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07/09/2009

O impasse do conservadorismo nacional – I


Já foi publicado um post de Miguel Cardina sobre o artigo de José Pacheco Pereira (JPP), Debate Louçã – Jerónimo: O Impasse da Esquerda Revolucionária, publicado no Público, de Sábado passado. Esperando dizer coisas novas, aqui vai a minha reflexão pessoal sobre o tema.
Pacheco Pereira, por razões do seu trabalho como historiador, tem mantido com o PCP relações de amor-ódio, que por vezes chegam mesmo ao elogio ou, pelo menos, à sua defesa. Nesse sentido é manifesto uma maior complacência de JPP pelas posições do PCP do que pelas do Bloco. Mas este facto, que no caso de JPP poderá simplesmente coincidir com os seus interesses profissionais, tem expressão significativa num conjunto vasto de comentadores de direita.
E porquê? Quanto a mim, neste momento o PCP, depois da queda do Muro de Berlim e do desabar do mundo do “socialismo real”, desperta pouco receio na direita portuguesa. Estamos longe do ódio e do silenciamento com que o PCP foi tratado depois do 25 de Novembro de 1975, principalmente a quando dos Governos do PS, sozinho ou acompanhado, e da Aliança Democrática. Soares Carneiro, com a arrogância de todos os generais fascistas, chegou a afirmar que se ganhasse as eleições para Presidente da República permitiria a existência legal do PCP e que essa seria a melhor maneira de o aniquilar.
Hoje, o PCP, ainda mantendo o mesmo espírito dessa época, continua a gritar que é ele o mais perseguido e o mais mal tratado na comunicação social. Penso que isso já não corresponde à realidade. É que hoje a Festa do Avante, os comícios do PCP e as opiniões do mesmo são vistas pelos media dominantes, por uma lado, como aquele turista que visita a reserva de índios, achando-lhes muita graça, mas que não se quer misturar com eles, e por outro como um património importante do nosso passado político, em que se mostram os heróis, quando eles já estão mortos e não podem voltar a agir. No entanto, é bom que se diga que a ofensiva ideológica contra o comunismo não esmoreceu, quer internacional quer nacionalmente. Com certa regularidade são publicados livros a demonstrar quão terríveis eram aquela ideologia e a experiência que dela se podia retirar. Mas isto é outro tema.
Já agora, porque vem a talho de foice, quando ontem no debate entre Manuela Ferreira Leite (MFL) e Francisco Louçã, aquela falou que as nacionalizações do pós 25 de Abril tinham arrasado o tecido produtivo português e que, por isso, já se sabia no que dariam as actuais propostas do Bloco, todos os comentadores das televisões informativas (ver o post anterior), com aquele sorriso alvar que caracteriza a direita, acharam que tinha sido a melhor intervenção de MFL. Ou seja, o PREC ainda mete medo à nossa direita.
Podemos dizer que o artigo do JPP é todo ele contra o Bloco, tema que já não é novo naquele articulista e que demonstra que este partido pode ser na conjuntura actual, ao contrário do que pensa o PCP, aquele que maiores engulhos trará ao cinzento quotidiano da política portuguesa.
Como já afirmei em post anterior, o Bloco pode ser, se para isso tiver capacidade e agilidade, a força política capaz de desbloquear o círculo vicioso em que se tem movido nos últimos anos a esquerda portuguesa, com um Partido Socialista a mostrar-se de esquerda quando está na oposição ou, como agora, em véspera das eleições, e a ser de direita quando está no Governo, e um PCP bloqueado, que mantém a sua identidade para não perder votos e a não poder ganhá-los porque a conserva. O Bloco aparece, à esquerda, como a força que é capaz de captar todos aqueles que no PS ansiavam por uma política de esquerda, mas que não se reviam no PCP, alguns comunistas que desejavam uma modificação na esquerda portuguesa ou no conjunto de independentes que flutuavam nesta área política.
No artigo seguinte prometo que, com mais rigor e menos subjectividade, fazer a apreciação da crítica que JPP faz ao Bloco e ao PCP.

05/09/2009

O "extremismo" volta a atacar

Alguma esquerda não alinhada partidariamente, sempre impulsionada pela pulsão unitária, atitude louvável, mas nem sempre produtiva, vinha há muito defendendo uma aliança para derrotar a direita e empreender um novo rumo para a esquerda.
Como Sócrates parecia de pedra e cal – os resultados das sondagens, mesmo que não confirmassem a maioria absoluta, garantiam uma confortável maioria governamental, que com algum esforço poderia dar em absoluta –, todas as preocupações se viravam para o que iria fazer Manuel Alegre, depois de gorada a criação de um novo ente político que fosse capaz de dar continuidade aos encontros do Trindade e da Aula Magna.
Como o oráculo nada disse, só restava apelar para a eleição de uma maioria de esquerda para Câmara de Lisboa. Assim, surgiu um abaixo-assinado para uma convergência de esquerda para Lisboa. Eu próprio fui um dos seus subscritores, alertando logo para o perigo que se poderia correr de o mesmo servir os objectivo políticos de António Costa e não o da criação dessa maioria em Lisboa.
Lamentavelmente, foi isso que veio posteriormente a acontecer (ver aqui), simplesmente num tempo em que as condições políticas já se tinham degradado extraordinariamente. Sócrates e o PS convictos dos resultados das sondagens, nunca esperaram pela derrota estrondosa que tiveram em 7 de Junho, nas eleições para o Parlamento Europeu. Nem eles, nem esta esquerda a que tenho vindo a fazer referência. Por isso, com alguma pressa se tentou, mas sem grande êxito, virar as baterias para um novo apelo a uma maioria de esquerda para derrotar Manuela Ferreira Leite. Simplesmente Sócrates e os seus amigos não ajudavam nada. Correram com Manuel Alegre e os seus companheiros das listas. A única abertura à esquerda foi a inclusão de Miguel Vale de Almeida, que se prestou a isso, mas que abrange um grupo muito específico de votantes. A manobra com Joana Amaral Dias não resultou. E por aqui nos ficamos nas aberturas à esquerda.
Por isso, a esta esquerda desalinhada só restou e só resta, gorada qualquer aproximação a Sócrates, batalhar para que o Bloco, já que não têm qualquer esperança em relação ao PCP, se proponha participar e apoiar um governo de esquerda. Simplesmente, a expressão pública destas iniciativas e propostas é diminuta. A campanha eleitoral está aí em força, com outros temas, não facilitando de modo algum estes apelos ou estas propostas.
Ao contrário do que sucedeu com as listas do PS para a Assembleia da República, António Costa teve êxito nas suas iniciativas. Conseguiu captar, como já se esperava, José Sá Fernandes, que oportunamente arranjou uma associação política que lhe deu cobertura para a sua inclusão na lista do PS. E fez um acordo “coligatório” com Helena Roseta, dando cumprimento, a uma antiga proposta sua de uma coligação PS mais Manuel Alegre (ver aqui). Foi isto que levou alguns a considerarem que se não houve uma coligação de banda larga para Lisboa houve, pelo menos, uma de banda estreita (Expresso, 22/08/09).
Feito este enquadramento, que me pareceu indispensável para se compreender o que vem a seguir, retomo aquilo que me trouxe aqui, que foi mais uma vez a referência explícita de António Costa, na Quadratura do Círculo, desta quinta-feira, aos partidos extremistas, que recolhem o voto de protesto. Como já aqui referi, estes epítetos de António Costa não são novos, mas depois de vir defender uma coligação para Lisboa com os partidos à esquerda do PS: Bloco e PCP, os tais partidos extremistas, e continuar a classificá-los como tal, leva-me a pensar que a sua posição nunca foi séria nem honesta, porque não nos coligamos com aqueles que consideramos extremistas, e que foi sempre uma grande treta, acalentada por alguns, a sua vontade de unidade à esquerda. Conseguidos os objectivos mais imediatos, e que parece, e ainda bem, lhe vão permitir derrotar Santana Lopes, eis que a máscara unitária se desfaz com já tinha acontecido no próprio Congresso do PS, ou nas referências reiteradas que tem vindo a fazer aos partidos extremistas no programa Quadratura do Círculo.

13/08/2009

O complexo de “O Mandarim” e outras histórias


Como estou de férias, a banhos, a moleza tem-me atacado e deste modo dispenso-me de fazer comentários a alguns acontecimentos pouco produtivos que tiveram lugar neste mês de Agosto, dedicado fundamentalmente ao descanso e à beatitude.

O primeiro foi a morte de Raul Solnado. Não sou de facto daqueles que morreram de amores pelo sketch da Guerra de 1908. O Zip-Zip foi mais um estado de alma do que a própria intervenção do Solnado. A Cornélia era o espectáculo e, por vezes, o confronto da esquerda com a direita. Revista, não via. Portanto do Solnado lembro-me, porque foi um acto de Resistência, da sua participação no Dom Roberto, o filme da Oposição, realizado, em 1962, pelo José Ernesto de Sousa, por sinal bastante fraquito. Mas tudo isto não me impede de considerar o Solnado um homem bom e um grande actor.

Há também o episódio bastante rocambolesco do içar da bandeira monárquica na Câmara Municipal de Lisboa. Já quase tudo foi dito. Por mim os rapazinhos deveriam levar uma pena em tribunal que lhes servisse de lição para que nunca mais terem intenção de fazer provocações reaccionárias. O caso, já antigo, da troca do nome da Praça do Chile por Augusto Pinochet foi só um começo, não podemos tolerar em nome de rapaziadas as afrontas ao estado Democrático.

Houve também, sem a importância dos dois primeiros casos e fazendo parte do pequeno universo dos rancores pessoais entre blogs, mais uma das trauliteirices do Victor Dias contra o Bloco de Esquerda. Fui ler o texto do João Teixeira Lopes no Esquerda .net, é um texto sério, discutível, mas que traça algumas diferenças fundamentais entre o Bloco e o PCP que eu próprio já anteriormente tinha esboçado. Victor Dias, sempre com uma pala nos olhos, esquece semanalmente as boçalidades, as mentiras e as provocações que os seus amigos do Avante, na rubrica Opinião, vão regularmente publicando, é só começar a somar. Vejam uma das últimas.

