, chamado Eduíno Vilar, acusarem o PCP de ser social-fascista, na sequência das posições dos maoistas, que acusavam a União Soviética de ter um comportamento social-imperialista e de os partidos que a apoiavam serem sociais-fascistas. Na altura, esta designação, que os maoistas tinham ido buscar ao léxico da Internacional Comunista, do início dos anos 30, soava aos ouvidos da juventude esquerdista como uma grande novidade terminológica, esquecendo-se do seu triste passado. Mas na sequência destas críticas, a rapaziada o PS, a que andava de braço dado com alguns AOC, aqueles que afirmavam que um voto na AOC era uma espinha cravada na garganta do Cunhal, muitas vezes no entusiasmo da crítica deixaram-se arrastar por esta terminologia e chamavam sociais-fascistas aos militantes do PCP.
Por isso, alguns ideólogos do PS seria bom que metessem a mão na consciência e vissem quem iniciou e utilizou no passado esta terminologia.
Em segundo lugar, Vital Moreira ainda afirma que esta classificação dos sociais-democratas como sociais-fascistas abriu “um fosso irreparável na luta contra a ascensão do nazismo e do fascismo nos anos 30 do século passado”, já Irene Pimentel provavelmente menos preparada ideologicamente afirma: “vir-me-ia logo à cabeça a forma como o Partido Comunista Alemão contribuiu para a subida de Hitler ao poder, ao erigir os sociais-democratas como «sociais fascistas»”. Nesta citação aquele chavão não enfraqueceu unicamente a luta mas contribuiu igualmente para a subida de Hitler ao poder. Já estamos pois no perfeito delírio de atribuir aos comunistas alemães a responsabilidade de um facto que em primeiro lugar, tem origem na direita, que com um medo atávico do avanço dos comunistas alemães preferiu vender a República de Weimar ao seu carrasco, do que permitir a ascensão eleitoral do PC alemão.
Como exemplo histórico é péssimo , já que o sectarismo era comum aos dois partidos, aos sociais-democratas e aos comunistas alemães.
A crítica ao ultra-esquerdismo da Internacional Comunista desses anos pode ser citada como exemplo em relação ao actual sectarismo do PCP, mas nunca pode servir para isentar o PS de Sócrates de um comportamento direitista e igualmente sectário em relação às forças à sua esquerda, cujo o exemplo mais chocante é o artigo já referido de Vital Moreira. Nem pode muito menos servir de apelo ao voto útil no PS, como ingenuamente nos querem convencer os ideólogos daquele partido.
Por último gostaria de lembrar que foi a própria Internacional, ainda no tempo de Estaline, que fez a crítica severa a estas posições ultra-esquerdistas, e defendeu posteriormente, a partir do VII Congresso (1935), a união de socialistas e comunistas naquilo a que viria a chamar-se as frentes populares, que tanto êxito tiveram na França, na Espanha e no Chile. Quem no nosso país sempre denegriu o frentismo, criticando-o e achincalhando-o mesmo, foram alguns socialistas, de que de certeza Vital Moreira é herdeiro, que consideravam que estava ultrapassado pelo socialismo moderno e que não passava de um velharia histórica. Era bom pois que metessem todos a mão na consciência e não falassem de cor sobre assuntos bastante sérios, que dificilmente se enquadram na actual chicana política.
No cimo, fotografia de Rosa Luxemburgo, uma das fundadoras do Partido Comunista Alemão, assassinada em 1919, com a cumplicidade da social-democracia de direita. Uma pequena homenagem.

15/04/2009

Apelo à Convergência de Esquerda para a cidade de Lisboa


Provavelmente alguns dos meus leitores já se interrogaram que sendo eu membro da direcção da Renovação Comunista (RC) e deputado municipal independente pelo Bloco de Esquerda ainda não tenha dito nada sobre o Apelo à Convergência de Esquerda nas Eleições para Lisboa promovido inicialmente pela RC e subscrito por várias personalidades, que na altura da sua apresentação já ultrapassavam os 200 subscritores.
Aqui vai a minha opinião e a indicação do site onde o Apelo pode ser lido e subscrito.


Têm alguns camaradas renovadores feito referência aos aspectos negativos deste Apelo. Assim, não só admitem que o mesmo pode sobrevalorizar e dar credibilidade ao candidato da direita, como reforçar a votação em António Costa porque, sendo o que está em melhor posicionado para derrotar a direita, promove o voto útil nele.
Nem no Apelo, nem na sua apresentação se realça exclusivamente esse facto. Santana Lopes não aparece como o papão que obrigaria a esquerda a unir-se de imediato. Este aspecto foi bem sublinhado na intervenção inicial de Paulo Fidalgo (ver fotografia) e na de um dos signatários, Aquilino Ribeiro Machado, na sessão de lançamento do Apelo. Esperemos pois que durante todo o desenrolar da recolha de assinaturas, aquele surja como defensor de uma coligação positiva e não apareça como uma união negativa contra alguém.
Os media com a ânsia de personalizar tudo, já garantiram que o candidato dos subscritores é António Costa, quando o que se disse, pela voz de Paulo Fidalgo, foi que sendo o PS o partido mais votado em Lisboa era natural que coubesse a ele a indicação do candidato a Presidente. O que não impede que subscritores mais próximos do PS vão garantindo que este é o seu candidato (ver aqui). Por outro lado, o Diário de Notícias refere-se mesmo a Frente anti-Santana arranca em Lisboa. Contra isto é muito difícil traçar armas, mas sabendo nós o que a casa gasta, não podemos ficar paralisados e não agir, porque os media nos deturpam as palavras.

