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30/01/2011

Sectarismos, ódios e paranóias - I

No post anterior sobre o resultado das eleições para a Presidência da República fiz referência, por duas vezes, ao nome de Vítor Dias, do blog O Tempo das Cerejas. A primeira foi inócua, já que eu concordava com a relação que ele estabelecia, apesar dos contextos serem bastante diferentes, entre a votação de Pinheiro de Azevedo, em 1976, e a de Fernando Nobre agora. São assuntos passados, que só velhos como nós é que se recordam.

A segunda é relativa a uma pequena polémica que travei aqui com ele, a propósito da sua repetida afirmação de que votar nos opositores a Cavaco A, B ou C, na primeira volta, era aritmeticamente a mesma coisa, a que eu respondia que politicamente votar em A ou B não era a mesma coisa, já que não era indiferente quem ia à segunda volta, se a houvesse. Se a escolha fosse em Nobre, era para o PCP um bocado difícil apelar na segunda volta ao voto nele, depois de o seu jornal “o ter classificado como fascista.” Mas a seguir acrescentava: “coisa que diga-se de passagem, não sendo completamente verdade, tem algum fundo, vejam-se  as palavras de Nobre no debate com Francisco Lopes”. Este “vejam-se” remetia para um post anterior, onde fazia uma análise dos debates e, a propósito do realizado entre Francisco Lopes e Fernando Nobre, dizia que este tinha feito afirmações que roçavam “perigosamente o fascismo”.

Que me responde Vítor Dias nos comentários ao meu post, que eu tinha-me que pôr de acordo com Francisco Louçã porque enquanto que este dizia que “Nobre fez uma campanha com traços populistas – o jornal do PCP chama-lhes “fascistas”, o que é certamente inaceitável –“, para mim, que não tinha engravidado (penso que seja esta a expressão, pois o que escreve VD foi "engracidou") de ouvido, o jornal do PCP classifica-o “como fascista”, no singular. E termina VD “espero que considere que chamar «fascistas» a TRAÇOS DE POPULISMO NÃO é A MESMA COISA QUE CHAMAR FASCISTA AO CANDIDATO.
Como se percebe, para quem leu o meu texto, eu não citava o Francisco Louçã, mais remetia para um texto meu anterior até ás eleições, enquanto que o de Louçã é posterior, e apesar de não transcrever ipsis verbis o que dizia o jornal do PCP, até concordava com ele, pois achava que, no debate com Francisco Lopes, as afirmações de Nobre roçavam “perigosamente o fascismo”.
Percebe-se deste primeiro comentário que não só VD não lê com cuidado os textos que critica, como os apoiantes de Alegre teriam que seguir as palavras de Louçã, tal como ele, VD, bebe de certeza os comunicados do Comité Central.

O segundo comentário ainda é mais sectário. Porque, não tendo percebido nada do que escrevi, continua a dizer que eu fazia uma referência crítica ao Avante. Percebe-se perfeitamente que no meu post não havia qualquer referência crítica ao Avante, havia sim uma referência crítica às contas aritméticas de VD que podiam não bater certo com as contas políticas.
E depois num gesto de puro sectarismo, ódio e paranóia, vem referir a propósito de nada que Francisco Louçã trafulhou (verbo que não existe segundo o Portal de Língua Portuguesa) duas vezes. Quando atribuía autoria de uma crónica assinada ao jornal do PCP. Rábula muito antiga de VD, que sempre quis separar as crónicas assinadas no Avante, das posições do seu director, como se elas não reflectissem o mesmo pensamento. Se o seu blog, nos textos de opinião, reflecte sempre as posições do seu Partido, não havia de acontecer isso no jornal Avante.
Depois numa apreçada manipulação transforma os “traços populistas”, que segundo Louçã “seriam, para o jornal do PCP “fascistas”, em fascista, cometendo assim o mesmo erro que me atribui a mim logo no seu primeiro comentário. De facto o que dizia o articulista é que o pensamento político de Nobre era fasciscante e não fascista, mas em qualquer dos casos, como VD sublinhou no seu primeiro comentário, era o pensamento político e não o candidato que era fascista.

Já se sabe que isto não teria importância nenhuma se VD se limitasse simplesmente a comentar as minhas afirmações, quando o que pretendia era por um lado dizer que eu contradizia Louçã. Como se no Bloco, ao contrário do que sucede no PCP, não haja liberdade pública de se discordar de Louçã, ou seja de quem for, e ao mesmo tempo chamar trafulha a Francisco Louçã, numa clara manifestação de sectarismo, ódio e paranóia.

Em próximo post irei comentar as posições do PCP sobre o Bloco, de que VD é, neste momento, um simples peão de brega.

26/11/2010

Algumas conclusões políticas para a esquerda da Manifestação anti-NATO e da Greve Geral


Hoje, na sociedade portuguesa, verifica-se um claro fenómeno de crise social, com a pauperização das classes trabalhadoras, de crise económica, com a destruição da indústria produtiva, e política, com a incapacidade do principal partido do Parlamento de governar. Este facto tem acarretado uma crescente radicalização à esquerda. Acresce ainda o clima social vivido em alguns países da EU, tais como a Grécia, a França e a Grã-Bretanha, que tem alimentado o imaginário de certa esquerda. É pois neste clima que se movem os principais actores da esquerda.

Tendo em atenção este facto, torna-se impossível os principais partidos à esquerda do PS poderem contemporizar com este, principalmente com o seu Governo e com o seu chefe incontestado, José Sócrates. O PS pela política defendida e pelas propostas de Orçamento e de PECs apresentadas tem-se vindo a isolar cada vez mais da sua esquerda, praticando uma clara política de colaboração com a direita. Apesar de algumas vozes, que não chegam aos céus dos media, virem regularmente apelar para que se faça mais um esforço de diálogo entre o PS e as forças à sua esquerda, nunca isso esteve tão distante. Daí as dificuldades que a candidatura de Alegre enfrenta.

Como têm o Bloco e o PCP reagido a esta situação? O Bloco apresentando-se cada vez mais como um partido da esquerda não conciliadora, tentando sempre apresentar alternativas que forcem a sociedade portuguesa a evoluir para a esquerda. Há muito que ficaram para trás as causas fracturantes, que facilmente foram recuperadas pelo PS, e se virou para as preocupações sociais e do desenvolvimento económico. Recorrendo a certos chavões da gíria política, tornou-se um partido responsável, reformista e integrado no sistema, apesar de recusar, e bem, qualquer colaboração com o PS chefiado por Sócrates, mas apoiando um candidato da ala esquerda daquele partido, que em tempo oportuno soube dialogar com ele.

O PCP, seguindo na prática uma política semelhante, utiliza na sua definição ideológica e no seu convívio com as demais forças políticas um acentuado sectarismo e esquerdismo verbal, que o arrastam permanentemente para o isolamento, que de um modo geral é procurado, e que no campo internacional o levam a defender as coisas mais indefensáveis. Dai a apresentação de um candidato próprio à presidência da República, sem carisma e sem qualquer relevância política, a não ser dentro do seu partido. Deste facto resulta que na prática as votações do Bloco e do PCP sejam semelhantes na Assembleia da República, mas que depois na vida real não haja quaisquer consequências unitárias ou de acção comum, excepto aquelas que se desenvolvem no âmbito sindical, mesmo aí depois de muitas negociações e de pequenas escaramuças.

A radicalização da sociedade portuguesa acarretou o aparecimento, cada vez com maior visibilidade, do velho esquerdismo, sempre latente desde os anos 60 e 70 na sociedade portuguesa. Hoje simplesmente ele manifesta-se de maneira diferente. Não temos partidos a reivindicarem-se do passado do PCP, mesmo a tentar refundá-lo ou a criar um novo. Temos jovens anarquistas a lutarem contra o sistema ou alguns esquerdistas a assumirem que a luta é contra o capitalismo e não pela sua reforma. Mas temos também, e não tínhamos, ecologistas, mais ou menos radicais, ou apologistas de um viver alternativo à actual sociedade capitalista. Não sendo iguais, conservam igual radicalidade dos tempos antigos. E a crise social e económica do capitalismo tem os vindo a alimentar e a fazer progredir. Em que é que isto se reflecte nas relações destes grupos com os partidos de esquerda com representação parlamentar? Em primeiro lugar, o afastamento de alguma desta gente, os anarquistas nunca lá estiveram, do Bloco. Em segundo, uma recusa total em apoiar Manuel Alegre, o candidato também de Sócrates, como dizem. Em terceiro, uma certa aproximação ao PCP, com a esperança nunca verificada, de que este partido apoiasse um candidato unitário não comprometido com o PS, ou que, dado o seu esquerdismo verbal, os viesse a secundar na sua crescente radicalização social e política.

Em que é que as últimas lutas: manifestação anti-NATO e da Greve Geral, alteraram esta situação? Um maior afastamento dos movimentos radicais do Bloco, considerado um partido do sistema, ao aceitar integrar a parte da frente da manifestação anti-NATO e ao distanciar-se dos grupos que integravam a PAGAN, outra das plataformas que se propunha lutar contra a cimeira daquela organização militar, apesar de alguns dos seus aderentes continuarem a participar nela. E de não terem defendido uma manifestação no final da Greve Geral e terem-se ficado por um espectáculo de variedades na Praça da Figueira. Mas acima de tudo, e anterior àqueles factos, por ser um partido que concentra grande parte de sua actuação no Parlamento e apoia Manuel Alegre.
Em relação ao PCP, apesar de nunca terem morrido de amores pelos comunistas, achavam que teriam alguns pontos em comum. Rapidamente, na manifestação anti-NATO, verificaram o que é a acção trauliteira e sectária do PCP e é vê-los na net a desenterrar todo o conjunto de adjectivos que os seus pais espirituais de há cerca de quarenta anos despejavam sobre aquele partido. Por último organizaram uma manifestação anti-capitalista no dia Greve Geral, que garantem que foi um êxito, seguida de ocupação de uma casa da Câmara que estava devoluta . Tudo acções que não contaram com o apoio da CGTP e por tabela do PCP. A defesa do Francisco Lopes, como candidato à Presidência da República pelo PCP, também não tem contribuído para a sua aproximação àquele partido.

A esquerda está hoje profundamente dividida. Verifica-se de facto uma crescente esquerdização de sectores minoritários da sociedade portuguesa. Espero, no entanto, que isto seja o sinal de que alguma coisa está a mudar, que a correlação de forças será diferente no futuro e que possamos um dia ter a esperança de ter uma “esquerda grande” a governar este país.