Mas não era sobre os temas anteriores que me queria prenunciar. Depois de ter publicado um post sobre dois textos de Tomás Vasques deu-me o complexo do personagem principal de O Mandarim, de Eça de Queirós, queria saber quem era a o escrevinhador, o que fazia, que eu tinha tentado assassinar politicamente no último post. Por isso fui rapidamente à Internet pesquisar no Google quem era aquele que eu tinha “assassinado”. A primeira informação que obtive foi uma pequena biografia da editora que tinha publicado um livro seu. Aí dizia-se que era actualmente Chefe de Gabinete do Presidente da Câmara de Lisboa. Fiquei estarrecido com a notícia e fui logo fazer um aviso à navegação, publicando-a no post, como P.S.
No dia a seguir, com mais tempo, fui vasculhar melhor. Afinal o livro era de 2001 e, o actualmente, referia-se ao João Soares, que naquele ano ainda era Presidente da Câmara, dirigindo, se bem se lembram, uma coligação PS-PCP. Retirei de imediato o tal P.S., mas achei por bem escrever este pequeno post com algumas perguntas que acho oportunas para quem escreveu o texto que escreveu sobre o Bloco de Esquerda.
Como é possível que alguém, que manifesta uma tal alergia ao comunismo e a alguns dos seus supostos continuadores, seja capaz de ter participado numa coligação com comunistas “a sério”.
Assim, ou Tomás Vasques participava, debaixo da capa de um anti-comunismo militante, na “sovietização” da cidade de Lisboa ou de forma encapotava contribuía para a ruptura daquela aliança, tudo fazendo para que João Soares perdesse as eleições para Santana Lopes, como de facto aconteceu ou, a hipótese mais verosímil, andava a fazer pela vida, ele e a sua mulher, vereadora do urbanismo de João Soares, como alguns zunzuns que na altura foram publicados na imprensa deixavam antever (ver aqui, aqui e aqui).
Por isso, ao contrário da personagem principal de O Mandarim, não fui atacado de remorsos auto-destrutivos e dou por bem empregue estes meus posts sobre aquela personagem.

08/08/2009

Argumentos de prostíbulo

Já tinha feito referência neste blog à rapaziada do Simplex, que de repente, à compita com a blogosfera da extrema-direita, passaram a produzir prosa do mais demagógico e irracional que se pode imaginar. Mas achava, para bem da sanidade mental dos meus leitores e da blogosfera, que não lhes daria qualquer importância. No entanto, os factos são visíveis, todos os blogs de esquerda com um mínimo de vergonha na cara fazem referências aos disparates que esse conjunto de escrevinhadores – que eu inicialmente pensei que era formado por meninos ladinos à procura de vencer na vida, mas que depois reparei que já tinham idade para ter juízo – vai debitando diariamente para os blogs a que têm acesso, mas indubitavelmente para o mais sensacional de todos, que é o Simplex.
Aquilo que me chamou mais a atenção foi a prosa de um senhor chamado Tomás Vasques, que tem um blog denominado Hoje à Conquilhas Amanhã não Sabemos, que, por razões reciprocidade, seleccionei para minha lista de blogs.
Mas o que é que me despertou a atenção? Primeiro, este texto no Simplex, que ele também publica no seu blog. O título dá logo o tom do post, BE, o trotskismo de corpo inteiro, depois, aparece esta prosa: O «socialismo do século XXI» (do Bloco) é uma mera adaptação à «realidade concreta» de um processo de soviétização da sociedade portuguesa. Não há meio-termo, por muito que almas bem intencionadas se esforcem. O argumento de que o BE é uma facção do «socialismo de esquerda» e é parte da «esquerda democrática» é areia nos olhos. Mas, o pior, é que, quem hoje contribui para o crescimento eleitoral do BE, amanhã – se os amanhãs pudessem cantar – seriam os primeiros a amaldiçoar a sua sorte, como aconteceu em Havana e hoje está a acontecer em Caracas.
Destaco-a para que os meus leitores mais velhinhos se lembrem a onde é que já leram isto. Nos comunicados da PIDE, nas páginas do Diário da Manhã, o órgão da União Nacional fascista, no Agora, no Novidades e outros primores, que a gente da minha idade se recorda pela vilania com que tratavam os oposicionistas: ou que eram ingénuos porque acreditavam nas boas intenções dos comunistas, ou eram criptocomunistas - lembram-se deste termo -, ou seja comunistas escondidos, que debaixo da capa da oposição levavam o “bom povo português” para os braços da União Soviética.
Este é só um dos posts. Mas temos mais, num que ele denomina Venezuela. Democracia, e que foi só publicado no seu blog, tem esta afirmação espantosa: A comunidade internacional … reagiu prontamente ao contra-golpe dos militares em Tegucigalpa, apesar de este ter a cobertura de todas as instituições democráticas hondurenhas. Mas, agora, perante mais um golpe de Chávez na frágil e maltratada democracia Venezuelana, ao encerrar 32 rádios e 2 televisões criticas do regime, a comunidade internacional mantém um silêncio cúmplice. E depois seguem-se a descrição indiscriminada de todos os terrores que no século XX foram cometidos por regimes ditos “comunistas”. Este senhor também recorre aqui à velha argumentação salazarista, de que só o seu regime é que lutava contra o comunismo, porque a comunidade internacional, ao deixar que os “terroristas” atacassem as nossas colónias, era cúmplice da sua actividade, permitindo o avanço do comunismo em África. Neste caso será na América Latina.
É este senhor, que para além de ter o blog referido, escreve igualmente para o Simplex, que me parece que foi feito para propagandear as delícias do socratismo, passou agora também a escrever, pasme-se, para um blog do semanário Sábado, chamado Blog de Esquerda.
Eu, se fosse do PS, teria vergonha de apoiantes deste calibre, mas vergonha foi coisa que a gente de Sócrates há muito perdeu.
PS.: A fotografia é de Trotsky ainda jovem e é reproduzida a partir do artigo de Tomás Vasques. Aparece a encimar este post como um pequena homenagem a quem, juntamente com Lenine, soube conduzir à vitória a Revolução de Outubro.

02/08/2009

A falta de seriedade política de uma menina do Simplex

Não tinha pensado responder, nem me meter com a gente do Simplex. Achei que eram os pequenos ideólogos do “socialismo” socratista, à procura de emprego e de futuro na vida.
Eis que de repente, via 5 Dias, descubro um texto de uma menina, Ana Paula Fitas, a declarar descaradamente que a Renovação Comunista tinha dado apoio a António Costa.
Fiz um pequeno comentário a pedir que a menina dissesse onde é que tinha visto qualquer declaração assinada pela Renovação Comunista de apoio a António Costa. E acrescentei que alguns dirigentes da Renovação apoiaram o Movimento do Sá Fernandes, Lisboa é Muita Gente, coisa que eu próprio já escrevi aqui e até indiquei o link onde isso se podia confirmar.
Obtive, para vosso deleite, esta resposta: além do movimento institucional a que se refere, a Renovação Comunista existe como movimento informal e tem, felizmente!, uma natureza muito mais abrangente do que provavelmente reconhece, dados os termos em que aqui se dirige ao teor deste texto... quanto a renovadores comunistas que apoiaram o Movimento Lisboa é Muita Gente e/ou a própria candidatura de António Costa penso que não é proibido... contudo, a ser proibido, apresento as minhas desculpas... de facto, pensei que o centralismo autoritário já se não colocava nestes moldes... fico esclarecida.
Já se sabe que a dita menina não deve saber que eu sou dirigente da Associação Política Renovação Comunista, com registo legal no cartório, e por isso afirma com desplante que se queria referir a um movimento informal de renovação comunista. Esqueceu-se que utilizou letras maiúsculas, que, como é evidente, nos remete, em bom português, para uma entidade única. Mas, o que a menina queria dizer era mesmo que a Associação Política Renovação Comunista tinha apoiado António Costa, por isso mete os pés pelas mãos para se justificar. Mas a seguir, em tom desafiador, pergunta se é proibido apoiar. Nunca ninguém lhe disse isso. Faz parte dos estatutos da Renovação que os seus associados possam ter diferentes opções e até filiações políticas. Por isso, como eu já referi, há alguns renovadores, com responsabilidades directivas, a apoiar a Associação do Sá Fernandes e provavelmente até alguns associados a apoiarem António Costa. Mas há outros dirigentes com opções diferentes, como João Bau, que é candidato à presidência da Assembleia Municipal pelo Bloco de Esquerda, e este vosso escrevinhador, que também é candidato à Assembleia, e ainda há, à vereação, pelo mesmo partido. E temos até, e isso a menina nem sonha, o deputado João Semedo, do Bloco de Esquerda, como dirigente da Renovação Comunista. Por isso, é que eu me indigno com a ligeireza com que se diz que um movimento tão plural apoia um só candidato.
Para se inteirarem da direcção daquele movimento consultar o site da RC.
Por último, a acusação de “centralismo autoritário”, com que pretende mascarar, com uma provocação anti-comunista, a falta seriedade na argumentação e na actuação política.
PS.:
Afinal a menina já não é bem menina. Tem 45 anos. Já tinha idade de ter mais tento nas afirmações que faz.

01/08/2009

Indagar não é convidar


Assistimos hoje, na SIC Notícias, a um Secretário de Estado nervoso e atrapalhado, a meter os pés pelas mãos, para negar uma evidência, que tinha convidado Joana Amaral Dias para integrar a lista de deputados do PS pelo círculo de Coimbra. Ainda por cima, recorrendo a um truque sujo de dizer que os contactos tinham sido “privados e íntimos”, quando não passaram de uma troca de telefonemas entre ambos.
Na versão de Paulo Campos, alguém lhe tinha soprado que Joana estável disponível para ser deputada pelo PS e eis que o Secretário de Estado, sem consultar o partido, resolve numa acção voluntarista, que lhe podia render uma promoção, convidar a bloquista. Ou, noutra versão, que não a dele, a Direcção Nacional do PS incumbiu aquele de sondar a Joana para ver se ela queria ser candidata a deputada. Em qualquer dos casos tramou-se. Se foi por decisão própria incorreu de certeza na ira dos dirigentes, que se viram com um menino nos braços que os desprestigia. Se foi por incumbência alheia, também não lhe correu bem, porque foi ele sozinho que teve que arrostar com as consequências. Triste sina de quem mete o bedelho onde não deve.
Mas o mais grave nas declarações de hoje de Paulo Campos foi, na sua ânsia de dizer mal de Francisco Louçã, para compensar o seu amado secretário-geral dos prejuízos que lhe tinha causado, referir-se àquele que, como trotskista, não se ensaiava nada em destruir as pessoas que se lhe opunham. Provavelmente confundindo Trotsky, com Estaline, este sim mais vocacionado para eliminar fisicamente as personagens que o combatiam. Triste sina de um PS que, há míngua de argumentos políticos, recorre aos chavões do passado para combater os seus inimigos. Ainda há alguns que querem fazer alianças com esta gente, o PS de Sócrates, que não tem o mínimo pudor em dizer estes disparates.
PS.: Lisboa, 01 Ago (Lusa) - O PS "regista e lamenta" a falta de um pedido de desculpas do líder do Bloco de Esquerda (BE) e afirma que a 'bloquista' Joana Amaral Dias desmentiu "ela própria o Dr. Francisco Louçã".
Numa nota escrita, o Partido Socialista considera estar hoje "claro", através da confirmação de Joana Amaral Dias, "que em caso algum o secretário-geral do PS a convidou para fazer parte das listas de deputados, desmentindo ela própria o Dr. Francisco Louçã".
"O PS regista e lamenta que o Dr. Francisco Louçã não tenha pedido desculpas ao Engenheiro José Sócrates", lê-se.
A falta de pudor chega a tal ponto que são capazes de emitir um comunicado para dizer isto. Estamos perante uma das piores características do PS, que é o "chico-espertismo", ou seja, tomar os outros por parvos.
PS. (2 de Agosto): Assisti esta noite a um daquelas situações caricatas, que resultam de se gravar um programa num dia e de se transmitir noutro. O Eixo do Mal, da SIC Notícias, resolveu falar deste caso, simplesmente como ainda não sabia o desfecho da história permitiu que os seus participantes se espraiassem nos maiores disparates. Já se sabe que à cabeça esteve Pedro Marques Lopes (PML), que não achou melhor mote do que, duvidando da veracidade da história, considerar as declarações do Louçã como uma vingança por o PS lhe ter “roubado” Miguel Vale de Almeida. Timidamente, o homem do Inimigo Público, mais bem informado, ainda disse que constava que tinha sido o Paulo Campos a convidar JAD, mas PML não lhe ligou nenhuma, já que tinha uma teoria pronta para justificar o caso. Mais uma boçalidade daquele senhor.
PS. (2 de Agosto, manhã): Hoje, na revista da imprensa da SIC Notícias, convidaram a constitucionalista Isabel Moreira, uma menina que anda a fazer pela vida, para comentar o caso JAD. Ouvi desta senhora a teoria mais peregrina sobre o assunto. Paulo Campos teria telefonado a JAD para saber se era verdade que ela estava interessada em integrar as listas do PS. Haja paciência.