Este Apelo já mereceu de dois dos seus principais destinatários algumas críticas que me parecem injustas. As primeiras vieram do PCP, que pela voz de um responsável pela organização de Lisboa diz que o PS virou completamente à direita e que por isso não se pode fazer coligações com ele. Por outro lado, o seu candidato ao executivo camarário desvaloriza a acção de António Costa (AC), garantindo que o mesmo favorece a “especulação imobiliária”, tal como os seus antecessores de direita. Parece-me que o primeiro é um argumento de circunstância, pois o PS não é um partido homogéneo, e nem todos os seus militantes a votantes se podem globalmente meter no mesmo saco. O segundo, uma desculpa sem grande fundamento, já que AC devido às enormes dificuldades económicas em que foi encontrar a Câmara pouco tem feito, para se lhe poder assacar essas malfeitorias.
Já Jerónimo de Sousa, mais agreste, depois de formular uma boutade em que ninguém acredita, ou seja, que já concorre coligado na CDU, garante que o PCP está mais interessado em discutir políticas do que lugares na Câmara, mal de que acusa o PS. Ora nem o Apelo, nem quaisquer declarações de AC levam a pensar que assim seja. Parece também uma desculpa, neste caso um pouco menos inocente.
Já o Bloco de Esquerda, pela voz de Francisco Louçã, garante que o Apelo “é uma forma de apoio a António Costa, mais nada” (Visão, de 9/4/09, sem link).
Este perigo, como se viu no início, é verdadeiro, mas aqui parece-me que a razão é outra. O Bloco, depois do fracasso da iniciativa junto de Helena Roseta, gostaria de passar desapercebido nestas eleições. O importante para aquele partido são as legislativas, que se irão realizar um pouco antes das autárquicas. Qualquer coligação com o PS, que não abrangesse toda a esquerda e que desse a entender que a sua luta contra aquele partido não é para valer, enfraquece a sua posição para as eleições legislativas. Por isso, qualquer proposta que chame a atenção para a necessidade de convergência à esquerda em Lisboa, abre um debate que desvia a atenção do essencial, que é tirar a maioria absoluta ao PS.
É evidente que estes argumentos utilizados para apreciar a posição do Bloco podiam também aplicar-se ao PCP, simplesmente este partido já apresentou argumentário que, no essencial, se pode considerar como pouco credível e por isso facilmente rebatível. Por outro lado, neste momento alimenta uma posição estratégica que pretende a todo o custo conservar a sua identidade política, não alimentando ilusões sobre alianças com outras forças, que não sejam aquelas que tradicionalmente estão debaixo da sua área de influência.
Já os parágrafos anteriores estavam redigidos quando no Esquerda.net se diz que dirigentes do Bloco declararam à imprensa que este Apelo “representa um apoio a António Costa que nada traz de novo ao debate sobre as políticas para a cidade".
Aqui, repetindo o que já tinham declarado à Visão, acrescentam qualquer coisa de inédito, que um Apelo político de personalidades tão diversas deveria desde logo propor um programa para a cidade. Lamento, mas considero esta, uma desculpa de mau pagador.

Em relação ao PS reconheço que é o Partido que sai mais favorecido com este Apelo. António Costa já nas eleições anteriores tinha alimentado a possibilidade de uma coligação para Lisboa. Se fez os esforços necessários, não sei. Mas na altura muitas das respostas que obteve tinham a ver com o timing apertado daquelas eleições. Depois foi conseguindo pescar à linha os vereadores que lhe faltavam. Teve êxito. Hoje deixa correr ideia que também estaria interessado num coligação. No entanto, ao fazer no Congresso do PS as declarações que fez, tornou muito difícil qualquer aliança para a cidade de Lisboa. Reconheço que depois de se chamar "parasita "a uma força política não seja fácil convencê-la que se fez aquelas declarações no calor da polémica. Já temos, contudo, conhecido volte faces mais espectaculares e em política tudo é possível. Constato que este é o obstáculo mais difícil de vencer.
O medo que as forças minoritárias de esquerda têm que este Apelo favoreça o PS e António Costa poderia ser combatido se qualquer delas fosse capaz de dar a volta por cima e encostar o PS à parede, confrontando-o com as suas verdadeiras intenções. Sei que é uma operação arriscada, mas não impossível.

Quanto à Renovação e à sua intervenção neste Apelo algumas considerações se devem fazer. Na recente história deste movimento político a sua preocupação unitária é conhecida. Dissidente do PCP e pretendendo renovar o movimento comunista em Portugal é fácil compreender a sua pulsão unitária, que só a crescente sectarização do PCP tem vindo a destruir como património histórico daquele movimento. Nesse sentido, a redacção de um apelo à convergência em Lisboa é compreensível e desejável e vai pois no sentido do seu passado. Simplesmente, a sua intervenção na realidade política diária, a inserção dos seus militantes nas forças políticas existentes, provoca sempre nos momentos em que há que fazer opções à esquerda algumas divisões e incompreensões. No fundo, a Renovação Comunista balança entre o ser uma força política interveniente na realidade ou em transformar-se num movimento de discussão e de estudo da situação do comunismo hoje. Já foi assim a quando das anteriores eleições legislativas (as de 2005) em que uma parte maioritária da Renovação decidiu fazer um acordo com o Bloco de Esquerda contra a vontade de uma minoria. Hoje, novamente, alguns renovadores são sensíveis às posições do Bloco e consideram desadequado lançar este Apelo que irá favorecer a estratégia do PS e de António Costa. Recordam com alguma nostalgia as últimas eleições presidenciais em que os renovadores se distribuíram pelas diferentes candidaturas de esquerda.
É quanto a mim o dilema que a RC enfrenta e que mais cedo ou mais tarde os seus dirigentes e militantes têm que dirimir, decidindo se querem ser um grupo de estudo ou um movimento de intervenção política, com uma estratégia própria.

E o que pensa o autor destas linhas de tudo isto, já que não pode unicamente ficar na pele de comentador da sua própria participação. Em primeiro lugar valoriza a tradição unitária comunista assinando o Apelo e considerando que ele corresponde a um amplo anseio de um grande número de eleitores que desejam que a esquerda se apresente unida às eleições municipais para a cidade de Lisboa. Até porque isso já foi possível e correu bem.
Em segundo, entende que o Apelo deve privilegiar os aspectos positivos que essa unidade representaria para a cidade. Não isentando de culpas qualquer dos intervenientes se ele não se concretizar. Nunca devemos em qualquer caso assumir a posição de idiotas úteis da candidatura de António Costa.
Em terceiro, pensar que a Renovação Comunista pode e deve assumir uma maior intervenção política, podendo-se mesmo transformar em partido, não se limitando a aparecer exclusivamente na época das eleições, já que a falta de intervenção política constante leva muito dos seus militantes a procurarem outras forma mais expeditas de militância.
Por último desejar que o Apelo tenha êxito e que a convergência das esquerdas em Lisboa seja uma realidade.