24/11/2010

Ainda as manifestações anti-Nato, algumas reflexões avulsas


Gostaria de começar por uma aforismo inventado por mim: quem anda metido em casa alheia dificilmente trata da sua. Vem isto a propósito de, depois de ter tratado com algum desenvolvimento a prisão de um espanhol e de uma portuguesa na fronteira do Caia e as notícias que sobre o assunto apareceram nos media, deixei por alguns dias de escrever sobre as prisões, a repressão e as manifestações ligadas à cimeira da NATO, em Lisboa. Tudo isto porque andei a consultar blogs alheios e a escrever comentários numa série deles. Quase parecia o Vítor Dias que, apesar de ter o seu sempre actualizado, não perdeu nenhuma ocasião de combater os “heréticos” que se pronunciaram sobre o assunto.

Podemos dizer que os dias que antecederam a cimeira só vieram confirmar aquilo que eu escrevi anteriormente. A fonte da contra-informação foi a polícia, que não perdeu nenhuma oportunidade de se pronunciar e de impedir a entrada de manifestantes estrangeiros só porque traziam comunicados anti-NATO (ver aqui), e a comunicação social que reproduziu passivamente os pontos de vista daquela força, quando não açulava a sua intervenção. Como Glórias do Jornalismo Português, retirando aqui o título ao Vítor Dias, há que destacar, não por mim, mas num comentário ao post do José Neves, esta reportagem de Sandra Felgueiras para o Telejornal da RTP (ver minuto 32.28) que, com grande acinte, dizia, no final da mesma, que os manifestantes, não “oficiais” (digo eu), já estavam “embriagados” ou ainda a reportagem de Paulo Moura, no Público, saborosamente comentada por José Neves.
Há que destacar igualmente as actividades de José Manuel Anes, já por mim referenciado em vários posts, que na TVI, na 6º feira ao almoço, teve o desplante de afirmar, depois de ter garantido que os Black Bloc já cá estavam todos, afinal não tinham vindo por falta de fundos, reproduzindo uma notícia do Público desse dia.

Dito isto gostava de relembrar como é que terminava um dos meus posts anteriores: “mas o que é verdadeiramente grave e atentatório das liberdades é a recomendação” – de um major da polícia – “de que os manifestantes devem evitar a "associação a grupos com cariz anarco-libertário". Então já é o major que decide quem é que participa na manifestação?
E não é que decidiu mesmo. E pior ainda, com a colaboração do serviço de ordem da manifestação do grupo Paz sim! NATO Não!. Sem querer relatar nada, porque não estive lá, por razões que não vêm ao caso, remeto para as descrições de dois jovens amigos em quem deposito toda a confiança, uma é a do José Neves, já por mim atrás referida, e outra do Ricardo Noronha.

Para terminar gostava de fazer algumas reflexões finais. O Bloco de Esquerda foi muito criticado por ter participado na parte da manifestação que se agrupava debaixo da plataforma Paz Sim! NATO Não!, ficando assim “credenciado”, segundo a expressão de um dos membros do serviço de ordem daquele grupo, para poder descer a Avenida. Se é certo que nem todo o Bloco esteve aí. Foi referido publicamente, que o Mário Tomé, o deputado José Soeiro e outros, que eu vi na reportagem da SIC, foram na manifestação enquadrada pela polícia, a direcção do Bloco, no entanto, estava na da frente. José Neves e também outros, fazem referências depreciativas ao seu local de participação. José Neves descreve mesmo com alguma ironia o que foi a história do PSR, um dos grupos fundadores do Bloco. Eu, e porque ouvi o Louçã falar sobre este assunto, compreendo um pouco a posição do Bloco. Há alguns tempos para cá que nas manifestações ditas unitárias ou organizadas pela CGTP começa a haver a preocupação de tentar impedir a entrada do Bloco ou deste só desfilar quando os organizadores entendem. Ou seja, correspondendo ao agravamento sectário do PCP, há cada vez maior preocupação em escorraçar o Bloco, de o atirar para fora das manifestações. É nesse sentido, que o Bloco não pode de modo algum tolerar que haja donos das manifestações, por isso força a sua participação e evita isolar-se do conjunto dos manifestantes. Tenho quase a certeza que foi este o caso. No entanto, há quem ache que isto é uma cedência. Eu penso o contrário.

Por último discordo profundamente deste tipo de prosa publicada no blog Arrastão: “… o braço sindical do PCP, a CGTP, se tornou a central sindical do regime, institucionalizada e pronta a pegar em armas de forma controlada e ordeira, quais cordeiros arrebanhados pela força das circunstâncias.” Para além de revelar algum esquerdismo sectário, permite placidamente que se instale nas pessoas a ideia que a CGTP é do PCP, quando ela é a arma sindical dos trabalhadores e é a única força unitária de que dispõem. Quanto mais se disser que ela é do PCP mais este se convence que é verdade. A nossa luta é para que ela se transforme numa verdadeira Central Sindical de todas as forças que nela participam.

Pensava também fazer uma crítica aos “belos” pedaços de prosa que o Vítor Dias foi espalhando por diferentes blogs em comentários aos vários posts “heréticos”, mas como a nossa caturrice não leva a lado nenhum, por aqui me fico

26/09/2010

Quem é o inimigo principal?


O BE e o PCP têm encarado esta crise política que estamos a viver como um jogo de sombras entre o PS e o PSD para, no fundo, justificar a aprovação de medidas mais gravosas para a sociedade portuguesa e para ver quem se livra do ónus de ser o seu principal responsável. Para aqueles dois partidos de esquerda dir-se-ia que estamos perante uma peça de teatro medíocre, daqueles dramalhões que pelo seu exagero acabam por pôr toda a plateia a rir.
Eu não desvalorizaria tanto esta situação, que tem algumas semelhanças com a que se viveu no final do reinado de Guterres, quando este se demitiu para evitar o pântano e a direita paulatinamente tomou conta do poder.
Vejamos o que se passa e as semelhanças entre as duas situações, apesar de na altura da demissão de Guterres a crise económica não ser tão grave como no presente. Quando a direita, PSD aliado ou não ao CDS, não tem condições para governar – foi o caso de do PSD, já sem Cavaco, em 1995, ou quando o chefe deste mesmo partido, em 2005, comete tanto disparates que é despedido – o poder é entregue ao PS, conseguindo este partido obter durante um certo período de tempo as boas graça dos empresários (do patronato), dos comentadores, dos media em geral e até dos eleitores. Foram os quatro anos de euforia de Guterres (a Expo 98) e as sondagens em alta do PS de Sócrates, que, mesmo desgastado com os sucessivos casos porque foi passando, conseguiu sempre resistir.
Qual tem sido na prática a política seguida pelo PS, tem variado, mas no fundo recorre de facto uma política de direita, exceptuam-se os casos da aprovação da legislação sobre a segurança social, no tempo de Guterres, e das leis sobre o IVG e os casamentos entre homossexuais, no tempo de Sócrates, em que aí se socorre da esquerda. Isto tem levado, mais acentuadamente com Sócrates do que com Guterres, a um afastamento bastante acentuado entre o PS e a sua esquerda, que na última Assembleia se tornou verdadeiramente plural, com a existência com peso quase semelhante do BE e do PCP.
Esta política seguida pelo PS tem-no convencido de que é fácil meter os empresários no bolso, controlar a comunicação social e obter a aceitação dos comentadores. Até que chega o momento em que estes, principalmente os primeiros, que são os patrões da comunicação social e dos comentadores, sentindo-se com força o despedem por preferirem que sejamos os seus partidos a cumprir a política que desejam. Esta é a tragédia do PS. Faz tudo que lhe exigem mas volta e meia é despedido por incompetência. É o que lhe está a suceder agora.
Bem pôde o PS assinar o PEC com o PSD, garantindo que finalmente tinha um parceiro para dançar o tango, que este partido sentindo-se com a força das sondagens e do patronato se prepara pura e simplesmente para despedir o seu moço de fretes.
Por isso, eu penso que o que se está a passar não é só um jogo de sombras entre o PS e o PSD, é igualmente uma ofensiva da direita patronal, política e ideológica, contra tudo o que mexe à esquerda. Acho, portanto, que é incorrecto meter tudo no mesmo saco e que devemos dar respostas bem vivas e acutilantes a esta ofensiva da direita que visa rever a Constituição, esbulhar os funcionários públicos do 13º mês e os trabalhadores dos seus subsídios sociais, destruir o SNS e a escola pública e que para isso reuniu um conjunto de ideólogos e propagandistas que diariamente nos atacam nos meios de comunicação social, privilegiando, sem dúvida a Televisão. Veja-se o leque de comentadores, de programas e de debates da SIC Notícias e teremos um exemplo da ofensiva descarada da direita, através dos seus principais agentes: respeitáveis professores universitários ou antigos ministros das finanças.
Por isso, não sendo necessário sair em defesa do Governo, não podemos considerar tudo farinha do mesmo saco e temos que compreender que o povo português está ser vítima de uma programada ofensiva ideológica da direita, que arrastará na sua frente não só o Governo de Sócrates, como provavelmente muitas das conquistas de Abril. É neste emaranhado contraditório que temos que descobrir quem é o nosso inimigo principal e quem é o secundário. Temos que ver quem nos interessa correr e quem queremos que vá para lá, mas mais do que isso como poderemos fazer a ruptura de que há tantos anos se fala e que nunca fomos capazes de concretizar.

22/09/2010

Presidenciais II


O último post que escrevi sobre este assunto, pretendia, sob a forma de comentário a um artigo que Cipriano Justo, da Renovação Comunista, tinha escrito para o Público, alertar para que o candidato do PCP não iria ser um factor de convergência da esquerda para derrotar a direita, mas sim, como resultado do sectarismo e do bloqueio do PCP, poder considerar-se como o único candidato verdadeiramente de esquerda e não comprometido com o PS e por isso incapaz de qualquer compromisso ou desistência para com o outro candidato da esquerda, Manuel Alegre, o melhor colocado para derrotar o da direita.
Sem ter obtido qualquer comentário, fui lendo em alguns blogs (ver aqui e aqui) que a personagem era tão ignorada dos votantes como dos próprios militantes do PCP, ou tão risível, que a sua cadidatura corresponderia a uma táctica de valorização de Manuel Alegre. Não estou de modo algum de acordo com isto e penso, por aquilo que já foi declarado pelo candidato do PCP, se Manuel Alegre não aparecerá também como um dos seus inimigos de estimação, para além, evidentemente de Cavaco Silva. Bem gostaria de estar enganado.

