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09/01/2008

A Regra do Jogo


Esta noite estreou-se na SIC Notícias mais um programa de debate. Aquela estação de televisão, percebendo que o seu público é sensível ao confronto de ideias, tem espalhado ao longo da semana diversos modelos de debate. Este é semelhante à Quadratura do Círculo, dado que há também um moderador e comentadores residentes, que se movem politicamente em redor do Bloco Central. Assim, no confronto desta noite estrearam-se José Miguel Júdice e António Barreto, moderados por António José Teixeira.
O programa chama-se indevidamente A Regra do Jogo, que foi o nome de um filme, uma das grandes obras-primas entre as duas Guerras (1939), de Jean Renoir. Uma comédia de enganos que antevia a guerra que ai vinha, feita por um realizador que pouco tempo antes tinha realizado a La Vie est á Nous, uma homenagem ao Partido Comunista Francês e ao Governo da Frente Popular de 1936. Portanto, pouco recomendável para nome de programa do sistema.
É evidente, que António Barreto, no contexto actual, aparece como muito crítico em relação ao Governo de José Sócrates e às suas escolhas. Basta ler os seus artigos do Público para se perceber as suas claras opções críticas e como neste momento não está enfeudado a nenhum partido político, pode evitar os pinos que os comentadores ligados aos partidos do centrão são obrigados a dar. No entanto, em nome de que valores critica? Não é de certeza em nome da esquerda.
Quanto a José Miguel Júdice está tudo dito. De fascista, com actividade reconhecida na Universidade de Coimbra antes do 25 de Abril, passando por preso político durante o PREC e exilado em Espanha a trabalhar no departamento político do MDLP, a apoiante pela direita do Governo de José Sócrates, é um bom exemplo do que a necessidade camaleónica obriga. Por isso, nada de bom deste comentarista há-de vir.
Quanto aos temas abordados: foram a ASAE, o referendo europeu e a Mensagem de Ano Novo do Presidente da República. Em relação ao primeiro todos estiveram de acordo, o que é fácil suceder. Quanto ao referendo já se conhecia a defesa que dele faz António Barreto. Quanto a Júdice, na linha de José Sócrates, é contra. Relativamente à Mensagem do Presidente, principalmente na parte referente aos ordenados dos administradores, manifestaram-se contra aquelas palavras. Acham que a defesa de um certo moralismo não deve ser apanágio do Estado. São favoráveis, se fosse caso disso, ao aumento fiscal sobre aqueles elevados rendimentos. Apresentaram, neste caso, um discurso muito menos ultraliberal do que os intervenientes na Quadratura do Círculo por mim referidos em post anterior.

08/01/2008

Os rendimentos dos dirigentes de empresas são desproporcionados em relação aos dos seus trabalhadores


Na sua Mensagem de Ano Novo Cavaco Silva resolveu interrogar-se sobre se os rendimentos auferidos por altos dirigentes de empresas não serão, muitas vezes, injustificados e desproporcionados, face aos salários médios dos seus trabalhadores. Foi, sem dúvida, o assunto mais falado da sua comunicação, até porque num discurso cinzento e de meias palavras, foi aquilo que sobressaiu como mais explícito. Assim, e sem referir os múltiplos comentários que foram escritos na imprensa, destacaria os dois programas da SIC Notícias que lhe fizeram pormenorizadas referências: Quadratura do Círculo e Expresso da Meia-Noite.
O primeiro constituído por um grupo de comentadores, todos a puxar para o mesmo lado, referiu-se lhe criticamente, o segundo mais matizado, prestou, quanto a mim, até algumas informações úteis.
Mas passemos aos factos. Na Quadratura do Círculo, António Lobo Xavier, claramente o representante do grande capital e da alta finança, foi muito crítico sobre aquela passagem. Achava que o Presidente da República não tinha nada a ver com isso. E na sequência de intervenções anteriores do mesmo jaez, achou que na vida privada das empresas ninguém se devia meter. Elas são donas e senhoras daquilo que administram. Foi o mesmo personagem que no caso da menina Esmeralda se insurgiu contras as críticas que foram feitas ao Tribunal, que decidiu que aquela deveria ser entregue rapidamente ao pai biológico, sem ter em conta os problemas psicológicos e afectivos que essa decisão iria causar na pequena. Considerou que o Sargento, o pai afectivo, era um raptor e que não havia pais biológicos, havia unicamente pais. Revelando uma insensibilidade típica das gentes bem nascidas, que consideram que têm desde a nascença direito de pernada sobre o comum dos mortais. E isso tanto se aplica aos filhos como às empresas que administram ou de que são consultores.
Pacheco Pereira, mais político, não se indigna tanto com as palavras do Presidente da República, mas considera que elas traduzem a posição ideológica de Cavaco Silva, que não se consegue libertar totalmente da tralha do Estado Social, que para Pacheco Pereira é a raiz de todos os males e do empobrecimento da Nação. E apesar destas afirmações, que são ridículas aplicadas a este Governo, nunca vi Jorge Coelho fazer o mais pequeno esforço para se demarcar delas.
Por fim, este último, usando uma daquelas tiradas demagógicas, que são apanágio do PS, diz que o que está mal é haver tantos a ganharem tão pouco e não os ordenados chorudos dos administradores. Ou seja, neste caso, porque lhe convém, para não destoar dos seus companheiros de debate, quer nivelar por cima, ao contrário dos seus camaradas de Partido e de Governo, que no dia a dia vão nivelando por baixo, afirmando sempre que os que têm umas migalhitas a mais são uns privilegiados e que há pôr todos por igual.
Quanto ao Expresso da Meia-Noite a corrente era outra. Excepto Inês Serras Lopes que no princípio, ainda embalada pela opinião de vários comentadores de direita, criticou aquelas palavras do Presidente da República, todos os outros, apesar de terem posições ideológicas diferentes, se manifestaram favoravelmente em relação a elas. Afirmando, com conhecimento de causa, que este assunto está a ser debatido noutro países. Na Alemanha, por exemplo, a chanceler pretende até legislar sobre o assunto. Nos EUA é também objecto de discussão. Por outro lado, as empresas cotadas na bolsa devem fornecer o vencimento dos seus dirigentes, dado que quanto maiores eles forem menores serão os lucros dos seus accionistas. Ou seja, traçaram um perspectiva sobre o assunto que foge á tradicional reflexão dos nossos liberais de trazer por casa, que quando se critica a sacrossanta propriedade privada e a gestão das suas empresas, aqui D’el-rei que estão a limitar a liberdade dos patrões. Por outro lado, chegou-se a insinuar que as palavras de Cavaco Silva se referiam aos ordenados desmedidos dos administradores do BCI, agora que começaram a ser conhecidas as trapaças que aqueles cometeram.
Quanto a mim, aquelas afirmações de Cavaco Silva, que, ao contrário do que alguns têm dito, não se converteu à esquerda, vêm na linha, não da social-democracia, de que alguns dizem que Cavaco Silva é um lídimo representante, mas sim do ensinamento social da Igreja, que sempre achou que a riqueza desmedida de alguns, é uma ofensa a Deus e os pobrezinhos e que os que muito têm devem ajudar os que menos têm e isso se pode desde logo aplicar às empresas que administram.
Reconhecendo que este discurso não resolve nada, tem pelo menos o mérito de opor ao neo-liberalismo vigente, algumas preocupações socais, que hoje estão completamente ausentes do discurso dominante.