28/03/2009

Um debate à esquerda

A livraria Círculo das Letras tem desenvolvido uma meritória actividade cultural e política de divulgação de livros e de pintura e, por vezes, permitindo o debate entre as várias visões da esquerda.
Com este objectivo, realizou ontem mais um debate sobre o livro de José Neves, Comunismo e Nacionalismo em Portugal – Política, Cultura e História no Século XX (Tinta da China, Edições, 2008). Participaram nele, além do autor, Vítor Dias e Miguel Portas.
Pensava que a sessão seria um sucesso, mas correndo bem e com uma sala composta não foi quanto a mim o êxito de público que eu esperava, dadas as ligação políticas dos dois principais comentadores do livro: Vítor Dias, ao PCP, e Miguel Portas, ao Bloco.
José Neves é um jovem da geração da minha filha e seu grande amigo, que eu conheço desde que pertencemos os dois à Direcção do Sector Intelectual da Organização de Lisboa do PCP, no tempo em que ainda lá pontificava a Helena Medina. Afastámo-nos na mesma altura, cada um seguindo o seu percurso.
Tive o prazer de assistir ao seu doutoramento, a que fiz uma breve referência neste blog, e depois ao lançamento do seu livro em Lisboa. Tive conhecimento que um dos seus apresentadores em Coimbra, tinha sido Rui Bebiano, que para o efeito fez um texto para o seu blog escorreito e de que gostei.
A representar a livraria, presidindo à mesa, estava o Fernando Vicente, um velho companheiro das políticas, que muito prezo e admiro. No final, satisfeito com a realização, congratulou-se por ter sido possível juntar na mesma iniciativa dois actores de duas áreas da esquerda, que têm andado de costas viradas. Prometeu que este ano se iriam realizar outros debates do género.
Quanto ao tema em discussão irei dar, segundo a minha versão, sempre falível em relação àquilo que os intervenientes dizem, os dois pontos de vista que foram expressos pelos dois comentadores do livro.
Vítor Dias afirma que não concorda com a utilização do termo nacionalismo aplicado à visão do PCP tem da realidade nacional e critica a frase escrita na capa, que afirma que a história da oposição entre o PCP e o Estado Novo é aquela que opõe o nacionalismo comunista ao nacionalismo fascista. Depois interpreta a adesão do PCP aos valores nacionais como resultado da sua particular visão da realidade nacional, de país colonizador e simultaneamente colonizado, e da definição que aquele partido dá do Estado fascista, que obriga à unidade de todas as classes anti-monopolistas contra os monopólios que são o seu sustentáculo. Esta caracterização da realidade leva a que o PCP defenda valores que extravasam a própria classe operária e se considere como representante dos interesses nacionais, contra uma classe parasitária ligada ao imperialismo estrangeiro.
Miguel Portas tem uma explicação diferente para o mesmo fenómeno. O enraizamento do PCP na realidade nacional, resultaria, como já tinha acontecido com os Partidos sociais-democratas da II Internacional, na inserção desses partidos na realidade da Nação que era uma criação recente, que não tem mais de cem anos. Podemos resumir, afirmando que a força das novas nações tinha postergado para segundo plano a afirmação de Marx de que os trabalhadores não têm Pátria. E termina, com esta revelação importante de que o próprio Bloco de Esquerda era, neste momento, vítima deste dilema, ou seja, a realidade nacional e a sua importância para os trabalhadores portugueses estava-se a impor sobre a própria internacionalização do trabalho.
José Neves, sem ter a preocupação de rebater ponto por ponto estas duas visões, foi afirmando que por exemplo a frase transcrita da capa do livro é um pouco mais completa do que o que tinha afirmado Vítor Dias e leu-a na sua totalidade, para que não restassem dúvidas: “A história da oposição entre o Partido Comunista Português e o Estado Novo é em parte a história da contradição entre o internacionalismo comunista e o nacionalismo fascista, mas é também, vê-lo-emos ao longo deste livro, a história da oposição entre dois tipos de nacionalismo.” Realçando devidamente este mas é também.
Manifestou desagrado pela expressão enraizamento referida, penso, pelos dois intervenientes, pois considerava que levada à letra permitiria que se considerasse o PCP como um partido estranho à realidade nacional, que só posteriormente se teria enraizado nela. Houve mais algumas críticas da sua parte que permitiram tornar vivo todo o debate.
Se me é permitido meter a colherada, e falar de um livro que ainda não li, mas de que já possuo bastante informação, eu estaria de acordo com Vítor Dias sobre a utilização, que me parece um pouco provocatória, do termo nacionalismo para falar das posições do PCP e preferiria o termo patriotismo. Não tenho qualquer dúvida que os factos relatados pelo José Neves correspondem àquilo que eu chamaria a progressiva nacionalização do PCP e que, com alguma audácia interpretativa da minha parte, remontariam, com o atraso típico português, à política corresponde à proposta de formação das Frentes Populares, resultantes do VII Congresso da Internacional Comunista, que teve lugar em 1934. Podemos dizer que com a Greve Geral falhada de Janeiro de 1934, a que correspondeu o chamado soviete da Marinha Grande, termina para o PCP a sua fase obreirista ou operária, como preferirem, e iniciar-se-ia – com todas as contradições próprias de um pequeno partido, vítima da repressão e ainda sem um corpo dirigente estável – a da criação de um partido antifascista, com as características que Vítor Dia lhe atribui.
Nesta discussão, não deixaria de louvar a análise da realidade do PCP traçada pelo José Neves. E consideraria as propostas de Miguel Portas, sobre a influência da ideia de Nação na nacionalização do PCP, como um campo igualmente a explorar.

24/03/2009

Comunismo e Nacionalismo em Portugal


Debate sobre o livro de José Neves, Comunismo e Nacionalismo em Portugal - Política, Cultura e História no Século XX, na livraria Círculo das Letras, Rua Augusto Gil, 15 B, na esquina com a Óscar Monteiro Torres (muito perto da Av. de Roma), Quinta-feira, dia 26 de Março, às 18h45. Participarão Miguel Portas, Vítor Dias e o autor do livro, José Neves.