29/07/2009

Planta girassóis e apanha berbigão no Cais Sodré


Esta foi uma das frases de “agitação e propaganda” que Santana Lopes usou contra José Sá Fernandes, que integra a lista de António Costa à Câmara de Lisboa, no debate televisivo que ontem teve honras de primeira página na SIC e na SIC Notícias (ver aqui). A outra, não menos significativa, foi também pronunciada por Santana Lopes: “essa caldeirada que o senhor leva nas suas listas”, referindo-se aos acordos que Costa estabeleceu com José Sá Fernandes e Helena Roseta, do Movimento de Cidadãos por Lisboa.
As televisões na ânsia de obter mais audiências e nada preocupadas, até valorizando a criação artificial de um clima de bipolarização, estão-se ensaiando para porem unicamente em confronto os dois partidos do centrão: PS e PSD. Assim já estão anunciados debates entre Sócrates e Manuela Ferreira Leite e, ontem, lá tivemos o confronto entre António Costa e Pedro Santana Lopes, quando se sabe que há mais dois candidatos à Câmara de Lisboa, com significativa expressão eleitoral, Luís Fazenda e Ruben de Carvalho.
Não me vou pronunciar sobre quem ganhou o debate. Isso competiu ao Luís Delgado, o amigo de Santana, que logo a seguir àquele garantia que Santana venceu Costa por 5 a 4, o que deu motivo para que a SIC afirmasse que os “comentadores” tinham dado a vitória a Santana.
Contudo, diria que Santana foi mais convincente dada imensa capacidade que tem para aldrabar e mentir com o ar mais angélico. Depois, teve um enorme êxito no ataque político ao Costa. Não só utilizando aquelas frases que eu referi no início, como foi capaz de mostrar as contradições dos diversos participantes na lista de Costa. Este facto sobressai, porque ainda não há um programa consistente desta lista, que obrigue cada uma das partes coligadas a ter posição comum sobre determinadas áreas que são fulcrais. Costa foi incapaz de atacar a salgalhada que também vai na lista do Santana e não defendeu o seu vereador Sá Fernandes, deixando-o isolado, a plantar girassóis.
Por estas e por outras é que se vê que compromissos à última da hora, feitos unicamente para tentar vencer a direita, sem princípios, nem programa, não são bons conselheiros para a esquerda.

Na continuação do duelo, a SIC Notícias organizou um daqueles debates com os comentadores do costume, todos do Bloco Central, prontos a dizerem isto e o seu contrário, mostrando sempre grande profundidade nas banalidades que vão debitando. Assim, Mário Bettencourt Resendes teve o desplante de dizer que Santana Lopes imagina a cidade com ideias largas, um homem que não tem qualquer ideia sobre o que é uma grande metrópole nos nossos dias, e que António Costa é o contabilista rigoroso, afirmação, que ainda está por provar, mas que contraposta às ideias largas de Santana Lopes, assassina qualquer candidato a presidente de uma junta de Freguesia, quanto mais a uma capital como Lisboa. Mas mais, sem estar ali ninguém que pudesse defender o Bloco de Esquerda, achou que os eleitores de Lisboa que votavam naquele partido o faziam por snobeira. Disparate e provocação que só podem vir de comentadores pagos à peça e que se alapardam ao comentário político em todos os media.

25/07/2009

Os amigos de Manuel Alegre, as nuances do discurso e compromissos e “esquerda grande”


Elaborei muito recentemente um texto em resposta a algumas controvérsias que atravessam a esquerda e que resultam de diferentes visões políticas para a sua acção. Porque penso que este debate é actual, e retirando do texto qualquer fulanização que pudesse existir, aqui vos deixo este post.

Quem é mais amigo de Manuel Alegre?
Ouvi na quinta-feira à noite a entrevista a Francisco Louçã a Judite de Sousa, na RTP 1, em que este falava de Manuel Alegre e fazia mais uma vez uma referência positiva à sua intervenção e às posições assumidas. Para um político que diz que pode fazer campanha a favor de um partido cuja prática seguida não se coaduna com o que quer o Bloco, é no fundo um pouco estranho que se lhe façam tão rasgados elogios. Por isso eu penso que o Bloco quer ser amigo de Manuel Alegre e conquistar a amizade deste.
Mas não é só o Bloco. A Associação Política Renovação Comunista vai lançar na segunda-feira, dia 27, às 18h00, na Associação 25 de Abril, o livro As Linhas de Mudança – Debate para a Alternativa e convidou para o seu lançamento e para intervir Manuel Alegre. Conhecendo as posições públicas de alguns renovadores de apoio a um dos participantes na pequena convergência conseguida para a Câmara de Lisboa, este convite tem um significado. Qual dos dois movimentos é mais amigo de Manuel Alegre? Mas não são só os dois citados, também a aproximação ente Helena Roseta e Costa se deve, segundo foi dito e escrito, a Manuel Alegre. Ou seja, este homem está em toda a parte, no discurso do Bloco, nos convites da Renovação, na aproximação de dois socialistas desavindos.
Isto só pode resultar ou de um discurso dúplice que está bem com todos ou no trabalho constante de aproximação de toda a esquerda. Acreditemos que seja esta última a razão destas recentes amizades políticas.

As nuances do discurso
Parece-me para mim claro que há quem à esquerda realce mais, no actual quadro da luta política, o problema da sua união contra o perigo da direita. Direita que desta vez, se governasse, fazia o pleno de um Governo, de um Presidente e até das principais câmaras do país. Nesse sentido têm sido feitos alguns discursos um pouco aterradores, chamando a atenção para o perigo que acarretaria o regresso da direita ao poder. Este é, podemos dizê-lo, o discurso mais antigo da esquerda, apelar à unidade contra os avanços da direita, que, no passado, era representada pelo fascismo.
Outros há que realçam mais a importância de que havendo uma maioria de esquerda essa esquerda se deve unir para formar Governo. Acham fundamental ter uns tantos ministros, que praticassem numa política de esquerda. Por isso, quando o Bloco acha que não deve ser muleta do PS, criticam-no severamente porque não apresenta um programa mínimo para que fosse possível haver convergência para governar. Chegam ao ponto de recorrer a uma metáfora, como a da construção da ponte da Arrábida, no Porto, para pôr em prática essa proposta. Ou seja, o Bloco construía um arco, o que partiu da margem esquerda do rio Douro, e esperava que o PS construísse o outro, o da direita, e que alguém pusesse o cimbre que os ligava (ver fotografia a ilustrar o que digo). Estes, sem subestimar o perigo da direita, dão particular relevo à governabilidade à esquerda, confiantes de que o PS viria a construir o arco em falta.
É evidente que a primeira hipótese pressupõe o apelo ao voto útil, apesar de haver alguns que dizem que, como a Assembleia da República é eleita pelo método de Hondt, não se justifica esse apelo. Ou seja, pareceria indiferente votar em qualquer partido da esquerda, já que o que interessava é que esta esteja em maioria. No entanto, há outros que não defendem isso, porque dizem que se o PS ficasse atrás do PSD, tal como sucedeu nas eleições europeias, Cavaco Silva chamaria o partido mais votado para formar Governo e a partir daí o caldo estaria entornado.
Na eleição para os executivos municipais, apesar de se utilizar o método de Hondt para distribuir os vereadores pelas diferentes forças políticas, a presidência vai sempre para o partido mais votado. Por isso, a táctica seguida por alguns lisboetas de esquerda foi apelar à convergência de esquerda contra o Santana, que não foi nomeado. Alguns ficaram muito satisfeitos com a pequena convergência conseguida entre Costa, Sá Fernandes e Helena Roseta. Aqui, é interessante, funcionou a primeira hipótese. Pois, que eu tivesse reparado, não se garantiu, apesar dos acordos aprovados, a eleição de vereadores para praticarem uma política de esquerda. Não se discutiu um programa mínimo conjunto que pudesse dar essa garantia. Acredita-se que Sá Fernandes e Helena Roseta cumpram esse desiderato.

Compromissos e “esquerda grande”
A primeira parte desta dicotomia já foi, de certo modo, discutida no ponto anterior. No entanto, gostaria de sublinhar outros aspectos. Alguns acham que é muito importante ter influência no Governo, ter alguns ministros favoráveis às políticas de esquerda e que para isso é necessário compromissos, acordos, propostas de programas mínimos, ou seja, propõem uma panóplia de processos que permitissem a esquerda e neste caso o Bloco, já que o PCP está fora de questão, poder apoiar e mesmo entrar para o Governo. Nesta constante crítica, não têm qualquer certeza se a outra parte, o PS, quer isso. A sua prática continuada não é essa. Mas eles insistem que se deve fazer mais um esforço. E pensam que dentro do PS há gente que, apoiada no exterior, era capaz de forçar essa possível convergência. Ou seja, o Bloco deveria orientar a sua estratégia em função de uma remota possibilidade de influenciar os elementos de esquerda no PS. Ainda agora o Manuel Alegre teve que constatar que nenhum dos seus elementos, quer do PS quer dos independentes, faz parte das listas apresentadas por aquele Partido para a Assembleia da República. A única vitória que conseguiu, e isso já satisfez muita gente, foi ter conseguido pôr Alberto Martins em primeiro, no Porto, em vez de Teixeira dos Santos, o ministro da economia.
Que nos propõe o Bloco e que para mim ficou claro na entrevista referida. Este partido, acha que não pode fazer cedências ao bloco central, que alternadamente tem governado Portugal. Mas se o PS for Governo e quiser aprovar medidas de esquerda, os votos de o Bloco nunca lhe faltarão e citou o exemplo do trabalho conjunto desenvolvido na luta pela legalização do aborto. Propôs uma esquerda grande que englobaria Manuel Alegre e os PS de esquerda que a quisessem engrossar e todos os independentes, que neste momento se encontram entre um e outro partido. No fundo, se bem percebo, propõem-se agregar uma esquerda que seja alternativa a este centrão que, segundo ele, nos desgoverna.
Alguns, um pouco na linha do PCP, mas de sentido contrário, dizem que estas propostas do Bloco são iguais às do PCP. Imobilistas e incapazes de forçar alianças à esquerda. O PCP diz quase a mesma coisa, por outras palavras, esta gente é louca, com Manuel Alegre e com a esquerda do PS não se vai lá, estão sempre prontos a trair e a regressar ao PS.
Ora bem, eu acredito nesta alternativa de esquerda grande, que está a romper o tradicional bloqueio em que o PCP e o PS tinham lançado a esquerda. É uma esquerda que está a engrossar e entrou em diálogo com quem achou que devia entrar. Não se meteu nos caminhos ínvios dos compromissos, das intrigas palacianas, na procura de quem é quem no PS, para mais uma vez falhar e não conseguir nada. É uma esperança, que como sempre pode sair completamente furada, tão furada como para aqueles que estão sempre à procura de sinais no PS.