No meu texto não tinha examinado a situação de todos aqueles órfãos da extrema-esquerda nacional, desde que foi criado o Bloco, que eu classificarei de “esquerdistas”, que não se revêem na candidatura de Manuel Alegre e que ou defendem, em desespero de causa, o voto em Francisco Lopes ou então, como o José Neves, em algum candidato exótico, como Defensor de Moura.
Um dos primeiros mitos que esta extrema-esquerda acalentou foi o de que o PCP apresentasse um candidato unitário, tipo Carvalho da Silva, que permitisse o voto da esquerda, que não se quer sujar em compromissos espúrios. Já se sabe que aí o PCP trocou-lhes as voltas. Nunca este partido apresentou candidatos unitários a eleições presidenciais , com a vocação de perderem, mas representarem muito condignamente a “independência” de esquerda. Sabemos que o PCP preferiu, em 1976, arrostar com uma votação humilhante em Octávio Pato do que submeter-se à lógica minoritária e “esquerdista” de Otelo Saraiva de Carvalho. O mesmo se tendo passado com Maria de Lurdes Pintassilgo, em 1986, preferindo desistir a favor de Salgado Zenha do que apoiar aquela candidata.
Por isso, e bem, não puderam contar com o PCP para manterem as mãos puras ao votarem numa coligações anticapitalistas, que, em certas circunstâncias, só conduz à descrença e em nada contribui para a derrota do candidato da direita.
Outros ainda, em face do panorama, depois de terem deixado cair a sua admiração por o Fernando Nobre (ver este meu post), voltam-se para o único candidato, que sendo a emanação do colectivo, segundo a sua suposição idealista, acreditam que este lhes permitirá votarem em alguém que se reclama do anticapitalismo ou então que seja contra a NATO, como eu já vi escrito por aí. Como se Ramalho e Eanes, em quem os comunistas já votaram, fosse um paladino dessa luta.
No fundo é o reencontro do velho esquerdismo nacional, sempre a considerar-se incorruptível e mais revolucionário do que todos os outros e a não admitir acordos com a “burguesia”, com um PCP esgotado e fechado no gueto, que sempre foi considerado revisionista e reformista por estas boas almas, mas que presentemente, em desespero de causa, serve para poderem, sem compromisso, votar.
Alguns, mais puros, parece que se vão abster, porque meter as mãos na “merda” não é com eles.
A todos estes lembrarei que a posição “esquerdista” nunca foi boa conselheira. Espero pois que ainda recuperem, pois por vezes a vida obriga-nos a compromissos e à necessidade de sujarmos as mãos. E penso que custa menos engolir o sapo votando em Alegre do que em Mário Soares, esse sim um verdadeiro sapo peçonhento e dos perigosos.

27/07/2010

A Direita na Ofensiva: a Revisão Constitucional


Já quase tudo foi dito sobre a proposta de Revisão Constitucional, no entanto, há uma pergunta que fica no ar: “O que quer verdadeiramente o PSD?” Fê-la São José Almeida, num artigo que escreveu para o Público (Para refundar o regime, ver aqui e aqui), de Sábado passado, e a que não deu resposta
O CDS já diversas vezes veio insinuar que tudo isto não passa de uma encenação, para mostrar que o PS e o PSD são diferentes. Um dos seus deputados chegou mesmo a afirmar que o PS quer passar por ser de esquerda e não é e o PSD quer mostrar que é diferente do PS. É sempre neste tom ou com pequenas variações que o CDS se refere a esta proposta (ver declarações de Portas aqui). Já se sabe os partidos à esquerda do PS mostraram-se indignados e o PS foi pelo mesmo caminho, no entanto, parece que algumas das alterações propostas têm o seu apoio. Por este motivo, mas principalmente pelo seu passado de cedências nas anteriores revisões constitucionais, aqueles partidos advertem para a costumeira rábula do PS, que começa por jurar que não aceita as propostas da direita e depois cede completamente.
Nos blogs e nalguns comentários prevalece a ideia de que tudo isto não passa de uma encenação. No entanto, há outros que admitem que o PS teria que aceitar algumas destas propostas para poder fazer passar o seu Orçamento de Estado. Vi um comentário de António da Costa Pinto nesse sentido. Ou seja, em muitos lados começa a passar a ideia que depois das presidenciais tudo isto é para negociar, o problema é só uma questão de timing.

Ao contrário de que muitos dizem, estas propostas não são novas. Há muito que vem passando a ideia, acalentada, é interessante, pela direita, de que os ricos não devem no SNS pagar o mesmo que os pobres. Ainda ontem no programa RTPN, Pontos de Vista (ainda sem link) o representante do PSD dizia que um pescador da Afurada e acrescentou-lhe a seguir mais algumas classes desfavorecidas não deviam pagar o mesmo que o Belmiro de Azevedo, como se alguma vez este senhor recorresse ao SNS. A demagogia pela voz do PSD está a ultrapassar todos os limites. Mas, como eu escrevia, as ideias não são novas, recorrentemente regressam à praça pública trazidas pela direita. Estou-me a lembrar, quando no Governo de Guterres, não sei se em tempo de revisão constitucional, a direita insistia no plafonamento da Segurança Social, em que só se descontava até um certo limite e o resto eram os próprios que decidiam se queriam continuar na Segurança Social pública ou se queriam fazer uma seguro privado. Esta teoria fez o seu percurso e havia gente do PS pronta a aceitá-la, até que Ferro Rodrigues, ministro então dessa área, veio dizer que a segurança social não se aguentaria se os que ganhassem mais pudessem sair dela voluntariamente. Tinha um estudo que provava isso. A vozearia lá se acalmou e o PS pôs ponto final nessa reivindicação da direita.
Mas não estamos livres com uns arranjos aqui ou umas alterações acolá o PS não descubra que é preciso corrigir algumas “injustiças” e não ceda em certos pontos.
Mas, mais do que isso, já vai aceitando a moção de censura construtiva proposta também pelo PSD e que em tempos já foi bandeira do PS. Esta moção de censura construtiva é mais uma forma de aferrolhar definitivamente a Constituição de modo a que os executivos minoritários possam sobreviver sempre, principalmente os do PS. O programa do Governo já não tem que ser votado, se qualquer moção de censura tem que ser construtiva, é impossível no Parlamento deitar um Governo do PS abaixo. A direita nunca governará como o PCP ou o Bloco.

Dito isto, parece-me a mim claro que o PSD quer obrigar o PS a vir negociar no seu terreno e como vimos não está tão longe disso como pode parecer. Mas, mesmo que o PS se mantenha intransigente, devido à tão falada, mas nunca actuante ala esquerda, esta iniciativa do PSD, para além de não deixar o CDS com o monopólio da direita, e este já percebeu que está a ser encostado à parede, visa, integrada na ofensiva mais geral do patronato, dos ex-ministros das finanças, de todo o comentador encartado que povoa neste momento o espaço mediático, e que eu tenho vindo aqui a denunciar, reforçar a ideologia neo-liberal, empurrando o PS para a direita e isolando a esquerda à esquerda do PS. No fundo o PSD pretende neste momento arregimentar todo o bloco da direita, dando consistência ideológica e esforçando-se pela conquista da sua hegemonia.
Não podemos com alguma ligeireza pensar que isto foi um tiro no pé do PSD ou alguma leviandade de Verão ou mesmo, como diz o PS, o resultado da falta de maturidade do seu líder. Quem encabeçou este projecto de revisão, esse tenebroso Paulo Teixeira Pinto, sabe muito bem ao que vem.

19/07/2010

O Estado da Nação


A propósito deste tema, que abarcou o final da semana passada, gostaria de fazer algumas considerações que dividirei por capítulos.

A irracionalidade das acções políticas
Durante os últimos tempos tem-se assistido, depois da proposta de dançar o tango a dois, a um constante agravar das relações e das críticas entre o PS e o PSD. Nem vale a pena enumerar, tantas são e tais são os mimos que uns e outros trocam entre si.
Há quem diga que tudo isto é encenação, para satisfazer as bases de cada um dos partidos e poder-se dizer que o PS, apesar dos acordos à direita, é de esquerda e o PSD não anda a fazer o frete ao PS e está verdadeiramente interessado em vir a governar o país sem aquele partido. Há mesmo quem afirme que é a União Europeia que está a forçar estes acordos, porque não quer eleições antecipadas visto achar que esse facto poderia levar o país à bancarrota. Por isso, estes ataques não passariam de um cenário para, cumprindo os desígnios da EU, dar satisfação às bases de cada um dos partidos.
Tenho para mim que tudo isto pode ser verdade, mas em política há um tal grau de irracionalidade, que em determinada altura não é possível controlar estas deixas para “inglês ver”. Os partidos são arrastados pelas afirmações que fazem e, em determinado momento, são mesmo obrigados a travar guerras que não querem. Por isso penso, a continuar esta constante troca de insultos, mais tarde ou mais cedo tem que haver um confronto, que provavelmente virá a ser eleitoral.

Ataques ao carácter ou às ideias
O PS tem exultado com a mudança de líder no PSD, todos os seus dirigentes têm elogiado esta nova direcção, porque abandonou os ataques de carácter ao Primeiro-Ministro e começou a discutir política. Ainda esta semana António Costa, na Quadratura do Círculo, fez, mais uma vez, o elogio desta nova atitude.
Os comentadores parece que também alinham pela mesma bitola e a subida do PSD nas sondagens vem confirmar esta situação.
Tenho para mim que isto não é inteiramente verdade. A impopularidade de Sócrates e a descida do PS nas sondagens começaram quando os aspectos da sua vida pública, mas que eram ignorados pelos eleitores, começaram a vir ao de cima e a personalidade do primeiro-ministro se revelou por inteiro no modo como reagiu a esses factos e no tipo de escândalos em que se viu envolvido.
Só um PS completamente dominado pelo culto da personalidade e fascinado por aquilo que considera a determinação de Sócrates, em oposição a anteriores secretários-gerais, e a sua capacidade, até ao momento, de ganhar eleições, tem permitido que este partido se renda aos pés do seu líder – no programa de televisão acima referido, António Costa falava da tibieza dos ministros do Governo opondo-a à determinação do seu chefe.
Este facto, o culto da personalidade, perturba a situação política e facilita de modo decisivo a abulia do PS e a completa ultrapassagem do seu líder por uma personagem tão medíocre como Pedro Passos Coelho.