(clique na imagem para a aumentar)

09/03/2009

Quando as comadres se zangam

Dada a minha proverbial prolixidade em relação aos assuntos que abordo perco normalmente a oportunidade falar neles quando acontecem, assim para manter o meu blog com novos posts recorro frequentemente a pequeno vídeos e agora até a fotografias. Por isso, quando me preparava para “malhar”, uma expressão que agora está muito em moda, mais uma vez num post de Rui Bebiano, que tinha lido, sem saber de quem era, em o Tempo das Cerejas, e que tinha considerado bastante reaccionário, reparo que já tinha sido ultrapassado pelos acontecimentos. É que a seguir a este já tinham sido publicados outros dois (ver aqui e aqui) tão reaccionários como o anterior, o que me levou a pensar que o autor ou se tinha definitivamente passado dos carretos ou então se comprazia no deleite de provocar os seus leitores de esquerda. Por isso, achei por bem não gastar mais cera com tão ruim defunto, ou seja, deixar de comentar os seus posts tal como não faço com os do 31 da Armada, do Blasfémias ou do Atlântico.
Resolvi, por isso, abordar uma zanga de comadres que tinha assistido na última quinta-feira na Quadratura do Círculo e que, apesar de já terem passado uma série de dias, me apetece comentar dado a sofreguidão com que António Costa defendeu o seu líder e como todos, com um sorriso nos lábios, estiveram de acordo com as boçalidades com que Costa mais uma vez mimoseou o Bloco de Esquerda.
A Quadratura do Círculo, quando começou há muitos anos na TSF com outra designação, tinha como intervenientes, que eu me recorde, o Pacheco Pereira, o único que se manteve fiel ao formato, alguém do CDS e o José de Magalhães, ainda deputado do PCP. O PS estava ausente, penso que representado pelo coordenador. Depois o José Magalhães, sem sair do Parlamento, mudou-se para a bancada do PS e o programa nunca mais teve ninguém à esquerda deste partido. O que neste momento se torna profundamente injusto dado que uma corrente de opinião, com mais de 20% de intenções de voto (Bloco de Esquerda mais PCP), está completamente ausente de um programa de discussão política. Este facto permite a manutenção do stato quo dominante, expresso por Pacheco Pereira, em nome do PSD, é verdade que nem sempre alinhado, por Lobo Xavier, em nome do CDS, dizendo praticamente os dois a mesma coisa, contra um PS oficial representado por um peso pesado, António Costa, que raramente foge à versão oficial dos acontecimentos.
Na Quadratura desta semana o único tema abordado foi o Congresso do PS. Pacheco Pereira iniciou as hostilidades com o ataque ao discurso que Sócrates pronunciou no primeiro dia, aquele em que ele atacou a imprensa, principalmente o Público e a TVI, e se vitimou, garantindo que havia contra ele uma campanha negra. Depois Lobo Xavier comparou o discurso do Primeiro-Ministro ao dos autarcas corruptos, quando dizem que está nas mãos do povo a decisão da sua continuação no Governo, e não nas mãos de “um qualquer director de jornal ou de televisão”. Já se sabe que o caso Freeport veio novamente à baila e aí António Costa contra-ataca e as coisas começaram a azedar. Costa, invocou o comunicado da Procuradoria, e hoje percebe-se o alcance daquele comunicado, dizendo que as Autoridade Judiciais não consideravam José Sócrates nem suspeito, nem arguido, nem sequer que estivesse a ser investigado e quem falasse no Freeport alinhava na campanha negra que aqueles media estavam a desencadear contra o Primeiro-ministro.
Para um observador distraído estas personagens pareciam estar muito zangadas. Já assisti na Assembleia Municipal de Lisboa a troca de acusações entre deputados do PSD e do PS que dariam, na vida real, para os intervenientes chegarem a vias de facto ou para nunca mais se falarem e não é que depois os encontro nos corredores em amena cavaqueira uns com os outros, como se nada se tivesse passado. Por isso, apesar do ar zangado de António Costa e principalmente de Lobo Xavier acabou tudo em bem, quando António Costa, dizendo que nisso convergia com o Pacheco Pereira, começou mais uma vez a malhar no Bloco de Esquerda.
Por último duas coisas marginais ao debate. António Costa veio recordar a expressão “um voto na AOC era um espinho cravado na garganta do Cunhal”, que eu referi a propósito da crítica que fiz a um post de Rui Bebiano. A associação de ideias tinha a ver com Espinho, o local onde se tinha realizado o Congresso do PS.
A segunda foi Costa ter afirmado que aderira ao PS, e à sua “luta pela liberdade”, quando este desencadeou o caso República. Triste exemplo este. Hoje sabe-se que o PS utilizou este caso, que nada teve a ver com o PCP, para nacional e principalmente internacionalmente desencadear um campanha mentirosa contra os comunistas que estariam a cercear a liberdade de imprensa em Portugal, aproveitando-se, é certo, da má fama que estes tinham noutros países.
PS. (10/03/09): ao contrário do que costuma aparecer nos media não existe o termo vitimização e vitimizar como eu escrevi neste post e em anteriores, mas sim vitimação e vitimar. Neste ainda resolvi fazer a correcção, em relação aos outros espero que os meus leitores que me desculpem mas que façam eles a alteração.