20/07/2009

A governabilidade, a política de alianças à esquerda e o voto útil – II


No post anterior afirmei que a previsível, mas não garantida, subida da esquerda, à esquerda do PS, estava a alarmar a direita, tendo esta, por essa razão, recomeçado a defender alterações constitucionais para artificialmente obter a governbilidade do país.
Gostaria neste post de relançar um outro problema que atravessa toda a esquerda, qual fantasma que percorre a Europa (Marx dixit), que é o das alianças à esquerda.

Comecemos pela nossa história recente.
Como resultado do PREC formaram-se na sociedade portuguesa dois blocos políticos, um maioritário, chefiado por Mário Soares, e que agrupava o PS e toda a direita, outro bastante mais reduzido que englobava o PCP e a esquerda radical, mas que entre si não tinham qualquer unidade política.
Por esta razão, como eu já afirmei no post anterior, o PS sempre se recusou a fazer alianças à sua esquerda, ou seja, com o PCP, já que a outra não tinha expressão parlamentar. As suas propostas foram sempre de governar sozinho e quando não podia, fazia o “sacrifício” de governar coligado com o CDS ou o PSD. No fundo, Portugal reproduzia as clivagens da guerra-fria: os partidos da governabilidade, eram pró-americanos e os outros, ligados aos vários campos comunistas.
E quando alguém no PS se atrevia a sugerir alianças à sua esquerda lá vinha a ladainha que esses eram partidos anti-NATO, e depois, mais tarde, anti-União Europeia. Desaparecido o campo comunista, como o entendíamos antes da queda do Muro de Berlim, acabada, pelo menos em palavras, a guerra-fria, ainda hoje a direita com a cumplicidade do PS, continua a chamar aos partidos à esquerda dos socialistas, anti-NATO e anti-União Europeia e radicais e extremistas. Sobre isto já escrevi vários posts (ver aqui e aqui), que só vêm sublinhar o bloqueamento por parte do PS oficial de qualquer aliança com a sua esquerda. Neste aspecto, como noutros, a linguagem da guerra-fria continua a manter-se e o PS nada faz para que haja uma reversão destes factos.
Manuel Alegre nos seus recentes encontros com o Bloco de Esquerda e a Renovação Comunista, quer no Teatro da Trindade, quer na Aula Magna, pretendeu desbloquear esta situação, iniciando, e bem, uma diálogo com a sua esquerda. Houve de facto frutos, mas quanto a mim eles não são ainda transponíveis para estas eleições.

Como é que o PCP tentou, sem êxito, romper estes bloqueamentos que o PS e a direita lhe estavam a impor desde a instituição do Estado constitucional, saído do 25 de Abril?
Primeiro, tentando puxar o PS para a sua área. Na altura, falava muito em partidos democráticos, em oposição aos não democráticos, que seriam o PSD e CDS. Esta linguagem ainda teve algum curso, e irritou particularmente aqueles partidos, hoje está completamente fora de uso. Depois, evita defrontar em conjunto o bloco PS, mais a direita. Por exemplo, na primeira eleição de Ramalho Eanes, em 1976, para Presidente da República, não apoia qualquer candidato “unitário”, como na altura foi sugerido pelo MDP, que queria Costa Gomes, e sacrifica o seu dirigente Octávio Pato. Por razões mais tarde compreensíveis, foge, como Diabo da Cruz, de se juntar a Otelo, que era o candidato da esquerda radical nessas eleições.
Em seguida é a questão, já abordada num post anterior, dos cartazes a falar da eleição de uma maioria de esquerda para a Assembleia da República e a sua posterior transformação de maioria numérica em política. Por último, é a operação PRD, que visa enfraquecer o PS e encontrar à sua direita um possível aliado. Essa operação culmina com o apoio a Salgado Zenha, contra Lurdes Pintassilgo, Mário Soares e Freitas do Amaral, nas eleições para Presidente da República de 1986. Tudo isto saiu furado e teve-se que ir à última da hora votar em Mário Soares. Hoje tenho dúvidas se não se devia ter apoiado Lurdes Pintassilgo. Os “esquerdistas” diriam que o PCP, na hora da verdade, preferiu sempre alianças à sua direita do que à sua esquerda.
Depois foi “a apagada e vil tristeza” dos últimos anos em que a perspectiva unitária se transformou em fazer aliança consigo mesmo, ou seja, com os Verdes e a Intervenção Democrática.

Quanto à política de alianças do Bloco – partido recente, apesar da sua origem na esquerda radical, com a qual cortou –, já escrevi um longo texto sobre esse assunto, a propósito da intervenção do Louçã na sua IV Convenção. Aí falava da sua proposta para uma esquerda grande e que esta seria “anti-capitalista, porque só pode ser socialista”, em ruptura com a actual prática “terceira-via” do socialismo dito democrático e reformista, ou de centro-esquerda. Ou então, da defesa que fez de uma convergência de esquerda que não deve ter pressa, ou seja, que só se poderá concretizar para depois destas eleições, já que naquele momento nada garantia que Manuel Alegre se afastasse do seu partido e formasse um novo.

Deste longo arrazoado fácil é de concluir que, neste momento, não são previsíveis alianças à esquerda. Sem querer pretender ser moralista, é razoável concluir que o PS é quanto a mim o principal culpado. Poderíamos dizer, como agora é vulgar afirmar, que está no seu código genético a pulsão para ser um fiel reprodutor entre nós, primeiro, das práticas atlantistas de não se coligar com comunistas. Segundo, como defensor do chamado socialismo reformista, e seguindo as directivas da terceira-via, enfileirar no apoio ao neo-liberalismo triunfante e ao chamado reformismo, que não passa de repor a ordem estabelecida antes da instalação do estado de bem-estar social. Hoje, com a crise e a retoma do papel do Estado e com vista a piscar o olho à esquerda, vem contrapor um maior intervencionismo estatal, contra uma Manuela Ferreira Leite ainda sem saber que programa e que princípios há-de defender, se os de Pedro Passos Coelho da privatização da Caixa Geral de Depósitos, se os de rasgar todas as medidas de cárter social ou então deixar tudo como dantes.
Este é o PS que temos, com quatro anos de um longo Governo responsável por medidas bem gravosas contra os trabalhadores, como o Código de Trabalho ou o ataque aos professores, fechando as portas a qualquer saída possível, ou ainda por todas as pequenas injustiças e trapalhadas na administração pública. Um primeiro-ministro autista e arrogante, que depois de entradas de leão, muito apreciadas por quem gosta de pulso forte para governar o povo, se transforma num empecilho, mesmo para aqueles que tanto apreciavam o seu estilo.
Quanto às outras esquerdas estão na retranca: o PCP, a garantir a sua sobrevivência, e o Bloco pensando que ainda não está chegado o momento de fazer a convergência de esquerda, e provavelmente terá razão, pois com este PS e o seu Governo não é possível qualquer entendimento.
Nesse sentido, todos aqueles que neste momento apelam ao voto útil no PS, pois não há outro, para combater a direita e a sua actual versão, que pode acabar num Governo e num Presidente, estão a dar um voto em branco a Sócrates, não percebendo que com ele a esquerda não irá a lado nenhum.
Este tem sido sempre o dilema da esquerda, que é votar útil naqueles que miticamente se consideram de esquerda, e depois ficar desiludida porque o seu voto não serviu para nada a não ser para prolongar a vida daqueles que nunca cumpriram as promessas feitas.
Que cada homem e mulher vote em quem em sua consciência pensa que na esquerda melhor defende os seus interesses. Eu por mim votarei no Bloco.


Resta o problema bem real, mas se não houver maiorias absolutas de nenhum dos lados, que fazer? Em post posterior tentarei responder a essa pergunta