Que farão BE e PCP numa moção de censura ao Governo?
Uma moção de censura a este Governo só poderia ser apresentada até meados de Setembro. Depois entramos nos últimos seis meses de mandato presidencial, em que o detentor deste cargo não pode dissolver o Parlamento nem convocar eleições. Como o novo presidente eleito só tomará posse lá para Março do ano que vem, quaisquer eleições, a realizarem-se, só terão lugar em Maio. Ou seja, estamos condenados a viver nesta abulia governativa até àquela altura.
Se as eleições forem ganhas por Manuel Alegre, a situação já será completamente diferente, provavelmente não haverá eleições e o cenário governativo é um pouco imprevisível. Manuel Alegre introduziria no sistema uma “alegre” perturbação que neste momento é difícil de prever.
Mas verificando-se a vitória de Cavaco Silva é muito provável que apareça uma moção de censura por essa altura. É uma previsão, como é evidente, e em política dez ou onze meses são uma eternidade.
Mas admitindo que tudo ficava como agora nos encontramos, como votariam BE e PCP uma moção de censura da direita com fortes probabilidades de derrubar o Governo? Dir-me-ão que esses são os cenários que os analistas e os jornalistas gostam de traçar, sempre prontos a encontrar contradições e “caixas” noticiosas para vender, e que um político a sério não traça cenários com tanta antecedência e só decide numa situação e num tempo concreto. Concordo.
Mas recomendaria aos amigos à esquerda do PS que reflectissem nesta situação, principalmente se as sondagens, que sempre se enganam, mas não tanto como isso, indicassem uma clara vitória do PSD aliado ou não ao CDS. Que diria o povo deste país se entregássemos o Governo à direita?
Durante toda a vigência da actual Constituição só uma vez é que a esquerda, à esquerda do PS, teve que decidir entre um PS sozinho, minoritário, ou um possível Governo mais à direita e mesmo assim a situação era diferente do cenário acima exposto. Foi nos longínquos anos de 70, perante o Governo do PS sozinho, em que o PCP permitiu que uma moção de censura da direita pudesse derrotar Mário Soares. Ainda hoje tenho dúvidas se essa atitude foi correcta.

A campanha eleitoral de Manuel Alegre
No meio deste cenário de incertezas, impasses políticos, de avanços indiscutíveis da direita e de claro empobrecimento do povo português, vão-se disputar as eleições presidenciais, que, quanto a mim, trazem algumas novidades ao cenário político acima descrito.
Primeiro, Manuel Alegre é dentre os candidatos que o PS apresentou até hoje aquele que está mais engajado com uma política de esquerda.
Segundo, tem o apoio explícito de um partido de esquerda, à esquerda do PS, que permitirá uma abrangência e unidade até hoje dificilmente obtidas na esquerda.
Sabe-se que a campanha vai ser extremamente difícil, com muitas incompreensões e pelos vistos com sabotagens deliberadas, a última é a de Defensor de Moura do PS, se é que ele chegará a concretizar a sua candidatura. Temos no entanto a possibilidade, assim o candidato o queira e as forças em presença sejam capazes de o fazer, de agitar alguns dos temas que mais têm sido discutidos na actualidade. Era indispensável defender os serviços públicos: o SNS e a escola pública, mas também o fim das privatizações, e o reforço do investimento estatal. Era necessário desmascarar as propostas da direita quanto à revisão da Constituição e o fim do Estado Social. É possível conseguir uma boa agitação em volta destas matérias tão úteis ao debate futuro. Era necessário não ser sectário e estender a mão ao possível candidato do PCP.
Um investimento na candidatura de Manuel Alegre é um investimento na evolução futura da situação política. Assim haja força para a agarrar.

17/07/2010

Algumas perplexidades sobre a posição do Partido Comunista da Grécia (KKE)


Quem lê regularmente o Avante ou segue os sites ligados a militantes do PCP encontra várias vezes referências elogiosas e principalmente traduções de tomadas de posição do Partido Comunista da Grécia, cujo acrónimo original é KKE.
Nesta minha apreciação vou-me limitar, até para restringir o objecto de estudo, a duas entrevistas e a um comunicado/artigo da sua Secretária-geral, Aleka Papariga, e que foram transcritos pelo ODiário.info (ver aqui uma entrevista e a outra aqui) e pelo Resistir.info (ver aqui, com um nota biográfica introdutória, a última entrevista de ODiário.info e aqui o comunicado/artigo).

No entanto, porque já anteriormente tinha tomado posição sobre declarações do KKE não quero passar em claro essas minhas antigas apreciações, porque elas se interligam com a crítica que hoje faço dos textos acima referidos.
Assim, a primeira vez que tomei posição sobre um comunicado do KKE foi relativo a uma declaração deste No 90º aniversário da Grande Revolução Socialista de Outubro na Rússia (1917), que tinha sido transcrito em ODiário.info, numa tradução de António Vilarigues, que também a publicou no seu blog, O Castendo, e que, segundo averiguei, serviu de texto de apoio a algumas reuniões do PCP.
As críticas sucessivas que vim fazendo a esta Declaração estão todas reunidas, ou seja, os seus links, no post que escrevi relativo ao livro de Carlos Brito sobre Álvaro Cunhal, na parte em que este aborda a Revolução Democrática e Nacional.

Ora que propostas avança o KKE neste momento de profunda crise económica e financeira que atravessa a Grécia?
Logo na primeira entrevista, e destacada pelo editor do site como subtítulo, surge esta proposta da Secretária-geral do KKE: “Para os comunistas gregos a única opção [para a presente crise do capitalismo] é a saída popular, que não pode ser outra senão o socialismo. Não há saídas intermédias, tão pouco reformistas, num mundo, a seguir à derrota soviética, em que sectores da pseudo-esquerda sentem pânico da luta pela transformação revolucionária da sociedade”. E qual o caminho para atingir o socialismo? “A nossa proposta de saída da crise resume-se à consigna: “aliança popular de trabalhadores, anti-monopolista, para o poder popular”, que é necessária para conseguir mudanças radicais, primeiro, a nível da economia e, em geral, a nível do poder.” E continua: “O caminho para satisfazer os direitos populares contemporâneos, para que o nosso país confronte as intervenções e os antagonismos dos organismos imperialistas internacionais, é que o povo esteja no poder, tendo nas suas mãos o controlo da economia e da produção.” E depois aponta para uma solução nacional: “O caminho a favor do povo é só o socialismo e jogar-se-á primeiro a nível nacional. Na Europa, cada povo que escolha esta via de desenvolvimento e de organização da sociedade contra a exploração do capital e dos monopólios estará obrigatoriamente contra a UE.”
A seguir descreve pormenorizadamente como se organizará a futura sociedade do poder popular: “Por isso, a proposta de alianças e poder para o povo têm os seguintes eixos básicos: que todas as grandes fábricas e empresas de energia e de matéria-prima, os transportes, as telecomunicações, as indústrias, o comércio e os bancos sejam propriedade social. Que se socializem os monopólios, de maneira que, com a planificação centralizada do poder popular, se utilizem todas as capacidades produtivas do país, tendo como único critério as necessidades do povo. Ao seu lado funcionarão, incluídas na planificação nacional, as cooperativas de produção dos pobres e médios camponeses e dos pequenos comerciantes. Que a terra deixe de ser uma mercadoria. Que não exista actividade empresarial nos sectores da educação, da saúde e do bem-estar social.
A base do poder popular serão as unidades de produção do sector socializado e das cooperativas, cujos representantes poderão ser substituídos e, em simultâneo, existirá o controlo operário popular, da base ao topo.
Esta Grécia do poder popular e da economia popular não cabe em nenhum tipo de organismo imperialista como são a UE, a NATO, etc. Renegociará a dívida pública e tratará de conseguir acordos internacionais e cooperações numa base completamente diferente e utilizará as contradições imperialistas na medida em que o puder fazer. Para nós, o poder popular não pode ser outro senão o socialismo.
” (As palavras a negrito são em todos os textos da minha responsabilidade)
Na outra entrevista, também de ODiário.info, não se fazem afirmações muito diferentes: “Hoje em dia é necessária uma sociedade socialista, que representa a única possibilidade de o povo gozar dos frutos do seu trabalho e para que as modernas conquistas da ciência e da cultura sejam utilizadas a favor dos interesses de todos e não do lucro. E tudo isto, naturalmente, requer a construção de uma sociedade socialista.
No Comunicado/Artigo, depois de descrever a crise do capitalismo grego, insiste num programa alternativo, mais desenvolvido, mas semelhante, ao que atrás foi exposto, ou seja, numa “Frente anti-imperialista, anti-monopolista e democrática – Poder e economia popular” (palavras a negrito são também da minha responsabilidade).

Todas estas longas citações visam unicamente tentar transmitir ao leitor qual é o pensamento da Secretária-geral dos Comunistas Gregos, de modo que o mesmo não seja adulterado, por quem, como eu, tema algumas dúvidas sobre a sua exequibilidade e, mais do que isso, considera as suas declarações eivadas de um profundo “esquerdismo” e de um completo afastamento da realidade.
Mas, passemos aos factos. A Grécia vive hoje uma crise económica e financeira de incalculáveis repercussões e os programas de austeridade estabelecidos pelo Governo socialista (PASOK) Grego são, sem dúvida nenhuma, muito mais gravosos do que aqueles que o Governo do PS, em Portugal, apoiado pela direita, nos tenta impor. A luta dos trabalhadores gregos e de outras camadas vítimas daquelas medidas tem sido importante, com recurso constante a manifestações e a greves gerais. Tão importante e com tal vigor que o KKE já sonha com a conquista do poder popular e a instauração do socialismo.
Nas últimas eleições, que se realizaram em Outubro de 2009, o KKE obteve 7,54 %, contra os 8,15 % das anteriores e a coligação das esquerdas radicais, SYRISA, semelhante ao nosso Bloco de Esquerda, 4.6 %, nas anteriores 5,04 %. O Partido Socialista de lá, o PASOK, ganhou as eleições com 43.92 % dos votos. A luta na rua, as sucessivas greves gerais e a combatividade mostrada pelos trabalhadores são indicadores de um forte ascenso popular. Mas haverá condições para o KKE impor neste momento um governo popular, com um programa de nacionalizações e de organização económica completamente alternativo à sociedade capitalista?
No meio disto, e em crítica severa ao reformismo, que é expressa nos textos que apresento, e ao anarquismo, responsável pelas manifestações de violência nas ruas, como é possível estabelecer uma Frente que possa criar e erigir o poder popular como saída para a crise? Por outro lado, como é visível em todo o texto, apesar de se indicar como saída o socialismo e logo no início de um dos textos se criticar as saídas intermédias e reformistas da “pseudo-esquerda” (do SYRISA), volta não volta refere-se à aliança popular e anti-monopolista, que na linguagem comunista sempre foi indicador de um estádio intermédio, anterior ao socialismo. Parece-me por isso haver um forte esquerdismo nas palavras e alguma confusão nos conceitos.
Pelo que foi dito está-me a parecer que apesar da combatividade demonstrada pelos trabalhadores gregos, tenho receio que se encontrem mais uma vez numa situação de bloqueio e de ausência de propostas políticas que possam levar a uma saída para a crise.