05/03/2009

Uma Conferência quase clandestina de Domenico Losurdo

Já um pouco atrasado venho dar conta de uma conferência que assisti na quinta-feira da semana passada. Como o tipo de posts que escrevo têm sempre muita prosa, e meteu-se o Congresso PS de permeio, não me sobrou vagar para relatar este evento quase clandestino, porque foi muito pouco divulgado.
A Conferência teve lugar no ISCTE, foi patrocinada por João Arsénio Nunes, professor daquela escola, e integrada nas cadeiras que ministra, e pelo site ODiario.info, em que um dos co-editores é Miguel Urbano Rodrigues, que esteve presente na mesa. O orador foi o historiador e filósofo marxista italiano Domenico Losurdo, professor na Universidade de Urbino. Com obra vasta publicada em Itália e quase toda ela traduzida no Brasil (no final apresentarei uma curta bio-bibliografia) e noutros países.
Pelo nome dos organizadores penso que os meus leitores já perceberam que estávamos perante uma realização bastante próxima do PCP. João Arsénio Nunes, meu amigo de longa data e que me convidou para estar presente, é um dos poucos historiadores que permanece filiado naquele partido. Quanto ao site em questão, tendo provavelmente vida própria, não difere muito das intervenções patrocinadas pelo PCP.
Com este pano de fundo, muitos se interrogarão se valerá a pena assistir a este tipo de conferências, onde a ortodoxia dominante no nosso PCP tornaria manifestamente impossível qualquer interrogação que fugisse ao discurso que predomina naquele partido. A verdade é que muitas das intervenções de alguns, não direi de todos, dos teóricos que ainda restam no movimento comunista internacional, muitos deles professores universitários, com obra de vulto, têm uma outra abertura e compreensão da realidade do que foi o “campo socialista”, visto participarem activamente na discussão destes temas nos seus países, que está longe de se reduzir aos chavões e palavras de ordem produzidos pelo nosso PCP. Mesmo neste campo, do aprofundamento do marxismo, da discussão teórica e da investigação histórica, o nosso atraso é manifesto.
Dito isto, concluo que foi proveitoso assistir a esta comunicação, cujo tema era “O movimento comunista no século XX”.
O que disse o autor. Começou primeiro por um preâmbulo que eu subscrevo por inteiro e que é o seguinte (a tradução da comunicação está transcrita em ODiario.info): “Como resumir o balanço histórico do movimento comunista no século que passou? Hoje em dia, o discurso acerca da sua “falência” é tão pouco discutido que não chega a suscitar objecções, nem mesmo na esquerda. A ideologia e a historiografia actualmente dominantes parecem querer compendiar o balanço de um século dramático numa historieta edificante, que pode resumir-se deste modo: no princípio do século XX, uma rapariga fascinante e virtuosa, a menina Democracia, foi agredida, primeiro por um bruto, o senhor Comunismo, a seguir por outro, o senhor Nazi-Fascismo; aproveitando as contradições entre eles e através de peripécias complexas, a jovem consegue por fim libertar-se da terrível ameaça; tornando-se entretanto mais madura mas sem nada perder do seu fascínio, a menina Democracia consegue coroar o seu sonho de amor pelo casamento com o senhor Capitalismo; rodeado pelo respeito e a admiração gerais, o feliz e inseparável casal gosta de levar a vida principalmente entre Washington e Nova Iorque, entre a Casa Branca e Wall Street. Assim sendo, não há mais lugar a dúvidas: é evidente e inglória a falência do comunismo.”
Esta historieta, tirando o “casamento como senhor capitalismo”, pode ser subscrita por todos os historiadores conservadores, liberais e até por algumas boas almas que povoam a nossa Internet, e assenta fundamentalmente na luta da democracia contra os totalitarismos, de esquerda ou de direita, e tem no pacto germano-soviético a expressão máxima da união entre aquelas duas doutrinas totalitárias e que é um dos pilares em que assenta a historiografia do Século XX.
Depois a comunicação, fugindo bastante àquilo que nos é proposto no título, passa a explanar as três grandes descriminações (racial, censitária e sexual) que ainda nas vésperas de Outubro de 1917 (Revolução de Outubro) desvirtuavam a democracia e que se mantiveram por bastantes anos, até quase aos nossos dias. Um exemplo é a descriminação racial existente nos Estados Unidos da América. Foi igualmente referida a ligação que houve entre a descriminação racial nos Estados Unidos e os teóricos do racismo anti-semita do Terceiro Reich.
Outra descriminação era o voto censitário, ou seja, só podiam votar aqueles que tinham um determinado rendimento, e até muito recentemente as mulheres também estavam arredadas das eleições.
O autor defende depois o ponto de vista de que foi a Revolução de Outubro, o aparecimento da União Soviética e do movimento comunista internacional que influenciaram decisivamente o progressivo desaparecimento das três descriminações referidas.
O desaparecimento daquele país e o enfraquecimento do movimento comunista está a influenciar um retorno ou a restauração daquelas descriminações e, na sequência dessa afirmação, são dados alguns exemplos recentes.
A terminar o autor descreve a complexa dialéctica que resultou da interacção entre os dois sistemas que co-existiram e que, do meu ponto de vista, serve para caracterizar a situação actual.
A partir de Outubro de 1917 desenvolveu-se uma dialéctica complexa e contraditória. O sistema capitalista, reforçado pela absorção de elementos derivados da bagagem ideal e política do movimento comunista e da própria realidade do socialismo real, soube depois exercitar por sua vez uma atracção irresistível sobre a população dos países caracterizados por um socialismo que, desde o início, traz impressos na face os sinais da guerra desencadeada e imposta pelo Ocidente, e que depois se torna cada vez mais ossificado e esclerótico até se tornar a caricatura de si próprio. Quer dizer, os regimes nascidos na onda da revolução bolchevique não souberam confrontar-se concretamente com o Ocidente que eles próprios tinham contribuído para modificar em profundidade. Em última análise venceu o sistema político-social que melhor soube responder ao desafio lançado ou objectivamente constituído pelo sistema oposto e concorrente. E foi assim que, também neste caso, a inicial vitória parcial conseguida pelo movimento operário e comunista, com a capacidade demonstrada de desenvolver a sua eficácia histórica concreta também no campo adversário, se transformou numa derrota de alcance estratégico.”
Eu diria que se a Revolução de Outubro forçou a longo prazo a introdução de uma democracia plena no sistema capitalista o inverso não se verificou e quando isso aconteceu ou foi reprimida ou então abalou definitivamente o sistema. Esta última faceta não foi desenvolvida pelo autor e seria interessante que o fosse.
Como se pode ver pela leitura daquele último parágrafo, e para os mais interessados recomendo a consulta de todo o texto e de uma outra conferência que aquele foi fazer no dia seguinte a Coimbra (ver aqui), as suas reflexões, sendo críticas em relação à ideologia dominante e mesmo para aquela acantonada à social-democracia e que no nosso país tem algum reflexo no Bloco de Esquerda, não me parecem que sejam representativas do actual pensamento do PCP. O mais que podemos dizer é que são estes os ideólogos que, a nível internacional, mais próximo estão daquele partido e menos se sentem incomodados com a sua presença.

Para terminar e num apontamento muito pessoal, um dos temas abordados por Losurdo foi o dos Untermenschen, o termo com os alemães classificavam os judeus, que era a tradução naquela língua do termo, Under Man, dos ideólogos racistas americanos, quando estes se referiam aos negros. A tradução portuguesa poderia ser sub-homem. Pois eu senti-me assim naquela conferência. Depois de anos de convívio com alguns membros do sector intelectual do PCP de Lisboa, e que eu conhecia bem, acharam naquela sessão que eu era um ser inexistente e por isso nem para mim olharam, nem esboçaram um simples cumprimento. Para certos militantes do PCP, aqueles que alguma vez deixaram de ser do seu partido, passam a ser como Untermenschen.