19/07/2009

A governabilidade, a política de alianças à esquerda e o voto útil – I


O Expresso este fim-de-semana desenvolve uma série de cenários sobre aquilo que pode acontecer depois das eleições de 27 de Setembro. Põe mesmo o título: Guia para sobreviver no caos pós-eleitoral. Já se sabe que estamos perante uma antevisão que é típica da especulação jornalística e pouco reflectida deste tipo de imprensa. No entanto, há duas coisas que desde logo convém realçar, por um lado é o título perfeitamente aterrador do artigo e depois são a descrição das propostas que vários comentadores da direita e o representante do patronato andam a fazer para reforçar os poderes do Presidente da República. Catroga na entrevista que dá ao Diário Económico, e que eu já referi em post anterior, chega mesmo a afirmar: “os poderes do Presidente da República deveriam ser revistos se os partidos provocarem instabilidade política permanente”.
No mesmo sentido vão as declarações de Francisco Van Zeller, o patrão dos patrões, e de Medina Carreira, que, segundo diz o Expresso, foi o primeiro a pregar esta solução.
Qual é o significado de tudo isto? Eu diria que não estamos perante um facto novo, desde que o regime constitucional saído da Revolução de Abril foi implantado em Portugal que o cenário da ingovernabilidade e da necessidade de se fazer alterações constitucionais para a assegurar tem sido periodicamente acenado. E porquê?
Se estão recordados as primeiras eleições para a Assembleia da República quase que distribuíam os votos igualmente pelos quatro partidos então existentes: começando da direita para a esquerda: CDS (15,98%), PPD/PSD (24,35%), PS (34,89%) e PCP (14,39%). Por isso, se um deles se aliasse com outro facilmente poderia fazer uma maioria absoluta para governar. Ora como o PS se recusava a governar com o PCP, as maiorias só poderiam ser entre os outros três partidos e foi o que se verificou. Assim, depois de um fracassado Governo minoritário do PS, tivemos uma aliança PS/CDS, a seguir frágeis governos de iniciativa presidencial, e depois PSD/CDS (a Aliança Democrática) e por último o bloco central PS/PSD. Foi então que a criação do PRD, de Ramalho Eanes, veio provocar um relativo abalo nestas combinações a três. Não só porque inflige uma extraordinária derrota ao PS (fica nessas eleições – 1985 - com 20,77%), como começa a fazer descer o PCP, para níveis que posteriormente roçariam a irrelevância (em 2002 chega aos 6,94%), e permite o PSD começar a governar sozinho, primeiro com um Governo minoritário e depois com duas maiorias absolutas. O CDS a partir dos Governos de Cavaco começa descer significativamente chegando em 1991, na segunda maioria absoluta do PSD, a ter 4,43%. A partir daí começa a consolidar-se a ideia de que era possível uma alternância, o rotativismo do tempo da Monarquia, entre PS e PSD, este por uma vez coligado com o CDS. O PCP começava de certo modo a ser descartável.
Esta longa história, que eu aqui resumo, visa unicamente chamar-vos a atenção para que durante estes anos o regime foi sempre encontrando soluções que impedissem uniões à esquerda, mas ameaçando sempre que poderia recorrer a soluções mais radicais, que lhe permitissem artificialmente obter o rotativismo sem qualquer sobressalto.
Assim, foi durante os anos 80 a propaganda a favor da bipolarização, com comentadores e fortes meios de comunicação a martelar que a alternância era entre o PS e o PSD, que só estes é que podiam governar. A verdade é que durante o consulado de Cavaco o CDS quase desaparece e o PCP vai inexoravelmente definhando.
Para completar esta propaganda acenava-se com as alterações da lei eleitoral. Ele era a redução do número de deputados, o que tornaria irrelevantes os pequenos partidos. Ele era a ligação do eleito ao eleitor, moscambilha que só serviria para tentar diminuir ou forçar por métodos administrativos a diminuição da proporcionalidade e por último Jorge Sampaio, em dia de azar, a propor a alteração da lei eleitoral de modo a obter-se maiorias absolutas com poucos votos. Lembro-me de Pacheco Pereira a aplaudir esta proposta.
Agora, com a subida exponencial dos partidos à esquerda do PS, Bloco e PCP, vem novamente ao de cima uma qualquer solução para os impedir de ter acesso ao Governo. Pede-se por isso o reforço do papel do Presidente da República, já que a direita tem nesse órgão um amigo. Mas, como já aqui escrevi, é também o ressurgir de uma proposta que andou sempre em cima da mesa, a das moções de censura construtivas, de modo a impedir alianças espúrias no Parlamento para deitarem abaixo o Governo.
No fundo, o relato desta história recente de Portugal tem como objectivo mostrar que a democracia é muito bonita enquanto o poder se distribui por entre os “amigos”, quando há perigo de alguém estranho “ao compadrio” poder entrar, eis que temos que fazer tudo para que isso não suceda. Já em post anterior escrevi sobre isto e recordo até um Expresso da Meia Noite, da SIC Notícias, em que as senhoras bem pensantes do centrão, Maria João Avilez e Teresa de Sousa, se horrorizaram quando Alfredo Barroso falou da hipótese de o PS discutir com a sua esquerda a questão das alianças.
Ou seja, a vida política portuguesa ganhou um novo alento com a subida eleitoral do Bloco de Esquerda e do PCP. Os famosos 20% assustam muita gente e põe toda a direita em polvorosa, não vá por qualquer razão imponderável o PS, trair o seu compromisso de não trazer a sua esquerda para a área do Governo.

Concluindo, está hoje em cima da mesa a possibilidade de a esquerda, à esquerda do PS, poder obter aquilo que nunca foi capaz de ter (a votação mais alta do PCP em legislativas foi 18,80%, em 1979): uma votação acima dos 20%. Esse facto assusta a direita e obriga o PS a ter que reflectir sobre esta situação, não podendo assobiar para o lado, quando há aquela percentagem de votantes à sua esquerda. No próximo artigo desenvolverei este tema.
PS. (20/07/09): Estive hoje a ler um texto que escrevi em Maio, e que indiquei na segunda parte deste artigo, que refere uma outra proposta da direita para forçar a governabilidade, foi a de um novo bloco central (PS-PSD). Já me tinha esquecido desta, dada a rapidez com que entrou e saiu do debate político. É interessante que foi defendida pelo patronato, que pelos vistos anda a atirar barro à parede, e por Martim Avillez Figueiredo, director do novo jornal i. Já se percebeu que todos os dias há propostas novas, tem é que se forçar o PS a não fazer alianças à sua esquerda.

16/07/2009

Segundas reflexões melancólicas sobre a política à portuguesa


Em dois dias, grandes desenvolvimentos se verificaram no nosso panorama político.
Helena Roseta e o seu movimento de cidadãos fizeram um acordo com António Costa para ser ela a número dois nas listas do PS à Câmara de Lisboa e conseguir ainda incluir, em área elegível, o Prof. Nunes da Silva, especialista em transportes.
Helena Roseta tinha dito, quando o Sá Fernandes e o Bloco de Esquerda fizeram um acordo com o Costa, "agora já se sabe para que serve o Zé", acabaram os dois na mesma lista. O Nunes da Silva no célebre debate no Prós e Contras sobre os contentores de Alcântara, atacou o Zé forte e feio, dizendo que antes era o Zé agora era o Sr. Vereador, pelos vistos parece que vão também aparecer na mesma lista.
São estes factos que descredibilizam a política, permitindo que os eleitores não acreditem nos seus eleitos.
E não se diga que se fez este sacrifício pela unidade de esquerda, ou pela possibilidade de cumprir o seu programa, quando ainda há bem pouco tempo essa possibilidade era recusada.
Simplesmente, nas primeiras sondagens, Helena Roseta aparecia atrás do Costa, mas à frente do Bloco e do PCP. Estava muito bem lançada para obter os mesmos dois vereadores que tinha alcançado nas eleições de 2007. Já nas últimas aparecia em último lugar, com possibilidades dela própria não ser eleita. Depois teríamos uma longa campanha de Verão, em que só se falaria de legislativas e o movimento dela não apareceria na televisão. Tinha 15 dias, entre 27 de Setembro e 11 de Outubro, para se fazer lembrada aos cidadãos de Lisboa. Assim, o melhor é fazer uma aliança e dizer que os outros, os da esquerda radical, é que não quiseram.

Ontem manifestei uma particular paixão por um artigo de Manuel Alegre sobre o PS de Sócrates. Acreditei pela resposta de António Vitorino que afinal eles estavam mesmo zangados e que o Manuel Alegre, ao contrário de muitos outros, não alinhava na versão português suave de apoiar Sócrates para não deixar a direita tomar o poder.
Hoje li nos media que Manuel Alegre estaria até disposto a ir colar cartazes para que o PS vencesse e a direita não cumprisse seu ideal: uma maioria e um presidente.
Afinal aquilo que eu antevi em Março que poderia acontecer: “acabar tudo com Manuel Alegre e Sócrates nos comícios eleitorais a darem vivas ao PS”, pode-se transformar, numa versão mais esforçada, com o Secretário-geral mais o Manuel Alegre a colarem cartazes no Largo do Rato, para impedirem a chegada de Manuela Ferreira Leite ao poder.
Estamos pois numa época de grande instabilidade e aquilo que foi verdade há uns tempos poderá rapidamente transformar-se no seu contrário. É preciso ter uma linha bem definida para não soçobrar às primeiras incongruências.

03/07/2009

Ponto final no Apelo à Convergência de Esquerda nas Eleições para Lisboa


Realizou-se no passado dia 29, no Hotel Roma, uma conferência de imprensa em que os peticionários, ou seja, os subscritores do Apelo à Convergência de Esquerda nas Eleições para Lisboa prestavam contas aos lisboetas e à comunicação social das diligências desenvolvidas. De todos os contactos efectuados “cumpre-nos informar com verdade a cidade de que, chegados à passada 5ª feira, 25 de Junho, acabaram por não ter resultado as inúmeras diligências efectuadas.”
Sendo esta uma das conclusões do comunicado final dos peticionários, gostaria pela minha parte, que também fui um dos ssubscritores do apelo e por duas vezes comentei neste blog (ver aqui e aqui ) este assunto, de fazer algumas considerações sobre o mesmo.
Como eu afirmei por diversas vezes há entre a esquerda portuguesa uma clara pulsão unitária, que tem origem principalmente na luta antifascista e que se manteve ao longo dos anos, alimentada mais pelo PCP do que pelo PS, e que encontrou nos recentes eventos que tiveram lugar no Teatro da Trindade e na Aula Magna uma expressão significativa. O encontro da esquerda do PS, corporizada pelo Manuel Alegre, do Bloco de Esquerda e da Renovação Comunista trouxe para a praça pública o renovado desejo de um diálogo à esquerda.
Nesse sentido, a Renovação Comunista tentando expressar este desejo empreendeu alguns contactos, primeiro com vista a uma possível saída de esquerda para as eleições legislativas que se avizinham e depois, goradas aqueles, iniciou movimentações para a Câmara de Lisboa, porque lhe pareceu que era o local onde melhor se poderia corporizar aquela união.
Por isso redigiu um apelo e submeteu-o a um conjunto de personalidades independentes ou que num ou noutro caso têm aparecido ligadas a alguns dos partidos da esquerda.
Quando aquele apelo surgiu já praticamente o quadro das diferentes candidaturas à Câmara estava traçado. Sabia-se que António Costa, pelo PS, queria continuar e que o Bloco e o PCP (vulgo CDU) iriam apresentar candidaturas próprias e que Helena Roseta manteria o seu movimento de cidadãos. Ou seja, a esquerda aparecia completamente desunida, “cada um por si e fé em Deus”. Foi contra isto que este movimento arrancou, primeiro com duzentas assinaturas e depois na Internet, aberto a quem o quisesse assinar. Quer o Bloco quer o PCP manifestaram desde logo, com justificações diferentes, que eu já assinalei num dos post referidos, a sua indisponibilidade para alianças. António Costa, sem nunca ter tido um gesto público significativo em relação à convergência foi alimentando nas conversas com os peticionários essa possibilidade.
Restava aos peticionários, principalmente ao seu núcleo organizado, que incluía alguns elementos da Renovação Comunistas, mas também independentes que prontamente se quiseram juntar, prestar contas dos resultados e da acção empreendida, foi isso que foi feito no dia 29 de Julho.
É evidente que diferentes eram os motivos para que várias pessoas, oriundas de diversas áreas políticas de esquerda, se tivessem juntado com o mesmo objectivo.
Da minha parte, devo reconhecer que foi para mim irresistível o apelo à unidade de esquerda. A minha formação ao longo dos anos sempre teve em conta este desejo, e sempre mitifiquei, provavelmente, pelas boas razões, as épocas históricas em que ele foi conseguido. Nesse sentido assinei o referido apelo.
Reconheço, no entanto, que o mesmo poderia, dada a aceitação em palavras, não sei se em actos, de António Costa, servir para apoiar a sua candidatura, favorecendo aquilo em que o PS é mestre em momentos de aperto: fazer o apelo ao voto útil.
Sei que alguns dos peticionários tinham claramente essa intenção, no entanto, conseguiu-se fazer um esforço, não extravasando as claras competências que nos tinham sido atribuídas, para que esse facto nunca transparecesse claramente.
A não existência de acordo e a possibilidade real de Santana Lopes e a direita ganharem a Câmara levou a algum dos peticionários a classificarem a não existência de coligação como "uma tragédia patética" e "quem não entrar em acordo é um traidor para o povo lisboeta" (Pílar del Rio, mulher de José Saramago, Diário de Notícias, de 30/06/09).
Acredito piamente que este seja o pensar de muitos dos peticionários. Que a presença de Santana Lopes na Câmara seja uma tragédia para eles. Mas tenho que reconhecer, que sendo verdade este facto, não podemos, por outro lado, deixarmo-nos cair na tentação de que o voto útil é que é a solução ou então que a estratégia dos partidos se deve submeter a uma lógica local, esquecendo que uma das partes, o PS, nem nacionalmente se portou para merecer o nosso apoio, nem mesmo a sua face visível na Câmara deu motivos para que nele confiássemos. Provavelmente a longo prazo os eleitores que acreditam nos valores e na clareza das atitudes não compreenderiam que em nome de uma possível vitória local sacrificássemos algumas estratégias nacionais ou avalizássemos a postura de quem sempre demonstrou um grande desprezo pelos “extremistas” de esquerda. Há nestes casos que avaliar entre um legítimo anseio de unidade e a queda irremediável para o oportunismo e o laxismo.