Terminaria afirmando, apesar da constante referência pelo PCP e dos seus amigos ao KKE a verdade é que mesmo assim a linguagem e as propostas ainda são bastante diferentes. Não estamos a ver o nosso PCP a propor neste momento como saída o poder popular e o socialismo, nem a elaborar um claro programa de socializações e de clara organização socialista da economia. O máximo que se refere é uma alternativa ao actual modelo de desenvolvimento em vez da alternância costumeira entre PS e a direita
Apesar da tradicional combatividade do KKE – esteve envolvido numa guerra civil das mais cruentas da Europa e que é normalmente esquecida – não estou a ver na Grécia, nem na actual União Europeia, sem ser na retórica das palavras, um contra-poder popular apostado na saída socialista para a crise.

05/07/2010

O avanço da direita. Novas reflexões


Em post anterior, descrevi aquilo que entendia pelo avanço da direita, principalmente a sua ofensiva ideológica, e o estado abúlico do PS para resistir a essa direita, manifestando até grande alegria por Passos Coelho ter sido o escolhido, visto este ter deixado cair os ataques às trapalhadas de Sócrates.

A semana que passou trouxe à ribalta, mais uma vez, o ataque ideológico da direita, agora através da utilização pelo Estado das acções doiradas que possuía na PT.
Na passada semana jornalistas e comentadores de serviço atacaram o Governo por ter utilizado aquelas acções impedindo assim que o mercado funcionasse livremente. José Manuel Fernandes, no Público, chegou mesmo a escrever esta pérola: “os que pensam que os Estados ainda têm instrumentos e margens de manobra para, por via de golden shares, de renacionalizações ou mais impostos sobre a banca, relançar o crescimento do país não estão apenas enganados, conduzem-nos para uma pobreza cada vez mais soviética.” (retirado daqui). Estariam assim os pobres dos socialistas portugueses a seguir a via soviética de desenvolvimento para o país. Só na cabeça paranóica deste anti-comunista militante estas ideias vingam.

Mas a semana não acabaria sem no Eixo do Mal, da SIC Notícias, os comentadores encartados da direita Pedro Marques Lopes e Luís Pedro Nunes não viessem, principalmente o primeiro, a debitar a cassete neoliberal. Refiro-me especialmente a Pedro Marques Lopes, que depois tive a “felicidade” de ouvir no Bloco Central, da TSF. Já em tempos o tinha classificado neste blog como um boçal reaccionário, não o sendo nos termos em que na altura utilizei estas palavras, é um pateta alegre que repete até à náusea a cartilha neoliberal: o capitalismo trouxe a felicidade à espécie humana e o Estado só vem estragar a riqueza criada pela livre actuação do mercado. Já Luís Pedro Nunes tem outra vocação, a da provocador, e acima de tudo um ódio de estimação à Esquerda e principalmente a Francisco Louçã. Não sei porquê esta fixação.

Já depois de escutar estes espécimes pude ouvir o comentário político de Marcelo Rebelo de Sousa, agora na TVI, a propósito deste mesmo assunto e que diferença. A Telefónica espanhola tinha-nos tratado como um estado do terceiro mundo ou então já considerava que a nossa economia estava de tão de rastos que nem capacidade tinha de reagir. Os nossos banqueiros e patrões da indústria cheios de cagança sobre os centros decisão nacionais à primeira oportunidade entregavam os seus bancos ou indústrias ao capital estrangeiro depois de terem assinado manifestos inflamados sobre a necessidade de manter portugueses os bens dos outros. O Governo há muito que devia ter transformado a acções doiradas que possuía na PT, por força da privatização, numa cláusula do estatutos, fugindo assim à pressão do Tribunal de Justiça Europeu. O núcleo duro do accionistas da PT que se tinha comprometido numa dada solução, há última da hora, por mais uns milhões, muda de posição e vende as acções. E termina assim o comentário político MRS: a utilização das acções doiradas pelo Estado português demonstra ainda que nos resta alguma dignidade. Depois de ouvir este comentador percebe-se que a direita não é toda igual ou que pelo menos, em certas circunstâncias, é capaz de pensar pela sua própria cabeça e não repetir as cassetes neoliberais que certos comentadores mais incapazes de raciocínio próprio papagueiam a toda a hora.

Andava eu nestas reflexões quando leio via DOTeCOMe um texto de Clara Ferreira Alves (CFA), já de 12/06/10, em que esta, entre outras coisas, diz o seguinte: “Desde a revolução que Portugal é governado à esquerda em matéria de Estado e prestações sociais. Apesar das maiorias absolutas, Cavaco tinha dinheiro da Europa para manter o Estado e quis mantê-lo. A sua direita, dotada de consciência social, não era a direita pura que hoje existe em Portugal. Esta nova direita é mais jovem, mais estrangeirada, mais academicamente preparada do que a velha direita. É mais ideológica e está disposta a romper de vez com o Estado social. Nascida em democracia, formada nos cursos de Economia e Gestão das universidades, é também constituída por um núcleo de quadros e recém-licenciados, futuros regentes da pátria, que nada têm a ver com as negociatas de restaurante e o bloco central de interesses. Conservadores, pró-americanos, dotados de certo puritanismo, crentes na virtude absoluta do mercado e do capitalismo, acham (protegidos pela inexperiência) que a sua oportunidade para mudar Portugal de vez está a chegar. Tencionam, no poder, construir um sistema que proteja os empreendedores, desmantele a máquina estatal, agilize a justiça e privatize a economia agilizando os seus instrumentos, desde os financeiros aos legais; o que significa que pretendem rever a Constituição e a legislação laboral.”
Esta descrição da direita enquadra-se bem nos dois tipos de comentário que eu acima descrevi a propósito da PT. Já se sabe que o resto depende do nível de inteligência do comentador, há uns que são papagaios e repetem a cassete e outros que são capazes de elaborara um discurso com mais substância, mas no fundo isto só mostra que os tempos são diferentes, e que será extremamente perigosos a chegada ao poder desta nova gente chegada das universidades e pronta a destruir, em nome da crise, todas as pequenas conquistas que ao longo do tempo se foram obtendo.
O texto de CFA fala igualmente do enquistamento socialista que já estaria à espera da derrota, só não queria é que fosse por muitos, e depois fala dessa época áurea da social-democracia: dos Willy Brandt, dos Mitterrand, dos Olof Palme e dos Mário Soares. Para mim nunca foram grande coisa, pois deixaram chegar a social-democracia ao estado a que chegou. Depois termina esperançada que o Bloco de Esquerda capitalize com a derrocada do PS. Tenho para mim, e com grande pena, que isso não sucederá tão cedo, mas tenho também a certeza que não é o PCP que vai ficar a ganhar com isso e que mais uma vez os votos se venham a deslocar para a direita. Espero, como carapau esperançoso, que isto sirva de lição ao PS e que jovens arrivistas e com alguma tenacidade não venham novamente a chefiar o partido.
Continuarei a escrever sobre este tema que é inesgotável.

29/06/2010

O avanço da direita e algumas palavras iniciais


Penso que alguns dos meus leitores já terão pensado: “este acabou de vez com o blog, esmoreceu a sua veia crítica”. A verdade é que um blog não é um trabalho de casa diário. Sei de alguns que em férias ou mesmo no estrangeiro não reprimem o seu amor à blogosfera escrevendo diariamente o seu post.
Sei também que quem não escreve é esquecido. Já não vale a pena passar por lá. No entanto, há alturas em que me falta a inspiração ou então a moleza e os pequenos afazeres do quotidiano são sempre uma boa razão para nada se escrever. Neste caso, as razões foram várias, a última, uma arreliadora gripalhada. No entanto, venho avisar que voltei, espero continuar com mais regularidade, e pedir desculpa a todos aqueles que foram colocando comentários nos meus posts, que oportunamente lhes darei alguma resposta.
Dito isto passemos ao que importa.

Todas as sondagens o dizem o PSD já passou à frente do PS e prepara-se afanosamente para tomar o poder, o PS entrou naquele estado catatónico em que parece que a única coisa que o motiva é a defesa do “bom-nome” do seu secretário-geral.
Eu sei que as coisas mudaram, a crise agravou-se, o PS elaborou um plano de austeridade com tudo ao invés do que tinha andado a prometer nas eleições e perdeu a maioria absoluta com que arrogantemente tinha governado na legislatura anterior. Mas, no entanto, manifesta uma clara satisfação pela eleição de Passos Coelho, saudando o afastamento da nova liderança dos sarilhos em que andava metido o seu secretário-geral e cheio de esperança de poder chegar a acordo com ele. No fundo, aceitando como inevitável a sua derrota e a sua substituição pelo partido da direita. Regressámos com Sócrates ao pântano do Guterres, que preferiu demitir-se a ter que enfrentar a oposição. Dir-se-á que Sócrates é um lutador, mas tenho para mim que irá cair de podre sem ser capaz de enfrentar a direita. Dirão alguns que lhe está na massa do sangue, quem seguia uma política direita não pode agora vir transvertido num lutador de esquerda.

Mas em que consiste este ataque da direita. Em primeiro lugar, a própria percepção da crise financeira e económica pela direita, que depois de clamar que era preciso ajudar maciçamente os bancos e os banqueiros e forçar o investimento estatal, mudou subitamente de orientação e obriga os governos a apostar agora na redução dos deficits que a política anterior criou. Assim, começou a algazarra, de que se andou a gastar de mais, que chegou ao fim o período das vacas gordas e que temos de apertar o cinto para acumular aquilo que desbaratámos.
Esta tem sido das campanhas conduzidas pela direita e pela sua corte de economistas e comentadores das mais soezes que se têm visto, com o beneplácito de Cavaco Silva. Esta campanha é feita através dos meios de comunicação social, não se distinguindo nisso a televisão pública da privada. Tanto ouvimos as mesmas opiniões num programa da televisão pública, chamado A Cor do Dinheiro, como nessa telenovela que Fátima Campos Ferreira nos trás todas as segundas-feiras, que é o Prós e Contras, como nos programas desse “incompreendido” Mário Crespo. E depois são os pesos pesados dos banqueiros, arrogantes, como João Salgueiro, ou ex-ministros da economia, ou nos textos sempre azedos de Vasco Pulido Valente. Todos nos vêm dizer que a festa acabou, que preciso baixar os ordenados e retirar o décimo terceiro mês aos funcionários públicos, esses calões que há muito andam a esmifrar a Nação. No fundo, acabar de vez com o Estado Social ou, como dizia há tempos um professor de economia num dos programas do Mário Crespo, é preciso que os políticos convençam o povo de que o Estado Social precisa de ser reformulado, mas o que na prática devem fazer é acabar de vez com ele porque é muito caro.
Esta ofensiva da direita não visa unicamente baixar o deficit, quer de uma penada baixar os salários e acabar de vez com as despesas do Estado Social.