Pequena biografia e bibliografia de Domenico Losurdo

Nascido em 1941 nos arredores de Bari, é actualmente Professor catedrático da Universidade de Urbino e Presidente da Sociedade Internacional Hegel-Marx.
Um dos principais campos de investigação de Domenico Losurdo situa-se na reconstrução da história política da filosofia clássica alemã, de Kant a Marx, tendo ainda dedicado ensaios a Nietzsche e Heidegger.
Mais recentemente dedicou-se a uma leitura crítica da tradição liberal e das origens ideológicas do fascismo e do nazismo, na sua relação com as tradições coloniais e imperialistas.
A mais recente das suas obras, Stalin. Storia e critica di una leggenda nera, suscitou intenso debate e o comentário elogioso, entre outros, de Gianni Vatimo: “Graças aos documentos e citações presentes no livro conseguimos entender como Stalin foi sobrevalorizado por muitíssimos estadistas, como Churchill e De Gasperi e filósofos como B. Croce, que sempre olharam Stalin com respeito, simpatia e mesmo admiração”

(biografia elaborada por João Arsénio Nunes - JAN - e que acompanhava o convite).

Bibliografia. Obras recentes
  • Hegel, Marx e la tradizione liberale. Roma, Editori Riuniti, 1988. (Hegel, Marx e a Tradição Liberal. Liberdade, Igualdade, Estado. Editora Unesp, 1998).

  • Democrazia o bonapartismo. Trionfo e decadenza del suffragio universale. Torino, Bollati Boringhieri, 1993 (Democracia e Bonapartismo. Triunfo e Decadência do Sufrágio Universal. Editora UNESP, 2004).

  • Il Revisionismo Storico. Problemi e Miti. Laterza, Roma-Bari, 1999.

  • Hegel e la Germania. Filosofia e questione nazionale tra rivoluzione e reazione. Milano, Guerini-Istituto Italiano per gli Studi Filosofici, 1997.

  • Democrazia o bonapartismo. Trionfo e decadenza del suffragio universale. Torino, Bollati Boringhieri, 1993. (Democracia e Bonapartismo. Triunfo e Decadência do Sufrágio Universal. Editora UNESP, 2004).

  • Antonio Gramsci, dal Liberalismo al "Comunismo Critico". Roma, Gamberetti, 1997. (Antonio Gramsci: do Liberalismo ao “Comunismo Crítico”. Editora Revan, 2006).

  • Fuga dalla storia? Il movimento comunista tra autocritica e autofobia. La Città del Sole, Napoli, 1999. (Fuga da História? A Revolução Russa e a Revolução Chinesa Vistas de Hoje. Editora Revan, Rio de Janeiro, 2004 - edição ampliada em relação à italiana).

  • Ipocondria dell’impolitico. La critica di Hegel ieri e oggi. Milella, Lecce, 2001.

  • Nietzsche, il ribelle aristocratico. Biografia intellettuale e bilancio critico. Bollati Boringhieri, Torino, 2002.

  • Controstoria del liberalismo. Laterza, Roma-Bari, 2005. (Contra-História do Liberalismo. Idéias & Letras, Aparecida, 2006).

  • Liberalismo. Entre Civilização e Barbárie. Editora Anita Garibaldi, 2006.

  • Il linguaggio dell'Impero. Lessico dell'ideologia americana. Laterza, Roma-Bari 2007.

  • Stalin. Storia e critica di una leggenda nera. Carocci Editore, Roma, 2008.

(Bibliografia elaborada por mim, com base na de JAN. Entre parêntesis as edições brasileiras. Para a bibliografia completa ver).

24/02/2009

O cimento ideológico que continua a chocar o ovo da serpente

Nada tenho contra o blog a Terceira Noite, de Rui Bebiano. Encontro sempre nele algum motivo de reflexão ou de ensinamento. No entanto, há certas afirmações que não compreendo ou que considero injustas.
Assim, um post dedicado ao julgamento de mais um criminoso do regime Khmer Vermelho, que governou o Cambodja entre 1975 e 1979, termina assim: “de vez em quando aponta-se o dedo aos criminosos, nomeados um a um sempre que morrem de velhice ou são presentes a tribunal, mas deixa-se em paz o cimento ideológico, de recorte apocalíptico e supostamente redentor, edificador de humanidades «novas» sem alma, que deu coerência a uma doutrina transformada em arma de agressão e de terror. Esse continua a chocar o ovo da serpente.
Nesta prosa não se percebe se há hoje algum partido político ou corrente ideológica que se reivindique daquele regime e que por esse motivo continue “a chocar o ovo da serpente”. Ou se os que se propõem “edificar humanidades “novas”” querem instituir regimes semelhantes aos do Cambodja.
Penso que este é um debate que transcende em muito as preocupações em relação àquele regime e que se insere numa discussão mais vasta: se é possível propor outra sociedade como, por exemplo, propõem os altermundistas. Ou se podemos transformar a actual noutra bem diferente e melhor. Eu temo que a resposta de Rui Bebiano seja não.
Mas não é esta a discussão que me interessa neste momento. Já que estou a falar com um historiador, convém recordar algumas realidades a propósito deste desgraçado caso do Cambodja. Primeiro quem derrotou e libertou o povo cambodjano dos seus criminosos dirigentes foi o regime “socialista” do Vietname, ajudado por forças políticas cambodjanas. Segundo, foi o mundo ocidental, capitaneado pelos americanos, e a China que continuaram a reconhecer o Kampuchea Democrático (era assim que o país era denominado) e a apoiar o partido dos Khamer Vermelhos e os seus dirigentes, já que estes eram aliados da China de Mao e combatiam os vietnamitas, apoiados por Moscovo. A história é triste e é daquelas que as democracias ocidentais esqueceram facilmente. Mas há mais e este facto tem ficado na sombra.
Em Portugal foi criada uma Associação de Amizade entre o regime derrubado e o nosso país, associação essa dirigida por um democrata respeitável, chamado Vasco da Gama Fernandes, que o mínimo que posso dizer é que nem saberia, com a idade que tinha, onde é que aquele país se situava. Esta associação foi promovida principalmente por um partido político maoista, que no campo da provocação anti-comunista teve algum relevo, que era a AOC, que garantia que “cada voto na AOC era uma espinha cravada na garganta do Cunhal”. Esta AOC era dirigida pelo Eduíno Vilar, antigo estudante do Técnico, que mais tarde se filiou no PSD e tentou concorrer, sem êxito, a qualquer prebenda oferecida por aquele partido.
São tudo histórias tristes, mas que não nos permitem com tanta simplicidade distinguir os bons dos maus, e quem é que alimentou ou alimenta o ovo da serpente.
Tinha acabado de colocar este post quando volto à Terceira Noite e não é que o nome que Rui Bebiano dá ao seu mais recente post é Três tristes talibans passeiam-se por Braga. Porque é que se havia de nomear os talibans, que para aqui não são chamados, e não se poderia escrever Três tristes reverendos, ainda com o cheiro da Inquisição nas vestes, passeiam-se por Braga. Será que se os deixassem seriam melhores?
Este episódio refere-se a uma preocupante acção censória que esta semana tem estado a atacar a população portuguesa. Depois de Torres Vedras, a vítima agora foi um livreiro que tinha exposto um livro de pintura que reproduzia na capa o célebre quadro de Courbet, “A origem do Mundo”, com o desenho do sexo de uma mulher, que ainda há bem pouco tempo apareceu reproduzido no Público, penso que na P2