01/07/2009

Quebrar o Círculo Vicioso


A história da classe e do movimento operário em Portugal tem algumas originalidades de que a esquerda moderna ainda é um pouco devedora. Nesse sentido qualquer análise da situação da nossa esquerda e das suas perspectivas futuras tem que ter em conta a o seu passado e a especificidades que lhe são próprias. Comecemos pois pelo princípio.

I – O PS
Como se sabe o PCP não teve origem em qualquer dissidência do socialismo português mas sim no movimento anarco-sindicalista. Este facto só vem provar que nunca os socialistas tiveram qualquer influência visível na história da nossa classe operária. Tirando alguns próceres que no século XIX tentaram introduzir mais as ideias do Proudhon do que as de Marx em Portugal e deram origem ao socialismo português, aquilo que sobrou desta organização depois da República e do advento do fascismo foi um Ramada Curto, seu antigo secretário-geral, a apelar, no fim da vida, à defesa das colónias portuguesas.
Bem podem hoje alguns historiadores com boa vontade descobrir a participação socialista no 18 de Janeiro de 1934, a greve geral contra a fasciszação dos sindicatos, que dificilmente encontrarão referências sólidas a essa intervenção. Nesse sentido, quando em 1973 se funda novamente o Partido Socialista português este é mais devedor das novas ideias que percorriam o socialismo europeu na época do que de qualquer passado histórico relacionado com a luta da nossa classe operária. Estou-me a recordar do António Reis, hoje Grão-Mestre da Maçonaria, a propor em 1974 como programa político do PS a adopção do “reformismo-revolucionário” então defendido por um sociólogo francês, André Groz.
Por outro lado, e não de forma despicienda, este partido herda a velha ideologia republicana e oposicionista, com algum vocação maçónica e jacobina.
Mas a carta de alforria ganha-a durante o PREC, depois de vencida em Congresso a sua ala esquerda, representada por Manuel Serra. Foi no anti-comunismo, ou como o PS gosta de dizer na luta contra o anarco-populismo, que o PS se destacou, ganhou apoios e gratidão na direita nacional e conquistou a admiração da social-democracia internacional mais ligada a um dos lados da guerra-fria. Para aqueles que esquecem estas coisas lembro a frase do socialista francês Jean-Pierre Chevènement que a dada altura do PREC teria afirmado, mais ou menos isto, sobre o socialismo europeu, “não morrer como no Chile e não trair como em Portugal.”
Mas isto são histórias passadas. O PS tornou-se, vencida a esquerda revolucionária no 25 de Novembro, num dos principais partidos da rotação governamental, fazendo tudo para, juntamente com o PSD, bipolarizar a sociedade portuguesa, de modo a se evitarem coligações, principalmente à esquerda. Ou seja, depois do PREC, tentou-se por todos os meios impedir que na sociedade portuguesa houvesse uma alternativa de esquerda plural. Daí, que ainda recentemente André Freire, num estudo sobre os diversos partidos socialistas europeus, ter afirmado que o português era o que se situava mais ao centro, distanciando-se menos ideologicamente do seu opositor de direita.
Esta é a história, e por muito que o PCP na sua máxima pujança eleitoral tentasse que a maioria numérica que a esquerda dispunha no Parlamento se transformasse em maioria política, nunca o PS acedeu a isso. Para romper este círculo vicioso o PCP tenta, aproveitando a situação criada com a saída do Ramalho Eanes de Presidente da República, apoiar a criação de um novo partido, o PRD, que pudesse romper e dividir o PS. Foi a sua última grande operação política, que redundou num profundo fracasso. É só ver a diminuição de votos e de percentagem que a partir daí, 1985, o PCP foi tendo.
Mais uma vez o PS, de modo ainda pouco claro, mas que alguns, mais papistas que o Papa, tendem a verbalizar, começou a ensaiar a melodia do voto útil. Se não votam em mim terão a direita no poder. Por enquanto esta operação resume-se a começar a encostar o PSD à direita conservadora e se possível salazarenta, provavelmente só depois virá o apelo ao voto útil. É verdade que ainda estamos na fase da classificação dos partidos à esquerda do PS como extremistas, radicais e pouco confiáveis, mas com o tempo lá iremos à sedução dos seus votantes.

II – O PCP
Como já foi anteriormente afirmado a origem do PCP entronca no movimento anarco-sindicalista e dessa influência ser muito clara nas suas primeiras movimentações. No entanto, a principal razão da sua existência deve-se em primeiro lugar ao êxito da Revolução Soviética de 1917 e depois à existência da III Internacional e da sua influência no movimento operário internacional. Partido disciplinado e com características próprias para lutar contra a investida fascistas consegue, muito melhor que os anarco-sindicalistas, resistir à repressão fascista e poder organizar o movimento operário. Transforma-se com o tempo num grande partido nacional, que influencia toda a ideologia da Oposição. Podemos dizer, utilizando um conceito gramsciano, que conquistou a hegemonia ideológica da esquerda em Portugal durante o final dos anos 30, e depois durante os anos 40, 50, até meados dos anos 60. Não deixando, no entanto, de estar por detrás ou de influenciar profundamente a ideologia de esquerda que pôde renascer com a queda de Salazar e o advento de Marcelo.
Não é por acaso que o PCP surge logo a seguir ao 25 de Abril como a grande força organizativa da esquerda portuguesa, que obriga Spínola a atribuir-lhe um lugar no Executivo, incapaz que se sentia de governar sem a participação do PCP.
Mesmo hoje, quando alguns herdeiros do esquerdismo dos anos 60/70 falam da perda e fraqueza do PCP nesses anos, esquecem a força política e organizativa deste partido a seguir ao 25 de Abril. Ainda recentemente, num colóquio organizado no Museu da República e Resistência (1º Colóquio "Os Comunistas em Portugal"), um historiador brasileiro, nada favorável ás posições do PCP, reconheceu isto. É evidente que a sua força organizativa não correspondeu depois à sua força eleitoral, como eu já demonstrei aqui .
Derrotada que estava a fase revolucionária houve no PCP alguma dificuldade em adaptar-se aos novos tempos. Continuou-se por razões meramente programáticas a acreditar que o país avançava para o socialismo, porque isso estava inscrito na nossa Constituição, quando há muito tempo que esta, neste aspecto crucial, não passava de uma ficção. Ainda recentemente num museu que foi recentemente inaugurado em Sines encontrei um cartaz da Câmara Municipal daquela cidade, de 1980, que falava das realizações do poder autárquico socialista. Dando a ideia que estaríamos a caminhar para o socialismo.
Tirando esta ficção, que provavelmente foi um pouco inebriadora, sempre o PCP tentou forçar uma saída à esquerda. Daí o apelo a uma maioria de esquerda, que chegou a estar publicitada em cartazes, ou depois, o apelo discreto à formação do PRD. No entanto, o círculo fecha-se, com o governo de Cavaco a direita e as classes dominantes em Portugal encontram a sua estabilidade, o Muro de Berlim cai, começam as divergências e purgas no PCP, este partido reduz significativamente a sua votação. Duas soluções surgem entretanto no horizonte: o Novo Impulso, que visa a sua renovação, ou o enquistamento e o refúgio nos valores seguros. Esta última foi a opção vencedora. E hoje o PCP é um partido sectário e com laivos esquerdistas, que não desaparece, como os outros PC da Europa, mas que é incapaz de crescer, de romper com o cerco e as limitações que lhe criaram e em que ele próprio foi caindo.

III – O BE
O Bloco de Esquerda foi criado em 1999. Herdeiro da tradição esquerdista do final dos anos 60 e do PREC, rompeu com ela a e apresentou-se com uma outra cara. Abordando primeiro os chamados temas fracturantes, foi progressivamente voltando a sua atenção para os temas nacionais, surgindo com uma nova linguagem e uma grande flexibilidade táctica. Podemos dizer que no panorama político português foi a novidade que pode permitir com alguma razoabilidade romper com o círculo vicioso em que a esquerda portuguesa tinha caído: voto útil no PS, para não deixar a direita tomar o poder, ou fidelidade aos princípios, continuando a votar PCP.
Ainda é cedo para avaliar o desenvolvimento futuro do Bloco. Para já, e perante o êxito nas eleições europeias, as tentativas de diálogo com a esquerda do PS (Teatro da Trindade e Aula Magna) e um claro evitar de confrontos desnecessários com o PCP, reconhecendo-lhe a importância e o valor histórico, têm permitido a este partido aglutinar as forças que se reclamam da esquerda.
Para muitos resta o problema da ideologia. O Bloco, fugindo às discussões ideológicas e aos rótulos, cobra da tradição da social-democracia de esquerda e do movimento comunista, com toda a sua complexidade e diferenciação.
Reconhecendo que são realidades muito diferentes o Bloco poderia ser na sociedade portuguesa aquilo que o PT foi na brasileira. Um partido aglutinador de toda a esquerda, principalmente a que vinha dos meios católicos e que rompia com as tradições clássicas da esquerda comunista e da que provinha da guerrilha.
É evidente que o Bloco sozinho não irá longe, precisa de compreender que, como força aglutinadora da esquerda, deverá juntar à sua volta outros parceiros ou mesmo se necessário ser capaz de diluir a sua identidade num movimento mais vasto que inclua a esquerda do PS, socialistas sem partido e dissidentes do PCP, que se têm vindo pelas razões aduzidas a afastar-se dele. No fundo o Bloco poderá ser um movimento aglutinador e, porque não, refundador da esquerda.