A tudo isto que responde o PS, nada. Deixa-se ir na onda, mas pior ainda inventa um Portugal ideal, que está a reagir muito bem à crise, que só existe na cabeça de Sócrates e de alguns dos seus ministros propaganda. Em vez de enfrentar a crise, tentando desmascarar a argumentação da direita envolve-se no seu torvelinho, imaginando oásis onde os não há. Depois disto mais cedo ou mais tarde o PSD estará alegremente no Governo.

Qual a resposta à esquerda do PS. Protestar, tentar, diga-se muito ineficazmente, desmascarar o argumentário da direita. No entanto, esta esquerda está dividida. Com um PCP fechado e ultra-sectário e um Bloco de Esquerda ainda à procura de um espaço próprio, com visíveis debilidades organizativas e de inserção no mundo do trabalho e de protesto.

Por tudo isto a candidatura de Manuel Alegre poderá ser nestas circunstâncias um unificador de esquerda, capaz de pôr alguns pauzinhos na engrenagem do avanço da direita. Mas disto falaremos mais tarde.

22/03/2010

Ainda não levou com a última pazada de terra


Quando da publicação pelo SOL das escutas aos boys do PS, havia muito boa gente que dava o José Sócrates como morto. Garantiam mesmo que estava por dias, mesmo que esses dias fossem meses, já que a Assembleia não podia ser dissolvida senão a partir do final de Março ou princípio de Abril, não sei as datas precisas. A verdade é que o defunto não estava tão bem enterrado como os seus opositores desejavam.
Tal como afirmei em post anterior, Sócrates lançou uma contra ofensiva, que não lhe saiu tão mal como se podia pensar, visto que culminou, para sua sorte, na desgraça da Madeira, onde pôde aparecer como homem conciliador que, em nome do interesse nacional, esquece até os seus inimigos pessoais.
Depois teve a aprovação do Orçamento, umas sondagens que lhe são favoráveis e até esse fait-diver inventado por Santana Lopes que é, como a imprensa pressurosa lhe veio a chamar, a lei da rolha. Pelo caminho temos o PEC, que anda a causar alguns engulhos à direita, porque apesar de o criticar, não consegue deixar de exultar com algumas das medidas propostas, que lhe facilitariam muito a vida se alguma vez for Governo.

É evidente que no meio disto temos os candidatos à presidência do PSD, cada um a tentar mostrar quem é que faz mais peito ao Governo. Assim, saltam propostas de moções de rejeição de todos os lados, apesar de ter dúvidas se, depois de eleito, o vencedor irá apresentar uma moção desse tipo. Só se juntarmos a fome com a vontade de comer, ou seja, se a pressa de chegar ao poder for tão forte que o eleito se lance, sem medir as consequências para o seu partido, em algum raid suicida.
Pacheco Pereira, na última Quadratura do Círculo, prevendo provavelmente a vitória de Passos Coelho, que ele detesta, foi dizendo que os tempos não estavam fáceis para o PSD. E porquê? Porque, segundo ele, o partido só cresce em alturas de expansão económica, quando os empreendedores pensam que poderão fazer o caminho sozinhos, sem a ajuda do Estado ou, segundo afirma, “quando a sociedade tem forte mobilidade social”. Os tais famosos self-made men (ver este meu post) que lhe são tão caros e que podem ser representados por essas duas figuras tão prestimosas como são Oliveira e Costa e Dias Loureiro. Nos tempos de crise, em que todos se vêm abrigar nas asas do Estado, é mais provável ser o PS a crescer, porque, como diz, hoje a sociedade portuguesa “castrou esse dinamismo social”. Isto não tem pernas para andar, mas dá bem a ideia da visão pessimista que Pacheco Pereira tem do seu Partido.

Resta, a tão famosa ala esquerda do PS, que parece que em relação a este PEC resolveu vir distanciar-se dele. No entanto, e não subestimando as importantes declarações de Manuel Alegre e até, parece, os estados de alma de Vieira da Silva, a verdade é que penso que esta corrente, representada por algumas figuras institucionais do PS e não propriamente pelos outsiders mais conhecidos ou pelo conjunto de votantes de esquerda, é tão impotente em relação àquele partido como os renovadores comunistas o foram em relação ao PCP. Por razões diferentes, nem os primeiros conseguem romper com o PS e afirmar-se como corrente independente, nem os segundos são capazes de estabelecer uma corrente de opinião que seja verdadeiramente comunista e renovadora.

Feitas estas apreciações políticas, um pouco desconchavadas e muito descrentes de uma alteração rápida da situação, resta-me esperar para ver no que é que irá dar esta Comissão de Inquérito à compra da TVI pela PT e para saber se o primeiro-ministro mentiu ao Parlamento. O seu êxito ou fracasso trará, quanto a mim, algumas consequências para o Bloco de Esquerda, um dos seus promotores, já que numa manobra de antecipação José Sócrates, com grande descaramento, veio falar numa Santa Aliança entre a esquerda, que pretende ser esquerda, e o PSD. Mas isto é o papel que lhe compete, temos é que estar preparados para estes truques de prestigiador em fim de carreira, apesar de eu pensar que ainda faltam algumas pazadas para o enterrar de vez.

08/03/2010

A higienização da vida nacional. O afastamento de Sócrates.


Por motivos vários, não tenho escrito nada sobre a situação política que se tem vindo a viver nos últimos dias em Portugal. Fui acumulando raiva contra o Jardim e recolhendo exemplos vários dos seus dislates. Ainda ontem ouvi mais um, quando lhe perguntaram se iria seguir as recomendações dos ambientalistas, respondeu que não os conhecia de parte nenhuma e que ele é que era um verdadeiro ambientalista. Tudo o que se escreva a propósito de tão sinistra personagem, será sempre menos grave do que ele diz e faz na Madeira.

Mas o título deste post vem a propósito de um tema que percorre o espectro partidário e que acarreta por vezes a uma grande confusão política.
No último Quadratura do Círculo, da SIC Notícias, António Costa defendia que em vez das oposições e o Governo estarem a discutir os reais problemas do país estavam a desviar a sua atenção para as questões laterais da liberdade de imprensa, das escutas ou da não viabilizada compra da TVI pela PT. Os opositores de direita falavam que, ao contrário do que dizia o seu interlocutor, era necessário para bem da democracia e do país proceder-se à higienização da vida política portuguesa, que consistia no afastamento do primeiro-ministro, José Sócrates.
Em artigo publicado no Público, de Sábado, António Vilarigues, militante do PCP, que tem o blog O Castendo, referia: “Este Governo PS de José Sócrates bem pode mandar acender umas velinhas. Seja em agradecimento aos santos, seja às bruxas. Com efeito as notícias sobre o envolvimento do Governo num alegado “plano para controlar os órgãos de comunicação social” desviaram por inteiro as atenções sobre os reais problemas que atingiram o povo português”.
Estes são dois dos aspectos com que se confronta a realidade política portuguesa. Mas é bom não limitar este confronto às opiniões da esquerda e da direita. Paulo Portas, do CDS, é bem capaz de dizer coisas semelhantes e isso depende do dia em que lhe der mais jeito dizer que só se preocupa com os verdadeiros problemas da Nação ou que, utilizando o termo dos dois comentadores de direita da Quadratura do Círculo, é necessário proceder à higienização do país.
Quanto a mim entendo o seguinte, que o primeiro-ministro está a arrastar este país para um claro desprestígio das instituições e que ele, com os problemas com que se defronta na Justiça e na vida privada, está a provocar uma lenta erosão do Governo e do seu partido, originando na opinião pública um claro estado de revolta e de indignação que a direita, a seu tempo, tentará reverter a seu favor. Ou seja, a necessidade de higienização do país leva a que a direita possa ambicionar a ser Governo, e como sempre nada garantindo que melhore seja o que for. Nesse sentido, compreende-se a preocupação do PCP por este ser o motivo do possível afastamento de Sócrates e não a luta de rua contra, por exemplo, os despedimentos ou o congelamento dos salários da Função Pública. O Bloco de Esquerda, mais cauteloso, foi propondo uma Comissão de Inquérito ao caso mais escandaloso, ao negócio da compra da TVI pela PT, que levou António Filipe, do PCP, a dizer, nos corredores da Assembleia, que este não era o principal tema da actualidade nacional.
Já se sabe, que o PS, pela voz de António Costa, quer fugir deste tema como o Diabo foge da Cruz.
Eu por mim, e já o escrevi , acho que a esquerda não pode alhear-se de um assunto que revela os contornos pouco sérios da governação e do seu principal responsável e que, sabendo que poderá não ser a principal beneficiária desta situação, deve lutar para que de facto haja um claro saneamento da vida política nacional. O seu grau de autonomia é pequeno e muitos são os alçapões em que poderá cair, não pode é em nome do debate das grandes linhas da política económica que está a ser seguida pelo Governo e pela direita esquecer também o que se passa à sua volta.

PS.: não há links para a Quadratura do Círculo e para o Público, que deliberadamente tranca os artigos de opinião.

14/02/2010

O que nos está a acontecer – a Liberdade de Imprensa


Com este título suficientemente vago, pretendo iniciar uma reflexão sobre o que se está a passar neste país.

Começo por um lamento. Escrevi já alguns textos (aqui e aqui) de índole pessoal sobre José Sócrates e o seu comportamento numa reunião internacional, ainda como Ministro do Ambiente, em que eu também participei, e que quanto a mim não tiveram quaisquer comentários significativos. Hoje, depois de tudo o que se sabe dele, até no modo como se relaciona com os seus homens de mão (veja-se o Sol desta semana), a apreciação que eu faço do seu carácter parece-me corresponder à realidade. Mas este é só um dos aspectos do problema que representa a manutenção de José Sócrates à frente dos destinos do país. Irei abordar outros.