10/01/2009

Cuba, mais um aniversário


Sei que venho atrasado, o 50º aniversário da Revolução Cubana já passou. Mas ainda estou dentro do período normal para comemorar esta data redonda.
Na blosgosfera a habitual divisão. As boas almas lá vieram reafirmar a mesma desilusão de sempre, os outros a passagem de mais um glorioso aniversário. Não indico links para não ofender ninguém.
No entanto, não deixo de referir a prosa de Vital Moreira, A revolução exangue, publicada no Público, a 6 de Janeiro, que para além das críticas tradicionais daquele articulista a um regime “comunista”, tem afirmações mentirosas sobre a pobreza de Cuba, – “economicamente, Cuba é hoje um dos países mais pobres da América Latina” – que não se baseiam em qualquer fonte e que resultam do palpite daquele articulista. Sobre este assunto ver o belo artigo que Guilherme da Fonseca-Statter publicou no Comunistas.info, A propósito de mais um Aniversário da Revolução Cubana, em que desmonta com números aquela afirmação aldrabona de Vital Moreira.
Mas deixemos estas pequenas picardias em que eu me costume envolver na blogosfera ou com os media dominantes e apresentemos três pequenas reflexões que me interessa fazer sobre Cuba.

1 - Só haverá um caminho para chegar ao socialismo?

Quando a revolução cubana aconteceu tinha eu quinze anos a caminho dos dezasseis. Vivi com grande alegria aqueles acontecimentos através de uma imprensa censurada. Era a derrota de uma ditadura e a vitória da liberdade e da transformação social. Ditadura e liberdade eu sabia o que eram, transformação social era um conceito mais elaborado, que na altura provavelmente não perceberia a sua amplitude. Contudo, quando se deu o desembarque da Baía dos Porcos, em Abril de 1961, e a crise dos mísseis, em Outubro de 1962, já era um homenzinho e, na última data, já tinha mesmo formação marxista.
Para aqueles que, como eu, pouco tempo depois aderiram ao PCP, a revolução cubana tinha seguido a via-sacra do leninismo, ou melhor, os ensinamentos do marxismo-leninismo e da construção do socialismo. Tinha começado por ser uma revolução anti-imperialista, contra a burguesia sua aliada, que devido à resistência do imperialismo se transforma em revolução socialista, cuja direcção é assegurada primeiro, a partir de Março de 1962, pelo Partido Unido da Revolução Socialista Cubana (PURSC), que junta os fidelistas do Movimento 26 de Julho, o Directório Revolucionário, formado por estudantes revolucionários, e o anterior partido comunista (Partido Popular Socialista) e depois, a partir de Outubro de 1965, pelo seu partido de vanguarda, o Partido Comunista Cubano, que irá comandar até hoje os destinos da Revolução.
Cuba era a ilustração clara de que só havia um caminho para construir o socialismo. Segundo uma declaração antiga de Fidel, que encontrei em textos que recolhi na altura, “o processo revolucionário cubano obedecia a um conjunto de leis, comuns a todos os processos revolucionários. Primeiro a tomado de poder pelas massas, em seguida a destruição do aparelho militar da classe dominante” (Dezembro de 1961). A minha geração comunista acreditou nisto e Cuba confirmava a veracidade deste princípio.
Hoje, passado este tempo, verifico que a opção seguida em Cuba não foi o resultado inevitável de um princípio, que nós acreditávamos que era científico, mas o resultado da própria experiência soviética, que era a única verdadeiramente conhecida, e da pressão dos conselheiros daquele país. Era essa a única via que lhes tinham ensinado nas escolas do Partido.
É evidente que estes passos não foram dados sem dor, nem sem convulsões. Che tinha algumas opiniões diferentes. Fala dos estímulos morais para as tarefas da construção do socialismo, enquanto os soviéticos dos estímulos materiais. Propõe-se a teoria do foco como um conceito revolucionário aplicável a países sob dominação imperialista e com condições no terreno favoráveis à guerra de guerrilhas e defende-se a criação de “um, dois ou três Vietnames”, enquanto que em Moscovo se acredita numa via pacífica para o socialismo. Mas no fundo o caminho seguido por Cuba era indiscutivelmente a confirmação prática de que a construção do socialismo só poderia seguir aquela via.
Posteriormente, a derrota de Allende, no Chile, tornou ainda mais real a nossa convicção teórica.
Simplesmente, os revolucionários sul-americanos aprenderam a lição, depois de anos de ditadura e de derrotas da Revolução, conseguiram com dúvidas, divisões, avanços e recuos, empreender a transformação social criando movimentos de massas que pela via democrática vão tomando o poder e tentando construir novas perspectivas para as suas populações miseráveis. O caso mais conhecido é o Chavez, mas temos Morales na Bolívia, Rafael Corrêa no Equador, Daniel Ortega, parece com algumas contradições, na Nicarágua e mais recentemente Fernando Lugo, no Paraguai. Temos Governos com algum cariz progressista no Brasil, com Lula, na Argentina, no Uruguai e, vá lá, no Chile.
Cuba isolada, escorraçada da Organização dos Estados Americanos, em 1962, está hoje no centro de todas as atenções e é um estado acarinhado e respeitado em toda a América Latina.
Por isso, aquilo que nós pensávamos naqueles anos revelou-se errado, diverso são os caminhos para se chegar ao socialismo e os principais, com todos as contradições e complexidades, passam necessariamente pela participação eleitoral e democrática de grandes massas de cidadãos.