IV – Conclusões provisórias
Pelo que atrás foi dito há neste momento uma necessidade da esquerda romper, e do movimento operário, se ainda terá sentido falar nele como movimento autónomo, com o círculo vicioso em que há bastantes anos se tem vindo a deixar espartilhar.
Ser capaz de assumir que o PS como um todo não foi capaz de se assumir como um parceiro de confiança, com quem seja possível estabelecer um programa comum de esquerda, como aquele que há uns largos anos se estabeleceu entre o PS e o PC francês. Que regularmente nos pede o seu voto para evitarmos ser governados pela direita e que posteriormente sem qualquer escrúpulo faz tudo aquilo que não seria de esperar de um partido de esquerda, mesmo que só cumprisse os mínimos exigidos. A situação actual é das mais gravosas, sendo José Sócrates e a sua equipa completamente responsáveis pela situação de degradação a que o Governo e o partido socialista chegaram.
Por outro lado, a outra opção era quase até ao presente votar num PCP que sempre nos pediu o seu voto para se reforçar e conseguir fazer sair o país da situação de atoleiro em que ia progressivamente mergulhando, quer com os Governos do centro-direita, quer do centro-esquerda, ou seja do centrão. Nunca como hoje, aqueles que nele votaram sentiram a impotência desse voto.

Hoje, a fugindo à chantagem do voto útil, é possível termos uma perspectiva, encarnada pelo Bloco, de rompermos com este bloqueio da esquerda. Nada disto é certo e muito menos garantido, no entanto só numa perspectiva de aglutinação de todos os descontentes é possível romper com o círculo vicioso em que a esquerda tem vivido nos últimos anos.

28/06/2009

Os novíssimos sectários



Para Tiago Mota Saraiva, desta vez cito-lhe o nome, não vá o “autor” ofender-se (ver aqui uma polémica antiga), o parágrafo inicial do referido Manifesto: “Estamos a atravessar uma das mais severas crises económicas globais de sempre. Na sua origem está uma combinação letal de desigualdades, de especulação financeira, de mercados mal regulados e de escassa capacidade política”, merece-lhe este comentário “Terá sido só isto? Já não é o sistema que provoca as crises para se reforçar, José Castro Caldas, Francisco Louçã, Ricardo Paes Mamede, João Rodrigues, Nuno Teles? O que mudou entretanto? É táctica política?

Voltando novamente a Carlos Vidal, noutro post: “o manifesto de economistas recentemente assinado por “socialistas” e “bloquistas”, com Francisco Louçã, mais cedo do que eu esperava, lá muito bem integrado.É um sinal para o futuro próximo. Uma estrela para guiar os novos magos: palavras para quê, é o manifesto dos “51″ em resposta em cima da hora e nos timings do PS ao manifesto dos “28″, desenvolvendo a agenda do PS: os chamados, pelo PS (!!), “investimentos públicos”!!!
Para não me acusarem de estar a desvirtuar o conteúdo destes post, macei-vos com esta prosa de blog, cheia de perguntas, pontos de exclamação e insinuações, que muitas vezes só os próprios e os amigos percebem. Para mim, que redijo longas laudas, muito bem explicadinhas, esta maneira de escrever é intragável. São gostos. Mas, o seu conteúdo é que interessa.
A verdade é que o que está aqui em causa é mais uma vez uma velha prática esquerdista de tentar meter tudo no mesmo saco. Como há economistas do PS e do Bloco a assinar aí temos a convergência do PS de Sócrates com o Bloco do Francisco Louçã. Está visto, mais depressa do que estas almas previam e gostavam que acontecesse, aí temos a aliança PS-BE.
São incapazes de perceber como esta junção de esforços entre gente de esquerda do PS com a “esquerda radical” (José Manuel Fernandes, do Público, dixit) do Bloco é importante, para romper os consensos neo-liberais e conservadores dos economistas do centrão. No fundo é a repetição do Trindade e da Aula Magna. Mas estes rapazes, com uma linguagem modernaça, convencidos que já não seguem os figurinos de antanho, recuperam a velha linguagem esquerdista: todos aqueles que em dado momento colaboraram em projectos unitários, que permitam subtrair à direita a sua influência ideológica, estão vendidos ao inimigo. No fundo, com a aparência de novidade, retomam o mesmo esquerdismo e sectarismo que em tempos atacou o “esquerdismo” português e que hoje, lamentavelmente, é apanágio do PCP.
PS. (28/06/09): Carlos Vidal volta novamente ao local do crime com um novo post sobre o Manifesto dos 51. Não o conheço pessoalmente, mas pela prosa parece-me um jovem intelectual pretensioso e convencido. E como todos os jovens desconhece que no fundo as ideias têm também um passado, uma história. E tudo o que ele diz não foge ao que diziam os nossos “esquerdistas” que no final dos anos 60 e princípio dos 70 se opunham ao PCP e à sua política de unidade com a pequena–burguesia, contra os monopólios, principal força de apoio ao fascismo. Achavam, que a luta se devia dirigir contra o capitalismo no seu conjunto e não contra os monopólios. Ser explorado por um grande ou pequeno-burguês era, para eles, a mesma coisa. Já se sabe que estas opções sociais e económicas correspondiam depois a escolhas políticas. Assim a luta pela unidade e contra o fascismo, correspondia para estes críticos à luta pela democracia burguesa e o que interessava era lutar pela democracia popular. Quer se queira quer não, estas velhas consignas “esquerdistas” estão mais uma vez implícitas na apreciação que Carlos Vidal faz do Manifesto dos 51. Mas isto digo eu que já há muitos anos conheço esta ladainha.
No mesmo blog, mas num post anterior, alguém que não sendo da minha geração, mas tendo a mesma origem política e fazendo um percurso, pelo menos, semelhante, diz, por outras palavras, o mesmo que eu. É o post de Nuno Ramos de Almeida, que juntamente com António Figueira, que presentemente não escreve sobre política, dão ainda alguma qualidade a este blog.

27/06/2009

Fim de Festa


Por razões familiares e de saúde – lá fui mais uma vez a Madrid – não tenho escrito nada neste meu blog. Sei como a ausência de novidades determina imediatamente uma clara diminuição de leitores. É como se um jornal diário só saísse quando o seu director quisesse, rapidamente iria à falência. Aqui como não tenho custos, nada me acontecerá economicamente, mas de certeza que aqueles que me costumavam ler regularmente já nem se lembram de dar aqui um pulo. Dificuldades de quem não precisa da prosa para viver. Dito isto, passemos ao que interessa.

No post anterior fiz uma análise do resultado das eleições para o Parlamento Europeu. Afirmei que os resultados tinham sido mais graves do que eu desejava e, posso dizê-lo, previa. O PS sofreu uma derrota de que provavelmente já não se consegue recompor e aquilo que poderia ser intuído antes das eleições, mas que ninguém levava muito a sério, tal eram as certezas das sondagens, hoje passou a ser uma evidência. E estas coisas são como são, a comunicação social, os comentadores e todos aqueles que vivem da política perderam todo o respeito ao Governo de José Sócrates e, por tabela, ao PS. Sucede a este Governo como àqueles homens fortalhaços, que no fulgor da idade conseguem amedrontar todo o mundo e são os reis da sua rua, e que depois, quando a velhice chega, já só são objecto de escárnio e de desprezo generalizado. Assim está José Sócrates. Ainda há pouco tempo se dizia que estava imbatível, as sondagens davam-lhe quase a maioria absoluta, todos os comentadores opinavam que a dúvida seria se Sócrates ganharia com maioria relativa ou absoluta. E não é que depois das eleições já ninguém acredita que o Primeiro-ministro continue a sê-lo no próximo Governo.
Este clima já se respira em todo o lado, é o fim de festa socialista. Hoje, na SIC Notícias, foi Medina Carreira a malhar no Governo, à mesma hora ,Vasco Pulido Valente, na TVI, e no Expresso da Meia-Noite todos contra os disparates de Sócrates a propósito do episódio da venda daquela estação televisiva à PT.
Tudo isto me faz lembrar o final do reinado de António Guterres (2001), quando este, antes eleições autárquicas, que ditaram o seu afastamento, não tinha para onde se virar. Era a direita, mais o patronato, a atacar em força, o PCP a não abrandar a sua crítica – nessa altura ainda não havia um Bloco de Esquerda com a força que tem hoje. Neste momento a situação repete-se, já ninguém tem respeito para com José Sócrates, que de animal feroz passou ao velho decrépito do nosso exemplo.
Dirão uns que é cedo de mais para ditar a sua morte. Pode suceder. Mas tudo vai no sentido oposto.
Mas isto são só apreciações intuitivas, que nada devem à reflexão política. A verdade, é que em política nem tudo se resume a correlação de forças, à táctica e à estratégia prosseguidas. Há de facto percepções da realidade que nos podem fazer compreender melhor o sentido da corrente. Há alterações dos “estados de alma” que nos permitem intuir o que se passa. E hoje penso que Sócrates e o seu Governo estão em queda absoluta, que já é impossível corrigir a direcção e daí os disparates que começam a ser feitos, como este caso da TVI.
É evidente que isto pode ser mau para as forças de esquerda. A direita pode tomar o freio nos dentes e apoderar-se, além da Presidência, que já detém, da Assembleia da República, do Governo e das Autarquias. É um perigo real. E muitas vezes a queda do PS arrasta também a sua esquerda. Isso não está provado, mas às vezes sucede. A ascensão dos Governos de Cavaco Silva coincidiu com o fracasso do PS, mas também do PCP.
Por isso, para aqueles que possam embandeirar em arco com a derrota de Sócrates e do PS, há que tomar as devidas cautelas, porque não é garantido que isso seja no seu conjunto benéfico para a esquerda, à esquerda do PS. Podemos depois das eleições ter uma desagradável surpresa.
Verdade seja dita que tudo que está a acontecer ao PS é por sua exclusiva culpa. Que não diga que não foi avisado, que não atribua culpas à sua esquerda, que nunca abonou as más companhias com que andava. Não se pode redigir um Código Laboral como aquele que se aprovou ou manter a intransigência que se demonstrou com os professores e depois vir-se dizer candidamente que a culpa é da esquerda, que não se moderniza. Quando se está convencido que se tem o rei na barriga e que se pode dispensar as forças à sua esquerda, chamando-lhes totalitárias, extremistas e não democráticas, está-se inexoravelmente a cavar um fosso intransponível que torna impensável, na hora da derrota, contar com qualquer ajuda.
Nunca se aprende nada e cometem-se sempre os mesmos erros. Vamos a ver como vai sair o PS e toda a esquerda desta curva apertada.

08/06/2009

Em contra ciclo. A subida da Esquerda


No post em que declarava o meu sentido de voto escrevi: Se, como forma de protesto, o Bloco e o PCP tiverem muitos votos ou o PSD ganhar, ninguém se importa muito com isso. É mais um deputado num Parlamento tão distante, que nem percebemos qual a sua função. E a derrota do PS, para quem não é ferrenho deste partido, corresponde a uma suave alegria.
Quando escrevi isto não pensava que este meu desejo se iria realizar completamente. E foi tão exagerado o modo como se cumpriu, que hoje até tenho medo que o meu pedido tenha ido longe demais.
E porquê, sendo as eleições europeias uma disputa a feijões, era necessário mostrar ao Governo de Sócrates que ele não era benquisto e esta era a melhor altura para o fazer, dadas as poucas implicações que isso teria na real governação do país. Ora o que sucedeu foi que o trambolhão do Sócrates foi tão grande que nos arriscamos, contra o que se esperava, a termos a Manuela Ferreira Leite, do PSD, em Setembro, aliada ao seu parceiro de sempre Paulo Portas, do CDS. Este é um perigo real que resulta destas eleições. Se a votação do PSD não assusta ninguém, já a sua soma com a do CDS chega exactamente aos 40%, o que, entendamos, é bastante perigoso.
Por isso, tal como já tinha escrito, acho que o PS em Setembro deve perder a maioria absoluta e ganhar por um ou dois deputados, o que o obriga a negociar. Se o fizer à direita provoca a sua implosão, à esquerda, pode abrir uma perspectiva de solução para a crise. O Sócrates no entanto não pode continuar, a esquerda nunca o aceitará.