Vamos agora às tão faladas liberdades de expressão e de imprensa. Quanto à primeira é visível que não está ameaçada. Isto porque é uma liberdade que, se não tiver suporte físico, não significa nada. Ou seja, eu posso em qualquer lugar dizer mal do Governo e de José Sócrates e até, com algumas limitações, na Internet, nos blogs pessoais – mesmo aqui, que eu saiba, já houve processos contra alguns bloggers –, mas se eu o quiser fazer nos media, já tenho algumas limitações. Dependo dos meios de comunicação que existem e de quem os controla. Aquela minha liberdade, para ser eficaz e poder extravasar o círculo de amigos onde vivo, precisa de ter um meio onde se expressar e ele nem sempre está acessível, mesmo que a minha opinião tenha qualidade. Exceptua-se deste caso os fóruns que alguns meios de comunicação criaram, nos canais de informação por cabo e na TSF, que eu conheça, que são autênticas catarses colectivas de crítica ao Governo.
Mas aprofundemos um pouco a questão. Na sociedade capitalista, nos dias de hoje, os media são propriedade de grandes grupos financeiros – que no caso português estão muito dependentes do Governo –, cuja liberdade está condicionada não só pelos interesses desses grupos mas também, em geral, pelo sistema ideológico dominante. Isto é um facto, e mesmo que na lei se fale da independência do director, dos conselhos de redacção e haja algumas garantias para os seus jornalistas, a verdade é que em última instância quem manda é quem paga o salário ao fim do mês. Apesar de achar bem que todos os jornalistas reivindiquem esta sua liberdade e independência – temos sempre que confrontar o poder com os seus limites – dificilmente pudemos fugir às imposições do patrão. É evidente que hoje qualquer órgão de informação não transmite só as directrizes do patrão. Para poder ser vendável tem que mostrar alguma independência, que lhe permita ter alguma credibilidade junto da opinião pública. Simplesmente, e de acordo, com aquilo que eu tenho escrito nos meus últimos posts (ver aqui e aqui) essa liberdade é condicionada pelas múltiplas escolhas e opções dos seus responsáveis, sejam eles quais forem.
Por isso, dizer que há liberdade absoluta de informar não é verdade. Não há, ela está condicionada nos grandes meios de comunicação.
O que é que Sócrates queria? Era tomar conta, por “interposta pessoa”, de uma série de órgãos de informação, onde não só podia condicionar a opinião, mas também correr com alguma gente incómoda. É evidente que os programas que se pretendiam eliminar não eram de esquerda. A esquerda, à esquerda do PS e mesmo a esquerda do PS, não tem qualquer órgão de informação que lhe seja favorável. Por isso, o que se pretendia suprimir eram os ataques que vinham da direita e é por isso que ela está neste momento a berrar tanto.
A indignação que percorre alguns comentaristas, políticos e jornalistas, provem daqueles a quem José Sócrates e os seus “amigos” estão a tentar cortar o pio. Porque convenhamos, quando são ataques à esquerda, que consistem normalmente em ignorar os seus pontos de vista, ninguém protesta.
Esta é quanto a mim aquilo que destaco politicamente deste assunto, no entanto isso não significa que possamos ficar indiferentes às acções de Sócrates contra a liberdade de imprensa. Não podemos é alinhar com o coro de virgens ofendidas em que se transformaram os arautos da direita. Temos que desmascarar não só os ataques à liberdade de informação, mas também todos aqueles que por omissão ou adulteração são quotidianamente cometidos contra as diversas opiniões da esquerda.
Só um exemplo, quando Pacheco Pereira, com razão, se indigna com o que se está a passar, esquece que no programa a Quadratura do Círculo, onde pontifica desde sempre, há muito que não a aparece alguém à esquerda do PS. Naquele programa quando se diz mal, por exemplo, do Bloco de Esquerda, os três comentaristas, com riso alvar, estão sempre de acordo e não há ninguém para contestar essa opinião. Por aqui vemos em que é que consiste a liberdade de imprensa para alguns, é só para eles e para os seus amigos, os outros que vão à vida.
Por isso, aquilo que quero afirmar é que a liberdade de imprensa quando nasce é para todos, o que não significa que ilibe Sócrates daquilo que está a fazer que é silenciar as vozes incómodas e influenciar a opinião pública.

Por aqui me fico, esperando noutros posts desenvolver outros aspectos da crise actual.
Imagem retirada do blog Wehave Kaosinthegarden

26/01/2010

"Eles não querem ser parceiros, querem ser adversários para destruir o PS"


Só hoje a SIC Notícias pôs no seu site o último debate do programa Quadratura do Círculo. Já o tinha visto, mas penso que, para poder afiançar aquilo que digo e para os meus leitores me poderem acompanhar, gosto sempre de lhes fornecer o material de referência, para não dizerem que juro em falso.
Por esse motivo, só agora faço referência a um dos debates mais interessantes que assisti naquele programa, principalmente pelas afirmações claras de António Costa sobre o Bloco de Esquerda.
Podemos dizer, que o título deste post, retirado de uma das intervenções de António Costa, resume o seu pensamento a propósito daquele partido.
Estava-se a discutir a candidatura de Manuel Alegre, é evidente que para a direita (Pacheco Pereira e Lobo Xavier) Manuel Alegre é um candidato derrotado à nascença e só vem causar embaraços ao PS, favorecendo evidentemente a recandidatura de Cavaco e a sua posterior eleição. António Costa, sem se comprometer com a candidatura do poeta, foi tentando, todo o tempo, descolar Manuel Alegre do Bloco de Esquerda, tornando-o tragável para o centro, que era o local privilegiado, segundo dizia, para se ganhar eleições.
Até aqui tudo bem, todos estavam a representar o seu papel, simplesmente António Costa resolveu pronunciar-se claramente sobre o Bloco de Esquerda, que já tinha dado o apoio àquele candidato. E o que disse é espantoso. Toda a gente no PS, excepto, honra lhe seja feita, António Vitorino, andava equivocado sobre o Bloco de Esquerda e uns mais cedo do que outros foram progressivamente verificando que o Bloco tinha “um único e principal objectivo o enfraquecimento e a divisão do PS”. E mais, contou uma história que se tinha passado nas penúltimas eleições para a Assembleia da República, as que se realizaram em 2005. O PS não estava convencido de que ia ter a maioria absoluta, por isso encetou previamente contactos com o Bloco para ver se poderiam ser parceiros numa aliança semelhante à que se verificara na Alemanha entre o SPD, o partido social-democrata alemão, e os Verdes daquele país e foi aí que verificaram que o Bloco não queria ser parceiro mas sim adversário, para destruir o PS. Ora, segundo António Costa, Manuel Alegre foi dos últimos a ter percebido isso, mas não só o disse – não sei a onde –, como permitiu, com a sua participação no Comício de Coimbra, ao lado de José Sócrates, contribuir para a vitória deste, como ainda arranjou uma solução para a Câmara de Lisboa, que foi, segundo Costa, uma “lição para as correntes sectárias de esquerda”.
Depois destas afirmações, começa-se a perceber muitas das coisas que se têm passado nestes últimos anos na política portuguesa. E, se como eu adverti, António Costa está a carregar no traço negro do Bloco, para trazer Alegre para o centro, o que acontece é que, de certo modo, a boca foge-lhe para a verdade em relação ao que pensa do Bloco.
Havia muita gente no PS que teve a ilusão que poderia encontrar naquele partido, o “berloque” de esquerda, que poderia usar para deter a influência do PCP e transformá-lo nos Verdes do PS. Ainda estou recordado quando há anos Mário Soares, num “Prós e Contras”, fez o elogio daquele partido. Ainda nestas eleições tentou fazer a mesma rábula, mas aí com objectivos já bem diferentes, como que a insinuar que era a mesma coisa votar PS ou Bloco. Mas António Costa, que comicamente tem sido aquele que mais apelos tem feito à unidade de esquerda, e até já assinou um acordo com o Bloco, transformou este partido, a partir de certa altura, no principal inimigo do PS. E assim apareceu no seu Congresso a atacar descabeladamente o Bloco, coisa que na altura muitos comentaristas não perceberam, mas que hoje depois do resultado das eleições e em função desta candidatura de Alegre, se percebe perfeitamente. Para António Costa, para o PS oficial, e para toda a direita, incluindo os comentadores encartados que povoam as nossas televisões, o Bloco de Esquerda é um inimigo a abater, porque, ao contrário do PCP, tem crescido e arrebatado votos ao PS, dando credibilidade a uma alternativa à esquerda do PS.
Há duas conclusões que gostaria de tirar destas minhas afirmações e que têm muito a ver com o que tenho vindo a escrever nestes último ano.
A primeira, o PCP nunca foi capaz de compreender os objectivos do Bloco e sempre achou que este era um limite ao seu crescimento e que iria servir de muleta ao PS, o que não sendo verdade, motivou uma campanha de descrédito em relação àquele partido. Hoje, provavelmente por motivos de propaganda interna, insiste em vender esta imagem aos seus militantes.
A segunda, houve algumas correntes de esquerda que parece que seguiram à letra este pensamento do PS. Primeiro a ilusão, que permitiu até a inclusão de alguns independentes nas listas do Bloco. Depois o afastamento e a crítica, que redundou na tentativa de viabilizar uma solução para a Câmara de Lisboa, cujo resultado é a aliança Costa-Roseta, com o beneplácito de Manuel Alegre e de muitos independentes de esquerda. Hoje pode ser que esta esquerda se junte toda na candidatura de Alegre, mas vai ser um trabalho complicado, pois há já alguns que, tal como Costa, pensam que é preciso empurrar o candidato para o centro.
Resta no meio disto tudo os irredutíveis, alguns bloquistas, mais saudosos do velho esquerdismo, alguns PCP mais aguerridos, o blog 5 Dias. Estes serão sempre os velhos-novos irredutíveis, mas porque todos os dias convivemos com eles, irão sem dúvida obrigar-nos a um grande esforço argumentativo.

11/01/2010

Manuel Alegre candidato?


Estava eu entretido a discutir Estaline e a chafurdar nesse passado triste, que agora alguns querem gloriosamente ressuscitar, e eis que, a propósito da possível candidatura de Manuel Alegre a Presidente da República, se arma na Internet uma acesa discussão. Só para poderem seguir esta troca de argumentos vou tentar linká-los (não sei se linkar é já uma das novas palavras introduzidas no Dicionário da Academia). Assim, a lista é a seguinte: Daniel de Oliveira, no Expresso, a 31/12/09, Miguel Cardina, em Minoria Relativa (blog que eu não conhecia e que já inclui na minha selecção), Nuno Ramos de Almeida, no 5 Dias, Tiago Mota Saraiva, no 5 Dias, Daniel de Oliveira, no Arrastão, Nuno Ramos de Almeida, no 5 Dias, Carlos Vidal, no 5 Dias e Renato Teixeira, no 5 Dias. Provavelmente, há mais, mas penso que esta lista já vos chega para uma leitura atenta e demorada.