2- Os problemas do desenvolvimento

Numa entrevista à SIC Notícias a propósito deste aniversário, José Fernandes Fafe, que foi nosso embaixador em Havana e escreveu recentemente um belo livro sobre Fidel (Temas e Debates e Círculo dos Leitores, 2008), afirmou que, durante a existência da União Soviética, Cuba vivia menos mal para os padrões da América Latina. Segundo ele a URSS despejava não sei quantos milhões de dólares por dia naquele país. Quando aquela acabou, Cuba, para sobreviver, teve que introduzir as desigualdades, dado que autorizou os portadores de dólares a trocá-los pela moeda local, permitindo assim que aqueles que tivessem parentes nos Estados Unidos ou que vivessem do turismo ou nas suas proximidades pudessem beneficiar dessa troca.
Este problema, aqui ligeiramente aflorado, põe o dilema, que se pôs igualmente à China, com outra dimensão, de que só recorrendo a uma certa desigualdade no caso de Cuba, no caso da China, recorrendo mesmo ao capitalismo mais selvagem se consegue desenvolver um país atrasado.
A experiência soviética não é muito encorajadora. Lenine, para sair da paralisação económica em que se encontrava a URSS, após a guerra civil, recorreu provisoriamente à NEP (Nova Política Económica), que permitiu a venda livre dos produtos da terra e o enriquecimento individual dos camponeses com maiores propriedades (kulaks). Estaline cortando com isto, resolveu fazer a colectivização forçada dos campos e iniciou com os camponeses que fugiram para as cidades, e alguma mão-de-obra prisioneira a industrialização acelerada daquele país. Os resultados foram positivos durante um período razoável, mas foram obtidos à custa de um enorme sofrimento das populações. Podemos afirmar que a experiência soviética nada tinha de socialismo, como Marx o entendia e como nós hoje o propomos.
Por isso, até ao presente, o socialismo não teve possibilidades de demonstrar ser capaz de desenvolver sociedades humanas atrasadas. Apesar de no caso da URSS a ter transformado num país moderno e na China ter permitido retirar milhões de camponeses do nível de subsistência mais miserável, simplesmente nada disto tem a ver com o socialismo. As experiências da América Latina não são ainda conclusivas, nem garantem que sejam capazes de retirar massas humanas do nível de subsistência, mas têm permitido aumentar o nível de vida de algumas populações mais desfavorecidas.

3 – Os problemas da transição

Todos os críticos dos regimes de socialismo real asseiam para que estes passem a ser democracias “tout court” e que garantam o respeito pelos direitos humanos. Nestes anseios há muita hipocrisia. Esquecem deliberadamente que até ao presente os regimes que substituíram o socialismo-real enveredaram pelo capitalismo mais desigual, criando sociedades que só por brincadeira se pode dizer que garantem os direitos humanos. Quando milhares de cidadãos daqueles países são obrigados a emigrar para o Ocidente porque perderam de imediato o seu nível mínimo de subsistência, mal vão os direitos humanos. Mais, quando de repente aparecem, em meia dúzia de anos, como foi o caso da Rússia, multimilionários com as fortunas como as que hoje são atribuídas a alguns dos donos de clubes de futebol, temos que reconhecer que alguma coisa vai mal. E vai de facto, a experiência de transição, excepto em países que já tinham uma vida democrática anterior, caso da Checoslováquia, tem sido má, tem permitido criar profundas desigualdades e transformado países que dantes eram dependentes de uma grande potência, a URSS, a dependerem de outra, os EUA. A história é triste e não pode servir para os seus defensores fazerem grandes encómios.
O problema em Cuba tem contornos semelhantes. Como se portariam os cubanos de Miami desejosos de vingança contra os que ficaram em Cuba? Que aconteceria a todos os grandes proprietários que anseiam regressar às suas terras? E aos americanos que deveriam querer ressarcir-se dos seus investimentos passados? Estes aspectos da transição, que as boas almas acreditam que se resolvem facilmente fazendo eleições livres, dando liberdade de imprensa e permitindo a organização de partidos, acabam normalmente muito mal, com violações por vezes muito mais gritantes dos direitos humanos.
Não comparem com a transição em Portugal. Nos casos referidos anteriormente há de facto uma mudança de regime económico importante, coisa que as nossas boas almas ignoram, que modifica profundamente a estrutura social. Em Portugal, apesar de ter havido algumas alterações sociais, os donos da bola, as classes dominantes de sempre, passados os primeiros apertos e da emigração para o Brasil ou para Espanha, regressam para tomar posse do que perderam e, em alguns casos, em situações até mais favoráveis.
Na China o poder conseguiu controlar a situação de transição. Recorreu mesmo uma situação extremamente repressiva, Tiananmen, no entanto, se isso não tivesse sucedido talvez a China perdesse o comboio do crescimento económico que tem vindo a conhecer.
Cuba com as alterações que o próprio regime for introduzindo, com o reforço da componente progressista em toda a América Latina, com a possível, mas não certa, alteração da liderança em Washington, irá provavelmente corrigindo alguns das piores defeitos do passado e permitir um fluir democrático das suas instituições.

Estas três reflexões sobre Cuba foram escritas um pouco ao correr da pena, com a ajuda aqui e acolá da Wikipédia, e de textos que fui desenterrar à minha gaveta de memórias, não pretende ser uma análise histórica e económica da realidade. São simples apontamentos pessoais que respondem a algumas ideias feitas e que os de sempre considerarão revisionistas e as boas almas como justificadoras da ditadura de partido único e da violação dos direitos humanos. A todos respondo que metam a mão na consciência e aos últimos que não se pode ser tolerante para com Israel e tão crítico para com este regime.