A derrota do Sócrates/Vital Moreira nestas eleições é de facto histórica só comparável aos resultados das eleições de 1985, em que o PS teve 20,77 %, devido ao aparecimento do PRD. Agora teve 26,57 %. Este resultado vem confirmar aquilo que era visível na população portuguesa, já ninguém suportava a arrogância deste Governo e do seu Primeiro-Ministro e apaniguados. A queda foi brutal e merecida, pena foi que os votos que perdeu não se deslocassem todos para a sua esquerda.

Um dos casos mais espantosos de actual situação portuguesa, que irrita toda a direita e a põe em pânico, é de que a fuga de votos do centro-esquerda não foi para extrema-direita, mas sim para a esquerda, à esquerda dos socialistas.
Fazendo umas contas simples verifica-se que as perdas do PS se distribuem igualmente pelos conjuntos CDS/PSD (cerca de 295 000 votos) e BE/PCP (cerca de 284 000), com grande significado para o primeiro partido deste último conjunto.
Verifica-se pois que a especificidade portuguesa, muito dela, ao contrário do que a afirma direita, que a justifica com o atraso português, devida ainda à herança do 25 de Abril, não tem permitido o aparecimento de uma extrema-direita, apesar do CDS a poder representar, e facilita o desenvolvimento e a manutenção de uma esquerda com projectos alternativos à lógica capitalista.
Por isso, lá ouvi mais uma vez o politólogo Maltez afirmar, na TSF, que Portugal se encontra infelizmente em contra ciclo em relação ao resto da Europa. E ainda bem. Ao contrário da civilizadíssima Europa, a solução para a crise não será cavalgada pela extrema-direita, mas sim, espero eu, pela esquerda anti-capitalista.

Não gostaria de terminar sem uma referência muito especial ao Bloco de Esquerda. Hoje este partido, e esperemos que se mantenha assim, é de facto um aglutinador possível para o aparecimento de uma alternativa à governação do bloco central.
Apesar de alguns defensores do PCP virem mais uma vez a falar dos grandes êxitos alcançados. O que vemos é este partido, não desaparecendo, como a direita gostaria que sucedesse, não ultrapassa uma mediania satisfeita. O seu crescimento é pequeno e anda há anos a tentar crescer qualquer coisa que se veja e não consegue. Por outro lado, a sua distribuição continua a ser extremamente regional. Tem força, como se viu nos distritos de Évora, Beja, Setúbal e até em Lisboa, onde ficou à frente do Bloco, mas no resto do país fica sempre atrás do Bloco. Hoje, este partido não só tem vindo a subir significativamente, agregando grande parte da esquerda descontente, como se distribuiu igualmente por todo o país. O Bloco, ao contrário do PCP, pode ser hoje um pólo agregador de um conjunto de cidadãos que, não se revendo nas políticas neo-liberais dos governos do bloco central, querem uma saída de esquerda para esta situação. Esperemos que o PCP compreenda alguma vez isto e que o seu tempo, como o grande partido histórico da esquerda em Portugal, está a passar e que novas esquerdas, mais dinâmicas e sem o peso do passado, o estão a substituir. Por isso o passo no caminho da unidade é indispensável

06/06/2009

"Radicalismo extremista"


Já estou como um dos participantes do Eixo do Mal, da SIC Notícias, que passa horas a ver televisão e a ler jornais, penso eu, para se inspirar para o Inimigo Público, a página humorística do Público. Por sinal não lhe acho grande graça.
Pois eu, no meu afã de estar a par de tudo, não gastando tantas horas, lá vou papando programas infindos de informação e comentário político.
Vem isto a propósito de uma frase que ouvi ontem na Quadratura do Círculo, também da SIC Notícias, ao António Costa, e uma parecida, que escutei a um politólogo, hoje profissão muito em voga, que me pareceu chamar-se Maltez.
António Costa no debate que ontem travava com Pacheco Pereira acusava o PSD de, ao não privilegiar uma alternativa ao governo de Sócrates, deixar que os votos de protesto fugissem todos para o radicalismo extremista. O politólogo falava, a propósito de sondagens, das percentagens de votos atribuídas à esquerda revolucionária.
O caso de António Costa parece-me perfeitamente espantoso. Depois do ataque desferido no Congresso do PS ao Bloco de Esquerda, assisti numa Quadratura do Círculo ao riso alvar de todos os intervenientes a propósito dessas afirmações, que naquele debate foi o único momento em que todos estavam de acordo.
Ontem, en passant, sem nenhuma ênfase especial, lá veio o classificativo, que ou é sincero ou serve unicamente para que o público bem-pensante, que o está a ver, o leve a sério. Só não se percebe como é que esta personagem, que não tem qualquer rebuço em classificar os partidos à sua esquerda como radicais extremistas, quer depois na Câmara de Lisboa fazer alianças com eles. Como é que é possível nuns dias falar, de coração nas mãos, da necessidade das forças de esquerda se aliarem na Câmara para derrotarem a direita e noutros dias a sério ou em jeito de propaganda classificar os seus possíveis aliados de radicais extremistas. Alguma coisa não bate certo. É de certeza a pouca vontade de qualquer aliança para a Câmara de Lisboa.
Quanto à frase do politólogo, ela resulta de toda a conversa da direita. Esta não aprendeu nada desde os tempos do PREC, continua no mesmo esquema mental e de propaganda que sempre foi o seu. Tudo o que esteja à esquerda do PS, que proponha uma maior intervenção do Estado na economia, algumas nacionalizações, ou simples mudança de rumo, é revolucionário, extremista e incompatível com a nossa adesão à União Europeia, à NATO ou ao mundo ocidental.

Para combater estes preconceitos é pedido às forças políticas à esquerda do PS - no fundo, dando continuidade àquilo que Manuel Alegre admitiu como possível: dialogar à esquerda - um contributo, sem tergiversações, para um maior diálogo entre elas e capacidade para se apresentarem como alternativa de Governo. De facto, temos que deixar de ser força do protesto e elaborarmos um programa alternativo de saída para a crise. Esperemos por ele.

04/06/2009

As eleições para o Parlamento Europeu


Reparei ontem que estando umas eleições à porta ainda não me tinha pronunciado sobre elas. Há tempos tinham-me criticado por não ter manifestado nenhum apoio à manifestação da Inter. Justifiquei que a minha postura política pressupunha um claro apoio à manifestação e que, como não tinha havido nenhum debate político-ideológico que merecesse a minha tomada de posição, o meu comentário era desnecessário. Não sei se convenci o meu crítico. Mas a razão era de facto essa.
No entanto, em relação a umas eleições em que há diversos candidatos não posso admitir que à partida os meus leitores deduzam a minha intenção de voto, apesar de eu pensar que muitos já estarão a dizer: “olha este, está a fazer-se caro, vai votar no Bloco de Esquerda e ainda finge que temos dúvidas em quem vai votar”.
A verdade é que a minha decisão há muito que está tomada e por ser linear não me pareceu que fosse necessário explicitá-la, daí não ter ainda elaborado nenhum texto. Mas aqui vai um.

Hoje, penso que para à esquerda o inimigo principal é o José Sócrates e a sua clique. Emprego esta expressão datada, mas suficientemente explícita para designar aquilo a que me quero referir. E faço esta delimitação, porque considero que o inimigo principal nunca será o PS no seu conjunto, mas o grupo a que me refiro.
José Sócrates pela sua arrogância, autismo e pesporrência conseguiu criar na sociedade portuguesa um conjunto de anti-corpos difíceis de superar. Rodeou-se simultaneamente de um conjunto de apaniguados (José Lello, Santos Silva, Edite Estrela, etc.) que ainda o superam em antipatia pessoal.
Reconheço que a esquerda não deve ter ódios às pessoas, mas sim às políticas. O PCP e o Bloco referem-se constantemente à necessidade de uma nova política. Simplesmente eu entendo que se a política até agora seguida pelo Governo de José Sócrates foi de direita e mereceu, mesmo que encapotadamente, o apoio daquela área política, não deixa de ser verdade que ultimamente, num esforço para não se distanciar da esquerda, seja de Manuel Alegre, seja daqueles dois partidos, até tem tentado tomar medidas que parecem ser de esquerda. Simplesmente é tarde e provavelmente já não consegue convencer ninguém de que prossegue uma política de esquerda, nem vai retirar votos à direita, pois neste momento os eleitors desta área política pensam que está a seguir uma política demasiado de esquerda para o seu gosto. Por outro lado, José Sócrates, não prossegue unicamente uma política errada, a prática utilizada é perfeitamente repulsiva. Queremos correr com o Governo de Sócrates não só pelas políticas que tem vindo a seguir, mas igualmente pela forma como actua. Isto implica não votar em Vital Moreira nestas eleições, que por sinal, num claro mimetismo com o herói dos seus artigos no Público, consegue ser tão arrogante como ele.
Por outro lado, nas eleições para o Parlamento Europeu o voto útil não é importante. Se, como forma de protesto, o Bloco e o PCP tiverem muitos votos ou o PSD ganhar, ninguém se importa muito com isso. É mais um deputado num Parlamento tão distante, que nem percebemos qual a sua função. E a derrota do PS, para quem não é ferrenho deste partido, corresponde a uma suave alegria. Uma forte alegria só acontecerá se perder por muitos a maioria absoluta nas próximas eleições legislativas, mantendo-se no entanto à frente do PSD por um ou dois deputados. Mas isso é assunto para falarmos lá mais para o Verão.
Quanto ao voto no Bloco ou na CDU a situação é mais complicada. Ambos os partidos fazem parte do mesmo agrupamento político no Parlamento Europeu, apesar das suas posturas em relação à Europa serem diferente. Aqui, no entanto, a nossa opção tem mais a ver com as nossas preferências nacionais e com o modo como cada um dos partidos se posiciona para a resolução da actual crise sócio-política. E para mim torna-se cada vez mais claro que o Bloco e a sua área de possível convergência (PS de Manuel Alegre) começa a ser hoje, na sociedade portuguesa, a alternativa possível e politicamente consistente à governação de direita, seja ela protagonizada pelo PS-Sócrates ou pelo PSD/CDS. Hoje o PCP é um partido bloqueado, sectário, fechado sobre si próprio, incapaz de representar uma saída de esquerda para actual situação política. Lamento ter de dizer isto, sei que no futuro terá obrigatoriamente que ser parte de uma solução à esquerda, mas enquanto esta direcção e orientação política permanecerem, é impossível a sua colaboração numa saída e alternativa de esquerda.