Não estou interessado em rebater e discutir as opiniões dos outros, deixo-as aqui unicamente para poderem ler a argumentação em voga. Quanto a mim, tenho a dizer o seguinte.
Fui um dos apoiantes da candidatura de Manuel Alegre a Presidente da República nas eleições passadas. Considerei na altura, e nem pensava que ela tivesse o êxito que depois veio a ter, que a sua principal função era quebrar o PS e dividi-lo. A velha aspiração do PCP, que já o tinha tentado fazer com o PRD, de Ramalho Eanes. Este é um tema recorrente nos meus textos e penso que é sempre de grande actualidade.
Na altura, não se esperava que a divisão do PS fosse entre as linhas esquerda e direita. Eanes nunca representaria a esquerda. Simplesmente, pensava-se que dividindo o PS ao meio, como sucedeu, se poderia negociar mais facilmente acordos de Governo, como se tentou, antes de Mário Soares dissolver o Parlamento e dar, em 1987, a maioria absoluta a Cavaco.
O caso de Manuel Alegre era diferente, este sempre representava a ala esquerda do PS. A sua votação permitiu pensar, quer ao candidato quer à esquerda, que tinha ali muito voto onde ir pescar. Daí as aproximações do Trindade e da Aula Magna. Nesta última, atingiu-se um tal ponto de ruptura com o PS oficial que poder-se-ia pensar que um novo partido à esquerda do PS se estava a formar. Quase que poderíamos falar de um Die Linke à portuguesa. Não foi nada disto que aconteceu. Manuel Alegre teve “juízo” e, ou empurrado, pelo Bloco, segundo algumas más línguas, ou aconselhado por amigos que se saísse do PS nunca teria qualquer possibilidade de vencer eleitoralmente as eleições presidenciais, foi-se resguardando e, entre umas no cravo e outras na ferradura, aparece agora com possível candidato oficial do PS, como apoio do Bloco.
Deduzir-se-ia, por tudo o que escrevi, que vejo com maus olhos o apoio do Bloco ao Manuel Alegre. Não é verdade, simplesmente esse apoio já não se enquadra na perspectiva de uma ruptura dentro do PS, na formação de um grande partido à esquerda deste, mas sim naquilo que sempre foi a estratégia da esquerda, diria do PCP, de apoiar, há última da hora, o candidato da esquerda contra a direita. Isto só não sucedeu nestas últimas eleições, porque foi nítido que Cavaco ganhava e a esquerda estava perfeitamente desunida, mais valia, por isso, contar as espingardas.
Já agora, uma resposta a muitos dos posts que foram referidos anteriormente. Um candidato único da esquerda, à esquerda do PS, era neste momento uma impossibilidade prática e um candidato derrotado à partida. O PCP sempre fez uma análise rigorosa da situação e nunca se meteu em frentes de esquerda, com candidaturas condenadas à derrota. Daí, por exemplo, não ter apoiado, no longínquo ano de 1976, o Costa Gomes, proposto por um movimento unitário, por achar que ele nunca ganharia a Eanes. Não entrou na candidatura de Maria de Lurdes Pintassilgo, em 1986, apesar de ter ido apostar num candidato que foi derrotado, Salgado Zenha, mas aqui foi a excepção. Sempre fez tudo para que o candidato da esquerda incluísse o PS e fosse vencedor. Daí, ter engolido um sapo quando apoiou, à segunda volta, Mário Soares, também em 1986. Penso, mesmo assim, que é hoje mais fácil votar em Alegre do que em Mário Soares. Por isso, se for Alegre o candidato do PS e do Bloco o PCP, à segunda ou mesmo à primeira volta, irá votar nele. Ou então, muita coisa se alterou naquele partido. Mas já ouvi da boca de um militante comunista, provavelmente não típico, que Manuel Alegre era um candidato, mesmo apoiado pelo PS, vocacionado para a derrota. Via com melhores olhos o Jaime Gama ou outro que reunisse mais consensos ao centro. Mas este militante nada terá a ver com os impetuosos escrevinhadores do 5 Dias. Mas pensem nisto, o PCP prefere candidatos mais à direita, que não criem ambiguidades e falsas expectativas no seu eleitorado do que candidatos frentistas, como Manuel Alegre, que não sejam por ele controlados. A ver vamos.
Resta neste caso um problema central que é como é que Manuel Alegre vai gerir a sua candidatura. Se aparecer demasiado colado a Sócrates perde à esquerda, se for ao Bloco de Esquerda, perde à direita. Por outro lado, como é que o Bloco irá fazer a gestão do seu apoio? Será de modo a que ela seja agregadora da esquerda e possa integrar futuramente no Bloco os votantes socialistas que claramente não suportam o Sócrates?
E a juntar a tudo isto, em que altura é que o PCP irá apoiar a candidatura?
Pode ser que nada disto seja assim, que tudo corra mal e que a esquerda mais uma vez fique bloqueada ou então, tudo corre bem e teremos aí “esquerda grande” de que fala o Bloco.

01/01/2010

Uma azeda situação política


Ultimamente, a minha contribuição para este blog tem sido muito irregular. Já no post anterior dei algumas boas razões para isso. Agora poderia acrescentar a da época natalícia que se está a viver, pouco propícia à reflexão e mais ao convívio familiar ou à satisfação da gula, para aqueles que se podem dedicar com prazer a esse pecado. Tenho vindo a escrevinhar alguns textos, mas que, por uma razão ou outra, não os tenho inserido no meu blog. No entanto, porque senti necessidade de escrever para um fórum de discussão, onde também participo, o texto que a seguir vos apresento, aqui vai ele, com as correcções indispensáveis à sua publicação noutro local.

Não me parece que seja precisa grande argúcia política para se perceber que a actual situação tem pouco a ver com a luta entre forças de direita e de esquerda e que a questão não está, como alguns pensariam, no problema das alianças à esquerda e na reorganização desta para resistir à direita, mas na chicana política, para ver quem mais depressa consegue encostar o adversário às cordas.
A seguir às eleições, andava um conjunto de personalidades da esquerda a recolher assinaturas para uma aliança à esquerda e já Sócrates, nada interessado nessa proposta fazia o seu número de consultar todos os partidos com assento parlamentar, quer estivessem, à sua direita ou à sua esquerda. Essas conversas vinham de alguém que não tinha qualquer vontade de fazer alianças, que pensava jogar em todos o carrinhos e que encara a política como um jogo para enganar os papalvos, não tendo dela qualquer visão ética.
Depois tivemos a encenações dos professores, das taxas moderadoras e do orçamento rectificativo, que passou com os milhões atribuídos a Alberto João, enquanto o Ministro da Finanças gritava no Parlamento que não contribuía para o regabofe da Madeira. Era este o sentido de Estado deste Governo. Quando percebeu que a oposição ia conseguir aprovar a suspensão do Código Contributivo eis que desencadeia, pela boca de diversos socialistas, incluindo o seu homem de mão na televisão, António Vitorino, uma barragem contra o Presidente da República para que este não promulgasse aquele diploma. A acompanhar tudo isto envolve-se em picardias com o próprio PR, de muito mau gosto e que nada de bom trarão para o equilíbrio e o regular funcionamento das instituições. Sem ser pitonisa política direi que este Governo e José Sócrates ainda acabarão muito mal. O pior disto tudo é se, ao utilizar esta estratégia de grande confusão e de ataques indiscriminados à esquerda e à direita, José Sócrates não irá dar de mão beijada o Governo à direita.
Sem ser seu apreciador e por vezes muito crítico das suas posições, não deixo de reconhecer que este texto de Miguel Sousa Tavares, no Expresso, de 24 de Dezembro, traduz fielmente aquilo que eu penso neste momento de José Sócrates e do seu Governo:
São crescentes os sinais de desorientação na maioria e na governação do país. Claramente, não há um rumo definido para enfrentar estes tempos tão complicado… Desenterrar dossiers como o da regionalização (… - para mim tanto podia ser este como outro – JNF) apenas serve para mostrar a desorientação que se apoderou do primeiro-ministro e o seu desespero de espingardear para todos os lados, criando uma tamanha confusão no campo de batalha que já ninguém sabe quais as ameaças, onde está o inimigo, que estratégia e armas usar. Perdido de si mesmo, Sócrates ensaia o papel de guerrilheiro, cercado de todos os lados mas disposto a resistir, numa qualquer Sierra Maestra que os Lelos de serviço ao PS propagandeiem. E daí a sua última tentação: trazer o Presidente para o campo da batalha e dar-lhe a escolher, de pistola apontada, uma de duas opções: ou está do nosso lado ou é inimigo.”
É pois nesta conjuntura, que tão bem está aqui descrita por Miguel Sousa Tavares, que há alguns comentadores (veja-se dois artigos de Cipriano Justo, no Público, o primeiro a 12/12/09, e aqui transcrito, e o segundo a 29/12/09 - Dois mil e dez: um resumo, e sem link) que acham que BE e PCP deviam pôr a mão por baixo deste Governo para ver se o tombo não era tão grande, na esperança de ver o PS continuar a governar para que a direita nunca tivesse possibilidades de aceder ao poder. O problema é que este Governo nada tem a ver com a esquerda e muito menos é um Governo sério, que na primeira volta, meteria os dois partidos à sua esquerda na algibeira, para maior glória do seu chefe e do seu grupo.
Hoje o problema central, que penso que está também posto ao PS, é como se deve libertar de Sócrates e de alguns dos seus apoiantes, pondo à frente do Partido uma personalidade de maior credibilidade e seriedade política.
Por isso qualquer objectivo da esquerda, à esquerda do PS, no sentido de colocar paninhos quentes na manutenção de Sócrates, só pode acarretar o desprestígio daquelas forças e a sua capacidade de formular e apoiar saídas de esquerda para o país. A manutenção deste stato quo ou o envolvimento grosseiro, juntamente com o PS, nestas guerrilhas e quezílias, que aquele está constantemente a desencadear, é sem dúvida nenhuma negativo. Aqueles dois partidos têm que, em cada situação, examinar as forças em presença e saberem como votar de modo a não comprometerem por oportunismo ou seguidismo o seu futuro.
Por isso, estou contra todos aqueles que entendem que implícita ou explicitamente, a esquerda, à esquerda do PS, devia apoiar este Governo e a sua minoria no Parlamento. Por este caminho não sigo.